Terça-feira, 28 de Abril de 2009

A mulher ideal...

 

- Devias vir deitar-te... já é tarde.
- Eu sei... mas não consigo... não tenho sono – e continuou debruçado sobre o teclado, escrevendo compulsivamente.
- Mas tu próprio me dizes para insistir contigo... – e a voz dela era suave, mais suplicante que insistente.
- Eu sei, eu sei... mas eu de noite penso melhor... sou mais criativo.
- És mais criativo ?
- É verdade... talvez seja do silêncio... ou até da tua companhia, não sei...
- Mas eu também te faço companhia de dia...
Ele levantou-se e foi servir-se de mais uma dose de Martini.
- Sabes, Lila ... tu transformaste-te num vício... é horrível...
- Eu ? Um vício ? Esse tom de voz magoa-me...
- Não é essa a intenção, certamente... aliás, sabes bem que faria tudo para não ferir os teus... sentimentos... mas a verdade é que estou viciado... em ti.
Ela soltou um riso abafado.
- Lila...
- Sim, Lucas ?
- Diz-me uma coisa... há quanto tempo estamos juntos ?
Por uns segundos, pareceu-lhe que os olhos dela brilhavam de um negro mais intenso, fitando-o penetrantes.
- Um ano, dois meses e dezoito dias... – murmurou ela – e mais algumas horas, minutos e segundos...
Ele ficou boquiaberto – Não estava à espera que soubesses... com essa exactidão...
- Claro que sei... queres que te recorde mais alguma coisa ?
Ele sorriu. Lila.
Lila era, sob todos os sentidos, a mulher perfeita. Não só fisicamente – apesar de as suas medidas, como era fácil de reparar, roçarem a perfeição absoluta – mas também na personalidade; uma personalidade dócil, meiga sem ser submissa, apaziguadora sem cair na monotonia. E, acima de tudo... era uma excelente ouvinte, com uma paciência infinita para lhe acompanhar o raciocínio nas noites mais melancólicas... como aquela.
Aquele ano, dois meses e dezoito dias... passara num instante, nem dera conta.
Ainda se lembrava do dia em que a conhecera... numa grande superfície, junto do balcão da fotografia, num daqueles fins-de-semana em que a cidade inteira se esvazia e vai passear, à moda antiga, para junto das montras dos centros comerciais.
Fora amor à primeira vista.
- Lila...
- Sim, Lucas ?
- Diz-me uma coisa... tu aprecias a minha companhia ?
- Oh, Lucas... que pergunta essa... claro que aprecio a tua companhia... muito mesmo...
- Tens sido feliz... ao longo deste ano em que vivemos juntos ?
- Claro que sim, Lucas... muito feliz, mesmo.
- E eu ? ... Sentes que que me fazes feliz, também ?
- ...
- Então ? Não me respondes nada ?
- Lucas... não encontro resposta para ... o que queres saber.
- Só pretendia saber se achas que sou feliz contigo... se percebes isso...
- Lucas... não encontro resposta para ... o que queres saber.
Ele levantou-se, um sorriso enigmático nos lábios. Maquinalmente, serviu-se de mais uma dose de Martini. Permaneceu de pé, abrindo e fechando a outra mão, hirta de tanto carregar no teclado do computador. Finalmente, sentou-se de novo.
- Lila... – começou ele – vou deitar-me, está bem ?
- Claro que sim, Lucas... claro que sim, é muito tarde.
Carregou no botão negro e a imagem da bela Lila, deitada, envolta num lençol branco, semi-nua, esfumou-se do écran, crepitando de estática. Esperou mais uns segundos, enquanto o programa de inteligência artificial se desligava, fechando sucessivamente as rotinas da fala, da gramática, do vocabulário. Finalmente, as ventoinhas imobilizaram-se e o computador entrou num merecido descanso, silenciando toda a sala.
- Amanhã... preciso mesmo de lhe acrescentar mais algum vocabulário... – murmurou para si próprio – e talvez mais algumas frases diferentes...
Bocejou, preguiçosamente.
Lila, a voz feminina do programa de inteligência artificial ROBOX 2.0 precisava urgentemente de mais uns retoques.
- Amanhã... fica para amanhã... por hoje, já chega... estou cheio de sono.
Esvaziou o último gole de bebida e encaminhou-se para a porta da sala.
- Até amanhã, Lila.
Não se virou para trás, nem estranhou a ausência de resposta.
O computador já estava desligado.

 

 

publicado por entremares às 22:17
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3 comentários:
De Najla a 30 de Abril de 2009 às 13:43
Assim, de repente, o pensamento mais imediato foi que só mesmo artificialmente se consegue alguém tão perfeito!
Mas depois, apercebi-me que apesar da beleza do texto, roça o horror e o que provavelmente estamos a cultivar: a solidão, um mundo virtual, a perfeição que não existe e que nunca chega...

Excelente texto!
beijinhos
De entremares a 30 de Abril de 2009 às 16:50
É bem verdade... estamos cada vez mais solitários, mais insensíveis... mais fechados dentro da redoma. Podia ser o homem ideal, a mulher ideal... a verdade é que não passa de um espelho, do reflexo das palavras que cada um quer ouvir...

A realidade é bem diferente, não é ?
De Óscarito a 1 de Maio de 2009 às 19:01
É certo que a nossa mente nos pode pregar partidas; mas a nossa imaginação porque não tem limites pode levar-nos até lugares que nem sabemos que existem, ou às emoções mais transcendentes.
Acho que o "perigo" só existe se e quando o irreal passa a ser o real! Quando já não conseguimos distinguir e "nos passamos" para o outro lado!
Termino dizendo-te que, ainda estando deste lado, gostei dessa tua mulher; talvez por ser irreal, eu acho!
Abraço!!

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