Quinta-feira, 2 de Julho de 2009

As árvores morrem sempre de pé

 

Majestosamente, o astro rei ergueu-se solitário sobre o horizonte.
Nada perturbou a sua caminhada pelo céu azul forte, despido de nuvens. O vento, resumido a uma tímida aragem, mal conseguia despertar as poucas ervas rasteiras que ainda sobreviviam, refugiadas na sombra protectora dos troncos ressequidos. A vida, esse teimoso mistério de contrasensos, persistia em não se deixar extinguir, apesar do ambiente desolado daquele recanto do deserto.
As aves já não procuravam mais ali os seus ninhos da primavera; o calor tórrido, o ar seco e a ausência absoluta de chuva haviam tornado aquele outrora quase paraíso numa antecâmara do inferno, habitado apenas pelos répteis e escorpiões.
O bosque de cedros, em tempos verdejante, vira correr a seu lado um ribeiro de águas frescas, alimentado com o degelo da primavera.
Mas a primavera dera lugar ao verão, as montanhas distantes haviam perdido os seus cumes de neves brancas e o ribeiro secara, sem mais alimento para as areias sedentas que aos pouco e poucos, o engoliram.
Ninguém sabia o porquê.
O verão eternizara-se, a temperatura subira, o chão perdera a cor verde e os animais haviam partido em busca de locais mais frescos. A terra retalhou-se, dolorosamente, abrindo fendas extensas, expondo as entranhas à inclemência do sol.
Algures no meio da planície, um pequeno grupo de troncos retorcidos testemunhava ainda o local do bosque original.
 
Quando a escuridão desceu de novo sobre a terra, o sol abrasador fizera mais uma vítima; um último ponto verde no tronco moribundo de um dos cedros perecera, rasgado sem piedade pelos raios do deus sol.
 
- Milius… Milius…
O cedro maior continuou o chamamento, mas a noite devolveu-lhe um imenso silêncio como resposta. Não conseguia suportar a ideia de todos os companheiros estarem agora transformados em meros esqueletos sem vida, uma massa de madeira informe e sem vida, de formas grotescas, destacando-se na planura do deserto.
 
- Milius… por favor… não me deixes aqui sozinho…
O espírito do cedro não lhe respondeu ao chamamento. Por muito que lhe custasse a aceitar… estava só, completamente só … rodeado dos testemunhos sem vida dos seus amigos, agora resumidos a galhos secos e … memórias, muitas e boas memórias.
 
O cedro maior emudeceu. Pela primeira vez em toda a sua longa existência, desejou ser algo mais que uma mera árvore, desejou poder mover-se, poder partir para outro local, esquecer aquele recanto de infância… esquecer tudo.
Sentiu saudades da chuva.
Sentiu saudades da fresquidão das gotas sobre as folhas verdes, da passagem dos animais rumo ao ribeiro, das flores silvestres que se acumulavam junto da sua sombra…
 
Apeteceu-lhe chorar. Mas nem isso podia fazer.
Tentou inclinar-se… deitar… adormecer… mas isso também não lhe era permitido.
Morrer, talvez… mas mesmo a morrer, seria de pé.

 

publicado por entremares às 12:54
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5 comentários:
De Najla a 2 de Julho de 2009 às 13:31
Um dos melhores textos, sem dúvida. Adorei o simbolismo que carrega.

Beijinhos
De Sara a 2 de Julho de 2009 às 16:39
Um texto cheio de simbologia, sem dúvida! Mas ao mesmo tempo fez me pensar em vários aspectos... será este o futuro da natureza? O escassear da água e o aquecimento do globo... hipóteses eu sei, mas que infelizmente se tornam cada vez mais reais :(

O que me fez pensar tb este texto, foi na simbologia do velho cedro ali sozinho . e pensei, numa sociedade tão individualista como a que vivemos hoje em dia... em que o conceito de vida em família tende a desaparecer e em que acabamos por viver cada vez mais "cada um por si"... será esse o destino de muitas pessoas? morrerem assim sozinhas num deserto social e seco como o mundo de hoje?

Beijinhos
De Existe um Olhar a 2 de Julho de 2009 às 20:46
Que maneira bonita e enternecedora de nos chamar á atenção para o grave problema da seca que vai assolando todo o mundo.
Entramos no texto , vivemo-lo...momentos há em que sinto que estou dentro da história, tal é o realismo e a dinâmica que imprime a tudo o que escreve.
Da leitora assídua fica um abraço.
Manu
De Óscarito a 3 de Julho de 2009 às 01:39
Às vezes penso (é verdade, também me acontece) como seria o mundo se a humanidade fosse como as árvores.
Não para morrerem de pé mas para viverem com verticalidade; sem "dobrarem" a espinha.
Ah, e referindo árvores que morrem de pé recordo que nem todas o conseguem já que interesses (in)confessáveis decidem assassinar algumas para deixarem espaço para outras culturas, dito empreendimentos.
E nem importa que sejam espécies protegidas (sobreiros).
Podem ser castigados por lei? Podem! Mas não são...
Abraço/Oscar
De Iris Barroso a 3 de Julho de 2009 às 18:07
Sou sincera, e beleza do texto à parte, nunca percebi o ditado popular de morrer de pé como uma árvore. Nunca entendi simplesmente, por que não acho que ficar parado, sem nada fazer, sem recorrer a todos os recursos, não é digno. Acho que se deve morrer a lutar e as árvores não o podem fazer. Alguém o tem que fazer por elas. Assim o ditado nada me diz e continuo a achá-lo absurdo.

A verticalidade deve-se a uma constante moral e não ao facto de nos mantermos de pé e estáticos. Quando morrer que seja a lutar por algo, que seja a correr, a rastejar no chão, a fazer amor com quem amo, que seja a lutar contra uma doença numa cama de hospital, que seja a combater um fogo, a salvar alguém que se afoga, com um tiro a lutar por algo que acredito, que seja acorrentada a uma árvore, mas que seja a morrer de forma activa.

Recuso-me a morrer como uma árvore.

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