Quarta-feira, 17 de Junho de 2009

HAMAMI

 

Duas horas... duas horas e meia... quase três horas...
A viagem, felizmente, estava quase no fim. A auto-estrada projectava-se no horizonte, como uma serpente sinuosa de alcatrão negro, contornando montes, rasgando os bosques, transpondo rios revoltos com o degelo da primavera. Março aproximava-se do fim e a primavera conquistava o seu espaço, invadindo de verde vivo os mais ínfimos recantos, brotando de entre as rochas, salpicando de flores silvestres as beiras das estradas. Nos céus, as aves regressavam aos lares, embaladas pelas brisas mornas do sul.
Aos poucos e poucos, a neve fora desaparecendo e a vida adormecida voltava agora a brotar, com todo o seu esplendor, aos primeiros raios de sol.
Bragança, Macedo de Cavaleiros, Algoso… Castelo de Algoso. Um pequeno ponto no mapa, meia dúzia de casas em ruínas nas encostas de um castelo que já fora outrora imponente, mas que agora se entregara ao silêncio do abandono.
Chegara ao seu destino.
A estrada esboroada e cheia de curvas desencorajava os turistas. Os próprios habitantes evitavam percorre-la, apesar de ser a sua única forma de comunicar com o mundo exterior. Talvez por isso mesmo tivessem partido, um após outro, rumo à vila de Algoso, levando os filhos, os animais, o recheio das casa… transformando a aldeia num castelo assombrado de almas penadas, entregue aos cães vadios que percorriam as ruas vazias à procura de alimento.
Todos os habitantes haviam partido… todos, menos um.
 
O automóvel deteve-se diante da única casa ainda impecavelmente caiada de branco, com um rodapé azul forte a contrastar com o cinzento das pedras da calçada. Uma buganvília, já de tronco retorcido, estendera-se livremente sobre o muro, deixando pender uma mancha arroxeada viva sobre a rua, um tufo de cor no meio da desolação.
O último resistente de Castelo de Algoso insistia em cuidar do jardim, podar a sebe, pintar as portas e janelas e ainda manter saudáveis e bem tratados os coelhos, galinhas e as duas gaiolas de periquitos com que preenchia grande parte do seu tempo livre.
 
- Avô…
- Ricardito… pensei que te ias esquecer…
Abraçaram-se efusivamente.
O avô Gilberto era uma daquelas personagens de um mundo antigo, rural e em vias de extinção. Os dois filhos, noras, netos… todos residiam no Porto ou em Braga, entregues aos seus afazeres, disfrutando o conforto da civilização.
Mas ele ficara.
Vizinho após vizinho, acabara sozinho na pequena aldeia.
 
O Ricardito - como ele nunca deixaria de lhe chamar - era o mais novo de todos os netos; mas também aquele com que sempre mantivera a mais especial relação de afecto, de cumplicidade até. O Ricardito era a sua visita mais assídua, o único que - ainda criança - ali passara com ele algumas férias de verão, a brincar com os animais, a ajudá-lo na horta, empoleirado sobre o tractor.
E mesmo agora, vinte anos já feitos, continuava a cumprir aquele ritual mágico do último fim de semana de Março - O Hamami.
 
O que era o Hamami ?
O avô Gilberto explicara-lhe - andava ele ainda de calções - a essência da contemplação das amendoeiras em flor, uma tradição ancestral no Japão, onde todos os anos uma multidão de famílias rumava aos parques e campos, para se deleitar com o momento mágico do desabrochar da flor da amendoeira.
 
Sentaram-se no quintal traseiro da casa, uma toalha branca sobre a mesa, uma garrafa já aberta, pão, algumas guloseimas que o neto trouxera da cidade, à sombra da grande árvore.
Durante aquele fim de semana, ficariam por ali, tranquilamente à espera do momento mágico.
 
- Ainda te lembras? - e o avô observava-o com carinho.
Claro que se lembrava. Fora ele mesmo, com a ajuda do avô, que plantara aquela mesma árvore, num dia longínquo de uma daquelas férias de verão que ali passara. De alguma forma… sentia aquela árvore como um passar de testemunho, uma forma de perpetuar sentimentos, de partilhar afectos…
- Claro que me lembro, avô… então ia lá esquecer-me disso ?
 
Reclinou-se um pouco mais e olhou para um dos pequenos ramos, que pendia próximo da mesa.
- Queres fazer uma aposta comigo, avô ? Vai ser ser aquela ali… a primeira a abrir…
O avô seguiu-lhe o olhar e sorriu.
- Nem penses Ricardito… julgas que acertas todos os anos, é isso ? Nem penses… ora deixa-me lá ver qual vou eu escolher…
 

 

publicado por entremares às 10:51
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11 comentários:
De marta a 17 de Junho de 2009 às 12:33
gostei MUITO. ÍSSIMO.

BELO momento.

:)
De julieta barbosa a 17 de Junho de 2009 às 15:42
Um belo conto de amor, ternura e tradição.
De Jorge Soares a 18 de Junho de 2009 às 00:26
Um belo quadro da vida.

Obrigado
Jorge
De catarina a 18 de Junho de 2009 às 14:48
através de um comentário deixado no blog da Marta (ali em cima), que me chamou a atenção e despertou a curiosidade, acabei por vir aqui parar... gostei deste pequeno mas delicioso momento de ternura, entre o Ricardito e o seu avô. Ricardito, de resto, é o diminutivo que uso para um amigo meu, de seu nome Ricardo, e cuja coincidência fez com que nos conhecêssemos no momento em que ambos líamos o mesmo livro: as travessuras da menina má, páginas e páginas preenchidas pelo "Ricardito", uma das personagens mais doces que Vargas Llosa já criou...
obrigada por esta sua "partilha de afectos".
De José Miguel a 18 de Junho de 2009 às 15:32
Sim... voltarei sem dúvida. Dificilmente parto dos lugares onde faço amigos.
De adelaide amorim a 18 de Junho de 2009 às 16:10
Belo e delicado seu texto.
A análise de seu comentário está perfeita. Obrigada pela visita e volte sempre. É dessas pessoas que nos faz sentir "em casa" : ))
PS: Gosto muito de suas fotos, guardei algumas. Posso usá-las em postagens (com crédito, claro)?
De Maria de Fátima a 18 de Junho de 2009 às 16:26
nota para este texto deliciosos: 21! :)
De Renata Nogueira a 18 de Junho de 2009 às 21:29
Vim retribuir a visita e me deparei com um conto tão bonito e sensível!
Gostei, em especial, do nome "Ricardito" (meu filho se chama Ricardo).
Um abraço
Renata
De DyDa/Flordeliz a 19 de Junho de 2009 às 02:14
Vale a pena regressar ao sítio onde nos sentimos em paz, onde somos acarinhados, onde podemos ser nós mesmos.
Onde sabemos que o olhar de quem nos recebe pode estar cansado e triste mas brilhará de felicidade partilhando o que de melhor tem, sejam doces, ou o florir da velha árvore entre sorrisos de ternura e cumplicidade.
Lindo!
De Dylan a 19 de Junho de 2009 às 11:32
Excelente texto e belo blog. Parabéns.

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