Sexta-feira, 8 de Maio de 2009

Conspiração no Hotel Avenida

 

 

" A inspiração é uma amante traiçoeira; quando vem é avassaladora, mas passa muito tempo ausente." - Iris Barroso

 

 

Era verdade. E ele sabia-o, melhor que ninguém.
Jílio Mesquita Afortunado Sá. Não era nome que ficasse no ouvido.
Silvio Sá – assim estava melhor, um nome mais curto, mais fácil de fixar. Quem é que poderia aspirar à fama, com um nome tão dificil de memorizar ?
Portanto... Silvio Sá.
Escrever romances... sempre fora algo de complicado. O público gosta de finais felizes, beijos, abraços, reconciliações, histórias mirambolescas... mas que não terminem em tragédias. Porque, para tragédias... já bastam os dias cinzentos...
Silvio Sá – passemos a tratá-lo assim – sabia tudo isto. Tal como sabia que a inspiração é um perfume volátil, que pode aparecer e desaparecer sem deixar rasto, deixando-o a ele, escritor quase aposentado, na dificil situação de estar a trabalhar em três romances, em simultâneo... mas todos incompletos... por falta de inspiração.
“ A conspiração do Hotel Avenida” era, contudo, a menina dos olhos, aquela história pela qual ele gostaria de ser lembrado, se algum dia viesse a ser lembrado; o romance continha todos os ingredientes necessários ao êxito – sexo, aventura, muito suspense, cenas de pancadaria e até um pouco de religião à mistura. Se a receita resultara com alguns romances dos últimos tempos, de autores no mínimo duvidosos... porque não haveria de resultar com ele, catapultando-o para o estrelato?
No entanto, o nosso escritor debatia-se com um pequeno problema.
- Tenho todo o direito de ter as minhas excentricidades – gostava ele de argumentar consigo próprio, quando debatia mentalmente o problema.
E qual era o problema?
O nosso escritor não conseguia escrever em casa. Fosse pelo ruído de fundo, o trânsito na rua, os aviões a descolar ou pousar, os vizinhos do andar de cima... ou simplesmente por ter de escrever na sala, enquanto a mulher passava a ferro ou devorava novelas na televisão. Enfim... não se podia exigir mais a um T1, em plena avenida do Brasil, a poucos passos do aeroporto da Portela.
Portanto, quem sabe? Talvez até fosse por esse motivo que ele deixara de conseguir escrever, após um início de carreira tão bem sucedida. Ou claro, porque a inspiração o abandonara, como amante despeitada...
Silvio Sá descortinara entretanto uma solução.
No maior dos secretismos, reservava um pequeno quarto numa pensão de terceira categoria, ali para os lados do Intendente, todas as sextas feiras... e lá passava grande parte do dia, a escrever solitário novos capítulos do seu romance da conspiração.
O encarregado da pensão, um tipo mal encarado sempre com um palito pouco higiénico no canto da boca, já nem olhava para ele – entregava-lhe a chave do quarto, rabiscava um apontamento, e ficava a pensar que aquele devia ser o único cliente que passava um dia inteiro no quarto, e ainda por cima sózinho. Enfim, coisa rara...
 
Naquela sexta-feira, como em todas as anteriores, Silvio Sá galgou os dois lances de escadas, ultrapassou a porta de vidro fosco e dirigiu-se à recepção. Não prestou atenção contudo a um vulto tímido que o seguia, espreitando cautelosamente encostado a uma das árvores do passeio.
- Boas-tardes… - lançou ele, como de costume.
O encarregado do costume resmungou qualquer coisa, sem desviar os olhos da televisão. Estendeu-lhe mecanicamente a chave com a etiqueta número nove e continuou entretido com o pequeno écran.
Sílvio Sá encaminhou-se de pronto para o quarto, no fundo do corredor da direita, bem no primeiro andar.
 
 
Três da tarde… um relógio de parede martelou sonoramente as características pancadas, algures num quarto ali perto.
Espreguiçou-se. Sobre a mesa, duas grandes pilhas de papel ilustravam a vintena de tentativas de terminar mais um capítulo - mas as palavras certas teimavam em não aparecer sobre o papel - e sobre a cama, um saco de plástico com duas sandes ainda por mastigar compunham o resto do cenário da conspiração.
- Vou tomar um duche… quem sabe se uma cantilena ao chuveiro resulta…
E se bem o pensou… melhor o fez.
 
Truz, truz, truz…
Visitas? A uma hora destas? Ou seria outra vez o encarregado mal encarado a querer saber até que horas queria ele conservar o quarto? O homem era chato, tremendamente chato.
Enrolou a toalha à volta da cintura e lá foi até à porta. Entreabriu uma fresta, pronto para descompor o irritante funcionário - se ele quisesse alguma coisa, que viesse mais tarde - porque não pusera ele aquele letreiro do " Não perturbar" pendurado na fechadura ?
Do outro lado, um pé avançou rapidamente pela fresta, eventualmente para o impedir de poder voltar a fechar a porta. Mas não… o pé não pertencia ao encarregado de palito na boca…
Engoliu em seco.
 
- Eu sabia… eu bem que desconfiava…
- Maria… - gaguejou, aflito - … tem calma, não é o que tu estás a pensar…
- Júlio Mesquita… afasta-te imediatamente para o lado… - e entrou de rompante quarto adentro - onde está essa desgraçada ?
- Mas, mas… não te percebo… estás a imaginar coisas… Maria, ora ouve lá…
A única coisa que se ouviu foi o sonoro movimento da mão, lançado contra a face surpresa do nosso Sílvio Sá - também Júlio Mesquita. Desequilibrado, caiu redondo no chão, a cabeça a anunciar um belo hematoma contra a mesinha de cabeceira.
 
- Julinho… Julinho…
- …
- Julinho, meu querido… perdoa-me… foi sem querer… eu estava enganada, foi uma confusão…- e massajava-lhe suavemente o couro cabeludo - ainda te dói muito, dói ?
Ele fez de conta que sim.
- Fala comigo, Julinho, fala… tenho estado aqui toda ralada…
Ele fechou os olhos, deliciado por toda aquela atenção extra. Há quanto tempo não via a sua Maria assim, tão terna… e longe das novelas, longe do T1, longe de tudo ? Adeus monotonia, adeus rotina… e pensando bem… o quarto continuava reservado, não era ? Pelo menos até à noite…
 

 

publicado por entremares às 17:38
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1 comentário:
De Iris Barroso a 8 de Maio de 2009 às 22:11
Adorei o conto.

E adoraria ter este poder de síntese. Não consigo contar uma história assim de forma tão rápida.

E não é plágio, mas fico elogiada na mesma.

Bom fim de semana.

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