Quarta-feira, 2 de Setembro de 2009

Encontro com a lua

 

Suavemente.
Pé ante pé, o futuro trocou-lhe os passos.
Caminhava sózinho no areal, sem procurar nem fugir do silêncio.
Deambulava, simplesmente.
Há alturas da vida – ia pensando – em que tudo está certo, previsivel, confortável.
A espuma das ondas tocou-lhe os pés e fê-lo sorrir.
O espirito de criança veio ao de cima, atirou pedras ao mar,
fez um castelo na areia.
E ficou a olhar para as ondas, sempre mutantes, e desejou mergulhar no frio oceano.
O sol entardeceu, colorido, como todos os sol-poentes das tardes de verão.
 
Ela vinha caminhando pelo areal, perdida em pensamentos.
Fitava o mar, como à espera de algo – o que procurava?
 
Cruzaram-se, nos passos e nos olhares.
- Julgava que só eu conhecia esta praia – disse ela, afastando o cabelo dos olhos.
Ele desviou os olhos do seu pequeno castelo de areia e afogou-se nos dela.
- Eu também pensava o mesmo...
Ela ficou a vê-lo amparar a areia molhada com as mãos, tentando que a forma escura se assemelhasse vagamente a um castelo.
- Sabes que precisas de mais água? Tens a areia muito seca...
Ele concordou.
- Faz muito tempo que não construo castelos de areia... queres ajudar-me?
Ela sorriu, e a cabeleira em desalinho não conseguiu disfarçar uma pontinha de alegria.
- Porque não?
Ajoelhou-se e aparou uma das fragéis muralhas, assaltada por uma onda súbita. Ele observava-a de soslaio.
- Tens mais jeito que eu...  – ainda murmurou.
Ela não respondeu. Com um gesto natural, foi compondo a torre principal, o portão...
- Cuidado... a onda...
Um manto de espuma inundou a pequena construção de areia, rasgando largas brechas nas fragéis muralhas de areia.
Instintivamente ele acudiu, tentando segurar a torre principal, quase a desfazer-se.
 
Um calor súbito percorreu-lhe o corpo, quando as mãos encontraram as dela, ainda a segurar também o pequeno baluarte.
 
Por um interminável segundo, hesitou em retira-las, em fugir, em qualquer coisa, mas os gestos teimavam em não lhe obedecer. Ergueu o olhar. Os olhos dela envolviam-no, sem demonstrar desagrado ... ou vontade de fugir. Simplesmente uma calma azul que o envolveu de uma forma a que ele já não estava habituado.
Depois sorriu.
E nesse preciso momento, ele sentiu a boca a tremer.
 
Sentaram-se na areia molhada, a olhar para o mar.
- Vens aqui muitas vezes ?
Ela enterrou as mãos na areia, como se buscasse um búzio esquecido.
- Venho... algumas... sempre que posso. E tu?
- Muito pouco... e já não me lembrava como isto aqui era tão...
- Pacífico?
- ... Pacifico, sim... acho que é a palavra certa... aqui sinto-me em paz...
Deixou passar os segundos, perdido a olhá-la nos olhos, de um castanho esverdeado que lhe fazia lembrar os bosques de outono.
- E tu... o que vens procurar aqui?
 
Ela não lhe respondeu. Ao invés disso, desviou o olhar e apontou com a mão para o mar.
- Aquilo...
 
Ele seguiu-lhe o olhar.
Ao longe, uma enorme lua laranja despontava no horizonte, sobre as águas.
- Venho ver o nascer da lua... – repetiu ela, baixinho – a minha lua...
 
De repente, sentiram que as palavras eram inuteis, desnecessárias. Talvez fosse o momento, talvez fosse o frio da noite que avançava, talvez fosse só o sabor da pele. Permaneceram encostados um ao outro durante muito tempo,as mãos a resistir à tentação de um abraço que inexplicavelmente, ambos desejavam.
 
- Posso contar-te um segredo? – disse ela finalmente.
Ele disse que sim. Queria conhecer-lhe os segredos, a cor dos olhos, o peso dos cabelos, o sabor da boca. Mas calou-se.
- Sempre imaginei que um dia algo de semelhante iria acontecer... assim...
 
Ele não sabia o que lhe responder.
Estava muito próximo dela, sentia-lhe o calor do peito, os cabelos dela fustigavam-lhe o rosto e por um momento, deixou de ver. Inclinou-se um pouco... e encontrou-lhe os lábios muito antes do que esperava.
 
Solitária, a lua pálida continuou a subir sobre as águas, tal como a maré.
Os restos de um castelo de areia, já desfeito, envolveram-nos de uma espuma branca, cristalina.
E depois veio o mar.
 

 

publicado por entremares às 03:22
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21 comentários:
De meldevespas a 2 de Setembro de 2009 às 10:02
Mutio belo!
Quse se sente um arrepio com o vai-vem das ondas.
Fiquei também eu em paz por momentos. Muito belo...
E pergunto-me, onde vais tu buscar tta inspiração para esta correnteza de bons contos todos os dias!! Fico de boca aberta! De verdade.
Beijinho
De entremares a 2 de Setembro de 2009 às 11:05
Olá, meldevespas...

O oceano tem destas coisas... deixa-nos de pensamentos soltos, à deriva. Talvez seja só um apelo ao romantismo escondido, à parte sonhadora que anda por aí escondida, dentro de cada um de nós...

Beijos
Rolando.
De Paula Raposo a 2 de Setembro de 2009 às 12:50
E perante uma história destas tão linda, eu fico sem palavras...a ver o mar e a lua e os castelos de areia! Muitos beijos.
De entremares a 2 de Setembro de 2009 às 17:33
Oi, Paula...

Quem não teve já " Encontros com a Lua " .... nem que seja em sonhos?

E como precisamos deles...
Beijos.
Rolando
De Anónimo a 2 de Setembro de 2009 às 14:36
Romântico Cantabile

de areia fina fazem -se
e desfazem-se sonhos
desconstroem-se palácios ao luar
tocam-se fugidios dedos
com o olhar

Manuela Baptista

Bonito encontro entremares!

De entremares a 2 de Setembro de 2009 às 17:36
Manuela...

" De areia fina fazem-se e desfazem-se sonhos"...
Creio que sim.
Tantas vezes que sentimos as coisas a escorrer-nos pelos dedos, como areia... e tantas vezes que as deixamos passar, sem as tentar apanhar.

Um abraço.
Rolando
De Beija-Flor a 2 de Setembro de 2009 às 16:07
Assim somos feitos.. Pacíficos, Amorosos, Meigos, Romanticos e Apaixonados.
Grande parte do tempo andamos a correr e cheios de stress porque a Sociedade nos impoe essa rotina.
Mas cada dia que passa, tento fazer o contrário. Eu impor á sociedade a minha rotina e ser assim, conforme teu texto.
Se cada um de nós fizer isso, seremos mais Felizes e Enamorados, principalmente por Nós, pela nossa existência.
Gostei Rolando
Thanks
Abraço
De entremares a 2 de Setembro de 2009 às 17:43
Olá, Beija-Flor

É... às vezes andamos a correr, a correr, a correr... até nos esquecermos do motivo porque andamos a correr. Acaba sendo um circulo vicioso.

Mas é como dizia o outro... façam o favor de ser felizes...

Um abraço.
Rolando
De Sara a 2 de Setembro de 2009 às 16:58
Simplesmente lindo, romântico, calmo e acolhedor! Q mais posso dizer... gostei :)
De entremares a 2 de Setembro de 2009 às 17:44
Oi Sara...

Calmo e acolhedor...
que boa definição para um encontro com a lua...

Beijos.
Rolando
De Regina d'Ávila a 2 de Setembro de 2009 às 17:34
Castelos de areia ....sonhos...lua..
Que conto encantador....
Lindo....muito lindo...
Fiquei sem palavras também...
E faço minha a pergunta do “meldevespas”: “onde vais tu buscar tta inspiração para esta correnteza de bons contos todos os dias!! ???
Beijos
De entremares a 2 de Setembro de 2009 às 17:41
Oi, Regina...

Sabes... a vida real às vezes inspira-nos para contar histórias... podemos trocar o nome às personagens, podemos mudar as distâncias, podemos até esquecer alguns pormenores... mas no fundo... está tudo lá.

Beijos.
Rolando
De Existe um Olhar a 2 de Setembro de 2009 às 19:43
A lua, o mar e as ondas...um cenário perfeito para uma história de sonho...não importa quando...poderá acontecer quando menos se espera.
Para quem te lê, aconteceu aqui mais um momento bonito.
Beijos
Manu
De entremares a 3 de Setembro de 2009 às 09:59
Olá Manu...

A vida é assim ( creio ). Quando menos se espera... podem acontecer coisas...

Beijos
Rolando
De Desnuda a 2 de Setembro de 2009 às 21:09
Linda estória. transportei-me a este encontro. Foi fácil porque já senti esta calma azul...No decorrer, foi exatamente assim o beijo entre o mar e a lua...


Carinhoso beijo, amigo. Parabéns!
De entremares a 3 de Setembro de 2009 às 10:00
Desnuda...

Obrigado, fico feliz que tenhas conseguido "reconstituir " essa calma azul que já sentiste... entre o mar e a lua...

Beijo.
Rolando
De Sofia a 2 de Setembro de 2009 às 21:10
Conheço-me numa história muito parecida.. ;)

Excelente conto, como sempre.
Olha que estou a ficar viciada nas tuas palavras.

De entremares a 3 de Setembro de 2009 às 10:01
Oi, Sofia...

Conheces-te numa história muito parecida ?

Estou encantado... ainda bem que a realidade consegue imitar a fantasia ( e o contrário também )...

Beijos
Rolando
De DyDa/Flordeliz a 3 de Setembro de 2009 às 00:57
E depois veio o mar…”
Uma forte vaga salpicou-lhe a roupa e os cabelos.
Levantou-se abruptamente despertando da fantasia. Elevou o olhar para o horizonte, e com um sorriso espiou a lua que reluzia brilhante na noite quente. E, ali mesmo, deixou que uma lágrima lhe lambesse o rosto e lhe salgasse a boca, confessando as saudades que sentia da rapariga dos olhos castanhos e madeixas rebeldes. Do perfume a flores campestres que inalava da sua pele, do toque macio e gentil das suas mãos quando ela lhe segurava o rosto ou afagava os cabelos.
Era a sua última noite ali, longe dela. O trabalho terminara. Logo pela manhã partiria ao encontro da mulher que o fez divagar em ondas de paixão e saudade.
Despediu-se do mar atirando-lhe mais umas pedras. Rodopiou de seguida nos calcanhares com novo brilho no olhar.

- Continuação de belos contos.
De entremares a 3 de Setembro de 2009 às 10:04
Flordeliz...

Deixas-me só dizer... obrigado?
Por um final feliz...

Beijo.
Rolando

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