Segunda-feira, 7 de Setembro de 2009

O tocador de harmónica

 

Havia qualquer coisa de triste na melodia, como se as notas se arrastassem penosamente ao longo dos compassos. Ou talvez fosse só o olhar, pálido e indiferente às pessoas que passavam.
Estava sentado à entrada do metro, rodeado de uma pilha de jornais velhos, um casaco de cabedal já bem gasto e uma vendedora de aspecto exótico, a apregoar brincos e missangas.
As pessoas passavam e não raramente, atiravam um par de moedas para o interior do casaco, fazendo tilintar todas as restantes. Algumas paravam mesmo a ouvir, contagiadas pelo agudo triste da harmónica, soprada bem devagar.
O musico, de mãos em concha sobre a harmónica, parecia conhecer a música tão bem como os próprios dedos – ou talvez estivesse só a improvisar, jogando com os acordes e os compassos. O resultado evocava imagens de uma longa caminhada, de grandes espaços vazios e de montanhas longínquas, imagens de vastas planícies e searas ondulantes. E quem passava, olhava para ele e sentia-se transportado para outros tempos, conseguia voltar a ouvir as músicas dos pássaros e as brincadeiras das crianças nas ruas.
 
A multidão, atarefada em afazeres, subia e descia em encontrões sucessivos as escadas de acesso ao metro. Uma e outra vaga, amontoando-se junto aos semáforos e passadeiras, dispersando-se logo de seguida pelas ruas. A cidade tinha os seus próprios ruídos, a sua própria musica desafinada que tentava abafar todas as outras – buzinas, gritos, o rugir dos motores, o cheiro da borracha queimada, do óleo no asfalto, do fumo cinzento colado às estátuas.
 
O tocador de harmónica não os ouvia.
Vivia num mundo de silêncio, alheio à cidade, às vozes da multidão, ao estertor das máquinas em perpétuo movimento.
Como Bethoven, sofria por já não conseguir ouvir a sua música, nem mesmo a sua própria voz.
- É progressivo, lamento… mas não há nada que possamos fazer – dissera-lhe um dos inúmeros especialistas.
E fora, sem dúvida. Progressivo.
Primeiro, ainda adolescente, deixara de ouvir os sons mais agudos, o canto dos rouxinóis, a sirene dos barcos ao atravessar o rio. Depois as vozes das pessoas transformaram-se sucessivamente em gritos interrompidos, em sons desconexos que iam perdendo todo o sentido, à medida que a surdez avançava, inexorável.
Restava-lhe a música, a sua música. Mas até essa se foi afastando para paragens cada vez mais longínquas, até deixar de a conseguir ouvir.
Sentia-a nos lábios, enquanto o ar lhe saia dos pulmões e se transformava em acordes.
E só isso.
Progressivamente, deixou de falar.
Um dia, decidiu sentar-se ali, remeter-se ao silêncio e fazer da harmónica a sua única voz.
 
A multidão continuava a passar-lhe aos pés, as moedas a tilintar umas nas outras, os menos apressados a sorrir à sua música, encostados ao outro lado do muro.
Ninguém se apercebeu do mundo de silêncio em que ele vivia.
A vida da cidade, ruidosa como sempre, continuava imperturbável, com outros acordes… com outros compassos.
 

 

publicado por entremares às 12:01
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21 comentários:
De Jorge Soares a 7 de Setembro de 2009 às 13:28
Nem sei o que dizer.... excelente texto.

Boa semana
Jorge
De entremares a 7 de Setembro de 2009 às 15:25
Olá, Jorge...

Bons "acordes" para a tua semana...

Um abraço.
Rolando
De Katerina K. a 7 de Setembro de 2009 às 14:33
Numa palavra: fabuloso. Consegue-se sentir o próprio interior do homem e ouvir a música que lhe sai da harmónica. Sinto-me uma transeunte invisível.

Abraço flautístico,
Joana F.
De entremares a 7 de Setembro de 2009 às 15:26
Oi, Flautista...

Já me senti assim, como um transeunte invisivel, muitas vezes...
Pressinto que ouvimos demasiado o ruido e nem percebemos a melodia...

Uma óptima semana para ti...
De princesa a 7 de Setembro de 2009 às 16:44
Obrigado pela visita volte sempre
e visite também o meu blog


MY ANGEL E MAGIA DA LUA



Não agradecemos aos verdadeiros amigos  por seus actos ou acções ...  Agradecemos por terem entrado em nossas vidas,  cruzado nossos caminhos. e conquistado nossa confiança!!!“



Tenha uma boa semana

beijinhos

De entremares a 7 de Setembro de 2009 às 17:21
Princesa, obrigado pelo convite...

Vou já dar uma espreitadela.

Uma óptima semana...
De neli araujo a 7 de Setembro de 2009 às 18:47
Olá, Rolando!

Muito bom teu texto,!
Reflete a triste realidade das cidades grandes e da vida moderna.
Uma realidade que nos atropela, e que muitas vezes faz com que nem nos apercebamos destes momentos solenes, como o deste tocador de gaita, que você tão bem conseguiu captar.

Tenha uma seman abençoada,
Beijocas
Neli
De entremares a 7 de Setembro de 2009 às 21:24
Oi, Neli, bemvinda.

Já tenho pensado que muitas vezes nos cruzamos com pessoas assim... imersas num silêncio que ignoramos por completo. Seguimos no nosso cómodo mundo, esterilizado de emoções... e chega-nos.

Beijos
Rolando
De marta a 7 de Setembro de 2009 às 20:23
muito, muito, muito BELO.

uma boa semana tb!

De entremares a 7 de Setembro de 2009 às 21:25
Olá, Marta...

Uma óptima semana para ti... com uma musiquinha de harmónica como companhia...

Beijos
Rolando
De GISLENE a 7 de Setembro de 2009 às 22:05
OLÁ, ROLANDO
BELO TEXTO!
COMO OUVIR E VER SÃO IMPORTANTES PRA NÓS!
IMAGINE A DIFICULDADE QUE AS PESSOAS TEM DENTRO DE SI QUANDO BLOQUEADAS DE ALGUMA FORMA E NÃO PODEM EXTRAVASAR SEUS SENTIMENTOS.
MENCIONANDO BEETHOVEN, HÀ UM BELÍSSIMO FILME FALANDO DE SUA VIDA E OBRA( MINHA AMADA IMORTAL).
UM ABRAÇO, GISLENE.
PS. SOBRE ALMA GÊMEA, JÁ TENHO A MINHA POR PERTO. ABRAÇO.
De entremares a 8 de Setembro de 2009 às 11:42
Olá, Gislena...

É verdade, como ver o ouvir são importantes para nós...
Já imaginou ficar sem isso, isolada do mundo?
Seria terrível...

Beijos
Rolando
De stiletto a 7 de Setembro de 2009 às 22:29
Uma cena corriqueira, como um tocador de harmónica tocando no metro, através do seu olhar ganha outras cores, outros contornos e transforma-se numa história simplesmente maravilhosa e comovente.
De entremares a 8 de Setembro de 2009 às 11:43
Olá Stiletto...

Acredito que tem muitas histórias anónimas, corriqueiras por aí... à espera de serem contadas...

Beijos
Rolando
De Existe um Olhar a 7 de Setembro de 2009 às 23:52
Olá Rolando
Depois de ler este texto tão comovente, a minha postura perante todos os que encontrar em situações idênticas, nunca mais será a mesma.
Que história de vida estará por detrás de cada som, de cada acorde, de cada melodia?

Beijos
Manu
De entremares a 8 de Setembro de 2009 às 11:44
Ah, Manu, perguntas bem...

Que histórias de vida se escondem? Não sei... apesar dos anos e de sempre dizernos a nós mesmos que já vimos muita coisa... acho que na realidade ainda vimos muito pouco...

Beijos
Rolando
De lis a 8 de Setembro de 2009 às 01:00
Oi,Rolando
Tenho me atrasado pra comentar por razões óbvias , de sempre - o tempo.E , adoro ler devagarinho, sorvendo ,se estou apressada, entao nao leio. Sobre os tênis surrado e o anjo bom , já foi com atraso,. E , estou aqui lendo, bem a noite, (pra voce quase amanhecendo rs)), sobre esse tocador soltário, alheio aos ruidos , olhar e melodia triste, um tipo que a gente vê por aí, de vem em quando. Conforme a aparencia, olhamos de soslaio...
A vida distribui punhados diferentes pra cada um . E seguimos compassadamente, sem nos i mportar com a música ao lado. Triste e verdadeiro. e lindo sua voz nesse conto , que ouço com prazer.
Abraços e obrigada por compartilhar no Flor de Lis, adorei.
De entremares a 8 de Setembro de 2009 às 11:46
Oi, Lis...

A música ao lado passa sempre despercebida, não é? Ou então somos nós que estamos sempre com demasiada pressa para a ouvir...

Beijos
Rolando
De julieta barbosa a 8 de Setembro de 2009 às 02:52
Rolando,

Mais um belo conto para o nosso deleite. Bjs
De entremares a 8 de Setembro de 2009 às 11:47
Amiga Julieta...

Fico feliz que te continues a sentir bem, navegando por estes entremares...

Obrigado pela tua presença.

Beijos.
Rolando

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