Sábado, 25 de Julho de 2009

O comboio apitou três vezes...

 

- Desculpe, dá-me licença?
A mulher chegou-se para o lado, contrariada.
A muito custo, lá conseguiu subir os três degraus da carruagem, uma mão a segurar o corrimão de ferro, a outra o enorme saco de lona militar, desta feita mais pesado que o habitual.
Final de mês, a mesma azáfama de sempre; os táxis cheios, as filas intermináveis para comprar um simples bilhete, o bar da estação a abarrotar de emigrantes e soldados de fim de semana, os comboios cheios… enfim, o costume. Nada a que o soldado Matias, a prestar serviço no Porto, não estivesse habituado.
Um silvo agudo, contínuo, encheu o ar. O primeiro apito.
A enfermeira Maria voltou a espreitar pela janela entreaberta. Nada. Nem sinal dele.
- Não vai conseguir chegar a tempo… - ainda pensou.
Talvez conseguisse.
Aquela viagem até Coimbra não estava programada. Mas nem sempre a vida se programa, e ela trocaria aquela viagem de bom grado. Ir ao enterro do pai, que já não via desde o Natal… não… sem dúvida que era um motivo triste para voltar à terra que a vira nascer.
E o marido, onde estaria o marido, que nunca mais chegava?
- Ah, João, apressa-te… que ainda perdes o comboio…
No banco em frente, alheio à tristeza da enfermeira, um rapaz ainda jovem, de rosto tisnado pelo sol e barba mal feita, segurava com força uma mochila. Os olhos fitavam um ponto distante, bem para lá da estação de Santa Apolónia, bem mais longe que o bulício do trânsito da capital.
O sul de França era o seu destino. Talvez por dois, por três anos, quem saberia?
O seu Alentejo não conseguia dar trabalho a ninguém e, da sua aldeia das Pias, todos os braços fortes já haviam partido, deixando para trás os velhos, as mulheres e as crianças, à espera de cartas para matar saudades e de algumas notas para aliviar a miséria.
As mãos apertaram com mais força a alça da mochila, quando o apito estridente da máquina soou de novo pela estação.
O segundo toque. Uns minutos mais para os retardatários.
O "Quim bolas", como lhe chamavam os colegas, levantou-se da cadeira, pagou o café e dirigiu-se pelo passadiço até à composição.
O homem da bandeireta acenou-lhe.
- Quim bolas, és tu que levas hoje a máquina? Julgava-te de férias…
- Ora viva, Tónico…. isso de férias é só para quem pode… vou ver se consigo ganhar mais algum… sempre são umas horinhas a mais no final do mês…
O guarda ergueu a bandeireta e apitou.
- Vai com Deus, Quim bolas, vai com Deus…
Subiu os degraus de ferro até à cabine. O maquinista Joaquim Freire, Quim bolas para os amigos tinha mais uma viagem pela frente.
- Está tudo em ordem? - perguntou ao técnico, que acabava de verificar os últimos mostradores do comando.
- Está como nova, Quim… é toda tua…
 
Sentou-se aos comandos. Perderia o aniversário de casamento, no dia seguinte. Mas os tempos estavam ruins… e não havia como deitar fora aquelas pequenas oportunidades, quando surgiam. Uma viagem extra, em tempo de férias… renderia uma boa quantia, talvez até fosse suficiente para trocar o velho frigorifico… ou o fogão.
O comboio estava cheio.
Decidido, carregou no botão amarelo e um longo silvo voltou a encher os ares. O terceiro apito.
A vida entraria em suspenso, durante um breve intervalo.
Lentamente, as enormes rodas de ferro moveram-se, arrastando a meia dúzia de carruagens estação fora, os rostos à janela, mãos acenando, gritos, lágrimas, adeus.
Era só mais uma viagem, como tantas outras.
Só mais um dia, no decurso de todas as vidas a bordo.
 
Boa viagem.
 

 

publicado por entremares às 20:23
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13 comentários:
De Paula Raposo a 25 de Julho de 2009 às 23:22
Pareceu-me um poema esta tua história de vidas...beijos, gostei muito.
De entremares a 26 de Julho de 2009 às 11:27
Olá Paula...
Sabes... lembrei-me que todos os dias, quando nos cruzamos com alguém, ou mesmo quando circulamos por entre a multidão...nem imaginamos as histórias com que nos cruzamos... as boas, as más... e as improváveis, as estranhas.

Todas são únicas, creio.

Beijos.
Rolando
De adriana godoy a 26 de Julho de 2009 às 16:06
É a vida acontecendo, misturando as histórias, e o trem já vai conduzindo as angústias e alegrias das pessoas. Belo texto. Bj
De entremares a 27 de Julho de 2009 às 09:51
Tens razão, Adriana, é a vida...
E a gente vai passando, o trem vai passando, e as coisas acontecendo...

Beijos.
Volta sempre
De tatyane a 26 de Julho de 2009 às 16:11
Ahhhhhhh
Adoro contos de fadas!!! Tenho dascinação pela sininho! rsrsr
Amei, posso te add no meu blog?
vou ficar te visitando e lendo!
beijos
Pinta sempre por lá!
Taty!
De entremares a 27 de Julho de 2009 às 09:53
Oi, tatyane...
Os contos de fadas são assim, conseguem contar histórias sérias ... a brincar...

Beijos.
De aflores a 26 de Julho de 2009 às 17:11
Uma maravilhosa história e uma viagem no tempo (como é bom recordar) impossível com o TGV :):):)
Brincadeira de lado...adorei esta viagem que me fez (re)viver os meus tempos de tropa com viagens de comboio maravilhosas entre a minha cidade (Porto), Chaves e Lisboa.
Tenho aqui, neste teu cantinho, motivos de leitura para aqui voltar;)
Agradeço e retribuo visita ao meu blog.

Grande abraço
De entremares a 27 de Julho de 2009 às 09:55
AFlores...

Se eu sei?
Eu fazia o percurso Porto - Reguengos no comboio do correio, saia do quartel às cinco e só chegava a casa às 9 da manhã do dia seguinte...

Um abraço.
Rolando
De lisette a 26 de Julho de 2009 às 17:53
" ...Lá vem a Maria Fumaça
Trazendo e levando saudades
Por onde passa.
Por toda composição
fica espalhada esperanças
Lá vem o trem de ferro
carregadinho de sonhos...
No apito do trem
a cabeça viaja
e o amor,que ainda nao voltou
É esperado na rampa
Lá vem a Maria Fumaça.. "( do blog de Edson Milton V.Paes)

Boa lembrança me traz esse seu texto: "o comboio apiitou tres vezes". Na minha vida apitou mais vezes,rsrs.
Quis citar esse poema porque tem tudo a ver com a vida que vemos passar pelas janelas desses trens.
Posso passar muitas horas aqui ,lendo voce.Gosto muito.
Obrigadinha pela ida no flor de lis ,deixando um lindo presente - o seu comentário.
com carinho
De entremares a 27 de Julho de 2009 às 09:57
Lisete, que posso eu dizer ?
Senta um pouco, pega no café e nos biscoitos que tem ali em cima da mesa... e sirva-se à vontade.

Sinta-se em casa, é só o que desejo.
Beijos.
Rolando
De Existe um Olhar a 26 de Julho de 2009 às 23:48
Olá Rolando
É inquestionável a qualidade dos textos que vai colocando no seu blog, como sempre é um prazer ler o que escreve. Este não foge á regra.
Desculpe, mas hoje vou deixar uma nota mais brejeira, isto porque quando vi o nome do maquinista me fez lembrar uma anedota muito engraçada, que não vou contar aqui, claro, mas se calhar também conhece.
Desculpe o atrevimento, mas também é bom sorrir de vez em quando.
Desejo-lhe uma óptima semana.
Beijos
Manu
De entremares a 27 de Julho de 2009 às 10:04
Oh, Manu...
Se é bom sorrir de vez em quando...
Eu até sou daqueles que pensa que somos demasiado sisudos, levamos tudo a tão a sério, somos tão formais, sr doutor isto, vocemesse aquilo...

Se eu tivesse jeito para contar anedotas, até faria um blog...

Beijos, uma óptima semana para ti...
Rolando
De Jorge Soares a 27 de Julho de 2009 às 17:09
Cada pessoa um mundo, uma historia, uma vida, um comboio cheio de vidas.. paradas naquele segundo em que as rodas iniciam o seu movimento.

Excelente texto
Abraço e boa semana
Jorge

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