Segunda-feira, 3 de Agosto de 2009

Um encontro inesperado

 

A noite estava fresca; demasiado fresca até, para uma noite de Agosto, habitualmente mais tépidas e sem vento.
Talvez por isso mesmo lhe estivesse a saber tão bem o ao fresco a fustigar-lhe o rosto - ou até pelo magnífico repasto que acabara de digerir e que lhe exigia agora um pouco de exercício.
Assim sendo, decidira voltar a casa a pé, percorrendo sem pressas a meia dúzia de quarteirões entre a zona ribeirinha dos bares e esplanadas até ao morro do castelo, onde residia.
Os passeios, aquela hora, enchiam-se de gente nova, foliões ruidosos e em férias, alguns de copo na mão, deambulando de bar em bar. Uma mistura de músicas várias e aromas de petiscos na brasa enchiam todo o local, conferindo à noite aquela atmosfera típica tão característica.
 
Ajeitou melhor a gola do casaco e meteu-se à caminhada; subir as escadinhas de S. Vicente, depois de uma refeição como aquela… seria um autêntico suplício. Como tal, contornaria toda a zona dos bares, alongaria um pouco mais o percurso, mas em contrapartida a subida até ao castelo seria menos íngreme.
 
Mário Albertino era uma daquelas pessoas viciadas nos seus próprios hábitos, um metódico peculiar, como gostava de se auto-classificar. Nada de especial ou particularmente excêntrico; gostava de se sentar sempre na mesma mesa, de jantar no mesmo restaurante todos os domingos. Ao levantar-se, todos os dias, não dispensava o ritual de abrir as janelas e tratar das suas plantas, cuidadosamente envasadas nos pequenos apoios de ferro forjado, sob a amurada.
Gostava de tomar o café da manhã na pastelaria do senhor Natalino, de comprar o jornal no quiosque do jardim e de cortar o cabelo na barbearia moderna, do outro lado da cidade.
No entanto, ainda não conseguira assimilar um novo hábito; o de ser mais um recém reformado.
- E como vou eu agora preencher os dias? - questionava-se amiúde, sem nunca encontrar resposta.
Quase quarenta anos a ensinar matemática dera ao ex-professor Albertino a possibilidade de conviver com várias gerações, chegando mesmo a ensinar pais e filhos, sempre na mesma escola… e quase sempre na mesma sala.
Quando finalmente se esgotaram as desculpas e os argumentos para ainda permanecer no activo, fizeram-lhe um jantar de despedida, ofereceram-lhe um quadro assinado por todos os colegas, houve beijos e abraços, lágrimas a rodos… e depois, foi só o virar de mais uma página. Outro alguém tomaria o seu lugar, sentar-se-ia na sua cadeira, colocaria os seus pertences no seu cacifo…. escreveria no seu quadro.
Finalmente, um dia transpôs os portões da escola pela última vez, sem remorsos, sem angústia… mas com uma saudade imensa a dilacerar-lhe o peito.
 
Encontrava-se assim imerso nestes pensamentos enquanto caminhava, mãos nos bolsos, o passo certo e compassado, primeiro a rua dos alcoutins, depois o beco das flores, finalmente a rua do colégio.
 
- Passa p´ra cá a carteira, velhote… já.
Surgidos do nada, um grupo de três mariolas, pouco mais que crianças, rodeavam-no, um deles a brandir uma navalha demasiado perto do seu rosto.
- Vá… a carteira, depressa - repetiu de novo.
Mário Albertino estacou, com pouca vontade de se envolver em brigas… e menos vontade ainda de sair dali magoado. Nunca fora assaltado, por mera sorte, mas por aquilo que ouvia dizer, era algo cada vez mais frequente… e com contornos a aumentar de violência.
- Tenham calma, rapazes… tenham calma e deixem-me respirar um pouco, que eu já não tenho a vossa idade…
Enquanto o primeiro assaltante continuava a gesticular com a navalha, um segundo aproximara-se também.
- E o relógio, velhote… isso deve valer alguma coisa…
 
Não valia dinheiro, simplesmente recordações. Mas isso eles não poderiam adivinhar.
- Não vale nada, rapazes… ofereceram-mo num concurso da escola, há muito tempo atrás…
 
E eis que o terceiro assaltante, até aí remetido à penumbra, avançou um pouco também.
 
- S'tôr? É mesmo você?
Mário Albertino rodou a cabeça, à procura da voz familiar.
- Algarvio… Zé Algarvio? És mesmo tu, rapaz?
 
Era. O mesmo Zé Algarvio, talvez uns anitos mais velho, mais magricela, os mesmos olhos brilhantes e aquele arrepio no cabelo, a mesma expressão de gaiato, apesar do cigarro e da tatuagem esquisita no pescoço.
 
- S'tôr… este bairro aqui é ruim… não devia andar por aqui a estas horas…
 
Mário Albertino abriu a boca, espantado.
- Oh, Zé… contigo aqui ao pé de mim, nem tenho motivos para me preocupar… nem que fosse às três da manhã…
 
O rapazola, sorriu, divertido. Fez um pequeno gesto e os outros dois desapareceram num ápice, tal como haviam surgido.
- Então ainda se lembra de mim, S'tôr? Já faz tempo…
- Ora essa… eu lembro-me de todos vocês… e principalmente de ti, que eras dos mais teimosos…
O rapaz sorriu de novo, por um instante recuando no tempo, até aos bancos de escola, às brincadeiras dos pátios, às memórias de uma infância tão curta e já tão longínqua no tempo.
- Como era aquela coisa S'tôr? Aquela coisa do Pitágoras… o pessoal achava um piadão aqueles versos…
- O Pitágoras… ainda te lembras do Pitágoras? Quem diria…
- Era qualquer coisa de Siracusa, não era? Mas já não me lembro do resto…
 
Por um instante, o reformado Albertino desapareceu, prontamente substituído pelo professor Mário Albertino, no palco improvisado.
 
- Meu caro Zé Algarvio… tens que ver se te lembras bem disto, olha que eu não viverei para sempre… Pitágoras de Siracusa… disse um dia aos seus netos… que o quadrado da hipotenusa…
 
- … é igual à soma do quadrado dos catetos - completou o rapaz, a rir-se. - Era isso mesmo, S'tôr… era isso mesmo…
 
Algures da esquina, alguém assobiou.
- Tenho de ir-me, S'tôr… gostei muito de o ver…
Mário Albertino estendeu-­lhe a mão.
- Zé… o prazer foi meu… e faz favor de dizer ao resto da rapaziada que tenho muitas saudades vossas…
Ele fez que sim com a cabeça.
E logo a seguir, foi engolido de novo pela escuridão.
 
 

 

publicado por entremares às 20:50
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7 comentários:
De GiGi a 4 de Agosto de 2009 às 00:01
Por vezes, a vida nos traz tantas surpresas...

Ao ler o início, comecei a pensar nos "recém-aposentados" - e agora, o que fazer da vida? Será que a vida termina (ou começa) após a aposentadoria? Talvez, apenas uma continuidade.

Acho que "viajei" um pouquinho nesta estória, LOL!

Beijos
De entremares a 4 de Agosto de 2009 às 15:42
Oi, GiGi

Acredita que penso muitas vezes nessa situação dos " recém - aposentados". Tenho como exemplo um pai que foi saudável toda a vida e que, mal se reformou, passou a "coleccionar" doenças... como se o lazer fosse a primeira causa para adoecer...

Muitos beijos.
Rolando
De Paula Raposo a 4 de Agosto de 2009 às 09:34
Tão bela a história...deixaste-me a chorar porque a vida é isso mesmo, feita de imponderáveis e de questões! Muitos beijos.
De entremares a 4 de Agosto de 2009 às 15:44
Olá, Paula.
Suponho que sim, a vida é mesmo feita de imponderáveis. Sou daqueles que acredita que a realidade consegue ser mais estranha que a própria ficção... e se nos esforçarmos para lembrar... todos temos muitas histórias " interessantes" para contar, não é ?

Beijos.
Rolando
De Existe um Olhar a 4 de Agosto de 2009 às 10:57
- Professora, professora...lembra-se de mim?
Como é reconfortante ouvir de vez em quando esta frase quando distraidamente deambulo por aí!
Imagino a alegria do professor Mário , quando passado o susto, pode recordar a maneira tão invulgar de voltar a rever o antigo aluno.
É em momentos como estes que reconhecemos, que apesar de tudo, vale a pena ser professor.

Continuação de boas férias Rolando.
Beijos
Manu
De entremares a 4 de Agosto de 2009 às 15:46
Olá Manu.
Hoje assustei-me com o nevoeiro... e deixei a praia para amanhã.
Como tens razão com aquela palavra que usaste no comentário " reconfortante".

É isso mesmo: reconfortante.
Alimenta o ego, alimenta o corpo e alimenta a alma.

Muitos beijos.
Rolando
De lis a 4 de Agosto de 2009 às 21:12
Inusitada forma de encontrar um aluno ou amigo, que no momento difícil acaba te salvando da violencia . No momento que lia , pensava nos ínumeros casos acontecidos diariamente nessa cidade maravilhosa que vivo , o Rio de Janeiro, e na forma que assustdos gritam : perdeu,perdeu!! quando estao assaltando alguém.
Quase que acontece o "perdeu" aí, com o sr, Mário Albertino rsrsr De verdade, é triste ver jovens perdidos nessa violenia que sempre termina em tragédia e tristeza.
Abraços

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