Sábado, 12 de Setembro de 2009

Bolinhos da sorte...

 

 

 

O velho restaurante chinês, escondido entre a paragem de autocarros e o acesso ao jardim das palmeiras, acendeu finalmente os lampiões vermelhos. Um homenzinho atarracado, de impecável uniforme branco, abriu as portas de par em par e postou-se de vigia, qual militar de turno, de ementa na mão, à espera do primeiro freguês.
Não teve de esperar muito.
Um casal aproximava-se em passo lento, conversando em voz baixa.
A avaliar pela postura seriam certamente amigos, talvez até um pouco mais que isso. Ela agarrava-lhe o braço e inclinava-se sobre ele, fazendo-o desequilibrar. Por vezes era ele a segredar-lhe algo ao ouvido e ela ria, ria, ria.
Ambos já deviam ter ultrapassado a dita idade madura e caminhavam – pelo aspecto – alegremente para a terceira idade, talvez já roçando os setenta. Com uma vénia galante, ele convidou-a a entrar no restaurante, dispensando a ementa que o funcionário zeloso insistia em mostrar.
Sentaram-se numa mesa junto à janela.
Apesar da idade, os traços da beleza de outrora ainda sobressaíam daquele rosto, de pele muito branca, aqui e ali semeados de sardas. Tinha os olhos violeta, de um tom raro que condizia maravilhosamente com o colar de ágatas que trazia ao pescoço. Ele deveria ter a mesma idade, o rosto tisnado de sol e um sorriso que desenhava uma rugas de expressão inconfundíveis. Parecia estar sempre a sorrir.
- Tens cara de actor de cinema – dissera-lhe ela uma vez.
Há quanto tempo se conheciam? Vinte, trinta anos? Talvez mais.
Haviam sido colegas de trabalho, antes de ela ser promovida e de ele ter aceitado uma oferta de trabalho no estrangeiro.
Em muitas ocasiões, roçaram o limiar da amizade, o limiar da paixão... mas nunca tombaram para nenhum dos lados e limitaram-se a sofrer em silêncio, indecisos, trémulos de receios e de expectativas.
Entretanto, ele continuara lá fora, trocara de empresa, trocara de país, fundara a sua própria empresa. Ela casara com um antigo colega de escola e ainda primo afastado. Foram felizes até passarem a ser infelizes. E depois, decidiu ficar sózinha, entregar-se à carreira e aos sobrinhos, e depois aos filhos dos sobrinhos.
Quando finalmente ele voltou, encontraram-se por acaso à sáida de um cinema. Reconheceram-se, sorriram e de repente... foi como se o tempo não tivesse passado, como se tudo se tivesse resumido a um fim de semana de ausência.
- Queres jantar um dia destes? – perguntara-lhe ele
E ela dissera-lhe que sim. Aquele e a muitos outros convites, para passeios no jardim, para idas ao cinema, para excursões.
Naquele dia, convidara-a para um jantar ali... no restaurante chinês.
 
Conversaram, riram, comeram, indiferentes à meia dúzia de comensais que ocupavam as mesas vizinhas. Finalmente, o empregado trouxe-lhes um pratinho com os tradicionais bolinhos da sorte.
- Tens curiosidade? – quis saber ela, sorrindo.
- Claro que tenho... sabe-se lá se não estará aqui o futuro... escrito nesses papelinhos...
Abriram os papelinhos em simultâneo.
Ele mirou-a de relance, para logo desviar o olhar. Ela sentiu que estava a ser observada e deixou-se ficar muito quieta, a segurar ainda o papelinho com a ponta dos dedos.
Permaneceram assim largos segundos, como se ambos esperassem um gongo que os despertasse.
Finalmente, ele ergue-se da cadeira.
- Margarida...
Ela levantou a cabeça, para o interpelar. Não teve tempo.
Com um ímpeto que ela não lhe conhecia, ele agarrara-lhe as mãos e beijava-a com ardor.
Dois segundos depois, ela soltou-se das mãos dele e agarrando-o pelos ombros, puxou-o para ainda mais junto de si, fundindo-se com ele naquele beijo prolongado e por tantos anos adiado.
O papelinho do biscoito da sorte que segurava soltou-se-lhe dos dedos e rolou pela toalha da mesa, indo imobilizar-se junto do dele.
 
Estranhamente, ambos os bolinhos tinham no seu interior o mesmo dizer:
 
“ A vida é demasiado curta para ser desperdiçada. De que estás à espera para ser feliz? “
 
 
Nota: Posso oferecer um destes bolinhos a cada um de vocês?

 

publicado por entremares às 06:27
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16 comentários:
De Existe um Olhar a 12 de Setembro de 2009 às 12:55
Olá Rolando
Aceito o bolinho, muito obrigada. Penso que me vai saber muito bem.
Acreditas que este foi dos teus textos o que mais me deixou a pensar?
Quantas vezes adiamos o encontro com a fellicidade por medo de arriscar...no entanto continuo a acreditar , que aquilo que tiver de ser para nós será. Todos temos obrigação de ser felizes, basta que decidamos um dia abrir o coração.

Beijos
Manu
De entremares a 13 de Setembro de 2009 às 07:45
Oi, Manu

É verdade... temos a obrigação de ser felizes. E acredita... saba-me bem imaginar que até possa estar a contribuir para isso, se conseguir "arrancar" um sorriso a quem aqui passa, depois de ler esta história...

Beijos
Rolando
De Regina d'Avila a 12 de Setembro de 2009 às 15:08
Rolando,
Adorei sua delicadeza..Aceito..Já peguei um...
Estou a olhar para este pequeno papel...Sorrindo...Minha mão treme...
Incrível!! Como a vida é misteriosa....
Por que será que quando estamos felizes a vida conspira para tudo sair acertadamente?
E, leio, novamente... Agora bem alto..para todos escutarem:
“Quando sonhamos sozinhos é só um sonho; mas quando sonhamos juntos é o início de uma nova realidade”.
Adorei seu presentinho..
Lindo fim de semana, beijos,
Regina.
De entremares a 13 de Setembro de 2009 às 07:47
Oi, Regina...

A felicidade é uma coisa bem pequenina, não é? A gente rega, ela cresce, a gente partilha, ela cresce ainda mais. Depois consegue ficar tão grande que até nos podemos deitar à sua sombra.

E sabe bem, não sabe? Essa sombra...

Muitos beijos
Rolando
De Sara a 12 de Setembro de 2009 às 15:51
Obrigado pelo bolinho :)
Ainda não abri o meu... estou a ver se ganho a "coragem" para ver o que o destino me reserva... A ti e aos teus leitores desejo-te um resto de tarde FELIZ!!!
Beijinhos
De entremares a 13 de Setembro de 2009 às 07:48
Oh, Sara...

Abres o teu bolinho, se fazes favor? Tenho a certeza que vai ter um conteúdo delicioso.

Portanto, faz favor... atreve-te.

Beijos
Rolando
De Sara a 13 de Setembro de 2009 às 14:35
Já ganhei coragem, abri o meu bolinho e li:

"Não podemos acrescentar dias á nossa vida, mas vida aos nossos dias!!!"

e é precisamente isso que tento fazer ;)

Beijinhos
De manuela baptista a 12 de Setembro de 2009 às 18:09
...talvez, engasgar-me com o papel?!

O Rolando ousa ser romântico!

Um abraço

Manuela Baptista
De entremares a 13 de Setembro de 2009 às 07:50
Romântico... adorei a ideia, Manuela.

Ora, não somos todos um bocadinho?
E de vez em quando... não nos engasgamos todos com o papel?

Vá... o que diz o teu bolinho da sorte? Conta.

Beijos
Rolando
De Paula Raposo a 12 de Setembro de 2009 às 22:17
Podes!!
O que esses papelinhos dizem é precisamente o que eu penso. Nem todos pensam assim, ou por vezes encontramo-nos na hora errada...
Adorei esta história, podes crer. Um dia, sei lá quando, rever-me-ei nela.
Hoje, ainda não. Quando chegar aos 70. Beijos.
De entremares a 13 de Setembro de 2009 às 07:51
Oi, Paula...

Às vezes estamos no local errado na hora errada, não é? E ficamos a pensar: E se ? E se tivesse sido assim ou ...

Tantas vezes que penso nisso...

Beijos
Rolando
De DyDa/Flordeliz a 13 de Setembro de 2009 às 02:04
De quê? Boa pergunta!
Vou provar um dos bolinhos e logo tentarei encontrar a resposta.
Beijinho adocicado.

De entremares a 13 de Setembro de 2009 às 07:53
Olá Flordeliz...

Sim... de quê?
Já descobriste a resposta?
O teu bolinho da sorte... foi apropriado?

Beijos.
Rolando
De neli araujo a 13 de Setembro de 2009 às 04:27
Que delícia de conto, Rolando!

Como sempre, me deixas a sorrir ao final dos teus posts.

Olha, aceito, sim um bolinho, mas tem que vir com esta mensagem, pra que eu nunca mais me esqueça!

“ A vida é demasiado curta para ser desperdiçada. De que estás à espera para ser feliz? “

Bom domingo, amigo! Fica bem!

Um beijinho,

Neli
De entremares a 13 de Setembro de 2009 às 07:56
Neli... acredita . Só o eu perceber que o "bolinho da sorte" chegou aí, fez click e te deixou a sorrir... já me alegra e muito.

Bolas... ao menos podemos tentar espalhar coisas boas à nossa volta, não é? É o que estou tentando fazer, e prometo enviar-te outro bolinho... e com a mesma mensagem.

Muitos beijos, Neli
Tudo de bom para ti.
Rolando
De Lunna a 13 de Setembro de 2009 às 23:00
Acho que vou seguir por aqui por algum tempo a fim de ler suas palavras, afinal, a descoberta só se fez agora e há muitas formas de ontem aqui para eu conhecer e quanto ao bolinho, aceito, quem sabe ele me diz que novas descobertas farei...
Grande abraço

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