Domingo, 19 de Abril de 2009

Yoki, a pequena raposa

 

- Yoki...Yoki... onde te meteste ?
Nem resposta. A pequena Yoki esgueirara-se de novo para a floresta, aproveitando uma distracção da pequena Layla, a mais jovem habitante do acampamento da floresta.
Layla era a filha mais nova de Ayanna, a mestre tecelã da tribo. Vivia sózinha com a mãe num pequeno tippi, bem ao lado da tenda do curandeiro.
Não chegara a conhecer o pai – a mãe contava-lhe histórias heróicas de grandes caçadas, de proezas de força e astúcia, mas um dia, um grande urso pardo levara a melhor, e o grande caçador não voltara para casa.
A irmã mais velha também já partira, no inverno anterior – as últimas noticias faziam crer que já fora mãe, e que tudo estava correndo pelo melhor.
Ayanna, a mãe, era uma mulher muito ocupada, tendo a seu cargo o tratamento das peles, o corte do cabedal e a feitura dos panos que habitualmente revestiam os tradicionais tipis da tribo.
Os Dakota eram uma tribo pacífica, confinada ao sopé das montanhas – onde montavam o acampamento de inverno – deslocando-se pelo interior da pradaria durante a primavera e o verão, altura das grandes caçadas aos bisontes, a sua principal fonte de sustento.
Layla, como a mais jovem da tribo, gozava de um estatuto especial.
Podia montar a cavalo, ajudar o curandeiro a recolher todas as ervas mágicas que este utilzava para as suas poções e até acompanhar os jovens caçadores à floresta, sempre que o objectivo fosse verificar as armadilhas ou tentar apanhar alguns coelhos desprevenidos.
Fora precisamente numa dessas incursões pela floresta que encontrara ... Yoki.
Baptizara-a de Yoki, que significava no dialecto da tribo “ gota de chuva”, precisamente porque a encontrara encharcada, caída num riacho, extenuada demais para conseguir fugir.
Yoki era uma pequena raposa... e aquele dia marcou Layla para sempre.
A pequena raposa também se afeiçoou à sua gentil tratadora e desde logo se criou uma relação de profunda amizade entre as duas. Yoki caminhava ao seu lado, a princípio tímida e enroscando-se nos pés, fazendo-a tropeçar... depois mais confiante, correndo provocadora à sua volta, abocanhando as pontas dos panos das tendas, derrubando com o nariz os cestos de fruta e fazendo a vida desgraçada às galinhas, que pelo sim pelo não, preferiam correr e cacarejar em pânico, sempre que a viam aparecer...
 
- Yoki... Yoki... onde estás ? – repetia Layla, enquanto se embrenhava na floresta.
Mais uma vez... nem resposta.
Avançou ao longo do carreiro, afastando a densa vegetação com as mãos. O sol, apesar de ainda ir alto no céu, mal penetrava naquele manto verde opaco, rasgando ocasionalmente alguma clareira e projectando-se sobre o chão, completamente coberto de folhas verde-amarelo das acácias.
O caminho, apesar de estreito, permitia-lhe vislumbrar uma clareira maior, um pouco mais à frente – conhecia bem o local, de tantas vezes acompanhar o velho curandeiro até ao local.
- Yoki.... Yoki... onde te meteste ?
Nem sinal da pequena raposa. Layla continuou, atingindo a clareira. Nada.
Um leve estalido de ramos quebrados levantou-lhe o ânimo – Aquela malandra estava a querer jogar às escondidas ? Ora, ora... então se era assim, ela ia fazer-lhe a vontade...
Contornou um emaranhado de arbustos altos, na direcção do ruido que ouvira.
- Yoki... – sussurou – vou apanhar-te...
Imobilizou-se junto à orla de um maciço verde escuro, à espera de novo ruido que denunciasse a posição exacta da pequena raposa. Onde estaria ela ?
Novo estalido. Um pouco mais à direita...
Avançou dois passos.
O estalido seguinte não foi só um estalido. Com um rugido ensurdecedor, o corpo descomunal de um urso pardo ergueu-se por detrás dos arbustos e avançou, esmagando-os por completo à sua passagem. Rugiu novamente, apoiado só nas patas traseiras, agitando irritado a grande cabeça.
Layla pôde observar aquela enorme boca demasiado perto de si... e ficou pregada ao chão, gelada de medo.
Um urso pardo, ali, tão próximo do acampamento? Como era possível ?
O urso avançou mais um passo, brandindo a enorme pata na direcção do rosto da pequena Layla.
Na ânsia de fugir, a pequenita tropeçou numa raíz mais saliente e caiu, desamparada, no chão.
E, naquele momento, sentiu pela primeira vez o sabor amargo do medo na boca, a garganta a querer gritar por socorro e a não conseguir proferir mais que um ténue sopro, que nem ela própria conseguiria ouvir...
Novo estalido. Desta vez um pouco à esquerda do local onde aparecera o grande urso.
Pelo canto do olho, Layla mal podia acreditar no que via.
Yoki, a pequena raposa, rosnava ameaçadora, junto aos arbustos. Num ápice, lançou-se sobre uma das patas do urso, tentando mordê-lo.
O enorme animal pareceu surpreso pela ousadia e mal se moveu. Quando finalmente sentiu alguma dor na pata, rugiu alto a sua fúria e com a pata dianteira, atingiu a pequena raposa com uma violenta sapatada, projectando-a contra a árvore mais próxima.
Ouviu-se um leve som de algo a quebrar-se e depois um baque seco, quando o pequeno animal caiu imóvel no chão da lareira, para não mais se mexer.
 
Depois... o que se passou depois ? Custava a recordar...
Muitos gritos, objectos a voar de encontro ao urso, vozes familiares, figuras familiares de volta dela, interpondo-se entre ela e o urso, enquanto a arrastavam para local seguro. Ouviu os rugidos do urso ferido, novamente mais gritos... até que minutos depois, tudo sossegou... e o silêncio voltou a descer sobre a floresta, lambendo as feridas.
 
Um rosto familiar. Novamente. Era a mãe, Ayanna, debruçada sobre ela, passando-lhe a mão pelos cabelos, segurando-a nos braços.
- Layla... Layla... minha filhinha...
O pensamento da pequenita fugia-lhe noutra direcção. Num sussuro, o olhar ansioso interrogou a mãe.
- Yoki... onde está a Yoki ?
A mãe abanou a cabeça, pesarosa. A pequena raposa não voltara a mover-se, depois do sucedido.
- Yoki... Yoki partiu, minha filha... está com os espíritos dos seus antepassados, agora...
A pequena Layla ainda tentou suster aquela lágrima rebelde, que teimava em espreitar ao canto dos olhos. Mas a tristeza venceu-a...
Fechou os olhos... e chorou.

 

publicado por entremares às 22:29
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1 comentário:
De José Kuski a 20 de Abril de 2009 às 15:35
Esta dava para ilustrar como conto infantil

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