Terça-feira, 8 de Setembro de 2009

A noiva azul

 

Um silêncio extasiado, interrompido aqui e ali por pequenos suspiros de assombro e inveja, tomou conta da sala, quando a porta se abriu... e ela entrou.
Os deuses sorriram.
Nunca alguém vira uma imagem de tal rara beleza como Deva, a filha do ferreiro.
Caminhava descalça, sedas azuis a cobrir-lhe o corpo esguio, de pele morena. Um véu cravejado de pequenos brilhantes emodurava-lhe o rosto, um rosto perfeito, de lábios finos e olhar penetrante, com um enorme pingente azul caído sobre a testa.
Princesa alguma hesitaria em vender a alma por tal formosura.
Caminhava de olhos baixos, os lábios entreabertos, as mãos pendentes segurando as longas sedas.
O mestre de cerimónia, de batuta esquecida na mão, fitava maravilhado a entrada da noiva, desejando ser jovem novamente. Conhecera Deva ainda criança, traquinas, puxando as saias da mãe, arreliando os rapazes do bairro. E agora - mal podia acreditar nos seus olhos – Deva era uma deusa, uma deusa tranquila caminhando sobre o tapete de pétalas do templo, em direcção ao altar.
Como o tempo passara depressa...
 
O tocador de citara dedilhou as cordas e deixou que uma música cerimonial enchesse o amplo espaço do salão.
O noivo esperava, sentado sobre um enorme cadeirão, forrado de veludo vermelho. Ao seu lado, uma almofada de igual cor arrumava-se cuidadosamente no chão, cercada por várias fiadas de pétalas. Ali se deveria ajoelhar Deva, beijando-lhe os pés e jurando-lhe obediência, amor e todos os filhos que ela lhe pudesse dar.
E segundo os ritos ancestrais, ele pegar-lhe ia nas mãos, aceitaria a sua obediência e diria: Eu te aceito na minha casa, e prometo proteger-te de todo os males.
O mestre de cerimónias entregaria então a cada um dos noivos um cálice de vinho de rosas. E diria também: Bebei o elixir dos deuses, e que ele vos traga prosperidade.
E então... colocaria as mãos dela dentro das dele, baixaria a cabeça e ao ergue-la de novo, terminaria o ritual, com as simples palavras, dirigidas ao noivo.
- Toma, é tua.
 
Os convidados lançaram-se despreocupados sobre o repasto, enquanto os noivos se retiravam do salão, subindo aos aposentos.
A música subiu de tom, acompanhada do séquito de bailarinas.
O vinho jorrou dos cântaros, escorreu pelas bocas. O senhor da casa mandara abater várias peças de caça, em honra dos seus convidados. O dia queria-se de festa.
Talvez por isso tudo o resto fosse superfluo, banal, cimentado pelas tradições das castas e dos casamentos por conveniência. Talvez por isso Deva não tivesse tido oportunidade de concordar, de conhecer o rosto do noivo sem ser pela fotografia antiga que o pai lhe entregara… ou talvez por isso mesmo nem fosse importante a sua idade, já avançada.
Talvez também por isso ninguém no salão prestou demasiada atenção quando algures, Deva gritou bem alto o seu desespero, que todos quiseram confundir com suspiros de paixão.
No salão, o vinho continuou a escorrer.
 
Perto dali, algumas lágrimas escorreram também para o linho branco dos lençóis nupciais.

 

publicado por entremares às 12:25
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29 comentários:
De Armando Correia a 8 de Setembro de 2009 às 13:32
O texto encerra uma grande lição e a fotografia está lindíssima,
A pergunta que fica é, e na sociedade moderna não existem ainda casamentos por conveniência?
Um abraço.
De entremares a 8 de Setembro de 2009 às 16:24
Lovenox...

O texto retrata uma situação que ainda existe, infelizmente. E retrata ainda que em pleno século XXI, nem todos os homens são livres e iguais.

Começando pelas mulheres...

Um abraço.
Rolando
De GISLENE a 8 de Setembro de 2009 às 13:40
OLÁ, ROLANDO
QUE MAL LHE PERGUNTE, POR QUE VOCÊ NÃO COMPILA UM LIVRO DESTES TEUS TEXTOS MARAVILHOSOS, CHEIOS DE VIDA E DE ENERGIA?
VAMOS, MÃOS À OBRA! SEREI A PRIMEIRA A COMPRAR...
PARABÉNS! TU ÉS UM ARTISTA.
ABRAÇO, GISLENE.
De entremares a 8 de Setembro de 2009 às 16:26
Gislene...

Obrigado pela simpatia, e pala proposta tentadora. Quando chegar a hora... terei um exemplar certamente já com o teu nome lá escrito...

Beijos.
Rolando
De DyDa/Flordeliz a 8 de Setembro de 2009 às 14:57
Poderia dizer que concordo com as tradições e crenças e por aí fora!... Mas, não posso!

Sou mulher, não consigo ficar indiferente!
Nenhum ser humano deveria ser pertença de outro - Mulher, homem, criança. Nem as aves deveriam ser mantidas em cativeiro.

Por momentos percorri o templo com o vestido azul com que me coloriram o corpo e esconderam a vontade. Era pesado demais e senti-me desfalecer. O andar gracioso não passava de um arrastar de pernas provocado pelo aperto no coração que batia lento, muito lento, acalentando a esperança de que fosse possível atrasar o desfecho que tu escolheste para o final.

Mas tu...
És apenas o contador de estórias. Não és o realizador. Não és o actor principal.
E eu...
Não queria ser a heroína do filme.

Se aqui estou é porque gosto imenso de ter ler. E por isso não te dou mais parabéns.
Obrigada,
De entremares a 8 de Setembro de 2009 às 16:28
Ah, Flordeliz...

Sabes que às vezes sinto assim um nó na garganta, quando decido escrever sobre certos assuntos? É um nó... porque não conheço tudo sobre eles, mas o que sei... obriga-me a tomar uma posição. Posso não conseguir mudar o mundo, de um dia para o outro... mas caramba, eu, tu, todos... temos que tentar.

E falar das coisas... para as poder mudar.

Beijos
Rolando
De saltapocinhas a 8 de Setembro de 2009 às 16:47
Pelo menos não tem problemas na escolha de namorados, nem dor de corno, nem essas coisas...

(estou a brincar! Vê lá tu que até já incentivei uma ciganita a não casar com o noivo proposto, falei com a mãe e tudo. E o que é certo é que não casou mesmo!!)
De entremares a 8 de Setembro de 2009 às 17:09
Ah, Saltapocinhas... olha, nem me lembrei desse exemplo, podia ter utilizado a imagem de uma ciganita, tens toda a razão...

Conseguiste convencê-la? Estou espantado...
Tiro-te o chapéu.

Beijos
Rolando
De julieta barbosa a 8 de Setembro de 2009 às 17:23
Ah, Rolando,

Quando a tradição e a conveniência fala mais alto que o sentimento, o que vemos são cartórios abarrotados de processos ou então, um silêncio profundo calando uma dor latente... E assim caminha a nossa humanidade... Brincando de faz de conta! E o olhar cabisbaixo, a esconder um desejo silenciado...
De entremares a 8 de Setembro de 2009 às 21:37
Olá Julieta.

Sim, a conveniência. O decidir em nome dos outros e até em nome dos filhos. Eles não são, nem nunca foram... nossa propriedade.

Mas há quem ainda não perceba isso...

Beijos.
Rolando
De GiGi a 8 de Setembro de 2009 às 18:23
Linda a imagem!
De entremares a 8 de Setembro de 2009 às 21:38
Oi, Gigi.

Tudo devia ser tão bonito como a imagem...

Beijos.
Rolando
De Regina d'Ávila a 8 de Setembro de 2009 às 18:32
Desespero...desilusão...
Hoje os casamentos são "arrumados", mas de outra maneira...as vezes, e ainda, por dependência financeira...
Triste..
E se ela, naquele momento, desistisse...saisse correndo....sofreria muito no começo, mas depois será que não seria melhor...
Difícil...muito..
E triste..muito triste....
Sniff..sniff...
ACHO TAMBÉM QUE VOCÊ DEVERIA FAZER UM LIVRO...COMPRARIA NA HORA...CONCORDO PLENAMENTE...
De entremares a 8 de Setembro de 2009 às 21:40
Oi, Regina...

Os casamentos às vezes são só contratos, não é?
Onde está ( nesta história ) o resto?

Ela não saiu correndo...

O livro? E por acaso duvida que quando chegar a hora, eu não iria entregar pessoalmente a você um exemplar?

Beijos
Rolando
De Regina d'Ávila a 8 de Setembro de 2009 às 22:26
Ficarei aguardando...o livro...e o encontro..para a entrega em mãos...
Grande beijo,
Regina.
De mfc a 8 de Setembro de 2009 às 18:48
Os dramas dos outros são de uma extrema banalidade para a turba!
De entremares a 8 de Setembro de 2009 às 21:42
Mfc...

Creio que os dramas dos outros... são sempre ao lado, sabes? Ou porque a história se passa num local distante, ou porque nos sentimos superiores a isso tudo...

E, no entanto... os dramas persistem.

Um abraço.
Rolando
De Paula Raposo a 8 de Setembro de 2009 às 19:29
Mais um arrepio. Muita coisas me arrepiam, mesmo sendo um conto, a realidade é essa em muitos lugares. Isso transcende-me completamente.
Beijos.
De entremares a 8 de Setembro de 2009 às 21:44
Olá Paula.

A realidade é porventura bem pior, em muitos lugares. Começando pelo facto de que esta história pode estar a suceder, neste preciso momento... com crianças que pela idade, ainda deveriam estar nos bancos da escola...

Beijos
Rolando
De Náhira Brunelle a 8 de Setembro de 2009 às 21:07
Essas cerimônias são muito bonitas.... Porém essa cultura me irrita! Todo ser humano tem o direito de escolher com quem casar... Acho estupidamente ridícula essas atitudes indianas e as demais similares.

Beijooo
De entremares a 8 de Setembro de 2009 às 21:45
Nahira...

A beleza da cerimónia não chega para disfarçar o resto, pois não?

Beijos
Rolando

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