Quinta-feira, 23 de Abril de 2009

Viva a música

 

 

Qualquer dia, teria que trocar de despertador.
Começava a tornar-se irritante, aquele trim-trim metálico, estridente, que perfurava os tímpanos adormecidos e o fazia acordar em sobressalto, dia após dia, semana após semana.
Definitivamente. Precisava de algo mais … suave.
Espreguiçou-se, saboreando os primeiros raios de sol que entravam pela janela aberta. Não fosse o pequeno pormenor de ser segunda-feira ( aquele dia de que é difícil alguém gostar )e a temperatura primaveril, o céu azul forte e aquele sol risonho fariam as delícias de qualquer pessoa; pelo menos as pessoas que, como ele, se sentiam nascidas para o sol.
O cinzento deprimia-o, transformava-o num ser obtuso, amarrava-lhe os neurónios em nós cegos. Detestava o cinzento, detestava a chuva… e por consequência, detestava o Inverno. Não pelo frio… mas por tudo o resto.
Mas hoje… - e lançou de novo um olhar à janela – hoje era um daqueles dias…
Depois de um duche rápido e de um pequeno-almoço á base de café forte e torradas, dirigiu-se à sala, ainda de roupão.
Qual seria a escolha do dia ?
Distraidamente, foi passando os olhos pela enorme colecção de música, espalhada pelo móvel de parede maciço que cobria integralmente a parede grande da sala. De uma forma muito organizada – e sem etiquetas, uma vez que já lhes decorara a posição há muito tempo – lá foi analisando todas as possíveis escolhas…
No canto superior… as bandas sonoras… os clássicos de jazz, a música francesa. Mais abaixo, a música étnica – de longe, a sua favorita – os grupos Godspell, os espirituais negros, a música ambiente, os ritmos afro-americanos, um pouco de tango de Piazola. Ainda mais abaixo, o rock e pop seleccionados, algumas coisitas dos “seus” anos oitenta e finalmente, no canto direito, toda a música portuguesa, alguma brasileira e espanhola e outras indefinidas.
Entremeados pelos milhares de CD´s, meticulosamente organizados por ordem alfabética, podiam observar-se alguns ainda por abrir, encerrados nas suas capas plásticas transparentes.
Fundamental, claro.
Era fundamental que existisse sempre algo ainda por estrear, um novo grupo de que nunca ouvira falar, uma compilação de raridades que nunca ouvira, alguma oferta de uma amigo… ou até algumas re-edições de álbuns sagrados… dos tais álbuns que ele teria que carregar consigo, se algum dia partisse para uma dia deserta…
Mas pronto, não era o caso. Não iria partir – pelo menos naquele dia – para nenhuma ilha deserta.
Mas – e já lá iam um bom par de anos – ia simplesmente repetir o seu ritual de todas as manhãs… o ritual sagrado de escolher um par de músicas, um par de musicas especiais para ouvir assim, no sossego tranquilo da manhã, antes de começar mais um dia de trabalho, enquanto deambulava pela casa…
Adquirira aquele ritual por acaso.
Um belo dia, lembrara-se de ligar a aparelhagem da sala – exagerando até o volume, por sinal – e colocar “ O hino da alegria” . Vestiu-se, tomou a primeira refeição do dia, arrumou a confusão de livros espalhados pelo escritório – tudo ao som dos acordes magníficos daquela obra prima de Bethoven. Quando saiu de casa e se sentou ao volante do automóvel, pronto para mais uma viagem até ao emprego, deu consigo a tautear alegremente os principais acordes da melodia. Coincidência… ou talvez não, aquele dia correra-lhe de feição, conseguira resolver alguns pendentes complicados que arrastava de há bastante tempo… e no dia seguinte, e ainda no seguinte… a influência positiva da música matinal fez-se sentir… a tal ponto que uma mera coincidência se transformou de súbito no mais sagrado dos rituais.
Portanto… o que poderia escolher para aquele dia, aquela segunda-feira radiosa, cheia de sol ?
Queria algo alegre… mas não demasiado dançável.
Queria algo cujos acordes pudesse repetir ao longo do dia, algo que fosse fácil de apreender… de se entranhar no ouvido.
Música brasileira, talvez ?
Franziu a testa, involuntariamente – Não… não vinha a propósito.
Alguma música dos anos setenta ? Ou oitenta ?
Hum… não, também não.
Continuou a procurar.
 
Pronto, estava decidido.
Seria uma valsa.
Claro que não iria dançar – vantagens e desvantagens de morar sozinho numa vivenda, sem vizinhos próximos. Por um lado, podia aumentar o volume do som até níveis exagerados, por outro lado, não tinha companhia para dançar a valsa… ou outra coisa qualquer.
Retirou o CD brilhante da embalagem protectora, colocou-o no devido lugar e foi sentar-se no sofá da sala, estrategicamente colocado ao lado das colunas de som.
Num crescendo de violinos, os acordes iniciais do “ Danúbio Azul “ encheram o espaço da sala vazia, enquanto os raios de sol, cada vez mais altos, projectavam um feixe amarelado sobre os tapetes acastanhados, envolvendo toda a atmosfera de uma coloração de Outono.
Levantou-se, acompanhando com um assobio o compasso principal da melodia.
Estava pronto.
 
- Meu caro Strauss... – exclamou, enquanto apertava o último botão do casaco – estás pronto ? ... Vamos a isso...

 

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publicado por entremares às 21:26
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2 comentários:
De Filha a 24 de Abril de 2009 às 14:29
Publiquei a adaptação da tua história =)

beijo
De entremares a 24 de Abril de 2009 às 14:47
Olá Dona Margarida... Como vai a cidade dos estudantes ?

Bjs ao quadrado.

Pai

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