Quinta-feira, 16 de Abril de 2009

O julgamento

 

Sashatin aguardava, impávida, o fim.
Desde o inicio do julgamento que antecipara aquele desfecho. Ou melhor, nem conseguia chamar aquela farsa um julgamento. Não falara, ninguém lhe perguntara nada, ninguém permitira que ela se explicasse, toda a manhã fora gasta em intermináveis citações do Corão, invocando as tradições, as obrigações, os costumes, os sagrados deveres das esposas, da educação... – algures entre estas alegações, Sashatin deixou de os ouvir, hipnotizada pelo tom monocórdico do juiz, que declamava os inúmeros motivos que fazia dela, Sashatin Assai Mullatin, culpada de desrespeitar as sagradas obrigações do Corão.
Sashatin era culpada.
Mesmo antes do julgamento, a sentença já fora proferida, todas aquelas alegações não passavam de um pequeno pró-forma para justificar o desfecho final. O juiz determinara que ela pecara contra a Fé, e como tal, não havia lugar à presença de advogados, testemunhas ou outros elementos abonatórios; pecara contra a Fé, e portanto o juiz e Ayatolla Mujathin seria o seu único advogado, a sua única testemunha, o seu único juiz. Sem apelo de sentenças, que a Fé não se discute. A Fé interpreta-se, e quem melhor que o juiz Mujathin para interpretar os sagrados versículos ?
Sashatin pecara contra a Fé.
Sashatin recusara-se a usar a burka, passeando ostensivamente com as suas duas filhas pelo mercado da aldeia, não obstante todos os avisos de que fora alvo.
Fora presa, levada ao calabouço, julgada. As filhas entregues à irmã, o marido certamente sem saber de nada, em viagem de negócios. Quando voltasse, seria certamente demasiado tarde. Dar-lhe-iam provavelmente a noticia que era melhor assim, que ela desafiara as tradições, ou até acrescentariam alguns pontos menos abonatórios, que ela estava a ser uma má influência para as filhas, qualquer coisa do género...
Fosse como fosse, ali estava ela, encostada à parede branca do tribunal, a face oculta pela burka azul, à espera do suplicio.
O juiz Mujathin fora peremptório. Nos crimes contra a Fé, o único castigo admissível era ... a morte por apedrejamento.
 
 
Mustafah Mullatin descia do autocarro, bem junto do tribunal, quando se ouviu o primeiro grito. Olhou em redor.
A poucos metros de distância, um grupo de homens atirava desenfreadamente pedras contra um vulto azul, caído junto da parede branca – provavelmente, mais uma execução – pensou - ... ou mais um caso de adultério...
Espicaçado pela curiosidade, acercou-se do local.
- Quem é ela ? – perguntou a um velho, que segurava uma pedra em cada mão.
- Não sei... – respondeu-lhe o velho – só sei que foi vista a passear pelo mercado sem burka... e se recusou a colocá-la, mesmo quando lhe ordenaram... – e ao mesmo tempo, o velho colocou-lhe uma das pedras que segurava nas mãos. – Toma...
Mustafah imitou-lhe o gesto.
As pedras voaram contra a massa informe, caída no chão. Sob o azul dos panos, sobressaiam agora numerosas manchas de sangue.
A figura caída estremeceu uma última vez e imobilizou-se, em definitivo. Apesar disso, as pedras continuaram a acertar-lhe, no rosto, nos membros, quase a soterrando.
 
Minutos depois, tudo estava terminado.
Mustafah aproximou-se, à semelhança dos outros, da figura inerte. O juiz Mujathin debruçou-se e num gesto repentino, arrancou a cobertura da cabeça, de um azul húmido de sangue.
- Foi feita justiça – gritou ele, em apoteose – assim como será sempre feita justiça, a todos os que pecarem contra a santa Fé...
Mustafah espreitou por cima dos ombros da multidão curiosa. Já agora, queria ver se reconhecia o rosto.
 
Por um instante... o mundo deteve-se diante dos olhos.
Podia ver ... mas recusava-se a acreditar.
 
- Sashatin ? A minha Sashatin ?
As forças abandonaram-no e como um peso morto, caiu desamparado no chão.
Vivo... e culpado.

 

publicado por entremares às 21:58
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