Domingo, 30 de Agosto de 2009

O beijo...

 

 

O olhar... aquele olhar.
Sobressaindo da penumbra, a pele acetinada adivinhava um deslizar de prazer, como se a ponta dos dedos soubessem – só eles – um caminho secreto por entre as estrelas.
Reclinou-se um pouco, à procura dela.
 
Conheceram-se num jardim, entre dois lagos de nenufares. Ela caminhava sózinha, um longo vestido a roçar as ervas do chão, uma sombrinha colorida e um chapéu ridiculo, que nela se transformava numa obre de arte. Ele tagaraleava com os amigos, na maldizência corriqueira de todas as manhãs de domingo.
Cruzaram-se na estreita ponte de pedra, entre os lagos.
Por um segundo – como pode a eternidade resumir-se a um segundo ? – os seus olhares convergiram um no outro... para não mais se soltarem.
 
A mão fria tocou-lhe as costas nuas. Estremeceu.
Os dedos dela reclamaram os dele. Ergueu os braços e envolveu-o num abraço interminável, enquanto deixava que os os olhos se afogassem naquele sorriso. Como podia um sorriso iluminar a escuridão, como se de mil chamas se tratasse?
 
Ela baixou o olhar, quando ele a convidou.
Ofereceu-lhe uma flor amarela e disse-lhe que o seu sorriso era mais cristalino que o nascer das águas. Que estava enfeitiçado, que preferia transformar-se na areia aos pés dela que permanecer longe do seu olhar.
E ela sorria infantilmente... de um jeito que envergonhava todas as deusas do Olimpo.
 
Os lábios tocaram-se, ansiosos.
O mundo desabou numa espiral de aguarelas coloridas, perfumando o êxtase dos sentidos. O universo – ali e agora – resumia-se aquele beijo, os corpos colados e imóveis.
O tempo emudeceu e vagarosamente, deixou que os amantes caminhassem nus sob um manto de estrelas, alheios à escuridão que tombava sobre eles.
Pouco a pouco, a pele macia adquiriu reflexos de marmore, os lábios colaram-se para não mais se soltar, o frio manso da pedra fechou-lhes os olhos numa expressão de prazer sem palavras, os cabelos soltos entrelaçados num labirinto de sombras.
 
 
( Silêncio )
 
- João... onde leste tu essa história? Aqui no guia do museu só diz “ O beijo, de Rodin”...
- Anh... o beijo... sim... desculpa, o que dizias?
- A estátua... a história... onde foste tu..
- Eu? Não... nada. Simplesmente... sinto que foi assim que ela surgiu.... nem podia ter sido de outro modo, não podia...
 
Ela olhou-o com ternura.
 
- João...
- Sim, Maria?
- Se eu te beijar... aqui e agora... não nos vamos transformar em pedra... pois não?
 
Ele apertou-a, como há muito tempo não se lembrava de o fazer.
- Quero lá saber...

 

publicado por entremares às 13:37
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34 comentários:
De Carla a 30 de Agosto de 2009 às 15:24
Afinal já encontrei o seu blogue.... tive de ir ao da Ellen para entrar.. aqui, onde inspiração não falta. Um abraço
De entremares a 30 de Agosto de 2009 às 15:39
Oi, Carla... a blogosfera é imensa... mas de amigo em amigo... que bom que deu com esquina...

Beijos.
Rolando
De lis a 30 de Agosto de 2009 às 15:35
Muito bem representado esse beijo de Rodin. Intenso. E é a sua especialidade dar vida aos personagens de forma a nos confundir com a realidade. Bom, muito bom. Parabéns é pouco.
Lamentavelmente, nao preciso ter os mesmo receios da Maria ... rsrs
Retribuo carinho no meu blog.Honra é minha.Abraços
De entremares a 30 de Agosto de 2009 às 15:42
Olá, Lis....

As estátuas talvez sejam só isso... pedaços de gente que já foi como nós, com aquela chama toda... e que agora ali estão, imortalizados, eternos... à espera que cada um possa ver neles... o que quiser...

Beijo.
Rolando
De Paula Raposo a 30 de Agosto de 2009 às 15:58
Bonita esta história...o beijo, o olhar, o sorriso, quão importantes são! Sem dúvida. Beijos.
De entremares a 30 de Agosto de 2009 às 16:05
Sem dúvida, Paula, sem dúvida...

Beijos, grandes, pequenos, garridos, silenciosos... todos.
Precisam-se.

Beijos.
Um óptimo domingo para ti.
Rolando
De Óscarito a 30 de Agosto de 2009 às 17:50
Felizes são os que quando olham também conseguem ver, e vendo são capazes de imaginar como aconteceu ou como podia ter acontecido!
Abraço/Óscar.

> ainda tá calor em Elvas? e se...
De entremares a 30 de Agosto de 2009 às 19:33
Oi, Óscar.

Estás convidado... estou já aqui a servir os copos com as "fresquinhas" para todos...

Um abraço.
Rolando
De DyDa/Flordeliz a 31 de Agosto de 2009 às 01:50
A mim o Óscar só oferece café.
Ficam os dois a saber que além de café com canela também gosto de um copo com imensa Seven-Up enganada com um cheirinho de cerveja - fresca p.f.
E já agora: feliz do homem que tem uma Maria "atrevidota" capaz de transformar um bloco de pedra em fogo apenas com um - que o diga o João
Brincadeiras à parte - Parabéns!

De entremares a 31 de Agosto de 2009 às 13:18
Oi, Flordeliz...

Obrigado pela simpatia. Sabes, creio que de João e Maria, todos temos um pouco, não temos?

Beijos.
Rolando
De Raquel a 30 de Agosto de 2009 às 18:51
bonito texto :) O quinto paragrafo está perfeito, o relato de sentimento único.
Uma boa semana *

p.s. os seus passaros estão em segurança x)
De entremares a 30 de Agosto de 2009 às 19:31
Oi, Rquel.

Que venham dias assim...

PS. Obrigado pelo recado. Vou já tranquilizar os meus periquitos.

:)

Beijos.
Rolando
De Bia a 30 de Agosto de 2009 às 19:06
Excelente conto, muito bem escrito, cativante! Parabéns pelas belas palavras...

Recebi um comentário em meu blog, com o mesmo nome do seu (Entremares), e fui direcionada para um blog de fotografia do Blogger, com diversos autores. Fiquei na dúvida, pois não sabia exatamente quem procurar... aí, visitei o blog da minha amiga Jô, e achei seu link. Não sei se é a mesma pessoa que me escreveu, mas de qualquer forma, gostei muito daqui!

Bom domingo... abraços!

De entremares a 30 de Agosto de 2009 às 19:35
Olá Bia, fui eu sim.
Provavelmente, escrevi algo mal.... ou não coloquei o link correcto. Mas ainda bem que resolveu fazer de detective e descobrir aqui este cantinho...

Sente-se e fique à vontade, está bem?

Um abraço.
Rolando
De marie a 30 de Agosto de 2009 às 19:28
Sem dúvida a nossa imaginação ao ler ou em outras circunstâncias, fazem-nos criar cenas tão reais quanto a descrita neste belíssimo texto!
Abraço
De entremares a 30 de Agosto de 2009 às 19:37
Olá Marie...

É verdade, a imaginação comanda a vida. O que seria da gente se de repente deixássemos de sonhar, já imaginou?

Abraços.
Rolando
De mfc a 30 de Agosto de 2009 às 19:49
Rodin sabia que alguém um dia iria "sentir" a sua obra... mesmo para além d' Os Burgueses de Calais!
De entremares a 31 de Agosto de 2009 às 01:30
Olá, mfc...

É uma estátua que dá vontade de ficar a contemplar...
parece que está viva...

Um abraço.
Rolando
De Regina d'Ávila a 30 de Agosto de 2009 às 22:17
Chego de viagem e encontro este belo texto...que presente!!
Tocando a alma e a pele...sempre nos fazendo sonhar.
Sonhando em viver, também, um momento assim, tão doce e romantico.
Grande beijo,
De entremares a 31 de Agosto de 2009 às 01:31
Oi, Regina...

É bom, quando as nossas histórias conseguem inspirar-se em pessoas, não é?

Beijos.
Rolando
De Existe um Olhar a 30 de Agosto de 2009 às 22:19
Olá Rolando
Parabéns pela vida que deste á escultura de Rodin, é uma obra de arte lindíssima, mas a partir de agora ficou certamente com mais valor.
Da minha parte ganhou mais um sorriso e não me espantaria se de repente víssemos o mármore derreter-se com tanta ternura.
Boa semana para ti.
Beijos
Manu
De entremares a 31 de Agosto de 2009 às 01:32
Olá, Manu...

Não achas que o Rodin se poderá ter inspirado em algo semelhante?
Não sei em quem, mas talvez...

Beijos.
Uma óptima semana para ti também.
Rolando

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