Terça-feira, 1 de Setembro de 2009

Era uma vez um sapo...

 

 

Era uma vez um sapo.
Sabem? Daqueles sapos verdes de jardim, de pele verde e molhada, longas pernas saltitantes e uma vontade incontrolável de saltar, saltar... estar sempre a saltar.
E era uma vez... também, uma rapariga de olhos tristes, longos cabelos entrançados e voz suave, tão suave como o canto dos pássaros.
E perguntam... o que têm em comum esta rapariga e este sapo, para além da improvável coincidência de partilharem a mesma casa... e o mesmo jardim ?
Pois bem... nada. Ou melhor, nada... até este preciso momento.
Porque, a partir de agora... eles vão encontrar-se... e só aqui, começa esta história.
 
- Posso beijar-te?
Os sapos não torcem o nariz... mas naquele momento, foi o que lhe apeteceu fazer. Já não lhe bastava estar assim, indefeso às mãos daquela criatura... para ainda por cima receber aquele tão estranho pedido? Não, certamente que não.
- Não estou a ver o propósito – respondeu ele, galantemente. – Vós sois humana, uma linda jovem talvez, mas aos meus olhos todos os humanos me parecem iguais... e não é muito natural pedirem o beijo a um sapo...
Ela acomodou-o melhor sobre a palma da mão, sorrindo-lhe.
- Tens razão, ó sapo... mas sabes... eu preciso mesmo de te beijar, de te beijar com paixão... e de ser correspondida. Só assim se quebrará o encantamento...
O sapo não se sentiu minimamente tocado com a suavidade do pedido.
- Lamento, minha jovem... mas não estou disponível... talvez se procurardes dentro da casa, certamente encontrareis um jovem, humano como vós, certamente muito mais atraente que eu...
Ela mordeu o lábio, naquele jeito feminino tão eficaz de demonstrar tristeza, uma quase súplica. Mas o sapo não entendeu assim. Aliás, e para esclarecimento dos nossos prezados leitores, os sapos não partilham com os humanos essa série infindável de pequenos gestos e trejeitos que, parecendo significar uma coisa, querem dizer exactamente o oposto. Não percebeu portanto, a urgência da situação.
- Minha linda menina... se me permitis... eu até estou com uma certa pressa...
Ela agarrou-o com firmeza.
- Não, não e não. Olha para mim... por favor. Não me reconheces?
O sapo nem conseguia desviar o olhar, pois que ela já o colara práticamente ao seu rosto.
- Pois... não... lamento, talvez já nos tenhamos cruzado por aí, certamente, não digo que não... mas não estou a ver...
- Mas sou eu, sapo... sou eu...
O sapo ainda tentou espremer-se para fora daquele abraço, mas a rapariga segurava-o com demasiada convicção.
Previu que lhe ia acontecer o pior... e não se enganou.
Ela puxou-o para si e, sem aviso, sufocou-o num beijo prolongado, imobilizando-lhe os membros, prendendo-lhe a respiração.
Durante um longo, um enorme instante... só conseguiu... beijá-la.
 
E então... sentiu-se cair, desamparado, sobre a relva do jardim. Uma névoa espessa rodeou-os, vinda do nada, ao mesmo tempo que uma claridade irreal brotava das ervas e das pedras, bem por baixo do chão que pisavam. Ficou cego de luz.
 
Quando finalmente conseguiu abrir os olhos... sentiu que algo de tremendamente estranho lhe acabara de acontecer. Caída na relva, bem à sua frente, jazia imóvel o rosto mais belo que algum dia vira, em toda a sua vida. Uma sapo verde, de um verde de muitas tonalidades, boca carnuda, patas delicadas, um brilho misterioso a rodear-lhe todo o corpo, envolvendo-a numa auréola, como se ali tivesse acabado de nascer.
 
- Ro-Ro-... Rosita... minha princesa... mas o que é...
 
Ela abriu os olhos, ainda combalida com a dolorosa metamorfose, e sorriu-lhe, com aquele sorriso que ele nunca esquecera, mas que há tanto tempo não via.
 
- Rosita... és mesmo tu?
Ela acenou que sim, que era.
 
Não vamos maçar agora os nossos prezados leitores com os pormenores, mas certamente recordam todos a história, quando a bela princesa dos sapos foi transformada em humana, pela bruxa má dos pântanos. O feitiço só terminaria quando a jovem humana voltasse a encontrar o príncipe dos sapos, e o conseguisse beijar de novo, voltando então a assumir a sua verdadeira aparência.
 
O sapo não conseguia emitir nenhum som, mudo de espanto.
Foi ela que tomou a iniciativa.
 
Com um salto decidido, acercou-se do charco e lançou-lhe o desafio:
- Então... já não te lembras como era? Primeiro tinhas que me conseguir apanhar...
E coaxando alegremente, mergulhou nas águas sujas do charco.
 

 

publicado por entremares às 15:33
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27 comentários:
De Jorge Soares a 1 de Setembro de 2009 às 15:42
Há coisas que não mudam... fui e vim.. e este blog continua a ser viciante.

Por vezes é necessário olhar para a vida e vela .. ao contrario, nem tudo o que brilha é ouro.. nem todas as princesas querem um príncipe.. por vezes, a realidade é muito melhor.

Abraço
Jorge


De entremares a 1 de Setembro de 2009 às 15:51
Meu caro Jorge...

Bemvindo de férias. Espero que te tenhas divertido e descansado com a tua "sapa" e os teus "sapinhos"...

Um abraço.
Rolando
De Existe um Olhar a 1 de Setembro de 2009 às 17:27
Vim por aí abaixo...li... continuei a ler..devagar... bem devagar... A certa altura pensei: será que o sapo vai virar príncipe?...hum...não me parece...o Rolando dá sempre um final inesperado aos seus contos...que irá sair daqui? E eis que a menina virou sapinha ! Faltou talvez...e viveram felizes para sempre..., mas isso seria demasiado óbvio e vulgar, coisa que nunca acontece no teu canto.
Beijos
Manu
De entremares a 1 de Setembro de 2009 às 17:51
Oi, Manu, como estás hoje?

Pois tens razão... e dá logo para ver que eu sou um optimista inveterado, não é?
E sim... espero que tenham vivido felizes para sempre, naquele charco de águas sujas.

Ahhh.... " Charco, doce charco"

:)

Beijos
Rolando
De Existe um Olhar a 1 de Setembro de 2009 às 18:31
Olá Rolando
Estou bem... muito bem, obrigada.
Voltei aqui novamente porque encontrei um charco com uma linda flor de lótus e sabes quem fugiu para lá? ....nem mais...o casalinho de sapos do teu conto, deixaram-me um recado para ti:
"-Diz ao Rolando que estamos muito felizes."
:))
De lis a 1 de Setembro de 2009 às 17:32
... e Rosita começou aquela "brincadeirinha" de esconde esconde... o sapo mergulhou em seguida à procura da amada, entusiasmado, até esqueceu o espanto e aí ... , bom já sabemos, ficaram felizes, pra sempre!
Bem que a bruxa precisava passar transformando algums figuras humanas em sapos , e a historia terminasse aí, sem princesas! rsrs
O pensamento de trazer um calorzinho de Elvas funcionou. temos um sol lindo hoje no Rio de Janeiro.
Abraços,Rolando.
De entremares a 1 de Setembro de 2009 às 17:56
Olá, Lis...

Ainda bem que o calor de Elvas conseguiu chegar ao Rio.
E a nossa Rosita, sabes... eles colocaram aquele letreiro à beira do charco, que dizia : DO NOT DISTURB

Portanto, a menos que seja o serviço de quartos... melhor não incomodar...

Beijos.
Rolando
De Paula Raposo a 1 de Setembro de 2009 às 20:41
Gosto das tuas histórias...beijos.
De entremares a 1 de Setembro de 2009 às 22:31
Oi, Paula

Obrigado por "andares por aqui"...

A "Rosita" manda-te cumprimentos...

Beijos.
Rolando
De Óscarito a 1 de Setembro de 2009 às 20:48
Inicialmente pensei: lá está o príncipe "armado" em sapo.
Depois admiti que: após o beijo o sapo vira príncipe e ela transforma-se numa rã!
Afinal enganei-me!
Suponho que viverão felizes para sempre e terão muitos girinos...
Abraço/Óscar
De entremares a 1 de Setembro de 2009 às 22:33
Oi, Óscar, sejas bem regressado ( apesar de que por tua vontade ainda lá estarias para o norte, não é? )

E sim... estamos aceitando apostas sobre o número de girinos que eles vão ter...

Um grande abraço.
Rolando
De Sofia a 1 de Setembro de 2009 às 21:01
Não gosto de sapos...

Preferia um principe :(
De entremares a 1 de Setembro de 2009 às 22:37
Oi, Sofia...

Ainda bem que já estás "rija e pronta para outra"...
Olha... aqui o sapo não gostou nada da tua observação.. Ainda tentei demovê-lo... mas ele saiu daqui a gritar, meteu-se no expresso e deve estar quase a chegar a Coimbra... por favor, não lhe abras a porta.

:)

Beijos.
Rolando
De Regina d'Ávila a 1 de Setembro de 2009 às 21:37
hahaha !! Adorei esta..pensei que o sapo fosse sair correndo quando ela mordeu os lábios...coitado...deve ter ficado horrorizado com tudo isso... hahaha
Mas, gostei, ainda mais, do final da Lis.. hahaha
e do seu "do not disturb "..
Pronto The End "..felizes para sempre..
Super beijos
De entremares a 1 de Setembro de 2009 às 22:40
Regina...

Sabes? Eu acho que tu ias gostar deste sapinho... é afável e enfim... não estava à espera de encontrar uma humana que fosse a "sapa dos seus sonhos"...

PS. O sapinho está a qui a dizer-me ao ouvido que também simpatizou contigo.

Beijos.
Rolando
De Regina d'Ávila a 1 de Setembro de 2009 às 22:59
Rolando,
Diga a este simpático sapinho que não vá à Coimbra, que venha direto ao Brasil...Ficarei encantada...
Doces beijos
Regina.
De entremares a 1 de Setembro de 2009 às 23:53
Regina...

O sapinho está aqui, caidinho no chão, acho que desmaiou com a emoção.
Agora é ele que está precisando do beijo salvador...

Um grande beijo
Rolando
De Patrícia B. a 1 de Setembro de 2009 às 23:03
Final inesperadamente surpreendente!
Adorei, venham sapos ou príncipes, desde que haja amor está tudo bem =)
Mas o raio do sapo também é 'burro', não viu logo que era a sua fêmea? Por vezes somos tão como eles, temos o amor e a felicidade à frente dos olhos e nem damos por ele...
De entremares a 2 de Setembro de 2009 às 01:48
Verdade seja dita, Patricia...`por vezes somos mais tontos que os sapos, não é?

Beijos.
Rolando
De saltapocinhas a 1 de Setembro de 2009 às 23:41
Ahahahah, adorei esta tua história ao contrário!
E porque não?
Afinal, sapos e sapas também têm direito ao amor!
De entremares a 2 de Setembro de 2009 às 01:49
Oi Saltapocinhas...

Claro que têm... e ainda por cima, passam sempre por feios nas histórias. Não é justo.

Beijos.
Rolando
De DyDa/Flordeliz a 2 de Setembro de 2009 às 00:49
Viva a imaginação, a liberdade, o feitiço e o "quebranço" dele. Que bom ser sapo, cotovia ou outro bicho qualquer. Virar o mundo de pernas para ar e seguir assobiando feliz até à próxima estória.
Sim, é bom passar por aqui!

De entremares a 2 de Setembro de 2009 às 01:50
Flordeliz...

Cá continuamos... com um sorriso e um assobio ao canto dos lábios...
Como dizia o tal... Façam o favor de ser felizes...

Beijos.
Rolando

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