Sexta-feira, 24 de Abril de 2009

Maximus

 

- Fique com o troco...
E estendeu um par de notas sobre a bandeja reluzente, a acompanhar o ticket com o preço da refeição.
O funcionário, impecavelmente arrumado no seu uniforme caqui, agradeceu com o melhor dos sorrisos.
- Muito obrigado, senhor. Desejo-lhe um óptimo fim de semana...
Claro.
Só de pensar no valor que pagara pelo almoço... – chegaria para uma semana de refeições no luxuoso “ Gringo’s”, e esse já era de cinco estrelas...
Bem vistas as coisas... fora “só” uma excentricidade, levar a esposa até ao “Maximus”, o restaurante mais elitista de todo o Novo México.
Mas o Maximus... bem, nem se podia tentar enumerar as diferenças em relação aos restantes restaurantes ... à excepção de também ser um local onde se podia comer; mas as diferenças terminavam por aí. Com efeito, o Maximus tinha duas características que o tornavam único em todo o mundo.
Em primeiro lugar... só tinha uma mesa.
Sim, isso mesmo... uma única mesa; o que significava servir um único jantar por noite.
Em segundo lugar... não existia qualquer menu para o prato principal, sómente a carta de vinhos. E isto porque o cliente podia escolher, à sua vontade, aquilo que quisesse comer, confeccionado da maneira mais exótica que imaginasse.
Portanto... só o simples facto de tentar reservar uma mesa para o Maximus... já era uma aventura, algo que – diziam os entendidos – até movimentava um mercado paralelo de influências e trocas de favores, e que mesmo assim não dispensava uma fila de espera com mais de seis meses.
Valera a pena ?
Claro que sim. A decoração da sala, a grande lareira ao fundo, a crepitar alegremente, as peles a cobrir todo o pavimento de pedra, as janelas panorâmicas sobre os jardins... tudo era único no Maximus. Ele saboreara um belo pato estufado, servido dentro de um ananás, e a esposa deliciara-se com um arranjo exótico de lagostas, acompanhadas com uma colorida salada grega. Uma delicia.
É claro que todo o local fora concebido para transmitir a própria noção de excentricidade, justificada pelos preços exorbitantes praticados. Não obstante, uma legião de seguidores, constituida por politicos, artistas famosos, gente da alta finança e gestores de sucesso, aguentava estoicamente na lista de espera, por um jantar solitário no Maximus.
- Quer que chame o motorista ?
- Pode chamar.... vamos só ao bar tomar um café...
 
E pronto.
As portas abriram-se e uma lufada de ar abrasador irrompeu pelo hall de entrada. A temperatura exterior, naquela zona recôndita do Novo México, raras vezes baixava dos trinta graus. E, apesar do sol já se ter posto há muito, os termómetros ainda teimavam em não descer dos 36º. Um autêntico sufoco.
Mas a temperatura ambiente do Maximus, com uns muito confortáveis 20ª, convidava ao descanso. Excepção feita à sala de jantar, onde o sistema central de arrefecimento conseguia baixar a temperatura a uns incríveis 10º, de tal forma que o calor da lareira, sempre acesa, transmitia um conforto acrescido aos comensais.
O casal entrou apressadamente para a viatura e esta logo se pôs em movimento, perdendo-se no asfalto, rumo à cidade das luzes.
 
À beira do deserto, o Maximus permanecia serenamente luminoso e fresco. A lareira da sala de refeições, alheia a todas estas contradições, continuava a lançar pela chaminé anéis de fumo escuro, da mesma cor da noite que caía...
 
 
Nota: Existiu mesmo um restaurante de luxo, com a excentricidade descrita na história; o conseguir criar uma temperatura invernal, só para brindar os clientes com o acender da lareira, apesar da temperatura exterior ser altíssima. Não se situava no Novo México, mas sim no norte da Venezuela, junto ao lago de Maracaibo.
 

 

publicado por entremares às 21:41
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1 comentário:
De Jorge Soares a 26 de Abril de 2009 às 00:08
Houve uma altura em que na Venezuela todas as excentricidades eram permitidas..... na altura em que ainda não se tinha percebido que aquilo que os Árabes conseguem no deserto, os católicos não conseguem no paraíso ....

Mais um excelente texto...

Abraço e continuação de Bom fim de semana
Jorge

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