Terça-feira, 9 de Junho de 2009

Mãe coragem

 

Cais da Rocha, Lisboa, 1968.
Uma tarde quente de Agosto, suavizada pela brisa marítima do Tejo. A sirene do paquete Infante D. Henrique ecoou, naquele tom grave que fazia estremecer os vidros das janelas, acompanhada de uma imponente baforada de fumo negra das suas chaminés.
O cais fervilhava de movimento – estivadores, tripulantes, passageiros, autoridades da alfândega, carregadores. Na margem esquerda, o Pátria, o Príncipe Perfeito e o Uige permaneciam ancorados aos pontões, à espera da sua vez. Vistos ao longe, deslumbravam pelo alvo branco das pinturas, os azuis vivos, as bandeiras desfraldadas. Ao perto, ofuscavam pelo tamanho descomunal, que fazia invariavelmente com que os passageiros se sentissem pequenos, muito pequenos, ao acercar-se da comprida escada que unia o cais ao convés.
Um funcionário do porto, fardado a preceito e de maço de papéis na mão, verificava a identidade dos passageiros, um por um, à medida que se aproximavam da escada de acesso ao navio.
 
- Não me largues a mão… está aqui muita gente, não te posso perder de vista…
E dito isto, ajeitou melhor a criança que segurava no braço esquerdo.
Não era tarefa fácil, convenhamos. Tentar embarcar sem ajuda, transportando consigo três crianças, duas das quais de colo, a terceira com cinco anos, agarrada às saias, e ainda sem poder perder de vista as bagagens de mão, onde conseguira arrumar, por magia, todos os utensílios indispensáveis para tratar de crianças de colo, as roupas essenciais e tudo o resto que habitualmente fica esquecido em casa.
Avançou mais um metro, na longa fila dos passageiros, rumo à escada de entrada.
Maria do Carmo, trinta e oito anos e um desafio pela frente. África.
 
Chegara a altura. O marido partira antes, como naqueles tempos era hábito; para arranjar casa, preparar tudo o necessário, experimentar as condições de vida que a propaganda apregoava serem as melhores, incomparavelmente melhores que a vida da metrópole, como então se chamava esta ponta da Europa.
- A senhora precisa de ajuda aí com as criancinhas ? Eu nem sei como consegue carregar as duas ao colo…
A velhota simpática esticava os braços, desejosa de ajudar.
- Obrigado… não é preciso… já estamos quase a subir … já vamos poder descansar todos…
Os braços ? Era melhor nem pensar nisso. De qualquer dos modos, também já nem os sentia…
Sabia sim que, mal se sentasse, muito dificilmente se voltaria a levantar. O corpo pesava como chumbo, mas apesar disso ainda ia conseguindo embalar o seu bebé – dois meses de idade – com um braço e segurar o outro. Por muito que lhe custasse, ninguém mais olharia por eles, como ela olhava. Não, fosse como fosse, as forças chegariam para levar até ao fim aquela aventura, subiria sem ajuda aquelas escadas imensas, descobriria o seu camarote, deitá-los-ia a repousar e finalmente… tentaria fechar os olhos, sonhando com uma viagem breve e sem sobressaltos.
 
- Nome e número de acompanhantes ?
O funcionário aprumado mirou-a de alto a baixo, por cima dos óculos grossos. Uma mulher e três crianças.
- Maria do Carmo Palma – respondeu ela, ao mesmo tempo que empurrava um dos sacos com o pé, para junto de si. – e estes são os meus três filhos… Rolando, Maria e Jacinto… deve ter aí os nomes deles…
O funcionário lá encontrou os nomes, anotou a presença e fez-lhe sinal para prosseguir.
- Nome e número de acompanhantes ? – voltou ele ao ataque, já olhando para o casal com dois filhos que vinha logo atrás.
Maria do Carmo subiu a escada. Um dos tripulantes veio em sua ajuda, carregando solícito os sacos.
- Que grande carregamento, minha senhora… até parece que traz a casa consigo..
E sorria, com aquela boa disposição que a juventude empresta ao rosto.
- É verdade… trago a casa atrás…
 
Parou um segundo, só para olhar para trás.
Algures nas amuradas do porto, junto das cancelas, uma multidão de familiares acenava lenços a todos os que, já encostados às protecções do convés, se despediam da família; maridos, mulheres, filhos e primos, amantes e amigos, conhecidos apenas.
Não estava arrependida de nada.
Mas, por um breve instante, desejou com todas as forças desvendar o futuro e saber o que lhe reservaria África.
 
A sirene soou de novo, a anunciar a partida eminente.
- Preciso de ajuda… - murmurou para si própria – preciso mesmo de ajuda…
Ergueu os olhos para o céu azul e sem nuvens.
E voltou a repetir.
- A sério… preciso mesmo muito da Tua ajuda…
 
Obs: Hoje abro uma excepção - a história é verídica e esta é a minha mãe. 
Hoje é o dia do seu 79ª aniversário.
Parabéns, mãe.

 

publicado por entremares às 11:24
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4 comentários:
De DyDa/Flordeliz a 9 de Junho de 2009 às 21:39
O carinho inicial faziam prever que esta "mãe coragem" era admirada e acarinhada por quem a aqui a estava a retratar.
Muito bonito e os dois estão de parabéns.
Beijinho para si e
De Óscarito a 9 de Junho de 2009 às 22:55
Não quero deixar passar este teu "post" (raio de nome) sem expressar os meus parabéns; à tua mãe que é seguramente uma (mais uma) mãe coragem! e a ti por teres uma mãe dessas.
Um grande abraço!
De Maria Palma a 10 de Junho de 2009 às 21:38
Olá mano! Foi bom ver-te por aqui e ficar surpreendida, ou talvez não, com a forma como continuas a dar vida a cada palavra. Um gesto lindo que fará a nossa mãe sorrir. Aliás, é difícil não a ver com um sorriso nos lábios. Eu era uma das crianças que pesava num dos braços da mãe coragem...
Obrigado mãe........Obrigadão mano........Beijinhos
Maria
De Jacinto Palma a 11 de Junho de 2009 às 13:34
Olá mano

Para que se saiba, o pequenote de dois meses era eu.

Como sempre, és um bom navegador num oceano de palavras, vislumbras ao longe o horizonte e facilmente descortinas terra firme e, sem dúvida alguma, elogias sabiamente os mares já navegados...

Parabéns pela tua homenagem à mãe e obviamente para a aniversariante.

Jacinto

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