Quinta-feira, 31 de Dezembro de 2009

As doze badaladas

O novo endereço do ENTREMARES passou a ser:

 

http://www.entremares-entremares.blogspot.com/

 

 

 

 

 

Poderia o verde dos campos ser composto de tantos verdes, de tantas tonalidades?

Podia… podia sim; e quente, afagado pelas brisas mornas do sul.

Tal como o céu, liquido de uma mistura de cores impossível de descrever. Seria azul, branco, cinzento? Talvez um pouco de tudo, espuma de cascatas, reflexos do sol poente, flores silvestres.

Ao fundo, os recortes ondulantes dos morros, enfeitando a paisagem.

E até onde a vista alcançasse… o silêncio natural do vento a abanar as folhas das árvores.

 

O relógio da torre fez-se então ouvir. Solene, indiferente à data.

Uma, duas, três…

 

Meia-noite.

Uma simples mudança de dia, uma simples mudança de ano. Porquê então no peito aquele aperto… como se a própria vida lhe quisesse saltar para longe?

Todas as noites não eram iguais? Em todas elas o relógio não batia as mesmas doze badaladas? Então porquê? Porquê aquela ansiedade?

 

Quatro, cinco, seis…

Recordou, como num sonho longínquo, algumas datas da adolescência já distante, agarrando freneticamente a garrafa de champanhe, os olhos postos num qualquer relógio, à espera do mágico momento em que os sonhos se cumpriam. Quantos desejos subiam aos céus, nessas noites? Quantos apelos mudos, quantas vozes caladas, quantas velas se acendiam na promessa de um novo amanhecer, de um novo ano pleno de felicidade e arcos-iris coloridos?

 

Sete, oito, nove…

O que desejava ele para os instantes que se seguiriam? O futuro?

O mesmo que todos os restantes mortais - ser feliz, ser simplesmente feliz.

Que mais se pode desejar do futuro, senão uma dose generosa de felicidade?

 

Dez, onze… doze…

Os foguetes explodiram na noite, enchendo os céus de luzes e estrondos. Gritos, pessoas a correr pelas ruas, música, uma imensidão de buzinas, archotes, balões, serpentinas a voar.

Ano novo.

 

Sorriu e lançou mais algumas achas para a fogueira.

A noite estava fria - como todas as noites de ano-novo, já era habitual.

À volta da enorme fogueira, bem no centro da praça principal, uma roda de rostos silenciosos fitava as chamas, indiferentes ao ribombar dos festejos.

 

- Que fotografia é essa? - quis saber o homem que estava ao lado, observando com curiosidade a imagem das montanhas verdes que ele segurava nas mãos.

- Esta?... é muito longe daqui… você não conhece…

O outro fez que sim, claro que não deveria conhecer. Subiu o casaco até às orelhas, para se proteger do vento.

- Pelo menos, lá deve estar calor… - resmungou - bem melhor do que isto…

 

Ele não lhe respondeu.

Limitou-se a olhar de novo para a fotografia.

- Para o ano… - prometeu a si próprio - … para o ano…. Estarei aí…

 

 FELIZ 2010 PARA TODOS VOCÊS

 

publicado por entremares às 12:53
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Quarta-feira, 30 de Dezembro de 2009

O salto da alma nua

 

O novo endereço do ENTREMARES é: http://www.entremares-entremares.blogspot.com/

 

 

- Vais desistir, não vais?
Aquela voz irritante recordava-lhe a sua própria voz, de tempos idos.
Houvera um tempo longínquo em que se lembrava de ter tido uma voz assim – fina de falsete, adoçicada e sempre cheia de reticências.
- Não, não vou.
- Mas os obstáculos... já viste a altura do obstáculo? Tu nunca saltaste nada assim...
E a voz, cómodamente instalada na sua cabeça, mantinha-se inalterável no timbre, na entoação.
- E aliás... – continuou – o que te garante que depois desse obstáculo não exista um poço, uma pedra onde tropeçes? Podes cair, podes magoar-te, pensa nisso...
Tentou distrair-se, olhar pela janela. Lá fora, a paisagem era sempre a mesma, não existe muito que ver quando se está a voar a muitos quilómetros de altura, numa cadeira desconfortável e bem localizada sobre a asa do avião.
E a voz não sossegava.
- Repara... mesmo que consigas... por uma questão de sorte que eu nem acredito ... saltar esse obstáculo... haverá sempre outros depois... não os poderás ultrapassar todos... vê... reflecte...
Imaginou-se a ele próprio, diante do seu obstáculo.
Sabia que em parte, a voz irritante tinha razão num ponto. Nunca tentara antes saltar... sobre um obstáculo tão grande, tão complexo. Sabia. Sabia que carregava consigo o peso extra de muitos anos de dúvidas, de lastro emocional que agora lhe pesava sobre os ombros.
E a voz não desarmava.
- Repara... vê o que estás a fazer... embarcaste neste avião... nesta viagem... completamente às escuras de tudo.... estás seguindo um instinto, uma imagem... nada do que procuras é real, não existe...
Ergueu-se da cadeira e foi esticar as pernas doridas ao longo do corredor.
Não, não desistiria.
Sabia... – descobrira-o recentemente – sabia o que tinha que fazer.
E no seu cérebro, a imagem negra de um obstáculo intransponível desvaneceu-se aos poucos, acinzentando os cantos, deixando a luz entrar pelas frestas do quadro ressequido das suas próprias memórias.
Viu-se a tirar toda a sua roupa, do corpo e do espírito, até ficar nu, completamente nu.
Ao fundo, a voz irritante continuava a protestar argumentos confusos, cada vez mais distantes à medida que as peças de roupa iam tombando sobre o chão.
Finalmente, ficou nu.
Sózinho... ele e o seu obstáculo.
 
Correu.
Com todas as forças, como se estivesse a perseguir o último grão de ar, o último sopro de vida.
Saltaria aquele obstáculo, sim.
E aquela viagem.
E todos os obstáculos que estivessem depois daquele, escondidos na penumbra.
E todas as viagens, e todas as esperas que ainda se fizessem necessárias.
 
E foi então, algures por entre os passos sôfregos, o coração a bater cada vez mais rápido... que deixou de ouvir a voz.
 
Sorriu.
- Desistir? Nunca...

 

publicado por entremares às 00:09
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Segunda-feira, 14 de Dezembro de 2009

O rei morreu... Viva o rei.

 

 

http://www.entremares-entremares.blogspot.com/

 

E quem não precisa de mudar?

O Entremares, tal como o conheciam até aqui, morre aqui, neste post. Não morre o autor, não morrem as histórias, não mudam os laços que se criaram entre tantas e tantas pessoas, virtuais e reais, que se cruzaram por aqui.

 

Mas muda o espírito do blog. Ao longo de todos estes meses, aprendi neste fantástico universo que existe uma fronteira muito ténue entre o que se diz e o que se sub-entende, o que se palpita, o que supõe. As palavras, estas maravilhosas tenazes com que devoramos o mundo... também são conchas reais, duras como granito. As palavras fazem sonhar... mas também matam.

 

O ENTREMARES não sou só eu, são vocês todos, aí desse lado.

O café continua sempre fresquinho em cima da mesa, os bolinhos arrumados a um canto, para nos aquecermos nas noites frias.

 

Então... para quê mudar?

Por um único, minúsculo e... tremendo motivo.

 

Para que a vida real possa continuar.

Rumo a um céu azul.

Conseguem imaginar melhor motivo?

 

Um abraço a todos.

E agora... despachem-se.

Estamos a começar a servir as entradas. O novo endereço do entremares é:

 

http://www.entremares-entremares.blogspot.com/

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Quinta-feira, 10 de Dezembro de 2009

Blog Gincana - Novembro

 http://bloggincana.blogspot.com/

 

 

 http://bloggincana.blogspot.com/

 


http://bloggincana.blogspot.com/

 

 

Hoje, o post será necessariamente… diferente.

E complicado, muito complicado mesmo - porque isto de sugerir nomes, blogs, afectos… é muito limitador. Mas a tarefa deste mês da Gincana assim o pedia e creio que é uma tarefa bem interessante, a de sugerir blogs e pessoas, aumentando o circulo dos que conhecemos.

 

Portanto, e sem nenhuma ordem em especial, aqui vão três sugestões que recomendo vivamente:

 

Jorge Soares, pelo conjunto dos seus 4 blogs, a saber:

 

 

 

 

 

O que é o jantar ( http://oqueeojantar.blogs.sapo.pt/ )- Análise social, na primeira pessoa, sempre aberta a criticas e ao debate de ideias e opiniões.

 

 

 

 

 

Momentos e Olhares ( http://momentoseolhares.blogs.sapo.pt/ )- O blog onde se compila, através de fotografias, a sua visão do mundo.

 

 

 

 

Nós Adoptamos ( http://nosadoptamos.blogs.sapo.pt/ ) - A bandeira, a causa da adopção. A coragem de assumir que é bom ter uma casa e uma família com as cores do arco-iris.

 

 

 

 

Clube de Leitura ( http://oprazerdeler.blogs.sapo.pt/ )- Um espaço partilhado, de divulgação e de incentivo à leitura

 

 

 

 

2º - Manuela Pereira, pelo conjunto dos seus 4 blogs, e que são:

 

 

 

 

Cantinho da Manu ( http://divclube.blogs.sapo.pt/ )- O espaço pessoal de quem acredita que tem uma missão a cumprir sobre a Terra.

 

 

 

 

Existe um Olhar ( http://existeumolhar.blogs.sapo.pt/ )- As memórias que a vista captou e a fotografia gravou. 

 

 

 

 

 

Intervalo para Café ( http://intervaloparacafe.blogs.sapo.pt/ )-  Tertúlias em torno de uma chávena fumegante, espaço de partilha e reflexão.

 

 

 

 

Clube de Leitura ( http://oprazerdeler.blogs.sapo.pt/ )- Um espaço partilhado, de divulgação e de incentivo à leitura

 

 

 

 

- Libel, pela irreverência e criatividade que consegue imprimir aos dias cinzentos do Outono.

 

 

 

O meu Cantinho ( http://libel.blogs.sapo.pt/ )- O espaço pessoal onde se desafia quem ali aparece a deixar sempre algo mais que uma simples pégada.

 

 

 

 

 

Intervalo para Café ( http://intervaloparacafe.blogs.sapo.pt/ )-  Tertúlias em torno de uma chávena fumegante, espaço de partilha e reflexão.

 

 

 

E pronto, está cumprida a tarefa. Só falta que quem ainda não conhece estes blogs... passe a conhecer.

 

 

Um abraço a todos e... até amanhã, à volta da fogueira.

 

http://bloggincana.blogspot.com/

 

 

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Quarta-feira, 9 de Dezembro de 2009

A dúvida humana

 

- Sim... diz-me, o que pretendes de mim?
- Deus... eu tenho uma dúvida... uma dúvida que me está a atormentar... a destruir...
- Sim? E qual é a tua dúvida, que tanto te preocupa?
- Deus... tu não sabes?
- Eu? Porque haveria eu de conhecer as tuas dúvidas?
- Porque tu és Deus... e Deus sabe tudo...
- Não... explicaram-te mal, certamente. Eu não sei tudo. Criei tudo... mas não quer dizer que saiba tudo...
- Deus... eu tenho uma dúvida... sobre o amor...
- Oh, não, outra vez? Mas vocês só me vêm perguntar coisas sobre isso, sobre o amor? Não podem perguntar nada mais interessante, como quem vos criou, ou o que existe depois da morte, ou até qual o vosso destino? Tem que ser sempre sobre o amor?
- Deus... é que estou sofrendo com esta dúvida...
- Sim, sim, sim... já sei... aliás, ela já aqui veio exactamente com a mesma pergunta...
- Ela? Quem é ela?
- Não, nada, nada, esquece... estava pensando noutra coisa... mas diz lá... qual é a tua dúvida, pode saber-se?
- Deus... eu tenho... eu tenho certezas sobre quase tudo... tenho argumentos para quase tudo, tenho razão em quase tudo... mas não sou feliz.
- Sério? Por um momento, pensei que me estavas a querer tirar o lugar, com essas certezas todas, com essas verdades todas... e mesmo assim, com toda essa tua bagagem de sabedoria, dizes-me que... não és feliz?
- Sim, Deus... não estou feliz... porque tudo isso me está a afastar da pessoa que é a minha verdadeira felicidade...
- Interessante, sem dúvida... mas ainda não me disseste verdadeiramente qual é a tua dúvida...
- A minha dúvida? A minha dúvida é... o que devo eu fazer, Deus? Perder todas estas certezas, questionar tudo o que sei, tudo o que aprendi... ou ouvir simplesmente o coração?
- E isso, dizes tu... é uma dúvida?
- Sim, Deus... não sei como proceder para recuperar a felicidade que sinto a fugir, como o ar que respiro...
- A resposta é fácil... e não me importo nada de a dar... apesar de estranhar que tu mesmo, com essa bagagem imensa de sabedoria... não a tenhas descoberto sozinho.
- ...
- A resposta começa com uma pergunta. Vieste aqui pedir a minha ajuda, não foi?
- Sim, Deus... vim.
- E porque vieste?
- Porque vim? Porque... porque o meu coração me disse que era a ti que devia pedir ajuda...
- Ah...
- Como assim, ah? Deus... eu estou mesmo desesperado, preciso da tua ajuda...
- Sim... e a resposta que procuras é essa. Segue o teu coração. Ele sabe a resposta.
- ...
 
( Segundos depois )
 
- Ah, a propósito... antes que vás embora...
- Sim, Deus?
- Ela veio perguntar-me a mesma coisa, só para saberes... e também só para saberes... dei-lhe a mesma resposta que te estou a dar a ti...
 
 

 

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Terça-feira, 8 de Dezembro de 2009

 

Vagarosamente, pegou na caneta, à espera de um sinal.
A folha de papel, teimosamente em branco, insistia em não se revelar.
 
Certamente, algo deverá surgir – pensou, mordiscando sem pensar a ponta da haste dos óculos. Ajeitou-se sobre a cadeira, abriu um pouco mais os cortinados – talvez um pouco mais de luz...
 
Mas não, nada. Um rosto feminino, impossível de desenhar, fitava-o sorrindo, decalcado sobre a folha branca. Inexistente, uma miragem. Abriu e fechou os olhos vezes sem conta, esperando que a realidade se desenhasse de novo sobre o papel... mas tudo se revelou inútil, os contornos da face, a boca, as medeixas de cabelo, o olhar penetrante... tudo continuava ali, bem à sua frente, mesmo que só os seus olhos a pudessem vislumbrar.
 
Queria escrever as palavras “ ADEUS, DESISTO “.
 
Uma força insuspeita reteve-lhe o movimento da mão, quando a ponta da caneta tocou a superfície macia do papel. Lá fora, o céu que amanhecera cinzento desnudou-se por segundos de algumas nuvens e um raio tímido de luz invadiu a sala, aproveitou os cortinados abertos e foi banhar a folha de papel branco que ainda segurava na mão.
 
Por um segundo, um indefinível segundo, sentiu uma dor aguda trespassar-lhe o peito. Até quando... até quando conseguiria... arranjar forças? Para resistir? Para lutar?
 
Finalmente, pousou a mão e um fio de tinta molhou o papel sequisoso de palavras.
E escreveu.
 
“ Meu amor... “
 
 

 

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Segunda-feira, 7 de Dezembro de 2009

João e o Mestre

 

 

- Mestre…

- Sim, João?

- O que devo fazer para ser feliz?

- Para ser feliz…  e sentes-te infeliz neste momento, é isso?

- Sinto… sinto-me infeliz.

- E lembras-te…. Lembras-te do dia, da hora… em que começaste a sentir-te assim?

- Lembro…

- Então… porque não voltas atrás, até esse dia… até essa hora, João?

 

- Mestre…

- Sim, João?

- Porque são as escolhas sempre tão difíceis?

- As escolhas, João… sim… nem todas, mas muitas são difíceis…

- Fiz uma escolha difícil, mestre.

- Compreendo, João…. E foi isso que te deixou infeliz?

- Suponho que sim… antes da escolha… eu era feliz…

- Tens a certeza, João? Tens mesmo a certeza que antes da decisão… eras feliz?

- Ao menos, não me preocupava com nada, mestre… não pensava tanto como agora…

- Sim… a ignorância abre as portas de um certo tipo de felicidade, é verdade… mas não é também verdade, João, que o crescer, dói? Nunca te doeu crescer? Até fisicamente?

- Doeu sim, mestre…. Lembro-me bem…

- Algum dia preferiste não crescer….  E assim parar o sofrimento?

 

- Mestre…

- Sim, João?

- Quando eu for mais velho… assim da sua idade…. Vou deixar de ter todas estas dúvidas, todo este sentir-me infeliz por querer ter tudo…. E não poder?

- Claro que vais João, claro que vais…

- O mestre também tem dúvidas?

 

- João…

- Sim, mestre?

- Sabes… sou bastante mais velho do que tu… e tudo o que me perguntaste até agora poderia ser-te devolvido na forma de uma única pergunta…

- E como seria essa pergunta, Mestre?

- João… se não tivesses tomado essa decisão que tanto te aflige agora… conseguirias viver com o fardo de não a ter tomado? Porque a vida resume-se a muito pouco… a um mero jogo de acções e consequências… e só as acções geram consequências. Por isso te pergunto: Conseguirias viver com o fardo de não te teres aventurado na decisão que tomaste?

- Não mestre…. Não conseguiria…

- Assim pensei, João… e se pensares tu também…. Creio que é nessa resposta que terás que encontrar motivos para te sentires feliz…

 

 

publicado por entremares às 11:59
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Domingo, 6 de Dezembro de 2009

Aniversário

 

 

 

Hoje, a minha filha Iris completa nove primaveras.

Para todos vocês aí, desse lado, para todos os vossos filhotes, para todas as crianças, um abraço enorme, do tamanho do mundo.

 

Ser, simplesmente.

Feliz.

 

 

Bianca ... obrigado pela esperança.

publicado por entremares às 10:18
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Sábado, 5 de Dezembro de 2009

E depois do adeus


 

Com as mãos trémulas, abriu o pequeno embrulho, já sabendo antecipadamente o que iria encontrar. Não era a primeira vez, nem a segunda, nem a terceira… que lhe chegava às mãos um pacote como aquele, afunilado, envolto em papel acastanhado, pejado de selos de um país bem distante.

Sem querer, os olhos desviaram-se até ao fundo da sala onde, sobre uma velha mesa de tampo de madeira, um jarro avermelhado ostentava meia dúzia de tulipas amarelas, algumas delas já a murchar pelo efeito do tempo.

Quantas tulipas amarelas já recebera?

Quanto tempo já passara, desde a separação, a despedida, o choro e as lágrimas?

Como se houvera sido no dia anterior.

Ela terminara com tudo.

 

E no entanto, como evitar aquele sobressalto no coração, sempre que os dedos acariciavam as pétalas macias, como evitar aquele nó da garganta ao sentir o aroma da primavera exalado pelas flores? Como evitar tudo?

Como calar todos os pensamentos?

 

Naquele dia, o embrulho surpreendeu-a.

Vinha vazio, sem qualquer flor no seu interior.

Sem querer, franziu a testa de desapontamento. Um gesto ínfimo, involuntário, de desencanto, de incompreensão. O pacote vinha vazio - custava-lhe a aceitar o facto.

 

Não, não vinha completamente vazio. Um pequeno papel, cuidadosamente enrolado, espreitava sob o celofane que habitualmente embrulhava todas as  flores que recebera.

Pegou nele e levou-o para junto da janela. Nunca nenhuma das flores se fizera acompanhar por qualquer tipo de recado, de cartão. Nada.

 

Leu-o. Um, duas, três vezes. E novamente.

" Estou à tua porta, segurando na mão uma tulipa amarela. Queres vir recebê-la nas tuas mãos? "

 

Espreitou pela janela e viu-o, do outro lado da rua, segurando uma tulipa amarela, envolta por um plástico transparente.

 

Por um simples e infinito segundo, o tempo recuou e ela esqueceu-se de tudo, até de quem era. E muito simplesmente…. Chorou.

 

 

 

 

 

 

 

publicado por entremares às 16:34
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Sexta-feira, 4 de Dezembro de 2009

A pimenta do amor

 

 

 

- Meu amor...
- Não me chames amor... quando estou irritada contigo.
- Mas... não deixas de ser o meu amor, mesmo irritada. E posso saber porque estás irritada?
- Suspeito que estás a fazer-me ciumes... de propósito.
- Ciumes? Essa agora... mas tu nem és ciumenta...
- Quem te disse isso?
 
- Amor...
- Já te disse que não me chamasses isso, nestas alturas.
- Amor... desculpa se te aborreci... mas a sério... nem sei o que te aborreceu...
- Sabes sim, oh se sabes... ou o modo como tratas todas aquelas tuas amigas não te parece... excessivo?
- Amigas? Mas... eu sempre tratei assim todas as pessoas, amigas e amigos...
- Isso foi antes...
- Antes de quê?
- Antes de estarmos juntos.
 
- Amor...
- ...
- Tu nunca foste ciumenta... porque estás a sê-lo agora?
- Porque gosto de ti, simplesmente. É pecado, gostar de ti?
- Não... pelo contrário.... é maravilhoso. E o que fazes com essa flor na mão?
- Vou colocá-la num jarro com água. Ofereceram-me ontem no autocarro, um senhor que veio ao meu lado durante toda a viagem...
- ...
- Não dizes nada?
- ...
- A sério que não dizes nada? Tu nunca foste ciumento, pois não?
- Talvez tenha passado a ser... agora assim de repente.
 
 

 

publicado por entremares às 13:29
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Quarta-feira, 2 de Dezembro de 2009

O que fazer?

 

 E de repente, você acorda e vê que tudo mudou...

 

E então...o que fazer ?
Quando algo nos pega de surpresa ... Algo que tira todas tuas certezas, aquelas todas que você confiava já saber por “certezas inabaladas “e joga-as ao chão... algo que nunca imaginamos querer ou fazer e que de repente passa a ser o seu mais profundo desejo... Passa ser o que você mais cobiçou desde criança, só que ainda não sabia...
O que fazer quando medo é coragem, quando seu estomago é habitado por borboletas e você já não sabe se é alegria, receio, ansiedade... ou tudo isso junto... Se tudo que você sempre deu valor não faz mais nenhum sentido, e o que antes era loucura passou a se chamar esperança e vontade. Quando você passa a escutar os recados da lua...
O que fazer quando você olha seu mundo, mas não mais o reconhece como seu? Quando tudo que um dia você conheceu como aventura passa a ser o mais real e verdadeiro porto seguro? Quando todos os livros, que leu, passam a fazer sentido? Quando todas as poesias flutuam por sua mente te dando equilíbrio no ar, sem ao menos uma corda bamba.
O que fazer quando o espelho não mais reconhece seu sorriso? Quando o brilho do seu olhar transcende a máscara de outrora? Quando esta máscara já marcou sua face, mas insiste em querer cair? Seu rosto quer respirar, quer mostrar a felicidade nele estampada...
O que fazer quando não existem mais palavras para descrever tudo que sonhas e pensas? Sua mão suspensa entre a caneta e o papel e a mente insistindo em voar? E você se perde entre o certo e o errado...entre o bem e o mal...entre o visível e o invisível...
O que fazer quando você não é mais você...ou será que agora é você?
O que fazer?

 

Nota: Por vezes, as palavras de outros levam-nos a redescobrir as nossas próprias palavras. Este texto não é meu, sabem?

Escreveu-o a Regina d'Avila.

Mas na verdade... está tudo lá, tudo. 

E eu não o saberia dizer melhor que ela...

 

publicado por entremares às 21:36
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Terça-feira, 1 de Dezembro de 2009

Sem título

 

 

Amigos... preciso mesmo de colocar os pensamentos em ordem. Hoje de manhã, quando olhei para o espelho, não me reconheci.

Assustei-me com o que vi.

 

Fiquem bem.

Um grande abraço para todos

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publicado por entremares às 08:50
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