Quarta-feira, 6 de Maio de 2009

Um jantar de raposa

 

 

Era uma vez uma raposa, daquelas raposas matreiras como são todas as raposas; cauda felpuda, pelo brilhante, olhos penetrantes e orelhas espetadas, sempre sorrateira à espera de uma distracção do seu jantar preferido; o galinheiro do senhor Tobias.
O dito galinheiro, construido bem ao fundo da quinta, servia também como muro, como divisão do terreno – do lado de cá, galinhas incluidas, mandava o senhor Tobias, do lado de fora, mata adentro, não mandava ninguém.
A floresta começava bem ali, logo depois da pequena quinta do senhor Tobias. E na floresta, viviam as raposas, os coelhos, os lobos, as corujas e um sem fim de animais que, guardando silêncio durante o dia, enchiam os montes e vales de gritos e uivos, mal o sol se punha no horizonte.
Dizia quem sabia que aquela floresta, contudo, não era igual a todas as outras florestas. Nem tão pouco alguns dos animais que ali pernoitavam...
 
Catorze, quinze, dezasseis... dezassete galinhas. Como era possível resistir a semelhante petisco ?
Escondida sob a folhagem protectora dos arbustos, a raposa observava o terreno, à procura da melhor estratégia. O galinheiro, apesar da frágil aparência, não era de fácil assalto – as redes eram demasiado altas para saltar, a porta de madeira não tinha frestas... nem tão-pouco existia por perto alguma árvore que pudesse utilizar como trampolim... portanto, o jantar afigurava-se delicioso... mas difícil de obter.
A raposa contava contudo com uma arma secreta.
Esperou pacientemente que as sombras caissem e rastejando silenciosamente, chegou-se junto da cerca de arame. As galinhas, distraídas em conversas de fim-de-tarde, agrupavam-se do lado oposto do galinheiro, junto aos comedouros e poleiros. Nenhuma deu pela sua presença. O galo já se devia ter recolhido ao interior da casota, não o via em parte alguma.
E foi então que a raposa decidiu empregar o seu recurso mais precioso; a magia.
Sussurrou as palavras mágicas e... deu-se inicio à transformação; o corpo amarrotou-se, a forma foi-se alterando, diminuindo de tamanho, diminuindo, diminuindo... até que, em breves segundos, nada restava do aspecto da raposa de cauda felpuda, olhos penetrantes e orelhas espetadas. No seu lugar, surgira uma vulgaríssima formiga negra, de diminuto tamanho, as longas antenas a farejar o ar.
Com a maior das facilidades, transpôs a cerca metálica, deslizando tranquilamente o minúsculo corpo por baixo dos arames que delimitavam o galinheiro.
O plano não podia ser mais simples. Se uma raposa era grande demais para passar através da cerca... uma formiga resolveria a situação. E, depois de se apanhar lá dentro... ah, bom... então já poderia voltar a ser a raposa outra vez.
Na verdade, os planos mais simples... são sempre os mais eficazes.
 
Do alto do poleiro que lhe servia de torre de vigia, o velho galo não estava a gostar nada das vistas. Uma vez mais, aquela raposa andava por ali às voltas, às voltas... e já sabia, por experiência própria, que aquilo não era bom sinal. Avizinhava-se o perigo.
Conteve o nervosismo. O pior que poderia fazer naquele momento seria dar o alarme; só conseguiria ter dúzia e meia de galinhas estouvadas em pânico, a cacarejar sem sentido e a correr para todos os lados. Presas fáceis.
Não, assim não. Precisava de uma estratégia.
Viu a raposa a avançar, sorrateira, a coberto das sombras. E depois viu... a transformação.
Oh, não... a raposa tinha os poderes mágicos... podia transformar-se na forma que quisesse... precisava de pensar numa solução, e rapidamente.
Dois segundos depois, tinha a solução. Para combater a magia... só a própria magia.
Saltou do poleiro e correu, as asas abertas, em direcção à cerca.
Procurou, com a réstea de luz quase a desaparecer, a invasora. Onde estava a formiga ? Era uma questão de vida ou de morte, tinha mesmo que a descobrir.
Finalmente, encontrou-a. Acabara de assomar o corpo por baixo dos arames da cerca, as minúsculas antenas a farejar o ar do galinheiro.
Mas não. Não. Hoje a raposa não iria levar avante a sua investida.
Baixinho, cacarejou as palavras mágicas e... deu-se inicio a mais uma transformação. O galo de penas brancas estrebuchou, agitou as asas, contorceu-se, as formas alteradas, o tamanho a aumentar, a aumentar... até já ser impossível distinguir a sua forma original.
No seu lugar, surgiu a forma excêntrica de um papa-formigas, as longas garras e o nariz afilado, o corpo preto luzidio de pelo curto.
As galinhas, aflitas, fugiram para o interior da casota, numa nuvem de pó e penas .
O papa-formigas, vagarosamente, projectou a sua lingua viscosa em direcção à formiga, saboreando-a logo de seguida.
 
Poucos segundos depois, a calma voltara ao pacífico galinheiro.
O senhor Tobias ainda espreitou pela janela, perante a corrida desenfreada das galinhas para o interior da casota.
- Falso alarme... – resmungou o senhor Tobias – deve ser só o galo a fazer alguma das suas...

 

publicado por entremares às 21:23
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