Sábado, 5 de Setembro de 2009

Voltar a casa...

 

 
 

 

Como voltar a casa?
Sentiu-se perdido. Precisava de uma referância, de uma imagem conhecida para se orientar – a torre da igreja, os muros do jardim, nem que fosse um rosto conhecido.
Mas não... nada lhe era familiar.
À sua volta, as pedras sujas da calçada entoavam lamentos de abandono. Encostados à parede como à espera da morte certa, os contentores de lixo transbordavam de sacos fétidos, escorrendo fios de gordura.
- Que nojo... – pensou - ... não me lembro de algum dia ter passado por aqui...
Virou costas e seguiu adiante. As ruas pareciam-lhe todas iguais – portas castanhas, verdes, cinzentas, paredes brancas, uma ou outra amarelada, novamente uma fiada de brancas. Até os candeeiros eram irritantemente idênticos, com os seus aros de ferro forjado e as campânulas circulares de vidro fosco.
- E as placas com os nomes das ruas... o que lhes aconteceu? Tiraram-nas todas? Era só o que faltava...
Sem outra solução à vista que não o caminhar, continuou.
 
Finalmente, alguém.
- Por favor... olhe, por favor...
A mulher continuou no seu passo enérgico, quase o derrubando. Nem um olhar.
- Hey... veja lá como anda...
Ainda tentou interpelar o seguinte, mas o dito cujo, um saco de compras em cada mão e um esgar de sofrimento no rosto não lhe pareceu... adequado.
Decidiu tentar a rua seguinte. A esquina lá ao fundo, com o seu semáforo luminoso, parecia-lhe familiar.
 
Ah... a praça. Agora sim... já se conseguia orientar. Na verdade, todas as ruas, nas terrinhas pequenas e antigas, vão sempre dar a uma praça. Uma praça onde habitualmente existe um café central, uma farmácia central, às vezes até o quiosque se chama ... central, pois então.
E agora, ora bem... por onde? Agora era fácil... só seguir aquela rua, virar depois à direita, novamente à direita ... passar os arcos... e pronto, estaria em casa.
E se bem o pensou... melhor o fez.
 
( Truz, truz, truz... )
 
- Maria... estão a bater à porta...
- Eu ouvi, João... mas agora não posso... vai lá tu...
 
E lá vai o bom do João, escada abaixo, abrir a porta.
 
- Maria...
- Sim, João... quem era?
- Pois... não sei... mas fosse quem fosse, deixou-nos à porta... isto.
 
E ergueu com a ponta dos dedos um par de tenis azuis e brancos, semi rotos e bastante coçados.
 
- Os teus ténis, João? Mas eu fui deitá-los no contentor...
- Foste? Não sabia... quando?
- Quando? Ontem à noite, creio... sim, foi ontem...
- Pois olha... estão aqui de novo... que queres que lhe faça?
- Sei lá... olha... coloca-os junto da porta, para eu não me esquecer. Amanhã logo os levarei, com o resto do lixo...
 
Já ia alta a noite, e reinava o silêncio na casa. Talvez por isso mesmo ninguém tenha reparado no movimento sorrateiro do velho par de ténis, fugindo silenciosamente do corredor, atravessando a cozinha e desaparecendo na confusão de objectos por arrumar da despensa...
 

 

publicado por entremares às 07:49
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16 comentários:
De chica a 5 de Setembro de 2009 às 12:35
Lindo e intrigante teu texto.Essa volta a casa sempre pode ser pensada...O fizeste muito bem!bijos, lindo dia,chica
De entremares a 5 de Setembro de 2009 às 16:25
Olá, Chica...

É, este voltar a casa pode ser muitas coisas, depende de quem o estiver a ler.
Às vezes, sabes... o passado volta a fazer truz.truz-truz... e esconde-se de novo na despensa...

Beijo.
Um optimo fim de semana para ti
De Existe um Olhar a 5 de Setembro de 2009 às 16:31
Quando olhei para a foto, lembrei-me do meu par de ténis, também eles azuis e brancos, coçados, gastos e já quase a desfazerem-se, mas acreditas que não sou capaz de deitá-los fora?!
Se eles falassem teriam muitas histórias para contar...montanhas que escalaram, passeios calmos, cidades distantes que visitaram, caminhos que descobriram...eu sei lá tanta aventura que partilharam comigo, talvez por isso continuam ali num cantinho, até que chegue o dia em consiga desfaze-me deles.
Quando o fizer, será que também voltarão sorrateiramente a casa?
Beijos
Manu
De entremares a 5 de Setembro de 2009 às 17:28
Ah, Manu... é claro que voltam...
Ou como diz aquela frase tão conhecida : " Como é possível voltar... se nem chegámos verdadeiramente a partir? "

Assim estão os teus ténis, coçados e gastos.
Mas de que outra forma teriam histórias para contar?

Beijos
Rolando
De DyDa/Flordeliz a 5 de Setembro de 2009 às 17:24
Truz, truz, truz...
Obrigada por abrires a porta.
Hoje não demoro é apenas para entregar: e um
Beijinho
De entremares a 5 de Setembro de 2009 às 18:04
Oi, Flordeliz...

Vou já ali colocar no jarro com água. Prometo cuidar bem delas...

Beijos.
Rolando
De piresemi@gmail.com a 5 de Setembro de 2009 às 17:59
Que bem contada está esta história que para mim é um voltar a casa. Gostei muito.
Beijinhos,
Maria Emília
De entremares a 6 de Setembro de 2009 às 08:32
Olá, Maria Emilia.

É um voltar a casa? Pois é.
Como é que se costuma dizer... velhos são os trapos, não é?

Um beijo.
Rolando
De Princesa a 5 de Setembro de 2009 às 22:16
Boa noite


obrigado pela visita...





Se existe o fracasso é





porque existirá o sucesso...





Se existe a derrota é





porque existirá a vitória...





Se existe a tristeza é





porque existirá a alegria...





A verdade é que sempre depois de uma noite escura,





volta a brilhar um novo dia.





tenha um óptimo domingo


Beijinhos


De entremares a 6 de Setembro de 2009 às 08:54
Olá Princesa,

É verdade, como é verdade... depois de uma noite escura, volta sempre a brilhar um dia de sol...

É a vida.

Beijos.
Rolando
De Paula Raposo a 5 de Setembro de 2009 às 23:28
A tua imaginação é imensa...
Beijos.
De entremares a 6 de Setembro de 2009 às 08:55
Oi, Paula...

A imaginação às vezes transborda... e depois?
Olha... depois transforma-se nisto, é o o que é...

Beijos.
Rolando
De julieta barbosa a 6 de Setembro de 2009 às 02:56
Rolando,

José Américo de Almeida - escritor paraibano - escreveu certa vez: " na volta ninguém se perde." O seu texto, hoje, confirma isso. Pena que em alguns casos o caminhar seja mais lento... E um pouco tarde, para consertos...
De entremares a 6 de Setembro de 2009 às 08:57
Oi Julieta...

Na volta ninguém se perde...
Gosto muito de te ver de volta, dialogando histórias.
E a vida... não é sempre um permanente conserto de qualquer coisa?

Beijos
Rolando
De Regina d'Ávila a 8 de Setembro de 2009 às 19:37
Quando criança...imaginava cenas de brinquedos perdidos voltando para casa..para meu baú de brinquedos..
Para onde será que foram?
Para alguma terra dos brinquedos esquecidos?
Lá devem brincar, dançar e contar histórias antigas de seus donos...
Será??
Adoro seus textos Rolando...
Fazem a gente voar nos pensamentos..
Beijos doces,
Regina.
De Sara a 9 de Setembro de 2009 às 15:40
se tudo que deitamos fora voltasse de novo a casa... era problemático! Mas verdade seja dita, há sempre um "par de ténis" que por muito estragados e rotos que estejam nunca nos conseguimos desfazer deles...

Beijinhos

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