Segunda-feira, 31 de Agosto de 2009

A deusa das águas

Pintura de Maxine Gadd

 

 

Nos tempos em que os homens ainda falavam com a mãe natureza, existia uma pequena ilha, esquecida no meio do oceano, habitada por sereias.
Por vezes, os marinheiros receosos voltavam ao porto, contando histórias fantásticas de monstros marinhos, de tentáculos gigantescos e ondas mais altas que montanhas. Ao redor de uma rodada de rum, despediam-se dos que já haviam partido, engolidos pelas ondas ou perdidos pelo canto das sereias.
O mar, omnipresente e omnipotente, comandava a vida de todos os pescadores, de todos os marinheiros, de todos os aventureiros que se atreviam à conquista de um mundo novo, inóspito e… sedutor.
Mas o mar não se deixava conquistar por ninguém.
 
A ilha não tinha nome, nem localização certa. Quem já a vira ao longe, garantia ser pequena, escarpada, uma mancha verde a sobressair da imensidão das águas, algures a meio da viagem entre a ponta de Africa e o Novo Mundo.
Mas ninguém voltara vivo para contar a história, nem tão pouco confirmar as lendas.
Excepto talvez o Jim, o velho marinheiro que passava os dias a deambular pela costa, perscrutando o horizonte, como se esperasse a chegada de um navio. Às vezes, viam-no no bar, sozinho a uma mesa, a devorar com sofreguidão canecas de rum, rodando compassadamente um colar de conchas que nunca largava das mãos.
Uma vez, alguém ouvira o Jim dizer:
- Não é o que vocês pensam… aquela ilha é a coisa mais bela que vocês algum dia poderão ver à face da terra…
Nunca lhe conseguiram arrancar mais palavras ou explicações.
 
Muitos anos se haviam passado, desde que Iemanjá o vira partir, de coração desfeito.
O destino dos homens é outro – dissera-lhe o pai, para a consolar – os homens não nasceram para viver nas águas, como nós…
- Mas, pai… aquele homem… é tudo aquilo com que eu algum dia sonhei… percebe os meus cantos, afaga as minhas lágrimas, conta-me histórias para adormecer…
- Mas é … um homem, minha filha. E tu és Iemanjá, a deusa das águas, a rainha do mar. E ele precisa de voltar para junto dos seus semelhantes…
Iemanjá nunca conseguiu demover o pai, o senhor supremo dos céus e da terra. Tão pouco lhe disse que já era tarde, que já era demasiado tarde para o esquecer.
Podia ela ser uma sereia, podia ele ser um homem…. E mesmo assim, ela sentir que finalmente encontrara a sua metade perdida, a razão última de todas as suas perguntas sem resposta?
Ele fora o primeiro que conseguira olhar para ela, para além do aspecto diferente, para além do olhar, para dentro da alma. Tocara-lhe os sentidos, amara-a na espuma das ondas e adormecera depois nos seus braços, indiferente às águas, ao olhar curioso das medusas e ao barco que partira sem ele, julgando-o perdido.
E estava.
Perdido. De uma forma que nem ele conseguia traduzir em palavras.
Perdido… e encontrado.
 
Iemanjá fechou os olhos. De lábios entreabertos, sorveu os últimos aromas do seu paraíso. Para trás ficaria todo um mundo que lhe era familiar, a sua casa, todos os amigos e conhecidos. À sua frente, um mar imenso, incógnito e habitado por monstros desconhecidos aguardava-a.
O mar… e uma demanda.
Porque tudo tinha um tempo próprio para acontecer.
 
- Um dia… eu vou procurar-te… esperarás por mim?
Ele dissera-lhe que sim, que esperaria.
Todas as marés que o vento lhe levasse… ele esperaria.
 
Chegara a hora.
Mergulhou.
 

 

publicado por entremares às 13:22
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Domingo, 30 de Agosto de 2009

O beijo...

 

 

O olhar... aquele olhar.
Sobressaindo da penumbra, a pele acetinada adivinhava um deslizar de prazer, como se a ponta dos dedos soubessem – só eles – um caminho secreto por entre as estrelas.
Reclinou-se um pouco, à procura dela.
 
Conheceram-se num jardim, entre dois lagos de nenufares. Ela caminhava sózinha, um longo vestido a roçar as ervas do chão, uma sombrinha colorida e um chapéu ridiculo, que nela se transformava numa obre de arte. Ele tagaraleava com os amigos, na maldizência corriqueira de todas as manhãs de domingo.
Cruzaram-se na estreita ponte de pedra, entre os lagos.
Por um segundo – como pode a eternidade resumir-se a um segundo ? – os seus olhares convergiram um no outro... para não mais se soltarem.
 
A mão fria tocou-lhe as costas nuas. Estremeceu.
Os dedos dela reclamaram os dele. Ergueu os braços e envolveu-o num abraço interminável, enquanto deixava que os os olhos se afogassem naquele sorriso. Como podia um sorriso iluminar a escuridão, como se de mil chamas se tratasse?
 
Ela baixou o olhar, quando ele a convidou.
Ofereceu-lhe uma flor amarela e disse-lhe que o seu sorriso era mais cristalino que o nascer das águas. Que estava enfeitiçado, que preferia transformar-se na areia aos pés dela que permanecer longe do seu olhar.
E ela sorria infantilmente... de um jeito que envergonhava todas as deusas do Olimpo.
 
Os lábios tocaram-se, ansiosos.
O mundo desabou numa espiral de aguarelas coloridas, perfumando o êxtase dos sentidos. O universo – ali e agora – resumia-se aquele beijo, os corpos colados e imóveis.
O tempo emudeceu e vagarosamente, deixou que os amantes caminhassem nus sob um manto de estrelas, alheios à escuridão que tombava sobre eles.
Pouco a pouco, a pele macia adquiriu reflexos de marmore, os lábios colaram-se para não mais se soltar, o frio manso da pedra fechou-lhes os olhos numa expressão de prazer sem palavras, os cabelos soltos entrelaçados num labirinto de sombras.
 
 
( Silêncio )
 
- João... onde leste tu essa história? Aqui no guia do museu só diz “ O beijo, de Rodin”...
- Anh... o beijo... sim... desculpa, o que dizias?
- A estátua... a história... onde foste tu..
- Eu? Não... nada. Simplesmente... sinto que foi assim que ela surgiu.... nem podia ter sido de outro modo, não podia...
 
Ela olhou-o com ternura.
 
- João...
- Sim, Maria?
- Se eu te beijar... aqui e agora... não nos vamos transformar em pedra... pois não?
 
Ele apertou-a, como há muito tempo não se lembrava de o fazer.
- Quero lá saber...

 

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Sábado, 29 de Agosto de 2009

Conversas curtas: O homem que falava demais

 

 

Ele:    … hum… gostosa…
Ela:    …
Ele:    Bonita, gostosa… sexy…
Ela:    João…
Ele:    E essa boca… essa boca…
Ela:    João… oh, João…
Ele:    … esse pescoço macio…
Ela:    …
Ele:    Esse peito… que delicia…
Ela:    J-O-Ã-O…. Acorda!
Ele:    Anh ? Hum… o que foi?
Ela:    Estavas a sonhar…
Ele:    Estava? Então porque me acordaste?
Ela:    Porque… porque estavas a falar a dormir…
Ele:    Falar? Eu não falo a dormir…
Ela:    Ai falas, falas… eu ouvi-te.
Ele:    Não falo nada. E se falei alguma coisa… esquece, está bem? Se eu estava a dormir… é tudo invenção, não ligues…
Ela:    Ah, é?
Ele:    Pois… eu só digo disparates, quando estou a dormir…
Ela:    Ah… então era tudo mentira, é isso?
Ele:    Claro… não te preocupes… fosse lá o que fosse, era tudo mentira…
 
( PLAF )
 
Ele:    Hey… o que foi isso ? Que mal te fiz eu para me estares a bater ?
Ela:    Idiota…

 

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Sexta-feira, 28 de Agosto de 2009

Uns e os outros ( Retratos da vida )

 

Seis, sete… oito… nove. Nove pessoas.
Como era possível, nove pessoas? “Les uns et les autres”, a repetição rara de um clássico, numa sessão da meia noite… e só nove pessoas? Mas por onde andava o bom gosto? Ou só aqueles filmes de Hollywood com as grandes estrelas é que conseguiam esgotar as salas de cinema?
Não… decididamente, devia ser uma questão de gosto…
A sala, mergulhada na penumbra, ronronava ao som ténue de uma musica ambiente, indefinida.
Escolheu uma fila sensivelmente a meio da sala, cadeira numero nove. À sua frente, um casal de namorados, um pouco mais longe uma mulher sózinha e bem atrás de si um grupo de cinco adolescentes, ali sentados certamente por engano. Finalmente, bem na última fila, um solitário já de certa idade. Ficou na dúvida se estaria acordado ou a dormir, tal a posição incómoda em como dobrara o pescoço para trás.
O pano subiu.
Um a um, os bailarinos do Folies Bergière entraram em cena, o filme começava com todo o brilho dos anos trinta, numa Paris cheia de luz, desafogada e boémia, indiferente aos ventos da guerra que se aproximava.
Os cortinados das portas abriram-se ainda uma vez, dando passagem a mais dois espectadores atrasados. Um deles correu para a primeira fila – que estranho – e o outro sentou-se na mesma fila que a sua, mas no outro extremo.
 
Estaria a chorar?
Tentou olhar para ela, sem chamar demasiado a atenção.
O som abafado de um choro, disfarçado pela banda sonora do filme, chegou-lhe aos ouvidos.
O vulto feminino, sentado na sua fila, a meia dúzia de cadeiras de distância, agitou-se um pouco, ocultando a face com as mãos.
Estaria a chorar?
 
No grande écran, as tropas alemãs entravam triunfalmente em Paris, marchando sob o Arco do Triunfo. A música subia de tom, num rufar de tambores, para logo se distanciar, enquanto as imagens se sucediam, misturando a alegria dos vencedores com a amarga tristeza dos vencidos. A guerra, com toda a crueza da morte, enchia o ecran embrulhada de música, com se de um requiem se tratasse.
Olhou de soslaio para o lado.
Por um segundo, os olhares cruzaram-se... e ele desviou-o prontamente, aflito.
 
Alheias à vida real, as personagens da vida dos outros continuavam a desfilar, diante dos olhos. Algures, um pai recebia a noticia da morte dos seus dois filhos, enquanto ao lado uma mãe recebia um postal rabuscado à pressa pelo filho. A guerra continuava a ceifar vidas, num filme sem heróis. E a musica... sempre a musica... magnética, como um perpétuo bolero, acompanhando as histórias cruzadas de gente vulgar, vivendo momentos invulgares.
Não resistiu e virou-se lentamente.
Ela olhava-o fixamente e ele sentiu um frio a subir-lhe pelos dedos. E novamente desviou o olhar.
 
O bolero de Ravel.
Impossível não sentir algo. Apesar de ser a segunda vez... a sensação era a mesma. Aquele torpor saboroso que lhe assaltava os membros, adormecendo-os gradualmente, enquanto a música, repetitiva, ia subindo num crescendo. E no grande écran, o bailarino compassava os movimentos ao ritmo dos acordes, subindo, descendo, voltando a subir...
Sem dar conta, olhou para o lado, à procura dela.
Inclinada para a frente, parecia sofrer.
Um segundo antes de se arrepender, levantou-se da cadeira.
De cabeça baixa, percorreu as poucas cadeiras vazias e foi sentar-se ao lado dela.
 
- Sente-se bem?
Ela ergueu o olhar e uma lágrima rebelde disse-lhe que não, que não estava bem. Quis murmurar algo, mas os lábios entreabriram-se num silêncio suplicante.
- Precisa de algo? Não se sente bem? – insistiu ele, tentando ler-lhe os lábios.
- Não... obrigado – estou bem...
E debruçou-se de novo para a frente, os cabelos em desalinho a esconder-lhe o rosto.
- Venha apanhar um pouco de ar... far-lhe-á bem... venha...
E tocou-lhe no ombro.
Ela olhou-o bem no fundo dos olhos, como se lhe estivesse a decifrar os pensamentos.
- Você também veio procurar um local para chorar? – perguntou ela finalmente.
 
Ele não entendeu.
- Desculpe... não a compreendo...
Ela limpou os olhos húmidos com as costas da mão. A voz ainda lhe soluçava na garganta.
- O meu marido partiu ontem para o Afganistão... e eu estou em pânico... a sério que estou... tenho medo, tenho muito medo que alguma coisa lhe possa acontecer... a guerra é uma coisa horrível...
Ele ficou a contemplá-la, sem saber o que dizer.
- E você? Reparei que também estava triste, há pouco... o que veio aqui fazer?
 
Ele não lhe respondeu. Por um segundo, veio-lhe à memória a primeira vez que vira aquele filme, há mais de vinte anos. Na altura, numa sala cheia, ruidosa. Entrara de braço dado com a mulher, a gozar o último fim de semana de lua-de-mel. Ela adorara o filme e fizera-o prometer que voltariam uma segunda vez, só para poder apreciar de novo aquele bolero de Ravel.
 
Não pudera satisfazer-lhe o pedido.Poucos dias depois, um motorista embriagado ignorara um semáforo... e assim, simplesmente assim, de uma maneira tão fútil e sem sentido... perdera-a.
Para sempre.
Mas aquela mulher sentada ali ao seu lado não sabia isso.
Como no filme, a vida de uns simplesmente coexistia com a vida de outros.
Alheia a todos os pequenos dramas da vida real.
Involuntáriamente, abraçou-a.
 
No grande écran, o bolero de Ravel continuava, imperturbável, o seu crescendo, explodindo num frenesim de luz e de cor, com Paris ao fundo.

 

publicado por entremares às 21:33
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Quinta-feira, 27 de Agosto de 2009

Duelo ao sol

 

 

 

Agosto.
Uma tarde como outra qualquer - o mesmo vento seco, sibilando por entre os cactos ressequidos, o mesmo  pó do deserto já habituado às ruas, o calor tórrido queimando as sombras das poucas árvores ainda sobreviventes.
E a luz… aquele sol branco ofuscante, reflectindo os grãos de areia como espelhos polidos, rasgando os olhos já cansados do vento, sempre o vento.
Aquela hora da tarde, o silêncio era total.
 
Ajeitou o chapéu, protegendo os olhos.
Do outro lado da rua, o seu oponente imitou-lhe os movimentos, levando ostensivamente a mão à cintura; já levava o cinto rebaixado, o coldre aberto, as pernas entreabertas numa pose estudada, tantas e tantas vezes já utilizada em confrontos semelhantes.
Avaliavam-se mutuamente, receosos . Um movimento podia significar... tudo.
Tal como a mais leve distracção.
Na rua deserta, assim permaneceram de pé, imóveis como estátuas, os olhos semi-cerrados e as mãos a milimetros das coronhas das armas.
A ansiedade também mata.
 
Cansado de esperar por um deslize do adversário, tentou a sua sorte.
A mão direita voou para o coldre, adivinhando a posição da arma. Lançou-se para a direita, desviando-se da trajactória previsivel da arma do adversário, gritando:
 
- Bang, bang! Estás morto, estás morto...
 
O outro, ainda a tentar retirar a arma presa no coldre, protestava.
- Não é justo. A minha arma está presa. Assim não vale...
- Vale, sim. Deves-me 1 dólar, foi o que apostámos.
- Não, não devo nada. Temos que repetir. Eu sou mais rápido do que tu...
 
O pequeno vencedor, não contente com o desenrolar dos acontecimentos, decidiu invocar por ajuda.
- Mãe... Mãe! O Manel está a fazer batota outra vez. Eu matei-o e ele não quer morrer...
- Não estou nada...
 
Um rosto assomou a uma das janelas entreabertas da rua.
- Meninos... o que estão vocês a fazer aí fora, a esta hora? Querem ficar doentes? Não vêem o calor que está? Imediatamente para dentro de casa... Já.
Os dois irmãos trocaram um olhar de provocação, e o vencido ainda teve tempo de resmungar:
- Amanhã... à mesma hora. Quero a minha desforra...
publicado por entremares às 21:34
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Quarta-feira, 26 de Agosto de 2009

O candidato

 

 

Olhou de novo para a multidão, expectante, do outro lado do vidro embaciado.
O que lhes iria dizer?
 
Não fora sorte, certamente. Durante os quatro anos de mandato, limitara-se a dar o seu melhor, resistindo às pressões, aos entraves dos adversários e principalmente… aos pedidos dos amigos.
Detestava o trabalho de gabinete e, sempre que podia, refugiava-se nas ruas, misturando-se com a multidão. Por vezes reconheciam-no.
Ao princípio ofendiam-no, afinal de contas todos os políticos são iguais. Prometera combater a injustiça, alimentar os famintos, criar esperança. Ninguém acreditara que tudo não passasse do eterno discurso, já gasto por todos os seus antecessores.
 
Quatro anos depois… tudo mudara.
Deixara de ser o líder anónimo, o "ministro de calções" como a imprensa gostava de lhe chamar. Aos poucos, conquistara o seu lugar e, apesar de não ter conseguido concretizar tudo… não havia quem não reconhecesse que seria impossível fazer melhor. Daí que uma enorme onda de simpatia rodeasse a sua figura, principalmente pelas posições corajosas que tomara… desafiando os poderes, promulgando leis há muito congeladas no fundo das gavetas, propondo reformas e, principalmente… ouvindo as pessoas.
Sem o aparato habitual da segurança tão querido dos governantes, continuava a frequentar o mesmo restaurante de sempre, a ir ao cinema aos sábados à noite, a passear o pastor alemão Fredy no jardim e a correr pela marginal, de calções cor-de-laranja, todos os domingos.
Sempre que pensava no assunto, não conseguia evitar um sorriso.
Um dia, um jornalista tentou entrevistá-lo, precisamente num domingo de manhã. E ele acedera, colocando simplesmente uma condição.
- Pode perguntar-me o que quiser… desde que me acompanhe na corrida…
Claro está que a entrevista durou apenas três perguntas e outras tantas respostas, o tempo mais que suficiente para o repórter ficar para trás, sem fôlego… enquanto ele continuava o seu jogging, rindo como um gaiato.
E assim nascera a alcunha do "ministro de calções", claro.
 
Afastou-se da janela e rumou à saída.
Apesar dos conselhos de todo o gabinete, apesar das cartas, das ameaças, de tudo o que a prudência aconselhava… decidira recandidatar-se.
 
Abriu a porta e assomou ao exterior.
Uma multidão ensurdecedora recebeu-o com entusiasmo. Bandeiras, gritos, buzinas, gente empoleirada sobre os tejadilhos dos automóveis, equilibrados nos candeeiros de rua, em toda a parte onde pudesse caber alguém, estava alguém.
 
Num dos prédios sobranceiros ao grande jardim onde se anunciaria a recandidatura, o outro homem esperava, silencioso, resguardado na penumbra. Segurava sem qualquer traço de emoção o metal frio e mal o candidato se deslocou até à tribuna, encostou o olho à mira telescópica e acariciou suavemente o gatilho.  
Fez pontaria.
 
- Meus amigos… - e o candidato ergueu as mãos, tentando inutilmente acalmar o entusiasmo de todos os que ali se haviam dirigido para o ouvir. - Meus amigos…
 
O outro homem ajustou a mira, voltou a conferir a linha de mira.
Um tiro perfeito, sem obstáculos.
E com a calma que desafia toda a lógica… apertou o gatilho.
 

 

publicado por entremares às 18:54
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Terça-feira, 25 de Agosto de 2009

Dona Manuela

 

Sempre gostara de quadros de ardósia. Daqueles negros, pregados na parede, emoldurados em madeira.
Voltou a sentir nos dedos a sensação familiar do giz a deslizar na superfície lisa, esboçando números, desenhos, esquemas.
Claro que agora já não se usavam, substituídos por quadros magnéticos de canetas coloridas, quadros interactivos e uma infinidade de coisas mais, todas elas mais apelativas, mais multimédia, mais … actuais.
- Modernices… - deu consigo a resmungar.
A Dona Manuela já não os experimentara. Por limite de idade, reformara-se do ensino, ela que dedicara toda a sua vida adulta a ensinar crianças, decifrando as letras, os números, o mistério das contas de somar e subtrair, as partes do corpo e tantas outras coisas que, no seu tempo, se ensinavam aos mais pequenitos.
E ali estava ela, em frente ao quadro, segurando o ponteiro de madeira, a olhar para a classe, a sorrir.
 
- Então… gostaste da surpresa?
A Dona Manuela sorriu para a amiga.
- És uma tonta, Raquel… sempre foste. E agora, depois de velha, ainda estás mais…
A amiga ria, encantada.
- Não me importo… aliás, uma das vantagens da velhice é precisamente essa. Podemos fazer todas as tontices que nos apeteça, e ficamos sempre impunes. Não é óptimo?
- É, lá isso é verdade… mas diz-me lá… onde descobriste tu esta fotografia?
A amiga Raquel tinha um brilhozinho nos olhos.
- Ora… então não te recordas? Foi naquele dia em que o teu marido te foi levar à escola e até bateu com o automóvel no portão da entrada, não te lembras? De cada vez que revejo aquela imagem…. com ele todo irritado…
Riram-se as duas, com a cumplicidade de meio século de amizade.
Lembrava-se, claro que se lembrava desse dia.
O marido levara-a à escola, já atrasado para o emprego, protestando. Com a pressa… nem reparara no portão e… enfim, coisas que acontecem.
Nesse mesmo dia, a sua amiga de infância, a Raquel, levara a máquina fotográfica nova para a escola, para  capturar imagens da peça de teatro que andava a ensaiar com os seus alunos, qualquer coisa relacionada com o natal.
E assim de repente, abrira-lhe a porta da sala, gritara - Manu, olha aqui… - e clique, pronto, já estava, apanhada em flagrante junto ao quadro, ainda de ponteiro na mão.
 
- Nem me deste tempo para compor o cabelo…
- Nem foi preciso… mas vá, diz-me lá, gostaste ou não gostaste da surpresa?
Dona Manuela agarrou-se à amiga, num abraço sem palavras.
Não eram necessárias.
Cinquenta anos depois, conheciam-se demasiado bem para isso. Haviam partilhado a mesma profissão, a mesma escola, as mesmas amizades, cuidado dos filhos uma da outra, envelhecido juntas.
 
Dona Manuela colocou a fotografia emoldurada sobre a mesa, junto às chávenas de chá.
- Oh, Raquel… olha lá bem para a fotografia… eu até podia ter sido manequim, não te parece?
A amiga olhou para ela, depois para a fotografia… e novamente para ela.
E voltaram a abraçar-se, rindo perdidamente.

 

publicado por entremares às 19:48
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Segunda-feira, 24 de Agosto de 2009

Gilberto Capelo Gaivota

 

- Tenho medo…
- Não tens nada medo… eu estou aqui ao teu lado.
- Mesmo assim… e tu sabes voar muito bem… e eu não.
- Gilberto… não olhes para baixo, olha só para mim. Não confias em mim?
- Claro que confio, Fernão… mas tu és tu, e eu sou eu…
- Meu querido irmãozinho, se eu consegui… tu também vais conseguir…
- Isso queria eu… mas tu és o Fernão, és famoso, até escreveram um livro sobre ti… e eu sou só o Gilberto, o teu irmão mais novo, nada famoso e ainda por cima… medroso.
- Tu não és medroso. Não acreditas em ti próprio o suficiente, é só…
- Só? Quantas penas já perdi, com todas as quedas que dei? Já parti o bico, já torci as patas, já tentei tudo… mas não consigo…
 
Fernão Capelo Gaivota olhou para o irmão, frágil e de aspecto desamparado. Também ele próprio já fora assim, antes de descobrir o prazer sublime de voar. O céu azul deixara de ser um oceano desconhecido e passara a ser o seu refúgio, o local calmo para onde fugia sempre que precisava de um pouco mais de silêncio, longe dos grasnidos do bando.
Mas tudo isso levara o seu tempo, tudo isso custara um número interminável de quedas, a expulsão do bando, a solidão desgastante dos dias inteiros a voar sozinho, da alvorada ao anoitecer, tentando subir mais alto, descer mais rápido, curvar mais perfeito.
Chegara agora o tempo do seu irmão mais novo, Gilberto Capelo Gaivota - o tempo para o primeiro voo, o dia para a conquista da liberdade, o dia em que verdadeiramente se iria transformar numa ave, vencer as alturas, transpor os medos, ser gaivota…
 
Gilberto contemplava estarrecido o mar, desfazendo-se em espuma na base da falésia, muitas dezenas de metros abaixo. Só a visão das colunas de espuma a erguer-se, furiosas, rugindo como a tempestade, lhe metia medo. E nem os incentivos do irmão o faziam sentir melhor.
 
- Olha… vamos fazer assim… - animou-o o irmão mais velho - Eu salto contigo, está bem? Saltamos os dois juntos… eu vou ao teu lado, dou-te instruções… vais ver que assim é mais fácil…
Gilberto agitou o bico, desconsolado.
- Está bem, está bem… eu vou… mas por favor… não te afastes de mim, está bem?
Fernão puxou-lhe as penas da asa com o bico, carinhosamente.
- Claro que não me afasto de ti. Sou o teu irmão… estarei sempre aqui contigo…
 
Um passo mais… e o abismo ali ao lado, à distância de um pequeno salto. Depois… depois seria só abrir as asas, tentar controlar a queda, respirar fundo e … prazer. Sim, principalmente isso, tentar descobrir o prazer de voar.
 
Saltaram os dois.
Durante breves instantes, permaneceram de asas coladas ao corpo, ganhando velocidade.
Foi então que Fernão gritou para o irmão.
 
- Não consigo abrir a asa. Não consigo!
Gilberto olhou para o irmão, uma das asas aberta e a outra colada ao corpo, imobilizada.
- Fernão… o que se passa? Abre as asas…
- Não consigo, Gilberto, não consigo. É como se estivesse presa… salva-te, afasta-te de mim, ou cairemos os dois…
O pequeno Gilberto, já de asas abertas, batendo furiosamente para reduzir a velocidade, debicava desesperado a asa imobilizada do irmão, tentando libertar-lhe os movimentos. mas a asa continuava inexplicavelmente sem se mover, apesar de aparentemente nada a prender.
- Gilberto Capelo Gaivota… larga-me … e salva-te. Não te consegues ainda sustentar a ti próprio, quanto mais aos dois… salva-te…
O irmão nem lhe ligou. Descobrindo forças insuspeitas, redobrou os esforços. As asas abertas, cansadas e doridas, iam reduzindo aos poucos a velocidade da queda, enquanto que com o bico segurava firmemente o corpo do irmão.
- Não… nem pensar… eu consigo… vais ver… eu consigo…
 
A superfície do mar, ao longe serena e espelhada, rugia agora de perto, as ondas empurradas pelo vento a desfazer-se contra a falésia. Uns segundos mais e tudo estaria terminado.
Mas Gilberto não desistiu.
Inclinou o corpo para a frente, para oferecer a máxima resistência ao ar. Inchou o peito de ar e aumentou o ritmo do bater das asas. Deixou de as sentir, a dor a ultrapassar os limites do possível.
 
Lentamente… a queda abrandou. Mergulharam os dois, lado a lado, ainda unidos num abraço.
 
Minutos depois, voavam os dois lado a lado, batendo ritmadamente as asas.
 
- Fernão…
- Sim, Gilberto?
- Tu não estavas mesmo com a asa presa, pois não?
- …
- A sério… podes contar-me… não vai fazer diferença, agora que já aprendi a voar… mas conta… estavas a fingir, não estavas?
Fernão olhou para ele e sorriu-lhe.
- Ora, ora, irmãozinho… se não vai fazer diferença… porque queres saber?
- Porque… porque preciso de saber, é só…
- Olha Gilberto… em vez de te responder… digo-te simplesmente… que o teu primeiro voo foi muito mais perfeito que o meu… acreditas?
Gilberto não lhe respondeu.
Não acreditava… mas pronto. Se o irmão mais velho preferia assim… pois que assim fosse.

 

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Domingo, 23 de Agosto de 2009

Mulher de azul com o mar ao longe

Imagem de Ignessa Garmash

 

O mar... sempre o mar.
Não era azul, nem esmeralda, talvez turquesa. Talvez nem tivesse cor, talvez fosse só o azul do céu reflectido nas asas das gaivotas que lhe emprestasse aquelas tonalidades mágicas.
A areia e as pequenas pedras, de mãos dadas, rodeavam o oceano de espuma. A maré baixa deixara a descoberto pequenas grutas de caranguejos, peixes coloridos e buzios vazios.
Ao alto, alguns farrapos de algodão doce, a imitar nuvens, borrifavam o azul imenso.
 
E ela, esvoaçante... rodeada de gaivotas.
Uma brisa invisivel agitava-lhe os panos azuis com que se cobrira, imitando as cores do mar. Por breves instantes, pensou tratar-se de uma sereia perdida, esperando impaciente o encher da maré.
 
O pé dela espreitava as águas, as mãos segurando o vestido azul, a espuma a salpicar as rochas e o rosto de grãos de luz.
Impossível desviar o olhar.
Fechou os olhos.
Uma onda mansa invadiu-lhe os pensamentos, transportando-a para outros tempos e outros lugares. Recuou um pouco.
 
 
- É lindo, não é? – perguntou alguém ao seu lado.
Ela sorriu e acenou que sim, que era lindo.
Bem ao centro da imensa parede branca do museu, o quadro cativava todos os olhares.
 
Ela afastou-se um pouco mais.
“Mulher de azul com o mar ao longe”, podia ler-se na minúscula gravação da moldura de madeira escira.
Ela não precisava de o ler, sabia-o de olhos fechados.
Muitos anos anos, emprestara o corpo e o sorriso para o pintor, num verão longínquo no tempo, numa cabana de praia.
Amaram-se furiosamente, com a mesma intensidade daquele azul que ele conseguia pintar como ninguém.
A pintura partiu, o pintor também, a vida continuou no seu eterno ciclo de marés. Restou o quadro, uma mancha de azul hipnótico, numa imensa parede branca de museu.
 
Sorriu.
Apesar das rugas... o sorriso ainda era o mesmo.

 

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Sábado, 22 de Agosto de 2009

O Elixir da Paixão...

 

Violeta. Dona Violeta.
Quem a visse na rua, elegante, sofisticada, passo delicado... dificilmente resistiria a olhar duas vezes. A toilette discreta e o porte altivo conferiam-lhe aquela aura de classe simplesmente ao alcance de poucas priveligiadas, aquele toque magnético e distante de uma actriz de cinema.
Mas Violeta não era actriz de cinema, nem tão pouco dama de sociedade, apesar de conviver de perto todos os dias com algumas das mulheres mais desejadas do mundo.
Não.
Dona Violeta exercia uma profissão assaz curiosa, numa pequena boutique da rua Saint-Honoré, paredes meias com os Camps- Elysées, Paris.
Dona Violeta era ... boticária. A sua especialidades? Criar perfumes.
Na penumbra da pequena sala que lhe servia de armazém, um armário enorme, pejado de prateleiras, exibia uma colecção impressionante de pequenos frascos, de variadas formas, cores e tamanhos, cada um com sua minúscula etiqueta, identificando a essência ou o nome da secreta mistura.
Secreta.
Esse era o segredo mais bem guardado, o segredo que Dona Violeta não confiava nem à própria sombra. Habituara-se a não escrever as suas fórmulas em cadernos de notas ou apontamentos, desde que um dia fora assaltada. Não. As suas receitas permaneceriam para sempre na sua memória... e levá-las-ia para o caixão, quando chegasse a sua hora.
 
Uma prateleira no entanto apresentava-se quase vazia. Cinco pequenos frascos, todos de cores diferentes, destacavam-se nitidamente dos demais, como se sobre eles recaisse qualquer espécie de responsabilidade ou importância extrema.
 
Com extremo cuidado, Violeta abriu o frasco de liquido alaranjado, aplicando algumas gotas sobre o pescoço e os pulsos.
- Ah... o aroma do campo, as flores de laranjeira... o que poderia existir de melhor para relaxar?
 
Contemplou, com um misto de enlevo e orgulho, os cinco pequenos frascos, arrumados a um canto.
A cor laranja, o aroma da paz e da meditação, o vermelho sangue, o elixir da sedução, o azul suave, o aroma da eterna juventude, o amarelo girassol, a cor da energia e finalmente a cor violeta, a sua obra prima... o elixir da paixão.
 
Foi interrompida nos seus pensamentos pela sineta da porta, anunciando a entrada de uma cliente na loja. Fechou cuidadosamente o armazém e dirigiu-se ao balcão.
- Madame... que prazer em vê-la... já há muito tempo que não nos dava o prazer da sua visita.
Por hábito, falava sempre no plural. Trabalhava sózinha, mas apercebera-se que as clientes, na maioria pessoas de uma certa posição social, preferiam que ela se lhes dirigisse assim.
A cliente, uma mulher ainda jovem, ostentando um exuberante chapéu e óculos escuros, era já cliente da casa, esposa de um politico bem conhecido.
- Dona Violeta... a minha pele... já acabei com o seu frasquinho azul... preciso de mais um...
Violeta sorriu, como fazia a todas as clientes. Maquinalmente, apanhou do expositor um esguio frasco azul, sem qualquer rótulo entregou-o à cliente.
- Madame... não está esquecida do que falámos sobre o seu perfume, creio... é perigoso ultrapassar a dose...
A cliente nem a deixou terminar a frase, abrindo prontamente o pequeno frasco e aspergindo generosamente os pulsos. Em seguida aproximou-os sucessivamente do rosto, aspirando o perfume de uma forma sôfrega, quase doentia.
- Eu não me esqueci, Dona Violeta, eu não me esqueci... simplesmente tenho-me sentido particularmente cansada... e talvez tenha colocado uma dose... talvez um pouco maior, é só... nada de mais...
Violeta lançou-lhe um ar complacente, enquanto guardava o pagamento. Ficou a vê-la sair, passo acelerado, o motorista a abrir-lhe a porta da limousine e segundos depois, a perder-se no movimento das ruas.
Provavelmente, o seu elixir azul... talvez fosse o mais popular, em especial das clientes já de uma certa idade. Uma e outra vez, voltavam amiúde, revigoradas e sentindo-se estranhamente jovens, sempre que usavam a misteriosa fragrância da Dona Violeta.
Mas naquele momento, a sua preocupação era outra. Esgotara completamente alguns dos ingredientes … para o seu perfume violeta, o elixir da paixão.
Aguardou com impaciência o final da tarde, até poder fecha a boutique.
 
Um pouco de canela, algum musgo de carvalho… tudo fazia parte da sua mais secreta receita, o elixir da paixão, de cor arroxeada.
Faltava-lhe o ingrediente principal; a alfazema.
 
- Táxi…
 
O sol já desaparecera no horizonte, quando finalmente chegou ao seu destino. Aos poucos, a luz amarelada dos candeeiros das ruas emprestava um colorido de postal antigo ao empedrado das ruas. Mais ao longe, o recorte dos edifícios reflectia-se nitidamente sobre o rio, uma imensa fiada luzes coloridas tremelicando ao sabor da corrente. Um barco de turistas ruidosos deslizava sobre as águas, rumo às Tulheries.
Empurrou o pesado portão e os gonzos enferrujados soltaram aquele lamento característico do avançar da idade.
Descalçou as sandálias e avançou.
 
Rue quatre-vint-deux, numero douze. A um passo de Jim Morrison, ironia do destino.
A toda a sua volta, o cemitério de Pére-Lachaise mergulhava no silêncio da noite. Aqui e ali, alguns lampiões e vultos silenciosos percorriam as estreitas alamedas, à procura de entes queridos, celebridades, artistas já desaparecidos. Algures por entre todas aquelas mármores e granitos, entremeados de ciprestes, nomes como Balzac, Maria Callas, Óscar Wilde, Piaf… Chopin… dormiam o sono mais profundo, alheios a todos os comuns mortais que ali deambulavam.
Violeta não se dirigira ali por nenhum deles.
 
Ao fundo do relvado que separava a parte velha da ala nova, deteve-se diante de uma pequena lápide de mármore branco, rodeada de um manto arroxeado de flores silvestres. Alfazemas.
 
Sentou-se na relva, em serena contemplação.
- Pierre…
 
22 de Agosto de 1999. Como seria possível que dez anos pudessem passar tão depressa, como seria possível que a saudade não se extinguisse após tantos Invernos, como seria possível que a alfazema continuasse a nascer ali como no jardim da sua própria casa, desde aquele dia em que ele, Pierre lhe destapara os olhos e dissera:
- Gostas? É a nossa futura casa…
 
Não chegara a ser…
Lentamente, abriu a pequena sacola de couro e foi enchendo-a com as pequenas flores arroxeadas, o seu mais precioso ingrediente.
De uma forma que não conseguia explicar… sabia que só aquelas flores, colhidas naquele local de saudade… faziam resultar o seu perfume da paixão.
 
- Adeus, meu amor – murmurou ainda, antes de retomar o caminho de volta a casa.

 

publicado por entremares às 17:27
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Sexta-feira, 21 de Agosto de 2009

Conversas curtas - A alcunha

 

- Sabes, Maria… às vezes não te sentes assim um pouquinho … envelhecida?
- Envelhecida? Queres dizer… assim como cansada, é isso?
- Pois…
- Sim, às vezes… mas porquê?
- Ora, nada de importante… Os meus parceiros do poker, sabes… lembraram-me de me colocar ontem uma alcunha…
- Oh, João… e não me digas que ficaste aborrecido?
- Não é bem aborrecido…
- Então… o que é?
- Sabes… fizeram-me sentir como se fosse mais velho…
- Velho? E qual foi a alcunha, pode saber-se?
- … Múmia… chamaram-me Múmia, imagina.
 
( Silêncio )
 
- João…
- Sim, querida…
- Quantos anos tens?
- Eu… creio que 89… ou 88, às vezes não tenho bem a certeza… porquê?
- Nada, nada… estava só a pensar nesses teus amigos… quem são eles?
- Os amigos? Ora, tu conhece-los… o filho do Adriano, o filho do Afonso, o filho do Mário, o filho do teu primo Ricardo, o neto do Paulo…
 

 

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Quinta-feira, 20 de Agosto de 2009

Mya, a gueixa

 

Caminhava de cabeça baixa, como todas as gueixas. Não por medo ou vergonha, simplesmente pela tradição ancestral de caminhar com os olhos no chão, no papel da mulher perfeita.
Mya, a gueixa, aparentava uma juventude enganadora. Talvez o rosto branco, os lábios finos desenhados a escarlate ou os bordados suaves do quimono disfarçassem o seu aspecto real, se é que existia algum. Qualquer coisa naquela imagem feminina evocava uma aura de mistério, de sensualidade, de inatingível.
Takamoto não conseguia desviar o olhar.
Nunca pudera usufruir, em toda a sua vida, da companhia dessas figuras fantásticas - mas sonhava com elas, e não raras vezes se deleitava em sonhos com as deslumbrantes emoções que imaginava desfrutar, quando chegasse a sua hora.
E a sua hora chegara, finalmente.
Promovido ao conselho de administração, recebera dos novos colegas a prenda que mais desejara, durante toda a sua vida adulta - o acesso ao Kiba, o clube de cavalheiros mais selecto do país, frequentado por uma pequena elite de privilegiados - políticos, homens de negócios, algumas personalidades do mundo dos espectáculo… e claro, por gueixas.
 
Inclinou-se, numa vénia respeitosa, respondendo ao cumprimento dela.
- O meu nome é Takamoto… seja bemvinda à minha casa…
- Mya…
Sentaram-se na sala, defronte de uma mesa de chá.
- Deseja que lhe sirva uma chávena de chá? - indagou ela, e pela primeira vez, ele pode observar-lhe os olhos, de um negro brilhante, quase azulado.
- Sim, por favor…
Ela ergueu-se e em gestos que a longa prática tornara naturais, pegou no bule de porcelana, na chávena e deixou que o líquido fumegante escorregasse vagarosamente, soltando um vapor perfumado.
Sem saber bem como, Takamoto anteviu naquele simples gesto uma promessa de prazer. Sorriu, em deleite.
- Obrigado… está bem assim…
 
  
No silêncio do quarto, Mishimo observava-se ao espelho.
O passar do tempo fora generoso para com ele, tinha de admitir. Mesmo sem qualquer maquilhagem, o seu rosto ainda conservava muitos traços de uma juventude já um pouco distante, um porte sereno, algumas rugas de expressão, um ar tranquilo.
Ajeitou o casaco escuro sobre os ombros, apertando os botões prateados.
 
Sentiu-se nervoso por dentro. Nunca estivera ao pé de uma gueixa, muito menos na sua própria casa. O filho avisara-o na véspera.
- Amanhã, meu pai … vou apresentá-lo a uma pessoa… uma pessoa especial.
 
O pai enrugara a testa, apreensivo. Pouco saía de casa. O mundo tornara-se desinteressante, demasiado violento, demasiado ruidoso. Sentia saudades do verde, da montanha, da casa humilde onde crescera e onde criara os quatro filhos, onde haviam sido felizes.
 
- Não preciso da companhia de nenhuma prostituta - gritara o pai, então.  
- As gueixas não são prostitutas, meu pai… são artistas.
 
Acedera em conhecê-la. Simplesmente isso, e nada mais. Um chá, quando muito.
Desde que fora viver com o filho, fechara-se para o mundo. A esposa falecera muitos anos atrás e Takamoto, o único filho varão… era toda a família que lhe restava. As três filhas pertenciam às memórias de um passado distante, de uma vida humilde e sem recursos. Duas deles levara-as a doença, aquela doença da fome e do frio, das noites ao relento ou mal dormidas sobre as madeiras duras da cama. A terceira, talvez ainda fosse viva, partira com um viajante, para parte incerta.
 
Uma batida forte na porta veio despertar-lhe a consciência. Takamoto assomava à porta do quarto.
- O chá está servido, meu pai…
 
Ele assentiu, maquinalmente. Um chá. Seria simplesmente isso, um chá.
Desceram as escadas em direcção à sala.
Mya continuava de pé, junto à mesa de chá, esperando pacientemente, o rosto impávido, um sorriso impossível de definir.
 
Mishimo aproximou-se, o andar hesitante. Havia qualquer coisa naquela figura que o incomodava, apesar de ser a primeira vez que a via. Qualquer coisa de … familiar, até.
Sentou-se.
Takamoto imitou-lhe o gesto e Mya ajoelhou-se diante do ancião e solícita, tomou-lhe o pé, para lhe descalçar a sandália. Repetiu o gesto para o outro pé e, ao erguer o rosto, sentiu que Mishimo a observava minuciosamente.
Subitamente, o ancião ergueu-se, gaguejando algo incompreensível. Os olhos, antes tranquilos, raiavam agora uma nuvem avermelhada, o rosto arroxeado, quase apopléctico.
- Não… não, não é possível… - balbuciou.
Recuou dois passos, em direcção à porta.
Mya voltou a baixar de novo o olhar, as mãos levemente trémulas.
Takamoto, julgando o pai à beira de um ataque fulminante, ergueu-se de um salto e segurando-lhe no braço, tentou fazê-lo sentar-se.
- Pai… pai, por favor… o que foi? O que foi? Acalme-se…
 
A gueixa pousou as sandálias e erguendo de novo o rosto, cruzou de novo o olhar com o do ancião.
 
- Sim, pai… sou eu… Myura… a sua filha… - disse ela então.
 

 

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Terça-feira, 18 de Agosto de 2009

A caça ao tesouro...

 

 

 

- Não te parece que já sou um pouquinho crescida para a caça ao tesouro?
 
O marido olhou para ela, de soslaio.
- Desculpa… é o teu aniversário, portanto sê paciente. É uma surpresa, está bem?
- Uma surpresa… e quem te garante que eu vou gostar? Eu nunca fui lá muito do género de surpresas…
Ele entregou-lhe o pequeno envelope que tinha nas mãos.
- Por isso mesmo é que engendrei esta pequena caça ao tesouro. E não te preocupes… tenho a certeza que vais gostar…
Não totalmente convencida, abriu o envelope.
 
PISTA 1:       14 DE JULHO DE 2002
 
- O que é isto? - quis ela saber, franzindo a testa. Uma charada?
Ele riu, bem disposto.
- Não… é a tua primeira pista da caça ao tesouro… e não te preocupes, que não vais precisar de sair de casa… todas as respostas estão aqui dentro…
- Pistas? Queres dizer que é mais que uma? Vais pôr-me a procurar pela casa toda?
- Exactamente…
 
O que seria aquilo? A data… essa conhecia-a bem, fora naquele dia que partira da sua terra natal, do seu Brasil longínquo, rumo ao país do sol nascente. Seria possível já ter passado tanto tempo?
Aparentemente, sim.
Logicamente, o marido escondera alguma coisa, a pista seguinte… em algo relacionado com a viagem, mas o quê? Alguma mala?
Abriu duas malas, sem esperanças. Revirou as gavetas da cómoda, onde sabia ter guardado os documentos, os bilhetes de avião… como recordação. Nada.
O marido esticara-se no sofá da sala, defronte da televisão.
- Podias dar-me uma ajuda, em vez de ficares aí sentado… - ainda tentou.
- Nem penses… - respondeu ele, prontamente. - Assim deixava de ser uma surpresa…
 
Resmungou baixinho.
De repente… os olhos brilharam-lhe. Seria?
Dirigiu-se ao quarto de dormir. Sobre a escrivaninha, entre os papéis por arrumar, continuava a moldura de madeira, com a fotografia dos dois, junto às escadas do avião, antes do embarque. Fora a última fotografia tirada ainda em "solo natal" e no canto inferior… a máquina gravara digitalmente a data … 14-07-02.
Mal pegou na moldura, um pequeno envelope desprendeu-se da mola, tombando sobre a mesa.
Ela sorriu, vitoriosa.
- Esta já está - gritou, para que o marido a ouvisse. - Se pensavas que eu desistia, enganaste-te…
O marido respondeu-lhe qualquer coisa, mas ela nem o ouviu.
Abriu o envelope à pressa.
 
PISTA 2:       MARIA ANTONIETA
 
Como? Maria Antonieta? Quem é a Maria Antonieta?
Mentalmente, passou em revista alguns dos nomes de amigos e conhecidos. Mas não, desde que chegara ao Japão, não se recordava de ter conhecido ninguém com semelhante nome. Conhecera sim muitos Aki, Asaki, Akira, Hiroshi, enfim… alguns até de difícil pronúncia mas… Maria Antonieta ? Não… nenhuma.
Seria uma referência à rainha francesa?
Apanhou a enciclopédia. Teria o marido escondido alguma pista por entre as páginas da espesso livro? Abanou-o… mas nada caiu. Ainda o folheou, mas mais uma vez… nada.
- Tens algum caso com uma Maria Antonieta? - gritou ela - É isso?
Ouviu o marido a rir na sala, sobrepondo-se ao ruído de fundo da televisão.
- És horrível… e estás a divertir-te à minha custa…
 
Sentou-se. Maria Antonieta, Maria Antonieta, aquela que ficou sem pescoço… sempre com aqueles trajes…
Trajes?
Teve um palpite.
Quando fora? No Carnaval anterior? No ano anterior? Bem, isso não era importante… o certo é que - lembrava-se agora - fora mascarada de Maria Antonieta a um dos bailes de Carnaval, acompanhada do seu Zorro, que é como quem diz, do seu maridinho.
Onde guardara ela aquele vestido?
 
Claro que era. Mal o apanhou no guarda roupa, sentiu o ruído de algo a cair no chão. Mais um envelope.
 
- Estou a ficar profissional nisto, sabes?
Ele dedicou-lhe um sorriso e levantou-se, rumando à cozinha.
Abriu o envelope, disfarçando o nervosismo. Quem lhe diria que ainda se viria a sentir nervosas, a jogar à caça ao tesouro? Ai, ai… estes homens…
 
PISTA 3:       O TEU BRINDE FAVORITO
 
Aquela era difícil. Um brinde?
O que deveria procurar? A resposta mais óbvia seria uma garrafa… ou copos. Lançou-se para a sala, abriu as portas do bar e espreitou. Nada nos copos… e as poucas garrafas em exposição continuavam nos mesmos locais de sempre. Ainda levantou algumas… mas nada.
Um brinde? Lembrou-se do livro de receitas de cocktails. Seria?
Dirigiu-se à cozinha.
O marido colocava diligentemente pratinhos de aperitivos sobre a mesa; amendoins, cubos de queijo, pedacinhos de lula assada. Até fora apanhar os cálices de cristal, apesar de não ver nenhuma garrafa ainda sobre a mesa.
- Então… vens celebrar sozinho aqui para a cozinha… e deixas-me a revirar a casa do avesso, é isso?
Ele ofereceu-lhe um amendoim.
- Não… vou só ficar aqui à tua espera, está descansada. Aliás… suspeito que já estás muito, muito próxima… de descobrir.
Ela fez-lhe uma careta, divertida.
- Podes apostar que sim…
E saiu, em direcção ao quarto.
 
Olá… o que era aquilo?
Sobre a mesa da sala, bem entre o sofá e a televisão… um embrulho esguio, com um aparatoso laçarote amarelo e um cartão. Era capaz de jurar que até há minutos atrás… aquele embrulho não estava ali.
Aproximou-se. O que estava escrito no cartão?
 
PARABÉNS, MEU AMOR. VAMOS FAZER UM BRINDE?
 
Um sorriso iluminou-lhe o olhar. Por muito que às vezes lhe apetecesse bater-lhe… tinha que reconhecer que o seu "mais que tudo" sabia mexer com ela.
Pegou no embrulho e correu para a cozinha.
- Tu és horrível, horrível… a fazer-me sofrer deste jeito…
Ele ria, já um copo em cada mão.
- Vá, abre…
 
Ela abriu.
Uma garrafa de vinho do Porto? Da sua marca preferida? Onde conseguira ele arranjar aquela preciosidade… ali, no outro canto do mundo?
Ele leu-lhe os pensamentos.
 
- Vá… abres a garrafa? Por favor?
 
Ela lançou-lhe o melhor dos sorrisos.
 
- Ainda me continuas a surpreender… não há dúvida. - disse, por fim.

 

publicado por entremares às 18:52
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Domingo, 16 de Agosto de 2009

Um pequeno grão de areia

 

- É inevitável, não é?
A pequena flor encolheu as pétalas amarelas, naquele jeito tão característico de demonstrar resignação.
 
Bem ao seu lado, o enorme paredão de cimento estremecia, rangendo dorido sob a enorme pressão da água que, do outro lado, se avolumava mais e mais. Um gotejar inocente, de uma fissura bem na base no paredão, depressa se transformou num fio de água, para logo engrossar e brotar violente, rasgando o cimento à sua volta.
O paredão - ela sabia-o bem - estava condenado; era só uma questão de horas, talvez minutos… até a enorme bacia de água acumulada do outro lado rasgar as entranhas do cimento e projectar-se pelo vale, levando tudo à sua frente; os arrozais, as palmeiras, a aldeia…
O que poderia uma simples flor silvestre fazer, senão assistir num silêncio impotente à destruição de todo o vale? Nada, simplesmente nada.
Mais a norte, as encostas despidas de árvores desabavam sucessivamente em deslizamentos - o degelo da primavera fazia o resto. Ano após ano, as cheias da primavera aumentavam a destruição de um canto da floresta que já fora virgem, mas que agora mais se assemelhava a uma manta de retalhos queimados, com o barro sem vida exposto ao sol.
Os habitantes da aldeia pouco mais podiam fazer do que reforçar com algumas pedras o enorme paredão. Esforço inglório. A fúria das águas, empurradas pela mão do homem, devastadora, não se compadeceria com nada.
Era só… uma questão de minutos…
 
- Porque queres salvá-los?
A pequena flor olhou à sua volta. Muito a custo, descobriu a origem da voz.
- Olá… pequeno grão de areia… desculpa, não reparei que falavas comigo…
- Eu percebi, flor… mas não pude deixar de perceber o teu sofrimento… por esses aldeões…
- Tens razão, grão de areia… revolta-me nada poder fazer para os ajudar… porque daqui a pouco, sem aviso… as águas vão jorrar, destruindo toda a aldeia e ceifando vidas… vidas inocentes…
- Mas sabes, flor… são os homens os culpados por tudo isto…~
- Eu sei, grão de areia, eu sei… - e ia agitando as pétalas amarelas - mas não estes homens, não esta aldeia… estes são simplesmente… as vítimas.
 
O grão de areia não lhe respondeu. A natureza sempre possuira um dom especial para restaurar o equilíbrio, a harmonia. A natureza não conhecia o significado da palavra "vítima", isso não passava de uma mera interpretação humana das leis universais que regem o universo. Tudo se resumia afinal… a uma procura de equilíbrios, a uma paz efémera entre os opostos, entre as forças da criação e da destruição.
 
- Podes fazer alguma coisa para os salvar? - perguntou-lhe a flor, esperançada.
O grão de areia devolveu-lhe o olhar, brilhante de excitação.
- Posso. Não devo… mas posso.
- Podes? Como podes tu ajudar? Não passas de um ínfimo grão de areia…
- Eu sei, flor… mas eu sou um grão de areia especial. Aliás, todos somos especiais, sabes? Só que nem todos têm consciência da sua importância…
- Não te compreendo, grão de areia…
- Eu sei, flor, eu sei… mas não te preocupes, já vais compreender…
 
Metodicamente, o pequeno grão de areia inclinou-se sobre si próprio, apoiado na aragem; para a frente, para trás… novamente para a frente, outra vez para trás…
Finalmente, moveu-se.
Um milímetro, talvez menos.
- Tens mesmo a certeza, flor? Queres salvá-los?
A flor encolheu novamente as pétalas.
- Quero sim, grão de areia. Se o com seguires… salvá-os…
 
Mais um milímetro. E outro. Para o seu lugar, prontamente escorregou um outro grão de areia, e a seguir ainda outro. Uma pequena pedra cinzenta aproveitou o espaço livre e rebolou prontamente, num equilíbrio mais estável. E depois outra, e ainda mais outra, ligeiramente maior.
Segundos depois, toda a base da montanha dava de si, com enormes blocos de pedra a despenhar-se das alturas, numa avalanche incontrolável de cascalho, lama e troncos retorcidos, arrancados pela raiz. Num estrondo ensurdecedor, projectaram-se sobre o paredão, reforçando a estrutura e tapando todas as fissuras com um lençol de lama e pedras.
 
Finalmente, o pó assentou.
A aldeia, ao fundo do vale, continuava incólume, alheia a todos estes acontecimentos.
Uma última pedra resvalou ainda, rodopiando sobre as outras, até se deter sobre o local onde, bem pouco tempo antes, existira uma pequena flor silvestre, de pétalas amarelas.
E sobreveio de novo o silêncio, entrecortado pelo murmurar das águas do lago.
 
 

 

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Sexta-feira, 14 de Agosto de 2009

A Tulipa

 

Ele:    Uma flor, para mim?
Ela:    Desculpa… isto não é uma flor! É uma tulipa…
Ele:    Eu sei… eu sei o que são tulipas, obrigado. Não estava espantado por isso…
Ela:    Então… porque estás espantado?
Ele:    Ora, tu sabes… sou eu que te ofereço flores… isto hoje está assim a modos que ao contrário…
Ela:    E então? Apeteceu-me, foi só…
Ele:    Não é nenhum aniversário de que eu me tenha esquecido, pois não?
Ela:    Claro que não, não te preocupes. Foi só que quando acordei… olhei para o lado e tu estavas a dormir… e a sorrir ao mesmo tempo. Achei piada…
Ele:    Mas não me acordaste…
Ela:    Claro que não. Levantei-me, fui tomar um café… e comprar a flor…
 
( Silêncio )
 
Ele:    Tu andas a estragar-me com mimos, sabias?
Ela:    Ora… que queres que faça? Deve ser a tal ternura dos quarenta…
 

 

publicado por entremares às 15:59
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Quinta-feira, 13 de Agosto de 2009

A história de Gil e Deb

 

Esta é a história do Gil e da Deb, duas personagens especiais de um mundo vulgar, numa qualquer pequena aldeia do interior.

O Gil era uma garoto franzino, de cabelo cor-de-cenoura e olhos castanhos, as maçãs do rosto pintalgadas de sardas que lhe davam um ar divertido, não fosse o facto do Gil… nunca se rir. Na verdade o Gil nunca - uma série de coisas banais. O Gil não ria, o Gil não falava, não se penteava, não se vestia, não jogava à bola nem subia às árvores, como todos os rapazes da sua idade.

O Gil era simplesmente… diferente. Autista.

Algures… bem lá no fundo daqueles olhos castanhos, uma chama semi-apagada vegetava tranquilamente ao longo dos dias, semana após semana, nos seus quase nove anos de idade.

O Gil ocupava o seu tempo construindo castelos e torres, utilizando peças de madeira muito semelhantes a Lego; construía, destruía, e em seguida construía novamente.

A Deb era… extrovertida, ruidosa, com uma curiosidade insaciável. Adorava caixas fechadas, jogos de bola, o mar e a praia. Adorava chapinhar na relva molhada do jardim, correr à chuva e por vezes, até mergulhar na piscina.

Não podiam ser, portanto, mais diferentes estas duas personagens especiais de um mundo vulgar, naquela pequena aldeia perdida no interior…

 

- Lídia… que prazer em ver-te… Olá, Deb…

As duas irmãs abraçaram-se, como se não se vissem há muitos anos.

- E o meu Gil? O meu sobrinho preferido… como está ele?

A mãe do Gil encolheu os ombros, naquele jeito que já se habituara a fazer quando alguém da aldeia lhe perguntava pelo filho.

- O Gil… está na mesma… talvez um pouquinho mais magro, mas é do calor, sabes? Anda com pouco apetite…

- Já lhe vou dar um grande beijo… mas conta-me… o teu Manel, como anda? E as tuas aulas de ginástica? Tu não escreves, nem telefonas, não sei nada de ti, és uma irmã desnaturada…

Sentaram-se as duas na sala, entre sacos de compras, a matar saudades.

Lídia, a mais nova das duas, vivia longe, na capital, dividida entre o trabalho no banco e as suas batalhas como activista do Greenpeace.

Sempre que podia, pegava no carro e lá rumava à aldeia natal, matar saudades, reconfortar a irmã, contar anedotas, meter-se na cozinha e experimentar pratos extravagantes. Quando resultavam… hum… que delicia. Quando não resultavam… bem, ao menos sobrava assunto para as conversas de serão, frente à lareira ou nos degraus da porta de entrada.

Deb, entretanto, já desaparecera.

 

Algures a meio de dois goles de chá, um ruído estranho fez-se ouvir, vindo do andar de cima. Fazia lembrar uma gargalhada, ou um grito, ou uma mistura dos dois.

As duas irmãs trocaram um olhar aflito, sobressaltadas.

- O Gil… o que lhe aconteceu?

Correram sala fora, galgando as escadas em direcção ao quarto do pequeno Gil.

Teria caído? Estaria magoado?

Num ápice, alcançaram a porta do quarto. Os gritos - não havia dúvida - provinham dali, mas algo de estranho… de muito estranho mesmo, se deveria estar a passar… pois o Gil não falava, nunca falara… e muito menos gritaria.

Estacaram à porta.

No centro do quarto, rodeado de peças de madeira em completa desordem, o pequeno Gil ria perdidamente, tentando fugir desajeitadamente às lambidelas que Deb, generosamente, lhe ia distribuindo por todo o rosto.

Ele afagava-lhe o pelo macio e comprido, o focinho pontiagudo de raposa. Ela, deliciada, rebolava-se ao seu colo, mordiscava-lhe os colarinhos da camisa, puxava-lhe o cinto das calças.

E o Gil ria, ria, ria…

A Deb - esquecera-me de vos dizer - era uma cadela collie, uma daquelas pequenas "Lassie", brincalhona e ternurenta… a substituta do filho que Lídia nunca conseguira ter…

 

Ficaram as duas ali à porta - boquiabertas - enquanto a Deb, imperturbável, continuava a desafiar a pequena chama da vida escondida do seu novo amiguinho…

 

E foi assim que Gil e Deb, duas personagens especiais de um mundo vulgar, numa pequena aldeia do interior… se conheceram.

 

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Terça-feira, 11 de Agosto de 2009

O apanhador de pedras

 

Maré baixa.
Uma língua de areia branca, em forma de quarto-crescente, prolongava-se mar adentro, como um tentáculo rodeado de espuma branca.
O mar, sempre caprichoso, polvilhava de pequenas ilhas toda a bacia, durante a maré baixa, reproduzindo um rendilhado azul e branco, com as pequenas ondas a desfazerem-se em espuma em todas as efémeras praias, de encontro às rochas cobertas de lismos verdes, mexilhões e percebes.
Avançou até ao final da língua de areia. De um lado, uma quantidade infindável de pequenos seixos rolados, de todas as formas, cores e tamanhos; do outro, areia finíssima, reflectindo o sol de um branco ofuscante.
Inclinou-se e apanhou uma das inúmeras pedras.
- Tão diferentes… como é possível serem todas tão diferentes? - murmurou.
Deixou-a rolar por entre os dedos, para soltar a areia.
A pequena pedra, de forma quase esférica, parecia ter sido formada pela fusão quase perfeita de duas metades - uma completamente negra, outra de um branco imaculado.
- Que equilíbrio… - pensou para consigo próprio.
 
Uma onda mais atrevida veio tocar-lhe os pés descalços. As conchas mais leves, em alegre rodopio, rolaram sobre si próprias, num estranho bailado de cores… irrepetível a cada nova onda, a cada nova maré.
O apanhador de pedras guardou o seu pequeno tesouro no bolso dos calções e seguiu tranquilo o seu passeio à beira-mar.
 
Amanhã, numa nova maré, outra pequena pedra, de outras formas e cores, lhe chamaria a atenção. Todas tão únicas e diferentes como as dunas de areia da praia, empurradas pelo vento.
 
O que tinham todas elas de especial?
Nada.
Especial, quando muito… poderiam ser os olhos que reparavam nelas…

 

publicado por entremares às 11:41
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Segunda-feira, 10 de Agosto de 2009

Piu - Piu...

 

 

O pequeno olhou desconsolado para a pequena gaiola dourada. No seu interior, a ave colorida permanecia muda e imóvel, no alto do seu poleiro de plástico.
- Mamã… o passarinho deixou de cantar…
A mãe lançou-lhe um ar benevolente.
- Já não canta?... e limpaste a gaiola, como te disse ?
- Limpei, sim. Hoje de manhã…
- E viste se tinha comida?
- Vi…
- E a água está limpa, como combinámos?
- Limpíssima.
 
( Silêncio )
 
- Verificaste se as pilhas não estarão já gastas?
O pequeno levou a mão à testa.
- Não, isso ainda não…
- Então deve ser isso, meu amor. Aliás… há quanto tempo te comprei o passarinho electrónico? Um mês? Dois meses?
O pequeno acenou com a cabeça.
- Foi na feira de Maio…
- Então, pronto… está explicado. Como querias que ele ainda conseguisse cantar, depois de todo este tempo? Vai lá trocar as pilhas ao bichinho, vai…

 

publicado por entremares às 22:57
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Sábado, 8 de Agosto de 2009

Um passeio no parque...

 

 

 

Um político bem conhecido resolveu aproveitar aquela tarde ensolarada de domingo para fazer um pouco de campanha, já pensando nas próximas eleições. Convocou os seus assessores mais próximos e rumou ao jardim da cidade, contando encontrar as típicas famílias a merendar no parque, acompanhadas de crianças, jogos de bola e passeios de bicicletas.
Mal se aproximou do pequeno lago, junto da entrada do jardim, reparou que um imenso bando de pombos rodeava uma figura já de certa idade que, tranquilamente, ia atirando grãos de milho, de uma sacola que trazia pendurada a tiracolo.
 
- Mestre… que felicidade encontrá-lo por aqui… tenho andado precisamente à sua procura…
O Mestre sorriu-lhe, acenando com o braço.
- Estes fiéis amigos não me deixam partir, sabe? - e apontava para os pombos - … e ainda por cima, creio que alguns nem são daqui do jardim… vêm de mais longe…
- Oh, Mestre… só demonstra o quanto gostam de si… mas olhe, a propósito, será que me poderia ajudar?
- Ajudar? - espantou-se o Mestre - O senhor precisa da minha ajuda?
- É verdade, veja lá… é que sabe, aqui os meus assessores estão sempre a dizer.me que eu não sou suficientemente … popular… que as pessoas não acreditam totalmente em mim, enfim, disparates… e eu queria mudar isso… a sério que queria…
O Mestre envolveu-o num sorriso condescendente.
- Acreditar em si?... Hum… já experimentou … sorrir ?
- Sorrir ? Eu sou sorridente. Não me diga que ainda não viu os cartazes que estão aí espalhados por toda a cidade… os meus assessores garantiram-me que a fotografia até está muito boa…
- Ah, sim… os cartazes… claro… mas não, não me estava a referir aos cartazes… referia-me mesmo a si… já experimentou sorrir?
O politico ensaiou o seu melhor sorriso.
- Que tal? Não estou a sorrir?
O mestre olhou para ele, o seu próprio sorriso a desvanecer-se dos lábios.
 
- Não.. eu quero dizer, sorrir com alma, não simplesmente com a boca… repetir aquelas promessas todas que estão espalhadas por aí, nos cartazes da cidade… mas com um sorriso na alma… acha que consegue?

 

 

publicado por entremares às 18:57
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Quinta-feira, 6 de Agosto de 2009

Declarações de Amor...

 

 

- Mãe…
- Sim, Mariana… o que foi?
- Oh, mãe… hoje na escola… chamaram-me feia…
- Oh, minha querida… ficaste aborrecida…
- Fiquei… e sabes porquê?
- Não, Mariana… mas tu és bonita… muito bonita…
- Não, mãe… bonita é a Sofia, com aquele cabelo maravilhoso e os rapazes sempre atrás dela… eu sou só assim-assim… por isso é fiquei furiosa…
- E quem te chamou feia, meu amor? Alguém da tua sala? da tua turma?
- Não, não… foi o André, o crocodilo…
- O André? O crocodilo? Sinceramente… vocês arranjam com cada alcunha…
- Mas é mesmo, mãe… é mesmo parecido…
- Então não percebo, Mariana.
- Não percebes o quê, mãe? Já imaginaste, o rapaz mais feio da escola, a chamar-me feia?
- Ah, pois… na verdade, é estranho… e foi a primeira vez que ele se portou assim contigo?
- Foi… bem… ontem, ele também estava assim um bocadinho… esquisito, sabes?
- Esquisito? Como assim? tentou fazer-te alguma coisa, foi isso ?
- Foi… andou atrás de mim a manhã inteira… e eu não aceitei…
- Não aceitaste o quê, filha? O André queria que tu aceitasses alguma coisa?
- Queria, mãe… uma flor, imagina tu… uma flor…
- E tu, não aceitaste, Mariana?
- Não… tive vergonha…
 
( Silêncio )
 
- Mãe…
- Sim, Mariana?
- Sabes uma coisa?
- Não, minha querida… o que foi?
- É que… o André até nem é feio, sabes… os rapazes é que têm inveja dele, porque ele tira sempre as melhores notas… e eu até gosto daqueles óculos engraçados… fazem-no parecer mesmo um crocodilo pequenino…
 
 

 

publicado por entremares às 20:32
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