Sábado, 20 de Junho de 2009

O pescador de pérolas

 

Inspirou profundamente, baixou a viseira e deixou-se escorregar.
Abriu os olhos.
Os raios de sol, filtrados pelas águas cristalinas do recife, contracenavam em danças multicores, projectando sombras sobre os tufos de coral. Uma multidão de pequenos peixes tropicais, de cores garridas e formas bizarras, fugiu de pronto a esconder-se, perante a agitação das águas.
Com um par de braçadas enérgicas, afundou-se em direcção a um pequeno maciço rochoso, batendo compassadamente as barbatanas; o passo seguinte consistiu em fixar o grampo à rocha, prendendo-o ao cinto, libertando-lhe as duas mãos para poder trabalhar.
Com gestos rápidos e precisos, depressa largou todo o equipamento – a prática de muitos anos ensinara-lhe que, debaixo de água, todos os segundos eram preciosos.
Muyama Alan tinha uma profissão pouco comum; era pescador de pérolas.
 
Qual era o segredo? Conseguir reter a respiração por longos minutos? Adivinhar a localização dos melhores locais do recife, onde as ostras se multiplicavam, agarradas às bases dos corais?
Fosse como fosse, Muyama, quase nos quarenta, apanhava pérolas desde muito novo, herdando a profissão do pai, do tio, do avô; e tal como todos os outros da mesma profissão, começava a padecer dos mesmos males, com o organismo a ressentir-se de longos períodos sem oxigénio – tonturas, dores de cabeça, arritmias.
- Tens que largar isso, Muyama… já. – o médico fora peremptório - … a menos que queiras terminar como o teu pai…
Ele não queria.
Guardava a recordação do pai afectuoso, mas que partira cedo demais, vitimado por um derrame … cedo demais para que pudesse ter tido tempo para desfrutar da sua companhia.
E, em casa… - afastou os pensamentos cinzentos – Não, mais viúvas, não…
Aquela seria a sua última descida ao fundo do mar. Prometera-o à mulher, grávida de gémeos, ao irmão, ao médico; prometera a toda a gente viver uma longa e próspera vida, aprendendo outro ofício. Seria sapateiro, entregador de pizzas, qualquer coisa – mas viveria o suficiente para ver os filhos crescer.
Era uma promessa.
 
A vida de um pescador de pérolas era feita de ilusões; no fundo das águas, procurando reunir para dentro da rede o maior número possível de ostras, as maiores, de carapaça mais escura, as mais escondidas. Depois, à superfície, abrindo-as meticulosamente, com o máximo cuidado para não atingir os pequenos tesouros escondidos no interior; as pérolas.
Claro que, ali bem ao lado, os grandes viveiros teriam sempre as maiores, as mais belas, as de coloração mais delicada. Mas persistia sempre a esperança de, mergulhando solitariamente no recife, encontrar… a tal pérola…
Continuou a encher os dois sacos de rede que prendera ao cinto – haviam passado quase três minutos, não teria muito mais tempo.
Avançou mais um pouco, apanhando ao acaso algumas ostras, enleadas em longas algas verdes.
Era tempo de voltar à superfície. Definitivamente.
Enquanto batia os pés na ascensão rumo à superfície iluminada das águas, ia largando aos poucos algum do ar retido nos pulmões, descomprimindo um pouco os tímpanos. Para trás, as pontas retorcidas dos corais foram mergulhando progressivamente na penumbra, confundindo-se com o fundo rochoso do oceano. Acima de si, só a luz, irrompendo na escuridão.
 
Novamente vazia. Outra vez.
Fraca pescaria aquela. Para última descida, os resultados não poderiam ser mais desanimadores – mais de metade das ostras já abertas e meia dúzia de pérolas brancas, pequenas, pouco vistosas.
- Nem uma pérola rosa, ao menos… - murmurou, lamentando-se da sua sorte
Atacou o segundo saco. Tinha um pressentimento que a sua sorte iria mudar.
 
Logo à segunda tentativa, algo mudou, com efeito.
Aquela ostra era em tudo igual às restantes – talvez um pouco mais escura, mas nada de anormal. Mal a abriu, com a ponta da faca de pesca, os seus olhos iluminaram-se num sorriso.
- Finalmente…
Ficou a olhar para ela, segurando-a com as mãos em concha.
Era pequena, muito redonda… sem falhas ou arranhões; e mais importante… era escura, muito escura… quase negra.
- Uma pérola negra…
A sua primeira.
Vinte anos de descidas ao fundo dos mares e só agora, precisamente na sua despedida das águas, o mar lhe cedia a sua mais preciosa lembrança, o objecto mais desejado por todos os pescadores de pérolas.
Ergueu-se no barco, excitado. Virou-a, revirou-a, ao sol, em contra-luz… era perfeita, absolutamente perfeita.
Mas foi então que…
 
Aquela tontura. Novamente. O desequilíbrio.
Tentou sentar-se, agarrar-se à amurada. A pequena pérola, alheia ao drama, escorregou-lhe silenciosamente por entre os dedos e mergulhou novamente nas águas.
Sem pensar duas vezes, mergulhou também, os braços estendidos. Conseguia vê-la, afundando-se lentamente, em direcção ao fundo. Precisava de a apanhar antes de tocar o fundo… ou então, não a encontraria nunca, no emaranhado de rochas e fendas do recife.
Bateu os pés, esbracejou furiosamente. Um metro, pouco mais de um metro…
 
- Muyama… deixa ir…
A voz da mulher soou-lhe de repente… nítida e cristalina, como se ela própria ali estivesse, bem ao seu lado.
- Deixa ir…
 
As águas mudaram de forma e uma miríade de rostos familiares cercaram-no, na sua imaginação – a mulher, à espera… os amigos… o pai… - mas a pequena pérola negra, a sua pérola, ali tão perto… seria só mais um esforço, o último esforço, e tudo teria uma recompensa, uma vida próspera… - deu mais uma braçada enérgica, esquecendo aquele característico zumbido nos ouvidos. A cabeça latejava, o cérebro já suplicando por um pouco mais de oxigénio.
 
- Muyama… por favor, volta…
Desta vez, a voz pareceu-lhe mais distante, mais abafada, como se a mulher tivesse partido e ainda chamasse por ele.
Parou, a meio caminho entre a superfície e o fundo rochoso.
Por muito que lhe custasse… a vida era feita de opções… e ele teria que decidir, agora, naquele preciso momento, o seu futuro.
Sem lamentos. Sem remorsos. O futuro.
 
Tranquilamente, a pequena pérola continuou a afundar-se no oceano. Já não a conseguia ver, os olhos ardiam-lhe, os pulmões estouravam de dor, os músculos hirtos clamavam por um descanso imediato.
Abriu os braços.
Lentamente, soltou um pouco de ar e rumou à superfície.
A decisão estava tomada.
Fora uma promessa.

 

publicado por entremares às 18:29
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7 comentários:
De julieta barbosa a 20 de Junho de 2009 às 22:45
Ah, meu amigo, como é difícil o "deixar ir". O fazer-se poeira de estrada, estrelas e sonhos... Mais um belo conto para o meu deleite. Obrigada!
De DyDa/Flordeliz a 21 de Junho de 2009 às 16:27
A felicidade pode ser tão simples e outras tão complicada...
Durante a vida somos colocados à prova e fazer opções e tomar decisões....

Fizeste-me lembar " A PÉROLA" o romance do escritor John Steinbeck.
Bom Domingo
De paula barros a 21 de Junho de 2009 às 18:35
Esse mundo dos blogs é feito o mar, tem todas as espécies, tem pérolas, tem pérola rara. E a pérola rara foi quem me pescou. Obrigada por ir ao meu blog e me dá a oportunidade de ler um texto lindo. Uma história bem contada. Uma história com lição de vida.

Sim, a vida é feita de opções, e muitas vezes em busca de uma pérola sonhada, as vezes até uma ilusão, perdemos outras pérolas da nossa vida, ou perdemos a própria vida.

Foi um presente nesse domingo ler seu texto.

Gostei muito do seu comentário. Eu as vezes brinco com quem chega comentando assim, eu digo, chegou chegando. E eu gosto.

boa semana!!!


(Seu texto é bom para trabalhar em capacitação sobre qualidade de vida)
De gilmara a 21 de Junho de 2009 às 22:51
Olá!
Vim retribuir a visita no "Coisas que eu conto" e agradecer pelo comentário, pois, assim pude conhecer este espaço maravilhoso que é o seu blog.
Te linkei e não vou mais te perder!!
Eu voltarei mais vezes.
Ótima semana!!

Gil :)

De marta a 22 de Junho de 2009 às 01:54
Muito bom!

Gostei íssimo :) mesmo muito.

De Jorge Soares a 22 de Junho de 2009 às 20:02
A vida é assim, feita de pequenos nadas, de escolhas, de decisões de segundos... por vezes a vida e a morte estão ali, tão perto...nem sempre é fácil escolher.

Um excelente texto.... como para não perdermos o vicio.

Jorge
De Yashmeen a 23 de Junho de 2009 às 11:13
Senti-me mergulhar com o pescador de pérolas...

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