Sábado, 25 de Abril de 2009

A bela e o monstro

 

Iris Montenegro não necessitava de mais nada para garantir um lugar ao sol, no mundo da fama. Com efeito, as suas crónicas semanais no suplemento de domingo do “ Folha de São Paulo”, dedicadas à análise dos acontecimentos mundanos, sob o ponto de vista de uma mulher muderna, independente e bastante crítica cedo lhe grangearam uma aura de culto jornalístico – tornando o seu nome uma referência quando o tema versava os direitos da mulher, a igualdade entre os sexos, ou a acção da mulher no mundo da politica.
Como se não bastasse, Iris Montenegro era “só” a autora do best-seller “ O mundo da bela e do monstro”, o livro com mais exemplares vendidos, em várias partes do mundo, durante o ano de 2008.
Assim, para além da fama jornalística, Iris assegurara uma entrada directa no restrito grupo de escritores milionários, com uma obra lançada no mercado.
Avessa a entrevistas, nunca aparecera na televisão, em sessões de autógrafos ou mesmo nas festas de natal do jornal. Como ela gostava de repetir – Nunca me entrevistaram quando antes de ser famosas, porque haveriam de o fazer agora ? – e assim recusava categóricamente qualquer pedido de entrevista, sessão fotográfica, o que quer que fosse.
O mundo da bela e do monstro – com uma mulher vestida de branco, sentada sobre a cabeça embalsamada de um tigre de Bengala – era uma fábula contemporânea, onde um músico sobredotado – mas ao mesmo tempo com o rosto desfigurado por um acidente em criança – assumia a figura de uma bela mulher, triunfando no mundo da ópera como cantora lírica. Claro que a história se desenrolava noutras histórias paralelas, mas o que mais cativara a atenção do público fora o acto final, quando a cantora interpreta a ária principal da peça, e sem se aperceber, termina o encantamento e ela se vai transformando aos poucos, perante o olhar atónito do público, na figura deformada do músico, o verdadeiro génio. E eis que o envantamento volta a acontecer, com o medo da plateia a transformar-se sucessivamente em espanto, depois em assombro, finalmente em delírio pelos dotes vocais inigualáveis da personagem, que alheia a tudo, continua a cantar, acreditando ainda que a sua aparência é a da bela diva da ópera.
Naquele dia, no terraço do hotel Ritz... ia fazer-se história.
Iris Montenegro aceitara finalmente conceder a sua primeira entrevista à revista “Letras”, o boletim mensal da sociedade brasileira de escritores. Com o maior espanto, não exigira nenhuma excentricidade, nem locais especiais, nenhuma publicidade, nada de banquetes ou cocktails, cobertura televisiva ou tratamento especial. Pedira simplesmente se podia ser acompanhada pelo director do jornal, o seu amigo de longa data, Ruben Oliveira. E assim se faria.
 
Sentados à mesa, no terraço do hotel, o jornalista e o director do jornal bebericavam vermutes, entretidos a contemplar o vai-vem de beldades junto da piscina. Os funcionários rodopiavam, servindo bebidas aos hóspedes do hotel, ajustando os guarda-sóis, entregando toalhas.
Ruben acenou. Um homem de meia idade, apoiado numa bengala aproximava-se da mesa onde decorreria a entrevista.
- Ruben... como vais ? – cumprimentou o recém-chegado.
- Mauro... ora viva, ora viva... senta-te, faz-nos companhia...
Cumprimentaram-se. O jornalista do “Letras” pediu mais um Martini.
- Então... e quem é o senhor ? – quis saber.
- Eu... eu venho para a entrevista. O senhor não é o jornalista do “Letras” ?
O outro ficou a olhar para o recém-chegado, depois para o director do jornal.
- Pronto, está bem... eu apresento-me de novo – e esticou a mão na direcção do jornalista – Iris Montenegro, aqui me tem para a entrevista...
Ruben Oliveira, o director do jornal, ria alegremente.
- Mauro, Mauro... – e ergueu o copo para mais um gole – estás a deixar o nosso amigo aqui... um pouco nervoso. Já te tinha avisado que às vezes... a verdade tem que ser dita de uma forma... mais suave...

 

publicado por entremares às 21:32
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