Domingo, 31 de Maio de 2009

... muitos anos de vida

 

Pronto... hoje perdoem-me todos, mas o autor deste blog faz 47 primaveras... e a familia requisitou-o em "full-time".

 

Encontramo-nos amanhã, ok ?

 

Abraços para todos.

Rolando.

publicado por entremares às 16:29
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Sexta-feira, 29 de Maio de 2009

Nascer...

 

- Não, mais não… não aguento mais…
Mas, por mais que gritasse … a dor não desaparecia, nem se atenuava com as súplicas – uma dor interior, que lhe rasgava o corpo como nunca julgara possível acontecer.
A parte inferior do corpo… já nem a sentia. Primeiro um torpor, uma letargia enganadora que o convencera que aquela etapa seria breve, quase como que um adormecer.
Mas enganara-se.
Morrer, tal como nascer, não era fácil. Nem indolor.
Tentou mover a parte inferior do corpo. Os músculos não lhe obedeceram. Sob a pele, um frenesim de espasmos percorria-lhe o corpo, em ondas dolorosas que lhe toldavam a visão – deixava de ver.
À sua volta, uma névoa de fios brancos envolvia-o num casulo informe, reduzindo todo o seu mundo a um pequeno espaço sem luz, sem sons, sem cor. O final – pensou – é escuro e sombrio.
Uma dor mais aguda fê-lo contorcer-se, agitando-se convulsivamente.
- Já chega… que isto termine já… por favor…
Ninguém o ouviu.
Ninguém lhe atendeu o mudo pedido de um fim rápido.
Pouco depois, perdeu o controle da voz. Sons guturais escapavam da garganta, formando sílabas sem nexo ou sentido. Ao longo do tronco, a superfície da pele abriu fendas, e a vida começou a verter e a fugir-lhe do corpo, numa transformação voraz.
O ar, cada vez mais pesado, anunciava o fim.
Lutou com todas as suas forças, num esforço desesperado para se manter consciente. Mas era inútil.
A escuridão avançou, galopante… e ele deixou de ver. O casulo da morte cercou-o num manto espesso, enquanto o corpo se desintegrava, a um ritmo cada vez mais rápido.
Já não sentia dor, já não sentia nada.
O fim do mundo chegara.
E ele não podia fazer nada para o evitar.
Deixou-se levar…
 
Abriu os olhos.
Um céu azul brilhante recebeu-o de braços abertos, o sol ofuscou-lhe o olhar e de repente… descobriu que estava vivo.
- Estou vivo… estou vivo…
Estremeceu… e um par de asas douradas imitou-lhe os movimentos. O que se estava a passar ?
Voltou a olhar para o seu corpo… e não se reconheceu. Onde estava aquele ondulado macio, esponjoso, a sua barriga proeminente ? Onde estava a penugem finíssima que lhe cobria toda a parte superior do corpo ? Desaparecera. Tudo desaparecera.
No seu lugar, um par de asas deslumbrantes nascera-lhe no tronco, agora esguio e colorido, levíssimo.
Fechou os olhos, cego de luz.
Um aroma de polens perfumados envolveu-o, em êxtase absoluto.
- Então… morrer é isto… - balbuciou… - nunca conseguiria imaginar tal…
Estremeceu novamente e as asas douradas agitaram-se, elevando a pequena borboleta nos ares, trôpega e insegura.
A larva… toda a sua existência anterior, tal como a conhecia… não passava agora de uma mera recordação, cada vez mais enevoada e distante…
A vida continuava…
 
Uma leve brisa empurrou-a com suavidade e a pequena borboleta ganhou altura e partiu… rumo a um novo céu… e a um novo destino.

 

publicado por entremares às 18:16
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Quinta-feira, 28 de Maio de 2009

A chave da noiva

 

Casar?
Bem… é tudo uma questão de – como explicar ? – querer, acreditar, desejar. O mundo não acaba se não houver casamento… e para além das poucas pessoas que venham a tomar conhecimento da cerimónia, é pouco provável que isso influencie a vida de todas as outras…
Esta talvez fosse a enésima tentativa de pensar no assunto … mas, por mais volta que lhe desse, não conseguia deixar de pensar no assunto.
- A minha filha… vou ficar sem a minha filha… e agora é que é de vez…
Acomodou-se na espreguiçadeira, bem encostada ao muro do jardim.
A noite estava morna, silenciosa e luarenta, como tantas outras noites de Maio…
O pequeno jardim interior, rodeado de paredes brancas e buganvílias vermelhas, que tantas vezes lhe servira de refúgio inspirador… parecia-lhe agora despido e vazio, solitário. A cama de rede, indolente entre os dois enormes chorões, recordava-lhe tempos passados, quando ali tentava adormecer a sua pequena fada, como ele lhe gostava de chamar.
Mas a pequena fada transformara-se de pronto numa bela princesa e – como o tempo passara depressa – sem se dar bem conta, crescera… saíra de casa, frequentara a universidade, voltara e… aos 24 anos… iria partir de vez, embarcando naquela viagem por mares desconhecidos chamada de … casamento.
Deu consigo a pensar que estava a ser idiota.
- Afinal de contas, ela só vai mudar de cidade…
O pio de uma coruja mais atrevida fê-lo abrir os olhos. No andar de cima, a luz do quarto permanecia acesa – a esposa estava ainda mais nervosa que ele, apesar de se recusar a admiti-lo.
- Isto de ser pai – pensou – tem que se lhe diga…
Deram-lhe o nome de Juliana, mas sempre a chamaram de Ju…
A Ju era, como provavelmente são todas as filhas, a menina do papá; talvez pela compatibilidade de feitios, pelos mesmos olhos castanhos e sorriso atrevido ou simplesmente por todo o tempo que tiverem a possibilidade de passar juntos, enquanto ele a via crescer…
Fosse como fosse, chegara a altura de a ver partir… e isso apertava-lhe a garganta e revolvia-lhe o estômago; não pelo casamento em si – o futuro genro até era um moço às direitas, daqueles príncipes encantados que ele próprio não fora… e, mais importante que tudo, estava perdido de amores por ela.
Os dois seriam independentes, autónomos … e felizes, disso tinha a certeza. E mais que isso não poderia desejar.
Mas se tudo fosse assim tão simples… porque motivo persistia ainda aquele nó na garganta… aquela sensação de um súbito vazio, como se de repente o mundo perdesse a cor e tudo se resumisse a um sépia entristecido ?
Talvez o vazio… talvez o quarto vazio. Teria que se habituar a passar pela porta do quarto e a deixar de olhar para os peluches ainda arrumados ao lado das almofadas… ou aquela tentativa de estátua de barro que ambos tinham tentado fazer na garagem, quando ela fez oito anos…
Não.
O que mais custava era mesmo a antecipação da distância…
Uma cidade diferente, uma viagem. É claro que existiam telefones, telemóveis, sms, Internet, essas coisas todas… mas enfim, teria que se habituar a isso…
Tão embrenhado estava nos seus pensamentos, que nem se apercebeu da figura que descia silenciosamente as escadas em direcção ao quintal.
 
- Ainda aqui estás?
Ele despertou, sobressaltado.
- Ju… nem dei por chegares…
- Isso percebi eu. Porque não te vais deitar?
- Ora… não tinha sono. Por isso lembrei-me de vir apanhar um bocadinho de ar fresco…
Ela sorriu.
- Mentiroso… vieste para aqui carpir as mágoas…
Foi a vez dele se rir. Para além de tudo, a filha sempre tivera a resposta pronta, na ponta da língua. Sempre fora assim.
- Não sejas tola… estava só a descansar… amanhã vai ser um dia bastante cansativo…
- Cansativo ? A quem o dizes… sou eu que me vou casar, não és tu…
Ele permaneceu em silêncio, a pensar numa resposta que não chegou a surgir.
- Olha… - acabou ela por dizer – sabes… tenho aqui uma pequena prenda para ti…
E puxando de uma pequena caixa escura, com um laçarote vermelho, colocou-lha nas mãos.
- O que é isto ? Tu é que te vais casar e eu é que recebo as prendas ?
Ela agarrou-se-lhe ao pescoço.
- Achei que ias precisar disto… abre, vê se gostas…
Curioso, desatou cuidadosamente o laço de fita. A pequena caixa de madeira escura, pouco maior que um maço de cigarros, sacolejava... como se algo baloiçasse no seu interior. Algo pesado.
Levantou a tampa.
Destacando-se do fundo branco, uma grande chave de ferro – daquelas antigas, de ferrolho – espreitava-o.
- Uma chave ?
Ela devolveu-lhe o olhar.
- Sim.. uma chave. É a chave da minha nova casa, sabes? ... Em sentido figurado, claro... mas não deixa de ser uma chave... que é para perceberes que lá por eu me ir embora... não significa que me vá embora... Por isso te dou essa chave, para que te apeteça usá-la... quando me fores visitar.
Ele ficou a olhar para ela, bebendo lá no fundo dos olhos aquela cumplicidade que sempre os acompanhara, ao longo de todos aqueles anos.
 
Afinal... – ele sabia-o agora – ela também lhe sabia ler os pensamentos...
 

 

publicado por entremares às 19:52
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Terça-feira, 26 de Maio de 2009

Muhamed

 

- O réu pode apresentar agora a sua defesa.
Com um passo miúdo, o tradutor avançou para junto do banco dos réus. Carregava um dossier e um pequeno computador portátil. Pigarreou um pouco, sentou-se, abriu o portátil e espalhou algumas folhas do dossier sobre a mesa de madeira.
- Estou pronto, doutor juiz...
O juiz fez um sinal a indicar ao arguido que devia iniciar o seu testemunho.
 
O arguido não aparentava ter mais de vinte anos. Uma barba característica, olhos escuros e pele tisnada, a tunica branca e umas sandálias de couro compunham na perfeição o estereotipo do jovem árabe. Mohamed Alluyia, de seu nome, nascido em Kabul, Afganistão.
 
- O que querem saber de mim ? - quis saber, sem desviar o olhar do juiz.
Após as devidas traduções de parte a parte, encetou-se o diálogo.
- Sabe qual é a acusação que pesaa sobre si ? - indagou o juiz.
- Sei, sim... assassinar um militar e ferir outros dois.
- ... E assume a culpa por esses factos de que é acusado ? - o juiz gaguejou um pouco, não estava à espera de uma resposta tão pronta.
O arguido acenou afirmativamente com a cabeça.
- Desculpe... o senhor tem que responder, não pode abanar simplesmente a cabeça. Considera-se culpado do que é acusado ?
- Considero-me culpado, sim...
- Foram providenciados todos os seus direitos ? Foi-lhe concedido um advogado para o representar ?
O arguido esboçou um sorriso.
- Doutor juiz... é a primeira vez que falo com um advogado, depois de todo este tempo... conhecemo-nos na semana passada...
O juiz trocou algumas palavras em voz baixa com os dois colegas que o acompanham na mesa do tribunal. Fez uma pausa, como que para escolher meticulosamente as palavras que deveria utilizar.
- Senhor Alluyia... chegou ao nosso conhecimento que as circunstâncias em que ocorreu a sua detenção não foram... as normais. No entanto, julgo saber que mesmo na altura em que foi detido, não negou a autoria dos crimes de que é acusado... é correcto afirmar isto ?
- É correcto, sim... eu estava ao lado do jipe quando me prenderam... estava a segurar a perna de um dos militares... uma hemorragia....
- Sim, sim... nós sabemos... o que pretendemos saber agora é porque motivo... qual foi a verdadeira razão dos seus actos... que levaram à porta de uma pessoa e feriram gravemente outras duas...
O arguido pareceu subitamente distante, talvez interiormente a recordar as imagens que durante todo aquele tempo já decorrido, tentara esquecer - o estrondo, o fumo acre, a nuvem de pó salpicada de sangue, os gritos da multidão, os pedaços de carne arrancados aos corpos mutilados, o olhar de desespero de um dos militares...
- O motivo ? Não sei, doutor juiz... não sei o motivo...
- Não sabe o motivo ? Como é possível que possa alegar semelhante desculpa ? Certamente existiu um motivo forte, não se tira a vida a um ser humano sem motivo...
Muhamed baixou a cabeça, envergonhado.
Era verdade. Claro que não havia motivo... e também era verdade que ele, Muhamed Alluyia, não tinha a menor animosidade contra os militares que todos os dias, patrulhavam o seu bairro, na sua Kabul natal.
- O motivo... mesmo que não acreditem em mim...e já sei que não vão acreditar... foi simplesmente... obedecer ao meu pai.
Os três juizes entreolharam-se, cautelosos.
- O seu paiu ordenou que atirasse a granada contra o jipe da patrulha militar?
Novamente um aceno com a cabeça, desta vez secundado por palavras.
- Sim... deu-me a granada de manhã, depois das orações ...
Nova pausa. Algo parecia desagradar ao colectivo de juizes. Um deles desligou o microfone e encetou-se uma troca de palavras em voz baixa. Um deles gesticulava com as mãos, apontando repetidamente para uma página do dossier que todos tinham pela frente.
- Senhor Mohamed Alluyia - lá foi dizendo um dos juizes, após o longo interregno - gostaríamos de ouvir as suas alegações finais, antes de nos retiramos para deliberar sobre a sua sentença.
- As minhas alegações ?
- Sim, o senhor é livre, segundo a lei, de dizer aqui e agora aquilo que lhe aprouver... faça favor de começar...
 
- Senhor doutor juiz... o meu nome é Mohamed Alluyia e nasci em Kabul... a 31 de Maio de 1990, vou fazer 19 anos daqui a poucos dias...Vivia com os meus pais e os meus quatro irmãos no bairro Karesh, na zona mais pobre. O meu pai era motorista de camiões, transportava gasolina para o norte, todas as semanas. A minha mãe tratava dos filhos e nós – eu sou o mais velho – frequentávamos todos a mesma escola.
Naquele dia, logo pela manhã... o meu pai entregou-me aquela granada, dizendo-me que para esperar que passasse a coluna militar – sempre à hora do almoço – e então que a atirasse para o meio da rua, para tentar acertar num dos veículos... qualquer um. E assim fiz.
 
O juiz olhou demoradamente o arguido.
- Mohamed Alluyia... acho que não nos está a contar a parte mais importante da sua história...
- ...
- Diga-me ... há quanto tempo está preso ?
- Há exactamente sete anos e duas semanas, doutor juiz.
- Sete anos ? Tem a certeza ?
Mohamed olhou o juiz bem nos olhos, talvez para lhe observar a reacção.
- Se tenho a certeza ? Tenho sim, doutor juiz... isto aconteceu precisamente no dia do meu aniversário...
- No dia do seu aniversário ? No dia 31 de Maio ?
Sim, doutor juiz... nesse mesmo dia. No dia em que fiz 12 anos...

 

 

Nota: A televisão espanhola noticiou hoje a história de Muhamed, o menino afegão que está preso há 7 anos, na prisão de Guantanamo, sem culpa formada, nem julgamento. Foi capturado em Kabul, após um atentado.

Tinha 12 anos na altura. Sempre se declarou inocente.

publicado por entremares às 23:20
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Segunda-feira, 25 de Maio de 2009

Antes e depois...

 

Aproximou-se um pouco mais do espelho.
Por vezes, a imagem reflectida não correspondia ao que lhe ia na alma. A culpa não seria do espelho, certamente... mas talvez só da disposição, do grau de alegria ou tristeza que conseguia reconhecer no olhar.
“Tens uns olhos lindos”, dizia-lhe o marido, amiúde
Eram penetrantes, de um castanho escuro que ela sabia realçar como ninguém, sem abusar de todos os truques de maquilhagem à sua disposição.
Ou talves fosse simplesmente da juventude – beleza simples e descontraída – que irradiava à sua volta, em casa, no trabalho, na rua, nos transportes públicos...
Eva correspondia aquele perfil de mulher que “está bem com a vida”. Na flor da idade, um emprego estável numa reputada empresa financeira, uma familia tradicional da provincia, um casamento por amor, sem problemas económicos, ainda sem filhos. O marido, arquitecto de profissão, conhecera-o numa festa de passagem de ano, quatro anos antes. Fora amor à primeira vista.
Um namoro rápido, um casamento rápido, todos reconheciam que aqueles dois tinham sido feitos um para o outro.
É claro que ninguém é perfeito. Ela atacava os chocolates às escondidas e fumava cada vez mais, apesar de já ter tentado parar por diversas vezes. Ele comia demasiado à noite, ressonava um tudo mais alto que o suportável e de vez em quando era possuido por ataques de ciumes parvos, alimentados pelo facto de ela só ter colegas de trabalho do sexo masculino.
Mas a vida era bela... e os quatro anos de casamento voaram num ápice, sem sobressaltos de maior. Eva foi promovida, trocou de escritório, ascendeu à direcção. Ele, o Paulo, conseguiu um contracto fabuloso para o desenho de um bairro elegante em Madrid.
Apesar de todos os afazeres, as férias continuavam a ser gozadas a dois. No algarve, em Cabo Verde, na República Dominicana.
Claro que nas últimas férias, precisamente as gozadas nas caraíbas... ocorrera aquela pequena peripécia... mas pronto, eram águas passadas. Ele pedira-lhe logo desculpas pela bofetada, bebera um pouco mais que a conta... e até lhe comprara no dia seguinte aquele anel de diamantes que deslumbrava em todas as festas.
Mas a vida continuou.
Os pais do Paulo, filho único, viam nela a sua “princesinha”, como eles gostavam de frisar – a princesa encantada que conquistara o coração do seu filho. Mimavam-na, visitavam-na com regularidade… e cada vez com mais regularidade também lá iam indagando pelo herdeiro, que claro que mais dia menos dia gostariam muito de ter um netinho, e que sempre estariam disponíveis, etc, etc, etc. Eva sorria, com o mesmo sorriso que devolvia à mãe, quando ela lhe fazia a mesma pergunta.
No Natal anterior, deram um salto até à Serra da Estrela – muita neve, um chalé só para eles, lareira na sala, velas sobre a mesa. Um fim de semana memorável, não fosse mais um daqueles pequenos “incidentes” com o mau feitio do Paulo, sempre que os ciúmes assomavam à flor da pele. E como de costume, sempre infundados, que Eva só tinha olhos para ele.
O agente de viagens, solicito, ainda lhes tentou vender o pacote de fim de ano. Talvez tenha sido até um pouco mais simpático para Eva do que deveria. Ou não. Paulo achou que sim, que Eva escusava de sorrir tanto para o funcionário gentil. Mal se viram sozinhos no quarto a conversa azedou e Eva experimentou, pela segunda vez na vida, a fúria insensata do marido.
Felizmente tudo se resolveu. Ela sabia, melhor que ninguém, como o acalmar.
Aproximou-se um pouco mais do espelho.
Era raro pegar no estojo de maquilhagem mas… naquele dia, iria abrir uma excepção.
Talvez colocar uma base… ou carregar mais na pintura dos olhos.
Acendeu a luz, bem por cima do espelho.

 

 

Não… pensando bem… talvez a maquilhagem não fosse suficiente…

 

publicado por entremares às 10:28
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Domingo, 24 de Maio de 2009

Xeque ao Rei

 

- Xeque ao rei...
- ... Não está mal, não está mal...
- Não está mal ? Meu caro... você está vencido, é o que é...
- Ainda não... bispo para C4.
- Hum...
- Você não pode ser assim tão precipitado, Dimitri... ou então vou apanhar-lhe mais um ou dois territórios...
- ( riso ) ... Não seja convencido. Só porque me conseguiu vencer no último jogo, não vai já ficar a pensar que isto é assunto arrumado, pois não ? Rainha para C7.
- ... Mas é claro que vou... caso não tenha percebido, jogo bastante melhor que o meu antecessor...
- Meu caro Obama... você é muito jovem... e o xadrez requer muita paciência... mas numa coisa estou de acordo consigo. É claro que você joga muito melhor que o seu antecessor...
- Cavalo para A3.
- Isso é uma jogada perigosa, meu jovem amigo... vai meter o seu cavalo na boca do lobo ?
- ( suspiro ) ... Pois é, meu caro Dimitri... às vezes temos que sacrificar alguma coisa...
- Bem me tinham dito... afinal você é um idealista... recorde-me lá... o que é que nós apostámos desta vez ? Peão protege a rainha, B8.
- Fraca defesa, fraca defesa... assim você não chega lá...
- Prudência, meu jovem amigo, prudência... mas diga-me ... foi o Panamá... ou a Venezuela ?
- ( riso ) ... Oh. Dimitri... então, então... não se faça de esquecido, só porque já está a prever a derrota... Nós apostámos Cuba, meu caro... Cuba.
- Ah, Cuba... já não me lembrava, veja lá...
- Mas eu lembro-me bem... Torre para B4... Xeque-mate.
- ?
- É verdade, meu amigo... xeque-mate.
-( riso ) você apanhou-me distraido com esta...
- Meu caro Dimitri... é a vida. E agora... vamos à parte do pagamento...
- Detesto esta parte... mas enfim... perder ou ganhar é desporto, não é o que dizem ?
 
- Sergei... Cuba... trate do assunto, está bem ?

 

 

publicado por entremares às 12:48
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Sexta-feira, 22 de Maio de 2009

Memórias de Krajina

 

- Apontar…. Atenção… FOGO !
 
Com um estrondo enorme, o tanque estremeceu, cuspindo a sua carga mortal sobre o edifício branco – que já fora de apartamentos, agora só uma quase ruína.
O comandante Svetlin, capitão do 3º batalhão de cavalaria pesada, perscrutava cuidadosamente o horizonte, agarrado aos binóculos.
Não havia muito para ver.
Knin, a capital da pequena província de Krajina ( actual zona sul da Eslovénia ), estava praticamente destruída.
No futuro, quando alguém redigisse a história do conflito, chamar-lhe-iam simplesmente a batalha de Krajina, uma de entre tantas na longa guerra da Bósnia. A história não se preocuparia com o nome das ruas, com o nome dos feridos, dos mutilados, dos órfãos, das viúvas; tão pouco ficaria descrito o estado de destruição dos jardins, as estátuas amputadas, os tectos caídos dos museus e das igrejas, as padarias vazias, os animais abandonados nos becos ou aqueles bancos de escola primária – projectados para a rua quando os morteiros acertaram em cheio na sala de aulas, felizmente vazia.
O comandante Svetlin, militar de carreira, tinha a seu cargo uma missão – mais uma – de “limpeza residual”.
Quem se teria lembrado de semelhante nome ?
Não seria mais fácil dizer simplesmente “ eliminar tudo o que se mova “ ou simplesmente “ aniquilação total “ ? Claro que “limpeza residual” soava de uma forma mais suave… como se a mera troca de palavras pudesse suavizar os horrores da guerra.
A zona leste de Knin estava Já limpa de “residuais”, eufemismo político para referir tanto os franco-atiradores inimigos como a meia dúzia de famílias assustadas que ainda viviam no meio dos escombros das suas antigas casas. Tudo era … “ residual”.
 
- Dez graus à direita… Apontar… FOGO !
 
Novamente o lampejar, o recuo, o petardo a atingir com violência a parede. Uma cratera de estilhaços.
Na verdade, qual era a diferença entre militar no lado “certo” ou no lado “errado” ? A histórias das guerras é sempre a história escrita pelos vencedores... e não se compadece com as opiniões das minorias, dos que não concordam, dos que cumprem ordens.A história da guerra – de qualquer guerra – é sempre a história da conquista do poder, camuflada de maneira mais ou menos imaginativa, num cenário onde a lei da selva, como sempre, acaba por ditar ordens.
Assim pensava o comandante Svetlin, enquanto cumpria as suas ordens: “ Efectuar a limpeza residual da zona oeste de Knin”.
Ponto final.
 
- Demasiado por alto, demasiado... baixar um quarto... apontar ... FOGO !
 
A sequência repetia-se – Identificar o prédio resistente, confirmar a presença do inimigo, apontar os tanques, destruir o prédio. Nada de complicado. O inimigo, fosse ele qual fosse, nada podia contra os blindados de Svetlin, a desproporção de forças era abismal.
 
Voltou a ajustar os binóculos. O prédio seguinte aparentava estar ainda habitado – algumas peças de roupa penduradas numa janela. No tecto, um par de atiradores disparava frenéticamente contra os tanques, inutilmente.
 
- Apontem ao último piso – gritou pelo microfone – FOGO !
 
O fumo e o pó dificultavam a observação. O que seria aquele ponto colorido, junto dos escombros da entrada do edifício ?
Tentou sem sucesso focar os binóculos. Nada.
 
- Novamente. Apontem mais para cima...
 
De repente, o ponto colorido mexeu-se.
Voltou a tentar focar a imagem. O que era aquilo ? Não podia ser. Era impossível.
 
- Não disparem. Suspender fogo, suspender fogo – gritou.
Com um salto, desceu da cabine de comando do tanque e correu para o prédio. Do tecto do edifício, um saraivada de balas acompanhou-lhe os passos, lembrando-lhe que estava a cometer uma perfeita loucura. Os franco atiradores pretendiam vender bem cara a vida, e a figura do comandante a correr desprotegido, rumo ao edifício poderia ser a única vingança possível.
Sem saber como, conseguiu alcançar a entrada – a sorte protege os audazes. Ali já estava a coberto da linha de fogo.
Ainda mal acreditando no que estava à sua frente, ajoelhou-se diante do vulto cor-de-rosa que avistara pelos binóculos.
Que idade teria ? Meses, provavelmente...
Onde estariam os pais ? O que faria ali, semi soterrada pelas escombros ?
Pegou delicadamente na criança – não estava ferida. Instintivamente, ela agarrou-se-lhe aos ombros, na busca da segurança possível.
Ficou a olhar para ela, enquanto lhe passava a mão pelo cabelo, tranquilizando-a com palavras baixinho, protegendo-lhe os ouvidos dos estampidos das balas.
 
Ergueu os olhos em direcção a um protector invisivel.
- Obrigado... – murmurou
A pequenita começou então a chorar. De fome, de frio, de sono.
A vida teria que continuar.
- Já vamos tratar de ti, pequenina, já vamos... 

 

publicado por entremares às 14:01
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Quarta-feira, 20 de Maio de 2009

Sonho ou realidade ?

 

Há certos sonhos que, em boa verdade, nem se deveriam chamar de sonhos; era essa a conclusão a que estava a chegar, depois de tantas vezes se sentir a adormecer, a acordar, novamente a adormecer, novamente a cordar...
A dada altura, perdeu por completo a noção – estaria acordado... ou a sonhar ?
A diferença era, por vezes, demasiado ténue.
Olhou em redor.
Aquela imagem recorrente de um quarto branco, de mobilia austera e um vaivém constante de vultos a deslocar-se por trás de uma divisória de vidro fosco... já lhe era familiar, um sonho inúmera vezes repetido.
Por várias ocasiões se lembrara de tentar indagar a alguém o significado daqueles sonhos... quase todos eles localizados em quartos brancos e longos corredores, a fazer lembrar um hospital, uma escola antiga, ou mesmo um convento.
Nunca se proporcionara.
De quando em quando, rostos familiares surgiam-lhe no campo de visão; a esposa, o irmão Artur, o velho Zeca do talho, até o padre Afonso um dia por ali aparecera – de repente, deu consigo a pensar que havia algumas pessoas que via agora mais amiúde, em sonhos... do que na realidade do dia-a-dia.
O único senão – existe sempre um “mas”, mesmo nos sonhos – consistia na total ausência de som, que é como quem diz... todos aqueles sonhos eram do tempo do cinema mudo; as personagens mexiam os lábios, gesticulavam, moviam-se de um lado para o lado... mas nada de palavras, nada de música de fundo, nada de ruídos ambientes – um pouco aborrecido, sem dúvida.
 
Suspeitou que estava acordado.
Não tinha a certeza... mas as cores do quarto pareciam-lhe talvez um tudo nada mais vivas, ou até poderia ser simplesmente o sol a entrar pelas janelas abertas. Fosse como fosse, um odor característico a primavera espalhava-se por todos os recantos, demasiado intenso para provir do ramo de flores que alguém colocara sobre a mesinha de cabeceira.
Malmequeres, talvez. Bom gosto.
Através dos olhos semi cerrados, conseguia vislumbrar duas figuras, uma masculina e outra feminina... – ela sentada na ponta da cama, parecia ser a esposa, o homem não o conhecia.
A esposa? Bem... talvez não... o penteado era diferente... e assim vista de lado, até parecia uma pessoa... bastante mais velha.
O homem? Não se lembrava de alguma vez o ter visto – uma bata branca, daquelas usadas pelos médicos – seria algum médico ?
Conversavam.
- Eu sei, doutor... é claro que eu compreendo... mas sabe perfeitamente que este quarto tem mais condições... a enfermaria não é...
- Joana... Joana... – dizia o homem de bata branca – vai ver que a enfermaria é tão boa como este quarto... e a Joana poderá até vir visitá-lo mais vezes... o horário é mais alargado...
- Doutor... mas este quarto é tão ... luminoso, tem tanta luz... estas janelas... as enfermarias são tão escuras... o meu Luis gosta tanto de ver o sol...
- Joana... já conversámos isto, lembra-se ? O Luis não vê o sol... aliás, ele não vê nada, mesmo quando lhe parece a si que ele está com os olhos abertos... são só reflexos... eu já lhe expliquei, lembra-se ? O luis não nos vê... não nos ouve... o Luis está só a dormir...
- Mas doutor... ele pode acordar a qualquer momento...
- Joana... o Luis está em coma profundo ... há doze anos...lembra-se ?
- Doutor... mas ele vai acordar, eu sei disso...
- Está bem, Joana, está bem...  

 

publicado por entremares às 21:55
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Terça-feira, 19 de Maio de 2009

Sim, querida...

 

- João...
- Sim, querida ?
- Queres vir comigo às compras ?
- Hum... claro... claro que sim. E quando pretendes ir às compras ?
- Se pudesse ser... seria agora. Já não temos leite, nem manteiga... nem os meus cereais, aqueles que eu como ao pequeno almoço, sabes... tenho aqui a lista.
- Pode ser mais daqui a pouco ? Estou só a acabar de escrever isto... não demora nada...
- Cinco minutos ?
- Nem preciso de tanto... estou mesmo no fim...
- Está bem... então vou arranjar-me...
 
- João...
- Sim, querida ?
- Estou pronta. Podemos ir.
- ... dois minutinhos, só dois... esperas só dois minutos, pode ser? Estou só a ver se consigo enviar este mail...
- Tudo bem, mas despacha-te... olha que o supermercado está quase a fechar...
- Sim, claro... vamos já. Vá lá, vá lá... esta nossa internet está pior que um caracol...
 
- João...
- Sim, querida...
- Estou na sala, quando estiveres despachado, avisa...
- É claro... acho que já consegui fazer tudo... é só fechar isto aqui...
- Estou na sala...
- Já aí vou ter contigo.
 
- Maria...
- Hum... diz, João...
- Estou pronto. Viste o meu casaco ?
- Está pendurado na porta, creio. Porquê, vais sair?
- ... se vou sair? Então não me pediste para ir contigo às compras?
- Pedi... mas isso foi há uma hora atrás...
- ...
- ... e agora o supermercado já está fechado, como deves calcular...
- Oh, querida, desculpa... nem dei pelo tempo passar...
- Não faz mal, querido... eu sei que estavas muito ocupado...
 
- Maria...
- Sim, querido?
- ... não queres ir fazer nada para o jantar? Já estou a sentir assim qualquer coisinha a roer aqui dentro...
- Ah, claro... esperas só um pouco? Estou só aqui a acabar de ver o festival da eurovisão... não demora nada...
- Mais ou menos o quê ? Dez minutos?
- Dez minutos? Nem tanto, querido... acho que já vai na terceira canção... não demora nada...
 

 

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Segunda-feira, 18 de Maio de 2009

A ilha misteriosa

 

Existe algum local mais tranquilo que uma biblioteca ?
Bem… se excluirmos as igrejas vazias ou os mosteiros abandonados, é claro.
 
Pois… não, claro que não existe.
Apesar de que, naquele belo sábado de manhã, a excepção iria confirmar a regra de que as bibliotecas são locais silenciosos, de estudo e – porque não? – até inspiração. E isto tudo porque um filho da terra, o conhecidíssimo autor de romances históricos Luís Vilas Novas iria ali lançar a sua última obra, com direito a sessão de autógrafos, palestra e cocktail promovido pela sociedade portuguesa de autores. Enfim, uma cerimónia a que a pequena vila do Alandroal, escondida no Alentejo seco e quente de Agosto, não estava propriamente habituada.
Agosto, no Alentejo sempre foi sinónimo de três coisas; Calor – sempre muito… e muito seco, céu azul vivo - daquele tom que fere a vista de luz, reflectido na cal das paredes -  e finalmente… as ruas desertas, na sagrada interrupção da sesta.
O Alandroal podia passar despercebido no anonimato das urbes turísticas, sem monumentos de primeira grandeza ou eventos de abrangência nacional. Mas, naquele sábado de Maio de 2009, um ilustre filho da terra decidira regressar a casa e honrar as suas origens, através daquele pequeno gesto simbólico – lançar um livro.
Luís Vilas Novas, o autor, era uma daqueles característicos contadores de histórias, como tantos outros alentejanos, que havia trocado as tertúlias de café e os jogos de dominó pelas artes da escrita, enveredando por uma carreira de sucesso que já contava com mais de doze títulos, versando os romances históricos – a sua área predilecta.
“ A cruzada secreta “ era precisamente o seu último romance; uma história de aventura e mistério, retratando a odisseia de três cavaleiros cruzados, numa missão secreta a pedido de Roma, para tentar sequestrar Saladino, o todo-poderoso sultão do Egipto, nas vésperas da queda de Jerusalém.  
A biblioteca da vila, apesar de pequena, continuava acolhedora, como ele ainda recordava. Ainda pouco passava das dez da manhã quando o escritor voltou a percorrer o corredor branco, o pórtico de pedra que separava a recepção dos arquivos, rumo ao salão de leitura. A cerimónia só teria inicio ao meio-dia e isso dava-lhe tempo suficiente para poder, tranquilamente… matar saudades.
O salão de leitura não mudara nada, ao longo de todos aqueles anos – as mesmas estantes de madeira, com portas de vidro, a escada ao fundo para aceder ao arquivo antigo, propositadamente dissimulado nas estantes mais altas, as mesmas mesas de carvalho escuro, já com evidentes sinais da passagem dos anos… mas mesmo assim, ainda sedutoras.
Os olhos fixaram-se numa mesa em especial, junto de uma das janelas. Aquele era o “seu” lugar, o seu recanto de estimação – ali vivera as primeiras aventuras, saboreando as páginas com sabor a piratas, a contrabandistas, a heróis da revolução, a romances de cavalaria, a aventuras no espaço…
 
- O senhor doutor está matando saudades?
Voltou-se, sobressaltado. Aquela voz…
- Dona Palmira ? … É mesmo a senhora ?
Abraçaram-se efusivamente.
A biblioteca não seria a mesma … sem a dona Palmira, a eterna funcionária que ainda agora, já com a velhice bem estampada no rosto, resistia ao avançar dos anos e aparentemente, ainda tomava conta dos destinos de todos aqueles livros.
- O senhor doutor veio confirmar se já está tudo pronto ? – quis saber, o mesmo sorriso meigo que ele ainda recordava.
- Oh, dona Palmira, por favor… não me chame isso, que até me sinto mal… para si, eu serei sempre o Luís… só Luís. Deixe lá o doutor dentro da gaveta, por favor…
Ela aquiesceu, agradecida.
- Saudades ? – e ao mesmo tempo, ia apontando para a mesa onde o escritor estivera sentado e de onde se levantara em sobressalto.
Ele acenou em silêncio, numa concordância que dispensava palavras.
Por momentos, assim permaneceram, os olhares perdidos em tempos passados, recordando as colecções de instantes que, sem o percebermos, vão moldando a maneira como vemos as coisas…
- Tenho uma surpresa para si… - lá avançou a dona Palmira, após um longo silêncio – e queria dar-lha antes… de começar toda a confusão da cerimónia…
- Uma surpresa ? Ora essa…
Ela afastou-se, dirigindo-se até à mesa cinzenta metálica, onde ainda guardava as fichas de cartão com a identificação dos livros, dos armários, das prateleiras. É claro que também ali existia o computador e que – um pouco a custo, é certo – lá aprendera a trabalhar com o programa que geria a biblioteca. Mas não havia computador que substituísse o prazer de manusear com as mãos as pequenas cartolinas, com a sua letrinha cuidada e miudinha, a fazer lembrar a escola primária.
Abriu uma das gavetas e de lá retirou um pequeno embrulho, com um laço dourado.
- Oh, dona Palmira… então para que se deu a este trabalho ? Então…
Ela franziu os olhos, num olhar cúmplice.
- Vá… eu sei que gosta de presentes… e desta vez, não são chocolates…
Foi a vez dele recordar, com um sorriso nos lábios, os chocolates.
A dona Palmira sempre guardara, naqueles tempos longínquos, uma caixa de chocolates dentro da gaveta. Certo dia, ele vira-a a desembrulhar o doce e atrevera-se:
- Não me dá um chocolate desses ?
Mas ela não dera. Ao invés disso, lançara-lhe aquele olhar que ele tão bem conhecia e resmungara:
- Dou… mas só se souberes o nome do autor deste livro que estou aqui a ler…
Ele bem que tentou, espreitou, pôs-se a adivinhar… mas nada.
Baixou a cabeça, derrotado – Não sei…
Ela sorriu, matreira.
- Então é bom que tentes descobrir, meu malandro… ou então, nem te atrevas a voltar a pedir-me os meus maravilhosos chocolates…
 
Quanto tempo se passara? Trinta e muitos anos…
Emocionado, abriu o laço dourado e retirou o papel de embrulho. No seu interior, dois objectos.
 
Não conseguiu evitar o aperto da garganta, enquanto voltava a contemplar aquela letra torta – a sua – da requisição nº 3256, de 14 de Agosto de 1971, que segurava nas mãos. Por baixo, uma cópia do exemplar que ele requisitara nesse dia, quando finalmente descobrira o autor do livro que a dona Palmira devorava, todas as tardes daquele mês de Agosto.
“A ilha misteriosa” , de Júlio Verne.
Um sabor estranho invadiu-lhe o paladar. Quase quarenta anos depois, voltou a saborear a memória daquele chocolate, perante o olhar ternurento da bibliotecária.
Ainda lhe quis agradecer, mas o nó da garganta não consentiu.
Ela compreendeu… e abraçou-o de novo.
 

 

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Domingo, 17 de Maio de 2009

Olhar de borboleta

 

Com o maior dos cuidados, avançou, sorrateiro.
Um passo, depois outro, depois ainda outro.
Estranhamente, ela não fugiu, estremecendo simplesmente as asas quando sentiu o “clique” da fotografia.
O fotógrafo estava encantado. Uma Papilio machaon”, bem ali à sua frente, a pouco mais de dois metros de distância, imóvel, com um enquadramento perfeito, um fundo de vegetação escura... e sem qualquer réstea de vento... a fotografia perfeita.
Avançou um pouco mais, disparando sucessivamente.
Fotografar borboletas – diriam uns – poderia ser uma ocupação excêntrica, um clichê banal da fotografia de natureza ( fotos bonitas, coloridas, vistosas... ) – mas nada disso o afectava. As borboletas, como aliás todos os insectos, eram seres extremamente fotogénicos, elegantes, de uma pose natural que dispensava treinos e ensaios – já haviam nascido modelos.
Aquela borboleta andorinha, como era habitualmente conhecida, com os seus dois chifres amarelados, parecia no entanto estranhamente à vontade, sem se importar com os estalidos incessantes da máquina fotográfica – quando muito, abanava suavemente as asas acastanhadas, sem sequer levantar voo.
Aproximou-se um pouco mais – não estaria a mais de dois palmos de distância.
A borboleta fechou as asas e quando as reabriu, ocupou por completo o visor da objectiva – imóvel, serena, brilhante.
Apeteceu-lhe – de a ver ali tão perto – tocar-lhe, sentir-lhe a suavidade das asas coloridas, a leveza do corpo elegante.
Resistiu à tentação.
Aprendera há muito a não invadir aquele mundo mágico que ficava do lado de lá da sua objectiva – o encanto existia para ser visto e apreciado, não para ser tocado ou possuido. Quando muito, a fotografia tornaria eterno aquele momento fugaz de contacto íntimo, em que o fotógrafo e o seu modelo se fundiam, ela a desvendar-se perante os seus olhos, ele a saciar-se com a sua beleza.
E foi então que, num daqueles raros momentos que as fotografias nunca conseguem captar, um pouco de magia aconteceu.
A borboleta soltou o ramo onde pousara e com um suave bater das asas, veio pousar sobre a máquina fotográfica.
As antenas douradas agitaram-se, as asas estremeceram e ali permaneceu, nuns poucos segundos com sabor a eternidade, ambos a contemplar-se, quem sabe – olhos nos olhos – tocando o mundo imaginário de um qualquer conto de fadas.
Finalmente, levantou voo e afastou-se graciosamente, rumo a outro punhado de flores.
O fotógrafo permaneceu, porém, ainda a apontar a objectiva para o local vazio onde já não existia nenhuma borboleta.
A fotografia que recordaria para sempre – aquela borboleta ali pousada, a poucos centímetros do seu rosto – não ficaria registada em nenhum outro local, senão nas suas próprias memórias.
Guardou cuidadosamente a máquina fotográfica no respectivo estojo.
A borboleta dourada esvoaçava ainda ali perto, em redor de outro canteiro de flores amarelas.
Olhou para ela... e sentiu, sem perceber como, que ela lhe estava a retribuir o olhar...
 

 

 

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Sábado, 16 de Maio de 2009

Os cinco objectos

 

Olhou para trás.
Sempre sonhara com aquele instante, sempre antecipara a excitação do regresso a casa, o frenesim da partida, a viagem...
Mas a garganta apertada e aquele nó que lhe prendia a voz traíam-lhe o olhar de aparente felicidade.
- Está pronto ? – Podemos ir ?
O marinheiro de boné branco, ainda a segurar as amarras do pequeno bote, seguia-lhe o olhar trémulo de emoção.
- Estou pronto, sim... estou pronto... balbuciou.
Mas não estava.
Dez anos depois, aquela ilha deixara deixara de ser uma mera ilha, passara a ser a sua casa, o seu lar. Ali envelhecera um pouco, ali adoecera e ali se curara, ali passara dias de fome, dias de sofreguidão, dias de desespero, dias de solidão. Ali vira passar os dias, o rasto branco dos aviões a rasgar o céu azul, alguns navios na ponta do horizonte... e silêncio, principalmente um imenso silêncio a acompanhá-lo durante todo o tempo.
O tempo dos náufragos – ele descobrira isso sózinho – era um tempo diferente, media-se por relógios diferentes dos restantes mortais. Os dias começam com o sol, terminam com o sol, desdobram-se em rotinas comandadas pelos ritmos mais elementares de satisfazer a fome, a sede... e o sono – tudo o resto são extras para um náufrago.
Elias aprendera tudo isso sózinho. Durante dez anos, naquela ilha paradisíaca dos mares do sul.
O pequeno bote soltou as amarras e o marinheiro ligou o motor.
Para trás, cresceu o mar a separá-los da praia, a copa dos coqueiros a tornar-se progressivamente mais pequena, mais escura e indistinta.
Elias não conseguia desviar o olhar.
As mãos crispadas agarravam com força um saco de lona rasgada, onde guardara alguns objectos – poucos – que pretendia conservar.
- E então... o que decidiu trazer consigo ? – perguntou o marinheiro, curioso.
Elias não o ouvia, imerso naquele despedir nostálgico.
- Recordações ? – insistiu o marinheiro, um sorriso alegre a iluminar-lhe o rosto.
- É verdade... recordações...
O marinheiro queria saber mais.
- Conte... diga lá... o que trouxe ? Alguns cocos ?
Elias sentou-se, desviando finalmente o olhar da praia .
- Pouca coisa, amigo... pouca coisa... só alguns objectos que eu mesmo fiz, enquanto ali estive...
E lá abriu o saco, um pouco contrariado, mas a querer retribuir a simpatia do jovem marujo.
- Como vê... pouca coisa... uma concha furada, que foi o meu primeiro colar... metade de um coco, que foi o meu primeiro prato... o meu velho canivete... este bambu, que foi a minha primeira cana de pesca e... este outro, também de bambu... só isto, só estas cinco coisas...
- Estou vendo... estou vendo... e olhe que você tem muito jeito para trabalhar a madeira... esse último pedaço de bambu que me mostrou... parece diferente... para que lhe servia ? Para pescar ? Estou a ver aí uns furos...
Elias olhou para o último objecto e não conseguiu evitar um sorriso.
- Ah... este aqui ? ... Este aqui é ... a minha flauta...
- Uma flauta ? Você sabe tocar flauta ?
Elias, o náufrago, ficou a olhar para o jovem – a inocência da juventude.
- Meu caro amigo – lá respondeu finalmente – quando você fica sózinho numa ilha... por dez anos... eu acho que você até tem tempo para compôr uma sinfonia...

 

publicado por entremares às 20:06
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Sexta-feira, 15 de Maio de 2009

O guarda Tulipa

 

O guarda Tulipa era, sem a menor dúvida, uma daquelas personagens que ficava na memória.
Bonacheirão, espremido dentro da farta apertada de policia, enorme e desajeitado, com olhos de criança e um sorriso que cativava até a mais empedernida das pedras.
Só o próprio nome já era “ meio caminho andado “ naquele conquistar imediato de corações que o guarda Tulipa conseguia, como que por magia, efectuar... sem magia, sem varinha mágica...
O guarda Tulipa, lá bem do alto do seu quase um metro e noventa, e um peso vergonhoso para se dizer em voz alta... era o encarregado de vigiar a entrada da escola primária do Pessegueiro, também conhecida pela escola nº 4 da Belavista, em Setúbal. Nada de especial, portanto.
E, no entanto, tudo de especial.
Toda a gente conhecia o guarda Tulipa; ou porque um dia alguém precisou de transporte para casa e o guarda Tulipa estava lá, a substituir o autocarro que avariou...ou porque a D. Eugénia ( que nunca mais se reformava, apesar de parecer mais velha que as múmias ) só a ele confiava as chaves do seu velho Volvo, que o guarda Tulipa conseguia arrumar impecávelmente num espaço tão pequeno que ninguém se atrevia a ali tentar estacionar... ou mais que não fosse, porque o guarda Tulipa conhecia todos os alunos pelo nome próprio, sabia onde moravam, conhecia-lhes os pais... e até já levara alguns para a esquadra, confiscando-lhes os cigarros semi desfeitos nos bolsos e os canivetes de gente adulta que eles gostavam de exibir no pátio da escola.
Portanto, quando um dia o guarda Tulipa não apareceu à hora do costume, para orientar o trânsito junto à entrada do portão, todos perceberam que algo de estranho sucedera. O guarda Tulipa nunca se atrasava.
Ao final da manhã... já a noticia se espalhara. O guarda Tulipa estava nos cuidados intensivos do hospital, a tentar vencer uma batalha desigual contra dois ataques cardíacos quase consecutivos, fruto de muitos e bons anos de peso a mais, gordura a mais... e exercício a menos.
 
A porta vai-vem do corredor do hospital deu de si e com um encontrão, um enfermeiro foi encostado à parede.
- Vocês não podem entrar aqui – ainda tentou protestar.
Ninguém lhe ligou.
A gang dos Gatos, como eles gostavam de se auto-intitular, não aceitava um não como resposta.
Ao todo, não passavam de meia dúzia de adolescentes, o mais velho talvez ainda com dezasseis ou dezassete anos, o mais novo pouco devia passar dos quinze. As roupas e o visual, copiado dos filmes de Hollywood, mais faziam lembrar os “motards” dos anos setenta que os novos gangs das ruas do século vinte e um. Não fosse pelos piercings e os blusões de capuz...
O grupo avançou ostensivamente pelo corredor, lançando miradas de desdém aos funcionários que, tacticamente, se encostaram à parede. No canto oposto, alguém se apercebeu da insólita situação e saiu a correr, a chamar a segurança do hospital.
- Em que quarto ?
- Vinte e três.
O provável líder do grupo, aquele que fizera a pergunta, ia espreitando as diversas enfermarias e quartos, até se deter diante no número pretendido. Deu um passo para confirmar que o número correspondia, espreitou ... e acenou com a cabeça.
- É aqui. – e acenando para a porta – vocês já sabem o que têm que fazer...
Os outros, aparentemente, sabiam. Colocaram-se junto da porta, barrando a passagem, e o líder do grupo avançou sozinho para o interior do quarto.
Ao fundo, soou, um pouco distante, uma sirene de alarme.
 
Kikas, o líder eleito dos Gatos, não passava de um adolescente, como tantos outros. Completaria dezoito anos no mês seguinte, era ainda menor. Continuava a residir com a mãe viúva e uma tia, mesmo depois de ter abandonado a escola e começado a fazer uns biscates, principalmente nas obras. Os Gatos eram um grupo de amigos, nem santos nem vândalos, à procura de uma identidade; saíam juntos, bebiam juntos, frequentavam o salão de máquinas da avenida Tody e, de vez em quando, lá se envolviam em brigas com os ciganos. O motivo era sempre o mesmo – a ideia de que o jardim da avenida não era suficientemente grande para todos, e como tal... vá de trocar uns sopapos de vez em quando, para manter a chama da rivalidade bem acesa.
É claro que às vezes havia excessos. O próprio Kikas já fora parar aquele mesmo hospital, com o gargalo de uma garrafa espetado numa perna.
Mas naquele momento, Kikas tinha outros pensamentos.
Sentado na beira da cama, olhava fixamente para o guarda Tulipa, com o rosto semi-encoberto por uma máscara de oxigénio, fios e eléctrodos a entrar e sair da roupa, ligados a mostradores coloridos, com muitos “beeps” e luzes de aviso.
O guarda Tulipa sempre gostara dele.
O tempo voou e as memórias voltaram a correr-lhe diante dos olhos. Já haviam passado três ou quatro anos... mas é como se tivesse sido no dia anterior. Uma briga, mais uma, dessa vez contra outro grupo da Belavista e um canivete a voar de encontro  ao estômago, com insensatez e despropósito.
Tivera sorte.
O guarda Tulipa interpôs-se na trajectória e o metal rasgou-lhe as calças, arranhou-lhe a perna, salvando o Kikas de problemas bem maiores.
Nunca mais esquecera aquele episódio.
Olhou em seu redor. O resto do grupo continuava de vigia à porta. Puxou lentamente do boné vermelho e preto, perfurado por várias argolas metálicas – o seu estandarte de líder – e cuidadosamente, colocou-o sobre a cabeça do guarda Tulipa.
O aspecto final resultou caricato, aquela cabeça enorme, a máscara de oxigénio, o pequeno boné mal assente. Mas não importava.
 
- Kikas, vamos embora. A segurança vem aí... – gritou alguém do grupo
Voltou a olhar para a figura enorme do guarda Tulipa, imóvel e inconsciente. Era estranho como, de repente, alguém podia ficar assim tão vulnerável, tão indefeso...como se não passasse de uma criança.
- Kikas... vamos – voltou o outro a gritar, aflito.
- Vamos sim... – e virando-se para o interior do quarto, como se pudesse ser ouvido - ... aguenta-te Tulipa... aguenta-te...
 

Nota: Conheço um guarda assim. Não se chama Tulipa, a situação não se passou na Belavista, e felizmente, ele ainda está vivo e de boa saúde. Provavelmente, vocês também conhecem alguém assim, como o Tulipa...

 

publicado por entremares às 11:57
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Quarta-feira, 13 de Maio de 2009

A defesa do réu

 

 

- O arguido tem algo mais a dizer em sua defesa ?
Dito daquela forma, as palavras tornavam-se pesadas, como se de uma sentença capital se tratasse. O réu, um homenzinho pequeno ainda na força da idade, remexia-se nervosamente por detrás da antepara de madeira que separava a mesa da juiza da zona reservada aos arguidos e testemunhas.
- Doutora juiza, bem vê... foi sem intenção... não foi por mal...
- Mas o senhor sabe que o fez foi errado, reconhece isso ?
- Se o diz, doutora juiza... mas tem que se pôr no meu lugar... que mais podia eu fazer ? Não tenho feitio para me pôr a assaltar bancos...
A juiza enrugou a testa, pouco habituada a ser interpelada daquele modo.
- Tenha contenção na linguagem, senhor Fonseca, tenha contenção. Eu não estou aqui para responder às suas perguntas... o senhor é que foi presente a este tribunal para averiguar os factos de que é acusado... e assim, mais uma vez, pergunto-lhe... o senhor reconhece que praticou um acto ilícito ?
- Reconheço sim, doutora juiza.
- E, mesmo sabendo desse facto, praticou-o...
- Doutora juiz, como lhe tentei explicar, eu não consegui...
- Páre. Tudo o que eu preciso de saber está escrito aqui, nos autos. O senhor Fonseca foi presente a este tribunal por ter sido apanhado, em flagrante delito, no roubo de um supermercado, em concreto o estabelecimento Felicio e Irmãos, lda, na passada segunda-feira, dia quatro de Maio. Foi interceptado pelos agentes da autoridade, não ofereceu resistência e devolveu os bens furtados, à excepção daqueles que entretanto consumiu. São correctos, estes factos ?
- São sim, doutora juiza.
- Muito bem... então face ao disposto na lei, não tenho outra alternativa senão aplicar-lhe a pena de prisão por dez dias, ou coima equivalente de 500 euros, correspondente ao valor diário de 50 euros. Compreende o que lhe estou a dizer ?
O senhor Fonseca baixou os olhos, subitamente esmagado pelos números.
- Compreendo sim, doutora juiza.
- Vai pagar a multa, portanto?
- ...
- Senhor Fonseca... opta por pagar voluntáriamente a coima que o tribunal lhe está a aplicar?
O senhor Fonseca enrubesceu, a face cada vez mais corada, pronto a explodir.
- ... Doutora juiza... vossa excelência vai me desculpar... mas eu tenho que falar, que isto está-me aqui entalado na garganta, e se eu não digo isto, eu rebento... a senhora doutora juiza sabe o que é que eu roubei, sabe? Pois se não sabe, eu digo-lhe...roubei dois frangos congelados e duas embalagens de leite... e sabe porque roubei? Eu que nunca roubei nada na minha vida? Roubei porque fiquei sem trabalho, roubei porque fui despedido, porque fiquei com seis meses de salários em atraso, roubei porque tenho um filho lá em casa com fome... não roubei dinheiro, não roubei ouro nem jóias, só roubei coisas de comer... e se depois de saber tudo isto, ainda me está a perguntar se quero pagar 500 euros de multa, só pode estar a gozar comigo... portanto, faça o que quiser, que este país de miserável já não passa...
- Guardas...
- E ainda lhe digo mais... a doutora juiza sabe quem era o meu patrão, sabe ?
- Guardas... levem este homem ...
- Não sabe quem era, não está aí escrito? Mas eu digo-lhe... eu digo-lhe... eu trabalhava naquele supermercado, trabalhei lá durante oito anos... e foi esta a paga que eu recebi... fariam melhor em trazer aquele Felicio a este tribunal... mas não, eu é que aqui estou...
- Guardas... podem levar este homem...
 
- Senhor Fonseca... a lei é para se cumprir... por todos...
- Tem razão, doutora juiza, tem razão... oxalá nunca precise de fazer o mesmo que eu...
 

 

publicado por entremares às 09:36
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Segunda-feira, 11 de Maio de 2009

TAMIFLU

 

Feira de Carcavelos, à hora do costume...
 
- Olh’o Tamiflu... é cinco euros o frasco, olha o Tamiflu... freguesas, só aqui, olh’o o Tamiflu... olh’a o remédio da gripe.... olh’o Tamiflu... é só cinco euros, é só uma nota...
- Já não tem Magalhães, daqueles de vinte e cinco euros ?
- Oh, freguesa... aquilo já não se vende... agora é só Tamiflu...
- Mas não lhe se sobrou nem um, só um ?
- Ah, senhora... já n’a nada... agora é só Tamiflu... Tamiflu!. É só cinco euros o frasco... venham ver o remédio da grupo... olh’o Tamiflu...
- Então e esse remédio... se eu comprar mais do que um frasco... faz desconto ?
- Ah senhora... n’a posso... e já tenho ta poucos... Olh’o Tamiflu... é só cinco euros, é só uma nota...
- Pronto, está bem... levo dois frascos....
- Manel... arranja-me aí dois frascos pra esta freguesa.... Olh’o o Tamiflu... é só cinco euros...
 
( No interior da roulote )
- Dá-me aí dois frascos...
- Atão pai... está a acabar-se ... tenho que começar a encher mais alguns... onde estão as coisas ?
- As coisas ? Os frascos vazios estão ali no caixote... as caixas de aspirina estão ali no saco vermelho...
- E quantas ponho em cada frasco ?
- ... Umas vinte, mais ou menos... ninguém vai contar... vá, despacha-te...
 
- Aqui tem, freguesa... dez euritos...
- Obrigada.
- Olh’o Tamiflu... oh, freguesas, olh’o Tamiflu, olh’o remédio pra gripe, é só uma nota... Olh’o Tamiflu... quantos quer, freguesa, quantos quer ?
 
 

Nota: Acham que estou a imaginar coisas?

publicado por entremares às 21:44
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Domingo, 10 de Maio de 2009

Quem quer casar ?

 

 - Desculpe... importa-se de repetir?

- Claro, claro... eu queria casar.
- Casar? Ah, pois... naturalmente. E quer vir tratar dos papéis, portanto ?
- Exactamente. Quero tratar de tudo o necessário.
- E já têm alguma data pensada? Algum dia assim mais especial?
- Sim, dia 31 de Maio.
- Uma data bonita, sem dúvida... e diga-me, tem consigo já os documentos necessários, já sabe quais são os documentos?
- Tenho alguns... se quiser conferir...
- Ora vejamos... o seu bi... certidão de nascimento... contribuinte... sócio de ... este não faz falta.... declaração de residência... sim, isto mesmo...
- Está tudo?... ou esqueci-me de alguma coisa?
- Não, não... parece-me que está tudo... até tem aqui documentos a mais... mas está tudo certo. E a outra metade?
- Desculpe?
- Os documentos da sua noiva, quero eu dizer... também os tem aí consigo?
-... não.
- Mas eu vou precisar deles, sabe? Senão não posso iniciar aqui o processo de casamento. Sabe ao menos alguns dados de memória? Podemos ir adiantando alguns impressos...
- ...
- Muito bem... então, diga-me por favor, nome da noiva...
- ...
- O nome da noiva... tem que ser completo, para o registo civil.
- Como quer que eu saiba o nome da noiva?
- Não sabe o nome da noiva?
- Claro que não sei.
- ... Vai desculpar-me... mas não percebo.
- Não sei o nome da noiva... ainda. Aliás, julgava que era o senhor que me iria dar a escolher qual seria...
- ... estou confuso, meu jovem, não o estou a acompanhar. Julguei que me tinha dito que se vinha casar...
- E venho. Mas no anúncio não falava nada acerca do nome da noiva. Como quer que eu saiba o nome da noiva se ainda nem a conheço?
- Não... não conhece a noiva? Mas então...
- ...
- ... deve haver aqui algum engano...
- Talvez...
- O senhor falou num anúncio...
- Exactamente. Tenho-o aqui comigo, quer ver?
- Se não fosse incómodo...
- Essa agora... ora aqui o tem...
 
Sente-se sózinho ? Nunca pensou em casar?
Venha visitar-nos e conhecer as mais belas jovens da Ucrânia, cultas e meigas, que poderão mudar a sua vida por completo. Tratamos de todas as formalidades. Documentos necessários: fotocópia do ... “
 
- Então... esta não é a rua de São João à Lapa, número 22?
- É... mas aqui não é a Agência de Casamentos “ Flores da Ucrânia” ...
- Ai não ?
- Não... aqui é o terceiro cartório notarial...
 

 

publicado por entremares às 21:01
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Sábado, 9 de Maio de 2009

George Clooney

 

 

- Pode dar-me um autógrafo ?
- Um autógrafo? Essa agora...
- Vá lá, não seja tímido... é só um autógrafo...
- Mas, minha senhora...
- Eu sei, eu sei... vai dizer-me que está sempre a ser perseguido pelas admiradoras, etc, etc... mas olhe, eu tenho até aqui uma caneta e tudo... vá lá...
- Minha senhora, se você...
- Sim, sim, sim... eu digo sim a tudo, não se preocupe, mas é para a minha sobrinha, que é uma grande admiradora sua... vá tome... escreva lá...
- ... o que quer que eu escreva ?
- Qualquer coisa... basta lá estar o seu nome, que ela já vai ficar encantada...
- ... pronto... aqui está...
 
- ... com muita admiração... simpatia... José Figueiredo... o que é isto ?
- Não foi um autógrafo que me pediu ?
- Claro que foi... então porque escreveu aqui este nome, Figueiredo, porque não assinou simplesmente George Clooney ?
- Porque o meu nome é José Figueiredo.
- Figueiredo ? Você não é o George Clooney ?
- Não, não sou... eu sou o José Figueiredo.
 
- Estúpido... A fazer-se passar pelo George Clooney... não tem vergonha ?

 

 

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Sexta-feira, 8 de Maio de 2009

Conspiração no Hotel Avenida

 

 

" A inspiração é uma amante traiçoeira; quando vem é avassaladora, mas passa muito tempo ausente." - Iris Barroso

 

 

Era verdade. E ele sabia-o, melhor que ninguém.
Jílio Mesquita Afortunado Sá. Não era nome que ficasse no ouvido.
Silvio Sá – assim estava melhor, um nome mais curto, mais fácil de fixar. Quem é que poderia aspirar à fama, com um nome tão dificil de memorizar ?
Portanto... Silvio Sá.
Escrever romances... sempre fora algo de complicado. O público gosta de finais felizes, beijos, abraços, reconciliações, histórias mirambolescas... mas que não terminem em tragédias. Porque, para tragédias... já bastam os dias cinzentos...
Silvio Sá – passemos a tratá-lo assim – sabia tudo isto. Tal como sabia que a inspiração é um perfume volátil, que pode aparecer e desaparecer sem deixar rasto, deixando-o a ele, escritor quase aposentado, na dificil situação de estar a trabalhar em três romances, em simultâneo... mas todos incompletos... por falta de inspiração.
“ A conspiração do Hotel Avenida” era, contudo, a menina dos olhos, aquela história pela qual ele gostaria de ser lembrado, se algum dia viesse a ser lembrado; o romance continha todos os ingredientes necessários ao êxito – sexo, aventura, muito suspense, cenas de pancadaria e até um pouco de religião à mistura. Se a receita resultara com alguns romances dos últimos tempos, de autores no mínimo duvidosos... porque não haveria de resultar com ele, catapultando-o para o estrelato?
No entanto, o nosso escritor debatia-se com um pequeno problema.
- Tenho todo o direito de ter as minhas excentricidades – gostava ele de argumentar consigo próprio, quando debatia mentalmente o problema.
E qual era o problema?
O nosso escritor não conseguia escrever em casa. Fosse pelo ruído de fundo, o trânsito na rua, os aviões a descolar ou pousar, os vizinhos do andar de cima... ou simplesmente por ter de escrever na sala, enquanto a mulher passava a ferro ou devorava novelas na televisão. Enfim... não se podia exigir mais a um T1, em plena avenida do Brasil, a poucos passos do aeroporto da Portela.
Portanto, quem sabe? Talvez até fosse por esse motivo que ele deixara de conseguir escrever, após um início de carreira tão bem sucedida. Ou claro, porque a inspiração o abandonara, como amante despeitada...
Silvio Sá descortinara entretanto uma solução.
No maior dos secretismos, reservava um pequeno quarto numa pensão de terceira categoria, ali para os lados do Intendente, todas as sextas feiras... e lá passava grande parte do dia, a escrever solitário novos capítulos do seu romance da conspiração.
O encarregado da pensão, um tipo mal encarado sempre com um palito pouco higiénico no canto da boca, já nem olhava para ele – entregava-lhe a chave do quarto, rabiscava um apontamento, e ficava a pensar que aquele devia ser o único cliente que passava um dia inteiro no quarto, e ainda por cima sózinho. Enfim, coisa rara...
 
Naquela sexta-feira, como em todas as anteriores, Silvio Sá galgou os dois lances de escadas, ultrapassou a porta de vidro fosco e dirigiu-se à recepção. Não prestou atenção contudo a um vulto tímido que o seguia, espreitando cautelosamente encostado a uma das árvores do passeio.
- Boas-tardes… - lançou ele, como de costume.
O encarregado do costume resmungou qualquer coisa, sem desviar os olhos da televisão. Estendeu-lhe mecanicamente a chave com a etiqueta número nove e continuou entretido com o pequeno écran.
Sílvio Sá encaminhou-se de pronto para o quarto, no fundo do corredor da direita, bem no primeiro andar.
 
 
Três da tarde… um relógio de parede martelou sonoramente as características pancadas, algures num quarto ali perto.
Espreguiçou-se. Sobre a mesa, duas grandes pilhas de papel ilustravam a vintena de tentativas de terminar mais um capítulo - mas as palavras certas teimavam em não aparecer sobre o papel - e sobre a cama, um saco de plástico com duas sandes ainda por mastigar compunham o resto do cenário da conspiração.
- Vou tomar um duche… quem sabe se uma cantilena ao chuveiro resulta…
E se bem o pensou… melhor o fez.
 
Truz, truz, truz…
Visitas? A uma hora destas? Ou seria outra vez o encarregado mal encarado a querer saber até que horas queria ele conservar o quarto? O homem era chato, tremendamente chato.
Enrolou a toalha à volta da cintura e lá foi até à porta. Entreabriu uma fresta, pronto para descompor o irritante funcionário - se ele quisesse alguma coisa, que viesse mais tarde - porque não pusera ele aquele letreiro do " Não perturbar" pendurado na fechadura ?
Do outro lado, um pé avançou rapidamente pela fresta, eventualmente para o impedir de poder voltar a fechar a porta. Mas não… o pé não pertencia ao encarregado de palito na boca…
Engoliu em seco.
 
- Eu sabia… eu bem que desconfiava…
- Maria… - gaguejou, aflito - … tem calma, não é o que tu estás a pensar…
- Júlio Mesquita… afasta-te imediatamente para o lado… - e entrou de rompante quarto adentro - onde está essa desgraçada ?
- Mas, mas… não te percebo… estás a imaginar coisas… Maria, ora ouve lá…
A única coisa que se ouviu foi o sonoro movimento da mão, lançado contra a face surpresa do nosso Sílvio Sá - também Júlio Mesquita. Desequilibrado, caiu redondo no chão, a cabeça a anunciar um belo hematoma contra a mesinha de cabeceira.
 
- Julinho… Julinho…
- …
- Julinho, meu querido… perdoa-me… foi sem querer… eu estava enganada, foi uma confusão…- e massajava-lhe suavemente o couro cabeludo - ainda te dói muito, dói ?
Ele fez de conta que sim.
- Fala comigo, Julinho, fala… tenho estado aqui toda ralada…
Ele fechou os olhos, deliciado por toda aquela atenção extra. Há quanto tempo não via a sua Maria assim, tão terna… e longe das novelas, longe do T1, longe de tudo ? Adeus monotonia, adeus rotina… e pensando bem… o quarto continuava reservado, não era ? Pelo menos até à noite…
 

 

publicado por entremares às 17:38
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Quinta-feira, 7 de Maio de 2009

O inquérito da Felicidade

 

“Considera-se uma pessoa feliz?”
Hum… como primeira questão de um inquérito, a coisa promete. Isto de ser feliz tem que se lhe diga… mas pronto, vamos lá colocar uma cruzinha no “sim, medianamente feliz”.
 
“Considera a sua vida familiar harmoniosa?”
Bem… depende do significado de … harmoniosa. Se estiver implícito que de vez em quando todos temos o direito de arranjar uma pequena briga, mais que não seja porque a filha adolescente chegou demasiado tarde a casa… então é claro que sim. Mas que pergunta tão vaga… vamos lá colocar a cruzinha no “ de um modo geral, sim”.
 
“ Mantem o seu posto de trabalho há mais de cinco anos?”
Felizmente, posso responder que sim.
 
“Profissionalmente, foi promovido ou transitou para um escalão hierárquico superior, nos últimos dois anos ?”
Que pergunta… suponho que quem imaginou este inquérito não sabe o que é ser funcionário público; ou será que copiaram estas questões de outro inquérito ? Provavelmente…. Bem, vamos lá colocar a cruzinha aqui no quadradinho do não.
 
“Considera a sua remuneração adequada ao tipo de trabalho que desempenha ?”
Só podem estar a brincar… mas quem é que fez estas perguntas, estarão a viver no mundo da lua, ou quê ? Então temos a média de salários mais baixa de toda a Europa e ainda por cima querem saber… se estamos felizes com isso ? Eu já lhes digo… cruzinha no não, descaradamente.
 
“Gostava de trocar de viatura com uma frequência maior à actual?”
Ora bem… finalmente uma questão que eu percebo. Pois é claro que gostava, vamos lá colocar aqui a cruzinha no sim…
 
“Já se sentiu, durante o último ano, deprimido ou pessimista em relação ao futuro?”
Como é que adivinharam ? Não é preciso ser vidente para saber a resposta a esta questão. Aliás… que tipo de tratamento irão eles dar a estas respostas ? Gostava bastante de saber… mas vá lá, vamos lá aqui responder que sim ao pessimismo…
 
“ Numa escala de 0 a 10, como classificaria o seu estado de felicidade actual?”
Olha, olha… pergunta engraçada… vamos lá a pensar… se o 10 é a felicidade suprema… o 0 deve ser o cúmulo da pobreza, da doença, dessas coisas todas, que tragédia… bom… vamos lá colocar aqui um 7… pensando bem, a vida não são só tristezas…
 
“ Numa escala de 0 a 10, como classificaria o seu estado de felicidade, há dois anos atrás ?
Olha que pergunta idiota… qual é a finalidade disto ? Se é só para perceberem que existe uma coisa chamada crise, então está bem, vamos lá colocar a cruzinha aqui no 8… mas continuo a não ver a lógica de pergunta tão disparatada…
 
“Considera-se uma pessoa religiosa?”
Para que querem eles saber isso ? Julguei que o inquérito pretendia classificar o grau de felicidade das pessoas… agora também querem obter dados estatísticos sobre a religião ?
Hum… vamos lá responder que sim… acho que sou religioso…
 
“Considera-se uma pessoa política?”
Cruzes… é que nem pensem nisso… estou farto de política até à raiz dos cabelos… e dos políticos, ainda mais. Portanto, um não descarado a esta…
 
“ Já tomou, nos últimos dois anos, algum medicamento receitado pelo seu médico, de natureza anti-depressiva ?”
Parece uma daquelas perguntas dos seguros de saúde… você é um tipo saudável, blá-blá-blá… o que andei eu a tomar ? será que aqueles comprimidos da falta de apetite também contam ? Ou os da insónia, quando o ar condicionado avariou, e ninguém conseguia dormir lá em casa, por causa do calor ? É melhor responder que sim…
 
“ Última pergunta: Se lhe dissessem que mais de 90% da população se sente triste, infeliz e pessimista com a actual situação económica do país, acreditava ou não ?”
Se me dissessem… pois é claro que acreditava… aliás, os únicos que não devem andar infelizes…. Só se forem mesmo os políticos, que esses não precisam de contar os tostões ao fim do mês… portanto, é claro que sim, claro que acredito, a percentagem até deve ser maior…
 
Noticia de última hora: Segundo o prestigiado jornal inglês “ The Real Observer”, uma sondagem de fundo realizada no nosso país, a mais de 2000 cidadãos, revelou uma conclusão deveras preocupante; mais de 95% da população considera-se infeliz e extremamente pessimista em relação ao futuro. Com efeito, a grande maioria dos inquiridos reconhece ser hoje mais infeliz do que era há dois anos atrás, tendo desenvolvido problemas crónicas como problemas de sono ou de falta de apetite. Uma elevada percentagem tem ainda recorrido, no mesmo espaço de tempo, ao uso de anti-depressivos, como forma de aliviar o “stress” de carreiras profissionais frustadas, sem progressão nem promoções, onde o trabalho desempenhado nunca é justamente recompensado. O inquérito revela ainda que a vida familiar reflecte esta insatisfação, não conseguindo as famílias já manter o nível de bem-estar económico anteriormente alcançado. Um exemplo é o parque automóvel, a envelhecer cada vez mais, pela incapacidade das famílias em adquirir ou substituir as suas viaturas. De igual modo, os inquiridos manifestam o seu afastamento da politica, considerando que é uma perda de tempo.E, finalmente, apesar do sol, apesar da segurança, apesar do clima excepcional de que dispomos… os portugueses já só se consideram “medianamente felizes”.
Dados preocupantes, certamente, perante este cenário traçado por uma grande sondagem efectuada pelo prestigiado jornal inglês “ The real Observer”
 
Nota: E agora, pergunto eu – o que me dizem vocês disto ? Qual é a moral da história ?
 
 
 

 

publicado por entremares às 19:35
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Quarta-feira, 6 de Maio de 2009

Um jantar de raposa

 

 

Era uma vez uma raposa, daquelas raposas matreiras como são todas as raposas; cauda felpuda, pelo brilhante, olhos penetrantes e orelhas espetadas, sempre sorrateira à espera de uma distracção do seu jantar preferido; o galinheiro do senhor Tobias.
O dito galinheiro, construido bem ao fundo da quinta, servia também como muro, como divisão do terreno – do lado de cá, galinhas incluidas, mandava o senhor Tobias, do lado de fora, mata adentro, não mandava ninguém.
A floresta começava bem ali, logo depois da pequena quinta do senhor Tobias. E na floresta, viviam as raposas, os coelhos, os lobos, as corujas e um sem fim de animais que, guardando silêncio durante o dia, enchiam os montes e vales de gritos e uivos, mal o sol se punha no horizonte.
Dizia quem sabia que aquela floresta, contudo, não era igual a todas as outras florestas. Nem tão pouco alguns dos animais que ali pernoitavam...
 
Catorze, quinze, dezasseis... dezassete galinhas. Como era possível resistir a semelhante petisco ?
Escondida sob a folhagem protectora dos arbustos, a raposa observava o terreno, à procura da melhor estratégia. O galinheiro, apesar da frágil aparência, não era de fácil assalto – as redes eram demasiado altas para saltar, a porta de madeira não tinha frestas... nem tão-pouco existia por perto alguma árvore que pudesse utilizar como trampolim... portanto, o jantar afigurava-se delicioso... mas difícil de obter.
A raposa contava contudo com uma arma secreta.
Esperou pacientemente que as sombras caissem e rastejando silenciosamente, chegou-se junto da cerca de arame. As galinhas, distraídas em conversas de fim-de-tarde, agrupavam-se do lado oposto do galinheiro, junto aos comedouros e poleiros. Nenhuma deu pela sua presença. O galo já se devia ter recolhido ao interior da casota, não o via em parte alguma.
E foi então que a raposa decidiu empregar o seu recurso mais precioso; a magia.
Sussurrou as palavras mágicas e... deu-se inicio à transformação; o corpo amarrotou-se, a forma foi-se alterando, diminuindo de tamanho, diminuindo, diminuindo... até que, em breves segundos, nada restava do aspecto da raposa de cauda felpuda, olhos penetrantes e orelhas espetadas. No seu lugar, surgira uma vulgaríssima formiga negra, de diminuto tamanho, as longas antenas a farejar o ar.
Com a maior das facilidades, transpôs a cerca metálica, deslizando tranquilamente o minúsculo corpo por baixo dos arames que delimitavam o galinheiro.
O plano não podia ser mais simples. Se uma raposa era grande demais para passar através da cerca... uma formiga resolveria a situação. E, depois de se apanhar lá dentro... ah, bom... então já poderia voltar a ser a raposa outra vez.
Na verdade, os planos mais simples... são sempre os mais eficazes.
 
Do alto do poleiro que lhe servia de torre de vigia, o velho galo não estava a gostar nada das vistas. Uma vez mais, aquela raposa andava por ali às voltas, às voltas... e já sabia, por experiência própria, que aquilo não era bom sinal. Avizinhava-se o perigo.
Conteve o nervosismo. O pior que poderia fazer naquele momento seria dar o alarme; só conseguiria ter dúzia e meia de galinhas estouvadas em pânico, a cacarejar sem sentido e a correr para todos os lados. Presas fáceis.
Não, assim não. Precisava de uma estratégia.
Viu a raposa a avançar, sorrateira, a coberto das sombras. E depois viu... a transformação.
Oh, não... a raposa tinha os poderes mágicos... podia transformar-se na forma que quisesse... precisava de pensar numa solução, e rapidamente.
Dois segundos depois, tinha a solução. Para combater a magia... só a própria magia.
Saltou do poleiro e correu, as asas abertas, em direcção à cerca.
Procurou, com a réstea de luz quase a desaparecer, a invasora. Onde estava a formiga ? Era uma questão de vida ou de morte, tinha mesmo que a descobrir.
Finalmente, encontrou-a. Acabara de assomar o corpo por baixo dos arames da cerca, as minúsculas antenas a farejar o ar do galinheiro.
Mas não. Não. Hoje a raposa não iria levar avante a sua investida.
Baixinho, cacarejou as palavras mágicas e... deu-se inicio a mais uma transformação. O galo de penas brancas estrebuchou, agitou as asas, contorceu-se, as formas alteradas, o tamanho a aumentar, a aumentar... até já ser impossível distinguir a sua forma original.
No seu lugar, surgiu a forma excêntrica de um papa-formigas, as longas garras e o nariz afilado, o corpo preto luzidio de pelo curto.
As galinhas, aflitas, fugiram para o interior da casota, numa nuvem de pó e penas .
O papa-formigas, vagarosamente, projectou a sua lingua viscosa em direcção à formiga, saboreando-a logo de seguida.
 
Poucos segundos depois, a calma voltara ao pacífico galinheiro.
O senhor Tobias ainda espreitou pela janela, perante a corrida desenfreada das galinhas para o interior da casota.
- Falso alarme... – resmungou o senhor Tobias – deve ser só o galo a fazer alguma das suas...

 

publicado por entremares às 21:23
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