Domingo, 19 de Julho de 2009

O último recanto do mundo

 

 

- O chá está pronto... – gritou uma voz, ao longe.
 
Só podia ser a “sua” Alzira.
Como conseguia ela ainda gritar com aquela energia, apesar dos anos?
 
- Já vou, querida... já vou...
 
Voltou a contemplar o imenso móvel de carvalho, de prateleiras escuras repletas de pequenos frascos de vidros, fazendo lembrar as farmácias do antigamente, um boticário ou, quem sabe, o recanto perdido de algum alquimista.
México, Cuba, Honduras, Brasil, Tunisia, Japão...
Em cada frasquinho, uma pequena etiqueta com o nome de um país – todos alinhados, sem nenhuma ordem em especial.
E, no interior de cada frasquinho... areia.
 
Desde muito jovem que calcorreava o mundo, no principio de mochila às costas, depois no conforto de outros transportes, substituindo a velha tenda azul de campismo pelos hotéis de algumas estrelas. Primeiro, também sózinho. Depois, a dois.
Durante sessenta anos... percorrera todos, mas mesmo todos os países do mundo; alguns até mais que uma vez. E de todos eles trouxera um pouco do próprio país, uma pequeno punhado de areia, areia branca e de muitas outras cores, de praias, dos desertos, das montanhas, da selva – do mundo inteiro.
Num dos extremos da prateleira, um dos frasquinhos exibia orgulhoso : “ Londres, 1949 “
A sua primeira viagem... a sério.
Já lá iam... sessenta anos.
 
E agora? Bem... mais uns meses e completaria os oitenta, um número mágico; redondo.
A sua Alzira, quase dez anos mais jovem, provara o sabor das viagens pelo casamento... uma semana no interior de Marrocos, lembrava-se como se tivesse sido ontem...
E a última... a última viagem terminara na semana anterior, regressados de Timor, o último destino.
 
Sensação estranha, a de poder dizer que já pisara o chão de todas as nações do mundo. E, no entanto, a sua prateleira de frasquinhos de vidro ainda continuava incompleta.
Faltava colocar o frasquinho que, precisamente naquele momento, segurava na mão, ainda vazio.
Faltava a areia de... do seu próprio país. Nunca a colocara na prateleira, vá lá saber-se porquê. Hoje seria o dia.
 
- Alberto... olha que o chá arrefece... – voltou a “sua” Alzira a gritar.
- Já vou, já vou...
 
Ergueu-se do sofá e de frasquinho de vidro na mão, abandonou a sala. A areia, tirá-la-ia do quintal, talvez do canteiro dos cactos.
O último frasquinho.
Mas primeiro, o chá.
A sua Alzira, apesar da idade, ainda não lhe tolerava atrasos.
 
- Já aqui estou, querida... já aqui estou...

 

publicado por entremares às 08:22
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12 comentários:
De Paula Raposo a 19 de Julho de 2009 às 09:13
E nesse último frasquinho que falta encher, completa-se um ciclo. Gostei muito de te ler. Beijos.
De entremares a 20 de Julho de 2009 às 09:00
Obrigado Paula...
É verdade, foi o final de um ciclo. Talvez fosse esse o objectivo da vida dele, quem sabe?

Beijos.
Um boa semana
De Murilo a 19 de Julho de 2009 às 09:36
Olá!
Aqui quem fala é o Murilo (http://www.blogger.com/profile/08304270672111408576), dos blogs Palavras de Osho (http://www.palavrasdeosho.com/) e Os nascimentos das palavras (http://osnascimentosdaspalavras.blogspot.com/).
Assim como você e dezenas e dezenas de outros amigos blogueiros, eu participava das blogagens coletivas do Tertúlia Virtual (http://tervirtual.blogspot.com/), belíssimo projeto de promoção de blogagens coletivas que infelizmente chegou ao fim em julho de 2009.
Para mim, a inicitativa do Tertúlia (http://tervirtual.blogspot.com/) foi responsável pela realização de muitas das melhores blogagens coletivas da blogosfera em língua portuguesa.
A idéia de a cada mês reunir blogueiros em torno de um tema foi tão bem-sucedida que não podemos deixá-la morrer.
Para colaborar, lancei o Vou de coletivo! (http://voudecoletivo.blogspot.com/)
Todo dia primeiro do mês será proposto um tema para ser abordado por blogueiros por meio de textos, imagens, vídeos e o que mais a criatividade permitir.
Assim que o tema do mês é apresentado, é aberta uma lista de inscrições. Basta você inscrever sua postagem que automaticamente será inserido um link para ela na relação de participantes. As inscrições ficam abertas o mês todo.
E você, gostou da idéia? Espero que sim!
Então não vamos perder o embalo. Logo sai o primeiro coletivo de 2009! Clique aqui e acesse o Vou de coletivo! (http://voudecoletivo.blogspot.com/)
Abração!
De Sara a 19 de Julho de 2009 às 17:40
e será que o frasquinho correspondente ao seu país ainda estaria vazio, porque... inúmeras pessoas nunca dão valor ao sítio onde vivem e excelente país que têm ou... porque, deixamos sempre para amanha aquilo que podíamos fazer hoje?

Um beijo
De entremares a 20 de Julho de 2009 às 09:02
Oi, Sara...
Perguntas bem, nem sei como responder.
Ambas estão certas, creio. Deixar para o fim o melhor... e adiar o que tem que ser feito.

Beijos.
De GiGi a 19 de Julho de 2009 às 19:24
Que coisa mais linda...

Não é que não damos valor de onde somos ou moramos. Apenas, em meio a tantas novidades e descobertas, apenas nos esquecemos de apreciar nosso lar, justamente porque nunca nos demos por falta dele. Natural.

Que bom que a senhorinha em questão soube apreciar o seu lar... O seu chá!

Beijos!
De entremares a 20 de Julho de 2009 às 09:03
Oi, Gigi.
Como diz aquele ditado " Lar, doce lar"

Não há melhor local, pois não? A nossa casa...

Beijos.
Uma óptima semana para ti
De Jorge Soares a 19 de Julho de 2009 às 22:00
Por vezes o que mais amamos é o que fica para o fim, ou de tanto o vermos não lhe damos a devida importância.. mas mais vale tarde que nunca

Abraço e boa semana
Jorge
De entremares a 20 de Julho de 2009 às 09:05
Meu caro Jorge,

Provavelmente, somos todos um pouco assim, não é? Perdemo-nos na busca de muitas coisas... que até podem estar bem ao nosso lado, debaixo dos nossos olhos...

Um abraço.
Bom trabalho.
De Anad a 20 de Julho de 2009 às 00:25
Meu amigo, vou de férias e só volto no início de Agosto. Tudo de bom e luminoso para ti.
Beijinhos
Anad
De entremares a 20 de Julho de 2009 às 09:06
Anad, vou ficar com inveja, e com saudades.
Portanto, só posso desejar...

UMAS ÓPTIMAS FÉRIAS.

Beijos.
Até Agosto.
De neli araujo a 21 de Julho de 2009 às 00:29
Caro Rolando,

É que quando a gente é moço, cheio de energia, e o corpo aguenta, acaba se aventurando por terras distantes...

...e então deixa-se para colher a areia do nosso próprio quintal quando já não se tem aquele vigor e já fica difícil afastar-se de lá...

Gostei muito!
Aliás, gosto demais dos teus escritos. Parabéns!

neli

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