Domingo, 14 de Junho de 2009

Vale a pena tentar...

 

Porque estava a água tão azul ?
 
Abriu os braços e deixou-se ir. O fundo do oceano chamava-a, num murmúrio silencioso que mais ninguém, para além dela própria, ouvia. Talvez fosse só o rebentar das ondas nos recifes de coral, à superfície; ou o rolar das conchas no fundo de areia, empurradas pela corrente. Ou talvez não fosse nada.
Um silêncio imenso, azul, tomou-lhe o corpo, enquanto se afundava devagar, contemplando a superfície luminosa das águas a afastar-se, cada vez mais distante, mais distante...
Era uma forma de partir, tal como outra qualquer.
Era uma forma de desistir, de renunciar ao sofrimento, de dizer basta à doença, de aceitar... que nem sempre se pode vencer.
Soltou as últimas bolhas de ar que ainda conservava consigo e ficou a vê-las subir, rumo à superfície... enquanto ela se afundava mais e mais, para uma água cada vez mais azul, rumo à escuridão.
O médico dissera-lhe: mais seis meses... talvez um ano, se tiver sorte...
Não era justo.
Tanta coisa ainda por fazer... tantos projectos inacabados... tantos sonhos por cumprir... e uma doença, seis meses de vida, talvez um ano? Se tivesse sorte?
Não era justo.
Mas a vida não tinha que ser forçosamente justa, pensou. Sentira as primeiras dores no mês anterior, e depressa compreendeu o que a esperava, nos tempos seguintes.
As dores repetiram-se, aumentaram de intensidade. O médico também a avisara disso. O próximo passo seria a cirurgia, a amputação, e depois... nem ela sabia o que seria o depois.
A falta de ar apertou-lhe o peito.
À sua volta, um bando de peixes coloridos parecia intrigado, pela presença daquele corpo inerte, afundando-se vagarosamente no oceano.
A vista turvou-se, misturando formas e cores numa aguarela confusa.
Deixou-se ir.
 

 

Algo a tocou. Abriu os olhos.
O que era aquilo?
Uma tartaruga? Nunca estivera assim tão perto de uma...
Passou-lhe a mão pela carapaça, lisa e escorregadia. Ela devolveu-lhe o gesto, debicando-lhe o braço frio. Só então reparou, quando a viu afastar-se.
O pobre animal já sofrera no corpo a investida de algum caçador, faltava-lhe um dos membros inferiores. Nadava desajeitada, em sucessivas curvas, mais devagar do que seria normal... mas mesmo assim, sobrevivera, e ainda continuava viva, nadando...
Ficou a vê-la afastar-se, rodeada por um séquito de pequenos peixes, como se de uma autêntica corte se tratasse.
 
Contemplou novamente a superfície esbranquiçada das águas, cada vez mais longínqua.
Valeria a pena?
 
Não sabia.
Sabia simplesmente que... tinha que tentar.
Abriu os braços e apontou à superfície. Podia já não ter ar suficiente... mas valia a pena tentar...
 

 

publicado por entremares às 10:54
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16 comentários:
De Linda a 14 de Junho de 2009 às 12:02
Conheço um caso real, uma situação destas em que frente à amputação decidiu deixar-se ir...Deixou saudades. Tinha 35 anos...
De entremares a 14 de Junho de 2009 às 14:32
Às vezes, deixamo-nos ir... e acredito que tenha deixado saudades. Certamente, muitos planos ficaram por concretizar...
De julieta barbosa a 14 de Junho de 2009 às 12:35
Seus textos têm o poder mágico do silêncio: aquele que nos leva a reflexão... Obrigada!
De entremares a 14 de Junho de 2009 às 14:33
Obrigado por tudo, Julieta.

Vou só pegar no título do post e ampliá-lo:

Vale sempre a pena tentar...

Beijos.
De DyDa/Flordeliz a 14 de Junho de 2009 às 14:42
A mensagem perdura e "martela" após a leitura.
Tem esse poder. Parabéns!

De entremares a 14 de Junho de 2009 às 14:51
Depois da tempestade... que venha a bonança. E que haja sempre a hipótese de um novo recomeçar...
De Sofia a 14 de Junho de 2009 às 21:07
Não condeno ninguém pelas opções que tomam... Respeito e tento aceitar ainda que essa seja uma das frase que regra a minha vida "vale a pena tentar..."

Um beijo
De entremares a 14 de Junho de 2009 às 21:52
Olá Sofia...

Vale sempre a pena tentar...
Só o estarmos aqui já prova isso, creio.

Beijos.
De leonoreta a 14 de Junho de 2009 às 21:39
ola
nunca te vi por aqui. e depois do que li valeu a pena conhecer-te.
fartei-me de rir com o comentario que deixaste la no meu sitio.
um abraço
De entremares a 14 de Junho de 2009 às 21:53
Obrigado pela visita, serve-te de um bolinho...
E atenção... amanhã é segunda feira... temos trabalho.

Boa semana...
De aespumadosdias a 14 de Junho de 2009 às 22:17
Obrigado pela visita. Em Elvas está-se mesmo entre Mares.
De entremares a 14 de Junho de 2009 às 22:40
Olá... e obrigado eu pela visita...
O entremares vai juntando navegadores... e por cá andamos, contando as coisas do dia a dia...

Uma boa semana de trabalho...
De Yashmeen a 15 de Junho de 2009 às 11:46
Há o supremo direito a desistir em cada um de nós. Conheço quem o tenha feito e nada, nem ninguén, o puderam impedir.

Abraço
De entremares a 15 de Junho de 2009 às 18:12
Suponho que o mais difícil ( e é tão pessoal ) é cada um conhecer o seu próprio limite, para saber até onde .... valerá a pena tentar.

Abraços
De bento a 15 de Junho de 2009 às 12:23
estamos entre mares e entre um belo texto de prosa poética...às vezes o desespero pesa e empurra-nos para lá longe...o dexar ir...
De entremares a 15 de Junho de 2009 às 18:14
Meu caro Bento

Tocaste no importante... o desespero, essa coisa tão particular que só o próprio pode entender...

É mais fácil falar do que sentir, não é ?

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