Sábado, 18 de Abril de 2009

A grande decisão

 

- Namastê... – e inclinou-se respeitosamente.
- Namastê... para ti também. Tocou-lhe com a mão na testa e continuou o seu caminho.
 
Tirupati acabara de completar dezassete anos. Rosto esguio, pele clara, olhos escuros e penetrantes, um sorriso sempre ao canto dos lábios – uma simpatia contagiante, como gostava de repetir o pai, o respeitável alfaiate do bairro.
E não exagerava, o embevecido pai. Tirupati Vasnirah, a filha mais velha de seis irmãs sempre fora o orgulho da família, a menina mais mimada, talvez até pelo seu temperamento extrovertido, sempre com uma resposta pronta na ponta da língua, sempre disposta e voluntária para todas as tarefas, sempre disponível.
Na escola, desde cedo se destacara. Aprendera num ápice a ler e a escrever, compunha pequenos poemas, batia os rapazes nas corridas à volta do pátio e até conseguira combinar com o vizinho da loja de electrodomésticos o seu primeiro negócio, para espanto de todos; Uma bicicleta amarela, reluzente e cromada, a troco de um mês de pequenas tarefas ao final do dia, depois da escola – entregar cartas no correio, recados aos clientes, transportar pequenos electrodomésticos e ajudar na arrumação das prateleiras.
Tirupati era, portanto, uma moça decidida. De tal modo que quando metia uma ideia na cabeça... bem, era muito difícil fazê-la mudar de opinião, mesmo quando a ideia não era lá muito adequada.
E, naquele momento, era essa a opinião de toda a família, a começar no velho alfaiate e a terminar na irmã mais pequena, Visnhi, de apenas seis anitos.
A escolha do futuro de Tirupati era, no pequeno bairro de Atusha, periferia de Calcutá, motivo generalizado de conversa.
- Uma cara tão linda ... – diziam uns - ... porque não vai ela para Bollywood ? Seria famosa num abrir e fechar de olhos...
- O que pensa o velho Vasnirah sobre o assunto ? Será que ele vai consentir ? – interrogavam-se outros.
Tirupati, inabalável na sua decisão, ignorava sistemáticamente todos os comentários.
- Minha filha... dissera-lhe a mãe, numa daquelas conversas em privado – tu sabes que eu gosto muito de ti... e sabes que não sou tão tradicional como o teu pai... mas acredito sinceramente que, desta vez... ele tem razão. Devias repensar a tua decisão...
- Mas, minha mãe... eu já pensei, a sério que pensei... e pensei muito sobre o assunto... e sabe que não faria nada, de propósito, para vos aborrecer... mas isto é diferente... é o meu futuro...
- Tirupati... mas tu és tão nova... tens ainda uma vida inteira pela frente... és inteligente, és bonita, tens todos os rapazes do bairro atrás de ti, és a melhor aluna da escola... já viste que vais abdicar de tudo isso ... já mediste bem as consequências ?
Tirupati estava decidida.
Mas o mais dificil, apesar da decisão que tomara... era explicar à sua pequena irmãzinha
Visnhi, porque motivo se iriam separar... e explicar-lhe que não sabia quando se voltariam a ver...
- Sabes, minha pequenina .... – e Tirupati sentou-se com a pequena Visnhi ao colo – eu tenho que partir por uns tempos... mas depois volto...
- Voltas quando ? Amanhã ?
Passou-lhe a mão pelos cabelos.
- Não... não posso voltar amanhã.... sabes, é que eu tenho que fazer uma viagem.... uma grande viagem... e como é muito longe, vou demorar muito tempo a voltar...
- Mas não está certo – protestava Visnhi – tu disseste que ficarias sempre ao pé de mim...
- Minha irmãzinha querida... eu vou escrever-te muitas cartinhas, tu vais ver...vou mandar-te muitas fotografias, e assim vais sempre saber onde eu estou...
- Prometes ?
- Claro que prometo... e tu sabes que eu cumpro sempre aquilo que te prometo, não sabes ?
A pequenita ainda esboçou um sorriso, não convencida.
 
No dia seguinte, despediu-se de todos.
Quando a campainha da porta tocou e a mãe foi atender, uma figura feminina, de hábito azul e branco, surgiu na ombreira.
- Namastê... – saudou a visitante, inclinando-se respeitosamente
- Namastê... – retribuiu a mãe – vens buscar a minha filha ?
A visitante concordou, com um leve acenar da cabeça.
Tirupati dirigiu-se para a porta.
O passo seguinte marcaria o fim da sua adolescência feliz, o conforto do lar, a tranquilidade das brincadeiras, o refúgio da escola e dos amigos, as carícias da mãe, a adoração sem limites da sua pequena Visnhi...
O passo seguinte levá-la-ia ao hábito azul e branco das Irmãs da Caridade, a uma vida despojada de riquezas, de conforto, entregue à fúria dos elementos, ao convívio dos doentes, ao calcorrear interminável das ruas de Calcutá, tentando ajudar, sem olhar a raças, castas ou credos...
Fora uma decisão ... difícil ? Naquele momento, sentiu que não. Sabia que as verdadeiras dúvidas viriam depois, quando sentisse frio, fome, quando se sentisse doente e necessitada do ombro da mãe, dos conselhos sábios do pai.
 
Um último olhar para todos.
- Vamos... estou pronta.
Puxou o xaile amarelo sobre a cabeça e transpôs a soleira do seu mundo.
Lá fora, um mundo desconhecido, violento e agreste esperava-a.
Não o queria fazer esperar.

 

publicado por entremares às 20:45
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4 comentários:
De Menina do Mar a 19 de Abril de 2009 às 13:47
Esta história relembrou-me que não devemos desistir dos nossos sonhos, do nosso futuro, do nosso destino...
De entremares a 19 de Abril de 2009 às 21:14
É bem verdade... desistir dos sonhos é morrer... e todos têm o direito de sonhar ser algo, algo nem precisa de ser importante, para mais ninguém...
De vida de vidro a 19 de Abril de 2009 às 17:21
Essa é sem dúvida uma decisão difícil. Meritória também, para quem achar que é esse o seu destino. **
De entremares a 19 de Abril de 2009 às 21:17
É mesmo... suponho que todas as decisões que nos abarcam o futuro são difíceis... e, muitas vezes, temos que decidir sózinhos...

Obrigado pela visita.

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