Segunda-feira, 2 de Fevereiro de 2009

A estrela do mar

 

No recife de coral, nada interrompia o suave ondular provocado pela maré.

As algas estendiam como sempre os seus braços em direcção à luz, os peixes coloridos deslizavam por entre os labirintos de conchas, areia e rocha, de estranhas formas e feitios. O sol, filtrado pela água cristalina, esbranquiçava a areia e projectava ondas de luz e sombra sobre o fundo do mar, em padrões irrepetíveis.
Um manto de musgo macio cobria vastas zonas bem iluminadas, aqui e ali interrompido por pequenas agulhas de coral rosa, que teimosamente cresciam lentamente em direcção à superfície.
Espreitando timidamente do interior da pequena gruta que lhe servia de refúgio, a estrela do mar certificou-se de que não existia qualquer perigo, pelo menos eminente. O recife de coral, apesar de belo, era um local perigoso, onde os caçadores furtivos gostavam de aparecer e espalhar o terror e a morte.
Deslizou para o exterior, contraindo e esticando os braços, como faziam todas as estrelas do mar.
Bem, quase todas...
Esta estrela do mar era um pouco... diferente.
Contrariamente a todas as da sua espécie, esta estrela do mar não possuia os cinco braços, harmoniosamente raiados, a desenhar uma estrela simétrica, como todas as estrelas do mar, mas sim... seis.
Sim, isso mesmo, seis braços.
As da sua espécie evitavam-na, não fosse ser aquele um mal contagioso. E apesar de, em pequena, ter sido bastante popular e até ganho todas as corridas e brincadeiras em que participara, a vantagem de ter um braço extra depressa se esfumara quando crescera e todas as suas amigas, uma a uma, haviam partido com outras estrelas do mar, constituido novas familias, deixando-a a ela, por último, sózinha.
Sózinha, única da sua espécie na vestidão do recife.
Mas hoje, neste momento, ela tomara uma decisão.
Não queria continuar para sempre a ser “ a aberração “, “ a anormal “ ou “ a diferente “. Queria simplesmente ser normal – seria pedir muito, ser normal, ser igual a todas as outras estrelas do mar ?
Se fosse normal – pensava – estaria agora com todas as outras, a percorrer o recife ou a caçar os pequenos camarões que tanto apreciava. Talvez até – quem sabe – agora que se aproximava a época do acasalamento, talvez até pensasse em ...
Uma agitação na água trouxe-a de volta à realidade e relembrou-a que era melhor abrigar-se, ou então seria bem provável que passase de estrela a esqueleto do mar.
Um buzio gigante passeava indolente junto às rochas.
Os buzios, independentemente do tamanho, eram, desde tempos imemoriais, os grandes predadores das estrelas do mar. Apesar do seu aspecto inofensivo e lento, conseguiam apanha-las com frequência e a sua concha dura rasgava-lhes os braços esponjosos com a maior das facilidades.
Apesar disso, as estrelas do mar haviam desenvolvido, durante toda a sua evolução, uma estratégia de defesa única; se sobrevivessem ao ataque, mesmo com um ou dois braços amputados , estes regenerar-se-iam e voltariam a nascer, passado algum tempo. Muito poucas espécies na natureza o conseguiam fazer, e as estrelas do mar eram uma delas ... desde que sobrevivessem ao ataque.
Mas, naquele dia, a estrela do mar não queria fugir do seu predador, bem pelo contrário. Pretendia, de forma deliberada, sacrificar um dos seus membros, ou até dois. A acreditar no que lhe contara o ancião da sua tribo, muito tempo atrás, se ela perdesse o braço excedente, era muito provável que este não voltasse a nascer, porque a regra da regeneração só se aplicava a estrelas do mar normais. Ora bem, ela não era uma estrela do mar normal, e portanto, a regra não se aplicaria a ela, certamente.
Precisava de se sacrificar... e perder um dos braços.
Só assim poderia ser igual a todas as outras estrelas do mar... ser normal.
Propositadamente, agitou um pouco a água e o resultado não se fez esperar. O búzio gigante estremeceu, apercebendo-se da existência de uma presa, bem próximo dele. Ela colaborou e, fingindo uma distração, avançou calmamente para fora da gruta de abrigo.
O búzio posicionou-se e, no momento certo, atacou.
Com uma agilidade que seria dificil supôr, apoiou todo o seu peso sobre a zona central da estrela do mar e com um golpe certeiro, pressionou a concha laminada contra um dos braços esponjosos das estrela.
Esta retorceu-se de dor.
Bastaram dois segundos. O predador gigante cedeu um pouco a pressão, para poder segurar melhor o seu troféu e a estrela do mar, já sem um dos braços, aproveitou para escapar-se, na maior velocidade que conseguiu.
Procurou de novo abrigo na escuridão da gruta. O corpo doía-lhe horrivelmente, uma dor como nunca sentira.
Perdera um braço.
Mas não tinha tempo a perder. O tempo urgia. Precisava de fugir dali e tentar encontrar todas as da sua espécie, no recife vizinho. O ferimento sararia, ela seria de novo recebida no meio dos seus semelhantes e tudo voltaria a ser como dantes... como deveria ser.
Espreitou de novo o mar aberto. Vazio.
O seu predador deveria estar nesse momento a devorar o saque do seu ataque.
Esticou-se um pouco para conseguir deslizar por entre as pedras que protegiam a gruta. Primeiro um braço. depois outro, finalmente todo o corpo. Qual seria a melhor direcção a tomar ?
Mal esboçou o primeiro movimento, sentiu ter cometido um terrível erro.
Um dor violenta percorreu-lhe todo o corpo, e sentiu que estava a ser rasgada, dilacerada, esmagada.
Quando conseguiu perceber o que se passava, era tarde demais.
O seu predador, não satisfeito com o aperitivo, decidira ficar à sua espera, emboscado e longe da vista. Mal ela abandonara a segurança da gruta, ele voltara ao ataque, com uma ferocidade tremenda. Perdera de imediato mais um braço e o búzio gigante rasgava-lhe agora o terceiro.
Tentou mover-se, mas o peso do seu agressor era demasiado para conseguir-lhe escapar.
Sentiu que era demasiado tarde para tudo, e num lampejo de consciência, arrependeu-se profundamente do sacrificio inútil que tentara.
O búzio avançou de novo, desta vez directo ao corpo da estrela do mar.
Com pericia, segurou-o contra o fundo rochoso e arrancou-lhe mais um braço.
A estrela do mar fechou os olhos. Estava perdida.
O búzio avançou de novo.
publicado por entremares às 00:13
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2 comentários:
De vida de vidro a 2 de Fevereiro de 2009 às 21:05
por vezes é difícil aceitar ser diferente. quase um sacrifício deliberado.
tenho um desafio para ti no meu blog. **
De CINTIA a 28 de Junho de 2011 às 04:40
linda história, só seria mais emocionante se eu não tivesse a vespera de uma prova sobre estrelas do mar e toda essa trilogia rssrsrsrsrs

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