Terça-feira, 3 de Fevereiro de 2009

Cuidado com o que desejas...

 

- E agora, se observarem com atenção, temos ao nosso lado direito S. Jorge e o dragão... – e o guia ia apontado numa determinada direcção, onde, se todos conseguissem vislumbrar o que ele descrevia, as formações rochosas da gruta, mais conhecidas por estalagmites e estalactites, deveriam ter esculpidas as formas rigorosas de S. Jorge, montado a cavalo e enfrentando o terrível dragão.

Muito a custo, talvez se pudesse ver alguma semelhança com a lança, ou talvez quatro colunas que fossem as patas do cavalo.
Mas o resto... bem, o guia era um moço simpático, estava ali a cumprir a sua obrigação e então, claro que sim, claro que todos estavam a ver S. Jorge, coberto por uma armadura resplandescente, a enfrentar o dragão. Porque não ? Afinal de contas, também já haviam passado ao lado da Virgem a segurar o Menino, do elefante, do Cristo na cruz e de mais algumas formações rochosas extravagantes que o guia ia apontando, enquanto calcorreavam os corredores húmidos e frios das grutas.
Mas pronto, era a tradição.
E a tradição mandava também que, em muitos locais de interesse turístico ( grutas incluidas ) existisse uma fonte dos desejos, um poço de desejos ou algo que permitisse ao visitante atirar uma moedinha para algum lugar, com o direito a desejar qualquer coisa.
Aquele conjunto de grutas não poderia portanto ser a excepção.
- Os senhores aí ao fundo ... não se afastem – lá ia dizendo o guia, tentando manter o grupo reunido à sua volta.
O grupo de visitantes lá o foi seguindo, enquanto observavam o morcego, a cabeça de carneiro, o unicórnio e mais algumas figuras mitológicas que o guia insistia conseguir ver nas estalactites brilhantes.
- Diz à tua mãe para não se afastar... – protestava um visitante à esposa – não me agradaria ter que ir procurar a minha sogra nesta escuridão... ainda morria de susto.
A esposa lançou-lhe um olhar de desagrado.
- Não tem piada...
- Se atirarmos uma nota para dentro da fonte dos desejos – perguntava outro, em alegre cavaqueira – teremos direito a quantos desejos ?
O guia conduziu-os sobre uma ponte rústica, construida de grossos toros atados uns aos outros, atravessando parte do lago subterraneo que alimentava a gruta.
- E aqui deste lado – continuava o guia – temos o nosso poço dos desejos.
O grupo acercou-se, sem convicção. Afinal de contas, um poço de desejos não era novidade para ninguém. E aquele em concreto, pelo aspecto de abandono,muito menos.
- Cuidado com o piso, que é escorregadio – repetia o guia – não se aproximem muito, podem atirar as moedas de longe...
- O poço é muito fundo ? – perguntava um, curioso.
O guia abanou a cabeça – Não sabemos. Já aqui existia uma fenda e limitámo-nos a cimentar este pequeno muro de protecção...
- Então como recuperam as moedas ? – quiz saber outro dos turistas.
O guia sorriu, enigmático.
- Não recuperamos.
Um burburinho de descrédito fez-se ouvir. – Claro, claro... então é o primeiro poço dos desejos onde se perdem as moedas – gracejava outro dos turistas ...
- Devem pescá-las com imanes, ou coisa parecida – sugeriu uma mulher, em voz baixa.
O guia chegou-se para o lado, para permitir que todos se pudessem aproximar um pouco mais – Tenham atenção, olhem que o piso é mesmo bastante escorregadio... Quem quer ser o primeiro ?
Um homem de gorro montanhês avançou. – Já qui tenho uma moeda...
Decidido, chegou-se à frente e lançou a moeda. Com uma concentração fingida, fechou os olhos com força e uns segundos depois, exclamava:
- Pronto... agora só é preciso jogar no euromilhões...
Risada geral.
O turista que gracejara sobre a sogra avançou de seguida.
Lançou a moeda e ficou à espera do som da queda. Nada.
- Deve ser bastante fundo ... resmungou entre dentes.
Um após outro, lá foram atirando as moedas, por entre risadas e anedotas improvisadas.
- Passam-nos um recibo desta despesa ? – brincava um – Podemos deduzir a moedinha nos impostos ? – insistia outro.
O guia lá ia repetindo os mesmos avisos – Cuidado com os pés, minha senhora ... vá mais por aquele lado, é mais seguro...
Uma senhora de idade, vestida de cor-de-rosa, aproximou-se do poço, de braço dado com a filha.
- Pareces mesmo o teu marido – resmungava a idosa – julgas que não consigo fazer nada sózinha ?
A filha esboçou uma careta.
- Vocês os dois são iguais – resmungou ela – teimosos como burros. E, para que fique a saber, ainda há pouco ele me dizia que mesmo que a mãe se perdesse aqui dentro, não seria ele que iria à sua procura...
A mãe puxou de duas moedas e aproximou-se do poço – Com duas moedas, pode ser que o desejo se realize mais depressa...
A filha virou a cabeça, à procura do marido.
Lá estava ele, sentado num banco, de conversa com outro turista. Acenou-lhe.
Nesse momento, um grito fê-la desviar o olhar.
O guia precipitou-se para a beira do poço, horrorizado.
- Minha senhora... alguém.... chamem os bombeiros... caiu uma pessoa ao poço...
O grupo de turistas cercou o poço, tentando perscrutar na escuridão algum traço da presença da infortunada senhora. Nada.
A filha, em choro desesperado, correu para o marido.
- A minha mãe... ajuda-me... a mãe caiu no poço... a mãe...
O marido levantou-se, empalideceu de morte e voltou a sentar-se. As mãos tremiam-lhe.
- A mãe caiu no poço, não ouviste ? – gritava a mulher.
O marido voltou a levantar-se e atirou-se aos pés da mulher, de joelhos e mãos entrelaçadas, como se fosse rezar.
- Por favor, por favor... foi sem querer, foi sem querer...
A mulher olhou para o marido, estupefacta com a reacção deste.
- O que estás tu a fazer ? Não ouviste o que eu disse ? A minha mãe caiu no poço...
- Eu sei, eu sei... mas foi sem querer, tens que me acreditar... por favor... como é que eu podia adivinhar que o poço dos desejos era verdadeiro ?
publicado por entremares às 00:15
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2 comentários:
De bandida a 3 de Fevereiro de 2009 às 00:52
respondendo à tua pergunta lá no b. , a escrever, claro! não é para ser compreendido. é para se compreender. ou não.

:)


obrigada pela simpática visita!

um abraço
De Artemisia a 3 de Fevereiro de 2009 às 15:54
hehhehehe! é mesmo... cuidado com o que se deseja, porque pode ser-te concedido.

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