Quarta-feira, 20 de Maio de 2009

Sonho ou realidade ?

 

Há certos sonhos que, em boa verdade, nem se deveriam chamar de sonhos; era essa a conclusão a que estava a chegar, depois de tantas vezes se sentir a adormecer, a acordar, novamente a adormecer, novamente a cordar...
A dada altura, perdeu por completo a noção – estaria acordado... ou a sonhar ?
A diferença era, por vezes, demasiado ténue.
Olhou em redor.
Aquela imagem recorrente de um quarto branco, de mobilia austera e um vaivém constante de vultos a deslocar-se por trás de uma divisória de vidro fosco... já lhe era familiar, um sonho inúmera vezes repetido.
Por várias ocasiões se lembrara de tentar indagar a alguém o significado daqueles sonhos... quase todos eles localizados em quartos brancos e longos corredores, a fazer lembrar um hospital, uma escola antiga, ou mesmo um convento.
Nunca se proporcionara.
De quando em quando, rostos familiares surgiam-lhe no campo de visão; a esposa, o irmão Artur, o velho Zeca do talho, até o padre Afonso um dia por ali aparecera – de repente, deu consigo a pensar que havia algumas pessoas que via agora mais amiúde, em sonhos... do que na realidade do dia-a-dia.
O único senão – existe sempre um “mas”, mesmo nos sonhos – consistia na total ausência de som, que é como quem diz... todos aqueles sonhos eram do tempo do cinema mudo; as personagens mexiam os lábios, gesticulavam, moviam-se de um lado para o lado... mas nada de palavras, nada de música de fundo, nada de ruídos ambientes – um pouco aborrecido, sem dúvida.
 
Suspeitou que estava acordado.
Não tinha a certeza... mas as cores do quarto pareciam-lhe talvez um tudo nada mais vivas, ou até poderia ser simplesmente o sol a entrar pelas janelas abertas. Fosse como fosse, um odor característico a primavera espalhava-se por todos os recantos, demasiado intenso para provir do ramo de flores que alguém colocara sobre a mesinha de cabeceira.
Malmequeres, talvez. Bom gosto.
Através dos olhos semi cerrados, conseguia vislumbrar duas figuras, uma masculina e outra feminina... – ela sentada na ponta da cama, parecia ser a esposa, o homem não o conhecia.
A esposa? Bem... talvez não... o penteado era diferente... e assim vista de lado, até parecia uma pessoa... bastante mais velha.
O homem? Não se lembrava de alguma vez o ter visto – uma bata branca, daquelas usadas pelos médicos – seria algum médico ?
Conversavam.
- Eu sei, doutor... é claro que eu compreendo... mas sabe perfeitamente que este quarto tem mais condições... a enfermaria não é...
- Joana... Joana... – dizia o homem de bata branca – vai ver que a enfermaria é tão boa como este quarto... e a Joana poderá até vir visitá-lo mais vezes... o horário é mais alargado...
- Doutor... mas este quarto é tão ... luminoso, tem tanta luz... estas janelas... as enfermarias são tão escuras... o meu Luis gosta tanto de ver o sol...
- Joana... já conversámos isto, lembra-se ? O Luis não vê o sol... aliás, ele não vê nada, mesmo quando lhe parece a si que ele está com os olhos abertos... são só reflexos... eu já lhe expliquei, lembra-se ? O luis não nos vê... não nos ouve... o Luis está só a dormir...
- Mas doutor... ele pode acordar a qualquer momento...
- Joana... o Luis está em coma profundo ... há doze anos...lembra-se ?
- Doutor... mas ele vai acordar, eu sei disso...
- Está bem, Joana, está bem...  

 

publicado por entremares às 21:55
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7 comentários:
De Najla a 21 de Maio de 2009 às 13:49
Aí está uma realidade que desconhecemos....e como tal, que nos mete tanto medo!

beijos
De entremares a 21 de Maio de 2009 às 16:48
Tens razão... e suponho que acontecerão muitas situações assim, que nos passam despercebidas aos olhos...

Beijos.
De Saia-Justa a 21 de Maio de 2009 às 20:39
Li e reli.. duas ou três vezes, não tento por ser ” burra” mas porquê este texto fez-me pensar, lembrar..
E acho que pode ter mais do que uma interpretação, várias eu diria.

• Vivemos uma realidade ou isto é tudo um sonho…

• Uma bonita história de amor que resiste a pesar de…

• A aparente indiferença que o nosso sistema de saúde oferece a “ todos” mas muito particularmente a quem não exigir mais ou simplesmente não se pode queixar-se ..

•.O que se passa no subconsciente de cada um.. o que existe para lá da matéria

O ser humano no seu todo ainda é um grande desconhecido..:)


De entremares a 22 de Maio de 2009 às 09:09
Somos mesmo desconhecidos...
E todos nós, que estamos aqui "deste" lado... nem imaginamos porventura o que será estar "do outro lado"...

Só podemos imaginar... ou tentar, pelo menos.
De ADzivo a 21 de Maio de 2009 às 23:29
Excelente!
Foi com dificuldade que vi o STAY, pela excelente recreação de alguém que vive um acidente grave; arrepiei-me com a cristalinidade deste "Sonho ou Realidade?"
De entremares a 22 de Maio de 2009 às 09:12
Obrigado pelas tuas palavras.
E isto somos só nós a escrever... sem nunca ter experimentado estar na situação daquela personagem...
De carla sofia a 24 de Maio de 2009 às 18:26
Distinguir a vigília do sono... «Por isso, se reflicto mais atentamente, vejo com clareza que vigília e sono nunca se podem distinguir por sinais seguros, o que me espanta - e é tal o meu espanto que quase me confirma na opinião de que durmo.» - Descartes, Meditações sobre a Filosofia Primeira, Primeira Meditação [5].
Obrigada também pela visita aos universosquestionáveis, beijinhos e boa semana
CS

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