Quinta-feira, 4 de Junho de 2009

Mestre Bonifácio

 

“ O meu nome é Bonifácio
E sou mestre de muito oficio.
Escrevo na pedra o prefácio
E enterro na cova o vicio.”
 
Assim assobiava mestre Bonifácio, o ilustre coveiro da pequena aldeia de Casais do Pinhal, concelho de Pampilhosa da Serra.
O mestre Bonifácio era uma daquelas raras figuras que só não nascera Camões por acaso; a tudo respondia com uma quadra, um soneto ou, na pior das hipóteses, com uma simples rima.
 
“ Não conheço nenhum cliente
Que com vontade me queira ver.
Mas todo o mundo e toda a gente,
Mesmo o mais impaciente,
Perde a pressa quando sabe
Que aquilo que está eminente,
É tão inevitável como morrer.”
 
Claro que, numa aldeia tão diminuta como Casais do Pinhal, o espírito desembaraçado de mestre Bonifácio obrigava a alguns biscates extras, a que o nosso homem nunca virava a cara; ajudante de pedreiro, pintor, limpa-chaminés e – o seu preferido – sacristão.
José Bonifácio Alarcão era um homem feliz. De natureza simples, já ultrapassara a fase de todas as ambições, emigrara e regressara. Sentia-se bem ali, convivendo com as poucas dezenas de habitantes que ainda resistiam heroicamente à desertificação dos campos. Claro que o facto de ali viver a dona Celestina, a viúva do velho Silva, também tinha a sua importância.
Mas mestre Bonifácio era um homem prático.
 
“ A todos no meu quintal
Conheço o nome e condição.
Gente fina e jagunção,
Separados na fortuna e posição
Aqui se deitam lado a lado,
Sem medo nem vergonha
De cair do pedestral”
 
E aquele dia – o dia 30 de Maio de 2009, um sábado radioso, iria ser um dia especial para mestre Bonifácio. Dona Celestina dissera finalmente… Sim.
À hora aprazada, lá entraram eles na igreja, de braço dado, elegantes e bem compostos – ele de fato azul escuro, ela de longa saia beje, casaquinho a condizer. Também lá estavam os amigos, os vizinhos, os amigos dos vizinhos e os amigos dos amigos – ou seja, toda a aldeia, à excepção do merceeiro Matias, que nunca simpatizara com ninguém.
O padre Frederico, pronto a testar as habilidades poéticas de mestre Bonifácio, interrompeu a cerimónia segundos antes do momento crucial e, voltando-se para os presentes, exclamou:
 
“Boa gente do Pinhal
Vindes hoje assistir
A um acontecimento excepcional.
Algum de vós vai impedir
Que Bonifácio e Celestina
Não se possam hoje casar?”
 
Decididamente, a poesia não era o forte do padre Frederico.
E eis que sobressaindo da pequena multidão, avança uma voz:
 
“Não os posso impedir de casar
Mas não é justo que tal aconteça
Não é que Celestina não mereça,
Mas o noivo não é de fiar.”
 
Um burburinho percorreu toda a igreja. O padeiro João ? O que significava aquilo ?
Mas já mestre Bonifácio contra-atacava, no seu vozeirão:
 
“ Sou coveiro e cavador
E trato todos por igual.
Fizessem o bem ou o mal,
Fosse ladrão ou regedor,
A todos enterro no chão,
Eu Bonifácio Alarcão,
Coveiro de Casais do Pinhal.
 
E ai de ti, João padeiro
Que te ponhas no meu caminho.
Vou-me a ti e não vou manso,
Nem te vou deixar inteiro
Quando apanhares no focinho.”
 
Pronto. Agora é que iam ser elas.
O padre Frederico, com um óptimo sentido de oportunidade, retirou-se prudentemente para a sacristia. Já mestre Bonifácio despia o casaco, ensaiando umas poses de boxeur que vira na televisão.
O padeiro João não esperou mais. E aí vai ele, atirando-se com toda a fúria a mestre Bonifácio. Os convidados, esquecendo o local onde se encontravam, abriram alas para os antagonistas.
Dona Celestina, os braços cruzados, assistia impávida e serena a todo o espectáculo. Afinal de contas, era previsível.
- Homens… homens e ciúmes… - murmurou baixinho
 
Afinal de contas, que culpa tinha ela ? Mestre Bonifácio não se declarara primeiro ? Se o João padeiro não se tivesse só limitado a entregar bolinhos de chocolate… mas enfim… o homem era assim, nunca se decidia a nada…
Nesse mesmo momento, um sopapo mais forte acertou em cheio mestre Bonifácio, que caiu desamparado no chão.
Dona Celestina olhou de novo para o padeiro João, com uma ponta de curiosidade no olhar.
- Olha, olha… belos músculos, sim senhor… belos músculos…

 

publicado por entremares às 19:27
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1 comentário:
De DyDa/Flordeliz a 5 de Junho de 2009 às 19:15
Nada tenho contra o coveiro
Mas cheirinho a padeiro
Deve ser muito mais gostoso

Por isso aguardou Celestina
Ficando a olhar tranquila
Não vá no meio da confusão
Levar com algum encontrão

Ganhou coragem o João
Quando se foi declarar
Impedindo que a Celestina
Se lhe pudesse escapar

Como diz o velho ditado
Até ao lavar dos cestos
Ainda se faz a vindima...

do que se lembra!

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