Sábado, 17 de Janeiro de 2009

O homem dos amendoins

 

 
Todos os dias, aí pelas dez da manhã, o homem lá passava pela vendedora ambulante, e com um gesto já rotineiro, fazia a compra do costume; um punhado de amendoins.
Metódicamente, esvaziava-os para um pequeno saco de flanela azul, que trazia sempre consigo, no bolso exterior do casaco. Depois afastava-se tranquilamente, as mãos nos bolsos e um assobio no canto da boca, a tautear uma musica antiga qualquer.
Descia a avenida, acenando áqueles que, como de costume, a percorriam em sentido contrário e que ele já conhecia de há muitos anos.
Não procurava nada em especial, mas observava tudo com uma atenção particular; O merceeiro que começava a colocar a fruta junto à montra, o taxista que limpava, pela enésima vez, o vidro já limpo do seu automóvel, a senhora ainda em roupa de trazer por casa a comprar o pão junto à porta, a varredoura do lixo encostada à vassoura, a discutir acaloradamente com alguém ao telemóvel.
Um dia normal, pensou o homem, só mais um dia normal.
Esperou que o semáforo mudasse e atravessou a rua.
Junto à cabine telefónica, uma velhora revirava a carteira do avesso, porventura na esperança de encontrar a moeda que, tinha a certeza, deveria estar por ali.
O homem aproximou-se com um sorriso, ao mesmo tempo que retirava qualquer coisa do bolso.
- Quando procuramos alguma coisa, encontramos sempre tudo menos o que não estamos à procura, não é ?
A velhota concordou, com um encolher de ombros conformado.
- Tinha a certeza que ainda tinha por aqui uma daquelas que ainda servem nestes telefones antigos...
O homem meteu a mão no saco de flanela azul e retirou de lá uma moeda.
- Olhe, encontrei esta no chão ali atrás... se calhar até podia ser a sua.... – e meteu-a solícito na ranhura do telefone.
- É muita gentileza sua – ainda conseguiu gaguejar a velhota – mas não era necessário ter essa maçada comigo...
O homem talvez já não tivesse ouvido as ultimas palavras. Com o mesmo passo descontraído, afastava-se rua abaixo, o saco de flanela azul no bolso e o assobio no canto dos lábios. Ainda se virou e esboçou um leve aceno e depois virou a esquina, misturando-se com a multidão.
Dois quarteirões abaixo, um autocarro parou junto à paragem, com uma brusquidão anormal. As portas abriram-se e o motorista, com alguma dificuldade, desceu os degraus e cambaleou até à rua. De repente, parecia que o mundo inteiro se lhe apoiava nas costas e o peso sufocava-o, mal conseguia respirar. Com gestos trémulos, desapertou a gravata. As pernas cederam e caiu de joelhos, bem junto da porta. Deixou de ver o autocarro, a rua, as pessoas. Só sentia o bater furioso do coração, latejando de forma ensurdecedora, um tremor a subir-lhe pelo peito, pela garganta, a esvaziar-lhe os pensamentos.
Um ultimo desequilibrio e caiu no chão, desamparado, enquanto os transeuntes se afastavam, freneticamente ocupados em não chegar tarde aos seus destinos.
Sem saber quanto tempo depois, sentiu uma mão apoiar-lhe a cabeça e uma voz longinqua, a repetir-lhe insistentemente:
- Vá lá, coloque lá isto debaixo da língua... vai ver que se vai sentir melhor...
Com a vista turva, pareceu-lhe ver alguém a segurá-lo. Segurava qualquer coisa azul na mão e o que quer que fosse, retirou de lá um pequeno objecto branco e colocou-lho sobre a boca.
- Não se preocupe, é só um comprimido ... só precisa de abrir a boca. Vá lá...
Obediente, assim fez. O estranho pousou-lhe a cabeça sobre qualquer coisa macia e esticou-lhe os braços.
- Está tudo bem, a sério... e se você tiver cuidado, ainda tem muito tempo pela frente...
Ao longe, ouvia-se já uma ambulância, abrindo caminho por entre o trânsito. O estranho voltou a guardar o seu saco de flanela azul no bolso e depois de se certificar que o motorista se acalmara um pouco mais, afastou-se silenciosamente.
O dia estava fresco, e puxou a gola do casaco um pouco mais para cima. Gostava bastante de caminhar, e o frio não o assustava; principalmente quando o sol brilhava e o céu conseguia aquele azul escuro que as estações quentes nunca conseguem imitar.
Continuou a descer a rua, alheio ao movimento. Atravessou a praça, onde os pombos continuavam, desde sempre, a ser alimentados por crianças e velhotes, fazendo companhia a duas vendedoras de flores. Alguns pardais oportunistas disputavam grãos de milho aos pombos mais distraídos, para contentamento de duas crianças que corriam incansávelmente atrás deles. A mãe, distraída a ver uma montra, sonhava com o dia em que conseguiria arranjar dinheiro para poder entrar naquela loja. Provavelmente, cada um dos objectos ali expostos valeriam mais que o salário que ela levava para casa, todos os meses. Mas sonhar ainda era permitido, e os sonhos alimentam os dias...
Olhou de relance para os filhos, que continuavam a não dar descanso aos pombos. E aquela coisa linda, ao fundo da montra ? Nem lhe conseguia ver o preço, e se calhar até era melhor assim, para a tentação não ser ainda maior.
Um pombo, mais desatento que os restantes, levantou voo em pânico, quando uma das crianças se lançou para ele, sem aviso. Bateu as asas, rodou sobre si próprio e, sem espaço suficiente para ganhar altura, projectou-se para a rua, grasnindo assustado. A criança esticou os braços e ainda lhe tocou as penas macias, mas em vão. Um novo salto, contornando o banco de jardim, mais uma corrida, só mais uns metros e nova tentativa.
O homem dos amendoins acabara de contornar o ultimo canteiro de flores e preparava-se para atravessar a rua quando algo o fez desviar o olhar. Num segundo que bem podia ser uma eternidade, ainda viu o automóvel a travar, num chiar desesperado. A seguir, um baque seco e algo a ser projectado pelos ares, para cair mais à frente, no empedrado branco do passeio que circundava a praça.
Fechou os olhos por um momento, para ter a certeza que não se enganara.
Uma multidão de pessoas correu para o local e toda a praça, segundos atras quase silenciosa, fervilhava agora de pânico.
Aflito, meteu a mão no bolso.
Retirou o saquinho azul de flanela e esvaziou-lhe o conteúdo para a a palma da mão.
Restava-lhe um amendoim.
Apressou o passo.
No empedrado branco, um coro de gritos rodeava a figura imóvel de uma criança, idêntica a tantas outras crianças, daquelas que correm atras dos pombos das praças e dos jardins. Jazia inerte, e um senhor ao lado, com uma mão colocada sobre o pescoço dela, abanava consternado a cabeça de um lado para o outro, a confirmar o inevitável.
O condutor do automável, ajoelhado ao lado, era a imagem do desespero, os olhos vermelhos de tanto sal e de tão poucas lágrimas. De pé, a outra criança observava o irmão, esperando pacientemente que este se levantasse, não fosse a mãe dar pela ausência deles.
Conseguiu furar o primeiro circulo de curiosos e, muito a custo, chegou ao local. Ajoelhou-se junto da criança e tomou-lhe o pulso.
Tirou disfarçadamente o saquinho azul de flanela do bolso e aproximou-se um pouco mais da criança.
- Então, então... quase que o apanhavas, não era ? Mas ele voou...
E, enquanto falava, pousou a flanela azul sobre o peito imóvel da criança.
- Olha, vamos fazer assim... – e meteu uma das mãos dentro do saco - ... se eu te deixar agarrar um dos pombos... tu prometes que passas a ter mais cuidado, não prometes ?
O saco de flanela pareceu agitar-se um pouco e quando ele retirou a mão, trazia seguro nela um pequeno pombo branco. Sem pressas, pegou na mão da criança e fê-lo segurar a pequena ave, que apesar de toda a confusão, não parecia estar assustada.
Uns segundos depois, o pombo revirou-se e, com o bico, picou repetidamente a mão da criança.
O homem dos amendoins sorriu.
- Obrigado – murmurou ele - ... agora vê se cumpres a tua parte...
Levantou-se e recuou dois passos, para dar passagem à mãe das crianças, que só agora fora alertada para o sucedido.
No chão, a criança abriu os olhos, por entre gritos de espanto.
Com as mãos, acariciou o pombo que teimava em ainda lhe bicar os dedos. Este consentiu por uns segundos e a seguir levantou voo, batendo desajeitadamente as asas.
O circulo de pessoas projectou-se sobre a criança.
Os gritos de pânico e desespero coloriram-se de risos e alívios, enquanto o homem dos amendoins se retirava, rumo ao canto oposto da praça.
Puxou a gola do casaco um pouco mais para cima e voltou a meter o saquinho azul de flanela no bolso.
Com a mão, amarrotou-o, só para ter a certeza que ainda continuava vazio.
- Suponho que amanhã talvez seja boa ideia comprar uma dose um pouco maior...    
Atravessou a rua e olhou para trás. O som de risos alegres chegava-lhe distintamente aos ouvidos.
Sorriu também.
Depois, dobrou a esquina e confundiu-se com a multidão.
publicado por entremares às 20:23
link do post | comentar | favorito
|

.mais sobre mim

.BlogGincana


.Fevereiro 2010

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28

.posts recentes

. O unicórnio branco

. Nascer de novo

. Noites de lua nova

. Perguntas e Respostas

. Roby, o rei leão

. Onde mora o paraíso?

. Sinais

. Um novo destino

. O profeta

. Ele e Ela

. As doze badaladas

. O salto da alma nua

. O rei morreu... Viva o re...

. Blog Gincana - Novembro

. A dúvida humana

.

. João e o Mestre

. Aniversário

. E depois do adeus

. A pimenta do amor

. O que fazer?

. Sem título

. A mulher invisível

. A escolha dos anjos

. Os amantes

. A Dama do Outono

. Um pedido

. Simplesmente Eugénio

. Carmen Miranda

. A decisão

.arquivos

. Fevereiro 2010

. Janeiro 2010

. Dezembro 2009

. Novembro 2009

. Outubro 2009

. Setembro 2009

. Agosto 2009

. Julho 2009

. Junho 2009

. Maio 2009

. Abril 2009

. Março 2009

. Fevereiro 2009

. Janeiro 2009

.Os ouvintes das histórias

online

.links

.as minhas fotos

.Nº de Navegadores

Get a free html hit counter here.

.Google

.Quem navega...

Locations of visitors to this page

.Gazeta dos Blogueiros

Gazeta dos Blogueiros
blogs SAPO

.subscrever feeds