Quinta-feira, 30 de Abril de 2009

A hora da liberdade...

 

 

O pequeno periquito inclinou a cabeça para o lado, naquele jeito tão particular que as aves têm, quando querem focar toda a atenção num único local.
- O que estás tu a ver, com tanta atenção? – quis saber o amigo esverdeado.
- Estou a olhar para a porta... – respondeu o periquito azul. Já reparaste nela?
O periquito esverdeado olhou na direcção indicada, mas não encontrou nada que lhe retivesse a atenção.
- ... Não vejo nada de especial... aliás, só mesmo tu é que andas sempre a ver se descobres coisas novas... não sei como nunca te cansas...
O periquito azul inclinou ainda mais o pescoço.
- Sou curioso, é só... – justificou-se – e também não percebo porque motivo tu és tão desinteressado... nunca tens perguntas? Nunca ficas curioso?
O periquito esverdeado esboçou um movimento com o bico, vagamente semelhante a um sorriso.
- Eu? Curioso? Para quê?... Por acaso algum dia me faltou o almoço ou o jantar? Nunca. Alguma vez fiquei sem as minhas deliciosas folhas de alface? Nunca. Porque haveria de ficar curioso?
- Podias querer saber o que existe lá fora...
O periquito esverdeado agitou-se, incomodado com a observação.
- Lá fora ? ... Isso do “ Lá fora “ não existe... só tu mesmo é que passas os dias a falar desse “ Lá fora “...
- Claro que existe... só não tenho é provas...
- Claro que não tens provas. Isso do “ Lá fora “ é conversa fiada... Lá fora, é onde vivem os humanos e ponto final. Eles vivem lá fora... e nós vivemos cá dentro.
E, com a asa esverdeada, fez um gesto teatral, apontando para a grade branca da gaiola.
- Mas eu ... eu tenho que experimentar... – murmurou o periquito azulado – eu quero saber, eu preciso mesmo de saber..
O periquito esverdeado abanou a cabeça, em tom reprovador.
- Não sejas tonto... aqui tens tudo o que precisas... comida da melhor qualidade.... uma casota de madeira onde te abrigas do frio e da chuva... uma gaiola limpa todos os dias... e um dia destes, até nos trazem umas moças bonitas, para nos alegrar os dias... que mais queres tu ? Nem te pedem nada em troca...
- Claro que pedem.
- Ora... isso nem é pedir... só querem que cantes assim de vez em quando, para os deixares felizes... e que consigas ser pai de muitas crias... muitas e muitas... isso é só o que eles querem... não me parece demasiado...
O periquito azulado não estava convencido.
- Mas sinto-me preso, aqui...
Ao mesmo tempo que dizia isto, abriu as asas e voou até junto da porta entreaberta da gaiola.
- O que vais tu fazer ? Não sejas louco... – gritou-lhe o periquito esverdeado.
O periquito azulado não lhe prestou atenção. Com um gesto fácil do bico, empurrou a grade branca para cima e passou o corpo esguio para o lado exterior da gaiola.
Do lado de fora, contemplou o colega de cativeiro, que tremia sobre poleiro de madeira.
- Volta,... por favor, volta... vou ficar aqui sózinho... – lamentava-se ele.
- Não posso... preciso de descobrir... o que existe aqui.
- Mas esse mundo é perigoso... de certeza que é muito perigoso...
O periquito azulado ensaiou um pequeno voo em redor da gaiola.
Por um breve instante, o sabor inebriante da liberdade atravessou-lhe as penas coloridas, como um arrepio de frio intenso.
Mas era um frio especial, um frio saboroso, uma lufada de ar mais fresco, mais... nem encontrava palavras para expressar o que estava a sentir naquele preciso momento.
- Se tu pudesses sentir o que eu estou agora a sentir... perceberias – gritou ele, continuando a voar em redor da gaiola.
O periquito esverdeado não percebia.
- Volta, por favor... – gritou de novo
O periquito azulado já não o ouvia. Com um leve bater de asas, ganhou altura, ultrapassou a janela aberta e desapareceu por entre a vegetação do jardim, chilreando freneticamente.

O relógio tocara a sua hora da liberdade...

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publicado por entremares às 18:29
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Terça-feira, 28 de Abril de 2009

A mulher ideal...

 

- Devias vir deitar-te... já é tarde.
- Eu sei... mas não consigo... não tenho sono – e continuou debruçado sobre o teclado, escrevendo compulsivamente.
- Mas tu próprio me dizes para insistir contigo... – e a voz dela era suave, mais suplicante que insistente.
- Eu sei, eu sei... mas eu de noite penso melhor... sou mais criativo.
- És mais criativo ?
- É verdade... talvez seja do silêncio... ou até da tua companhia, não sei...
- Mas eu também te faço companhia de dia...
Ele levantou-se e foi servir-se de mais uma dose de Martini.
- Sabes, Lila ... tu transformaste-te num vício... é horrível...
- Eu ? Um vício ? Esse tom de voz magoa-me...
- Não é essa a intenção, certamente... aliás, sabes bem que faria tudo para não ferir os teus... sentimentos... mas a verdade é que estou viciado... em ti.
Ela soltou um riso abafado.
- Lila...
- Sim, Lucas ?
- Diz-me uma coisa... há quanto tempo estamos juntos ?
Por uns segundos, pareceu-lhe que os olhos dela brilhavam de um negro mais intenso, fitando-o penetrantes.
- Um ano, dois meses e dezoito dias... – murmurou ela – e mais algumas horas, minutos e segundos...
Ele ficou boquiaberto – Não estava à espera que soubesses... com essa exactidão...
- Claro que sei... queres que te recorde mais alguma coisa ?
Ele sorriu. Lila.
Lila era, sob todos os sentidos, a mulher perfeita. Não só fisicamente – apesar de as suas medidas, como era fácil de reparar, roçarem a perfeição absoluta – mas também na personalidade; uma personalidade dócil, meiga sem ser submissa, apaziguadora sem cair na monotonia. E, acima de tudo... era uma excelente ouvinte, com uma paciência infinita para lhe acompanhar o raciocínio nas noites mais melancólicas... como aquela.
Aquele ano, dois meses e dezoito dias... passara num instante, nem dera conta.
Ainda se lembrava do dia em que a conhecera... numa grande superfície, junto do balcão da fotografia, num daqueles fins-de-semana em que a cidade inteira se esvazia e vai passear, à moda antiga, para junto das montras dos centros comerciais.
Fora amor à primeira vista.
- Lila...
- Sim, Lucas ?
- Diz-me uma coisa... tu aprecias a minha companhia ?
- Oh, Lucas... que pergunta essa... claro que aprecio a tua companhia... muito mesmo...
- Tens sido feliz... ao longo deste ano em que vivemos juntos ?
- Claro que sim, Lucas... muito feliz, mesmo.
- E eu ? ... Sentes que que me fazes feliz, também ?
- ...
- Então ? Não me respondes nada ?
- Lucas... não encontro resposta para ... o que queres saber.
- Só pretendia saber se achas que sou feliz contigo... se percebes isso...
- Lucas... não encontro resposta para ... o que queres saber.
Ele levantou-se, um sorriso enigmático nos lábios. Maquinalmente, serviu-se de mais uma dose de Martini. Permaneceu de pé, abrindo e fechando a outra mão, hirta de tanto carregar no teclado do computador. Finalmente, sentou-se de novo.
- Lila... – começou ele – vou deitar-me, está bem ?
- Claro que sim, Lucas... claro que sim, é muito tarde.
Carregou no botão negro e a imagem da bela Lila, deitada, envolta num lençol branco, semi-nua, esfumou-se do écran, crepitando de estática. Esperou mais uns segundos, enquanto o programa de inteligência artificial se desligava, fechando sucessivamente as rotinas da fala, da gramática, do vocabulário. Finalmente, as ventoinhas imobilizaram-se e o computador entrou num merecido descanso, silenciando toda a sala.
- Amanhã... preciso mesmo de lhe acrescentar mais algum vocabulário... – murmurou para si próprio – e talvez mais algumas frases diferentes...
Bocejou, preguiçosamente.
Lila, a voz feminina do programa de inteligência artificial ROBOX 2.0 precisava urgentemente de mais uns retoques.
- Amanhã... fica para amanhã... por hoje, já chega... estou cheio de sono.
Esvaziou o último gole de bebida e encaminhou-se para a porta da sala.
- Até amanhã, Lila.
Não se virou para trás, nem estranhou a ausência de resposta.
O computador já estava desligado.

 

 

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Segunda-feira, 27 de Abril de 2009

O livro do futuro

 

O pequeno aprendiz ouvia, maravilhado, os ensinamentos do velho monje.
- Mestre... mas isso é mesmo verdade ?
O ancião sorriu-lhe, com a benevolência que o passar dos anos consegue transmitir aos mais insignificantes gestos.
- Claro que é verdade, Timo... tudo o que já aconteceu, tudo o que está agora a acontecer... e tudo o que vai acontecer.... está escrito aqui – e balouçava o pequeno livrinho de capa dura entre as mãos - ... neste pequeno livro...
O pequeno Timo não podia acreditar.
- Mas, mestre... como é possível isso acontecer ? O mestre consegue ler nesse livro o que aconteceu... ontem ?
- Ontem ? Ora deixa-me cá ver... – e folheou algumas páginas, até se deter numa em particular – ora pois bem... sim, claro... aqui tens... aqui está escrito o que aconteceu ontem... queres que te leia um pouco ?
E sem esperar pela resposta do seu jovem aprendiz, começou a ler.
- ... ora cá está... domingo... fomos visitados pela escola dos artesãos, logo pela manhã... o mestre Bernardo deslocou-se até à aldeia, para comprar sementes... o pequeno Timo deixou-se dormir e atrasou-se para a primeira aula da manhã... os canos da cozinha romperam-se ... queres que continue a ler ?
Timo, o jovem aprendiz, ainda não recuperara da surpresa.
- Mestre... está tudo aí... mesmo tudo ?
- Claro que não, Timo... claro que não. Aliás... este pequeno livro só diz respeito ... a ti, a este pequeno templo... aqui à nossa aldeia... nada mais. Mas existem muitos outros livros como este, espalhados por esse mundo...
Durante os dias que se seguiram, o pequeno Timo não conseguiu deixar de pensar no sucedido. Um livro que continha todas as histórias do passado... do seu passado, do seu presente... e do seu futuro ? Mas como podia ser possível ?
Mas certamente seria possível... o mestre assim o afirmara.
E, sendo possível... o que poderia conter ... o futuro ?
Poderia ele folhear as páginas já escritas do seu próprio futuro ?
O que poderia lá encontrar ?
O pensamento, de inicio fugaz como a aurora, depressa se avolumou e lhe dominou a imaginação, os pensamentos, tornando-se um tormento; não conseguia deixar de pensar naquele pequeno livrinho que vira balouçar nas mãos do mestre.
Passaram-se mais alguns dias.
Finalmente, não conseguiu resistir mais.
Precisava, era imperioso, era fundamental conseguir folhear aquele livro, contemplar as últimas páginas, vislumbrar o mais pequeno pedaço que fosse ... do futuro.
 
Procurou em todas as gavetas. Nada.
Debaixo da mesa, no armário da parede, junto da estante. Nada.
Quando mais desesperava, deu com ele, tranquilo sobre a mesa junto ao leito. Os aposentos do mestre, apesar de espaçosos, eram parcos de luxo e mobiliário; uma cama, algumas cadeiras, dois armários repletos de livros e uma pequena mesa junto à cama, onde pousava habitualmente os óculos e a chávena de chá quente que gostava de bebericar, antes de adormecer.
Os olhos do pequeno Timo brilhavam de excitação. Não pela invasão sorrateira aos aposentos do velho monje – a porta ficava sempre aberta – mas pela antevisão do prazer, do segurar o pequeno livro nas mãos e poder abri-lo, folhea-lo, escolher uma data ao acaso e... saber de antemão os acontecimentos que se iriam desenrolar nessa altura.
Sentou-se à mesa e com as mãos trémulas, procurou a data actual.
Mal a encontrou, começou a ler, sôfrego.
Não percebeu muito bem o inicio.
“ Segunda feira, dia 27 de abril.
O pequeno Timo está cada vez mais excitado, não consegue deixar de pensar no livro de capa dura, no livro do futuro...
Hoje, ele vai procurar... e vai encontrar o livro.
Vai começar a ler... e não compreenderá a totalidade das palavras, que lhe parecerão estranhas, amargas até.
Vai virar a página, e não vai conseguir compreender porque motivo a página está vazia, sem qualquer palavra escrita.
Vai procurar a data de amanhã... e encontrará uma página vazia, e também não compreenderá. Ficará desapontado.
Passar-se-á algum tempo e Timo descobrirá que o livro de capa dura não passa de um pequeno bloco de apontamentos, onde o seu mestre vai apontando as pequenas histórias do dia-a-dia.
Finalmente, colocará o livro onde o encontrou e abandonará o quarto, confuso, sem saber ao certo o que pensar. Hesitará em contar ao seu mestre o sucedido.
Finalmente... compreenderá.
Compreenderá que todas estas palavras foram escritas por ele, compreenderá que o futuro é sempre uma página em branco, compreenderá que até a página do presente está continuamente a ser escrita, apagada e novamente escrita.
E finalmente, compreenderá também que no futuro, ele próprio poderá ter que transmitir esse ensinamento a outros...”
 
Na sala ao lado, o velho mestre ouviu os passos inquietos do jovem Timo a abandonar o quarto, rumo ao jardim.
Sorriu.

 

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Domingo, 26 de Abril de 2009

Dia 26 de Abril

 

- Ainda não chegou ?
- Não ... ainda não... mas sossegue, de certeza que ele vem...
- Mas e se não vier ?
- Ele vem...
- Talvez não consiga chegar a tempo...
- Claro que consegue... agora vá, deite-se e descanse um pouco, está bem ?
 
- Está na hora ?
- Está... está na hora... vamos já tratar de si.
- Mas ele... mas o meu marido ainda não chegou...
- Atrasou-se... mas não podemos esperar mais, sabe ? O senhor doutor está à nossa espera...
- Mas o meu marido...
- Esteja descansada, que eu deixo recado às minhas colegas... se ele aparecer, elas avisam-no logo, está bem ?
- Mas ele é militar... já cá devia estar...
- Vá, incline-se só mais um pouco, está bem ? Vou já levá-la para a sala de partos...
 
- É um menino... um lindo menino...
- É um menino ? A sério ? O meu marido queria tanto um menino...
- Pois então, vai ficar contente... é um menino, grande e saudável...
- E o meu marido, já apareceu ?
- Olhe... agora tem de descansar, está bem ? Eu daqui a pouco já vou ver se ele já chegou...
- Mas ele prometeu...
- Descanse agora, está bem ? Agora o que precisa é só isso... descansar...
 
 
- João... finalmente.
- Maria...
- João... prometeste que vinhas... estive aqui sózinha... à tua espera...
- Meu amor... desculpa, mas não pude... foram ordens...
- Ordens ? Oh, João... mas tu prometeste que mal saísses do quartel, vinhas logo para aqui... onde andaste tu, este tempo tempo ? Já é de madrugada...
- Maria... não pude... houve uma revolução, sabes...
- Uma revolução ? O que é isso de uma revolução ? ... Eu só sei que tenho estado aqui sózinha... e tu ainda nem viste o teu filho...
- Já vi... a enfermeira deixou-me entrar... tu ainda estavas a dormir...
- É lindo, não é ?
- O mais lindo do mundo.
- João...
- Sim, Maria...
- O que é isso que tens aí pendurado... aí no uniforme ?
- Ah... isto ? ... É uma flor... é um cravo...
- Um cravo? E desde quando tu usas um cravo no uniforme ?
- Então não te lembras... eu disse-te... houve uma revolução...
- Sim ?
- Sim... e então.... não te sei explicar muitos pormenores... mas andam a distribuir cravos a toda a gente...
- Cravos ? Que bonito... não imaginava que as revoluções fossem assim, a distribuir flores...
- Não penses nisso agora, Maria... agora, a única coisa que interessa és tu... e o nosso pequeno... sempre concordas com a minha sugestão para o nome ?
- Com a tua sugestão ? Essa agora... então e a minha ideia ?

 

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Sábado, 25 de Abril de 2009

A bela e o monstro

 

Iris Montenegro não necessitava de mais nada para garantir um lugar ao sol, no mundo da fama. Com efeito, as suas crónicas semanais no suplemento de domingo do “ Folha de São Paulo”, dedicadas à análise dos acontecimentos mundanos, sob o ponto de vista de uma mulher muderna, independente e bastante crítica cedo lhe grangearam uma aura de culto jornalístico – tornando o seu nome uma referência quando o tema versava os direitos da mulher, a igualdade entre os sexos, ou a acção da mulher no mundo da politica.
Como se não bastasse, Iris Montenegro era “só” a autora do best-seller “ O mundo da bela e do monstro”, o livro com mais exemplares vendidos, em várias partes do mundo, durante o ano de 2008.
Assim, para além da fama jornalística, Iris assegurara uma entrada directa no restrito grupo de escritores milionários, com uma obra lançada no mercado.
Avessa a entrevistas, nunca aparecera na televisão, em sessões de autógrafos ou mesmo nas festas de natal do jornal. Como ela gostava de repetir – Nunca me entrevistaram quando antes de ser famosas, porque haveriam de o fazer agora ? – e assim recusava categóricamente qualquer pedido de entrevista, sessão fotográfica, o que quer que fosse.
O mundo da bela e do monstro – com uma mulher vestida de branco, sentada sobre a cabeça embalsamada de um tigre de Bengala – era uma fábula contemporânea, onde um músico sobredotado – mas ao mesmo tempo com o rosto desfigurado por um acidente em criança – assumia a figura de uma bela mulher, triunfando no mundo da ópera como cantora lírica. Claro que a história se desenrolava noutras histórias paralelas, mas o que mais cativara a atenção do público fora o acto final, quando a cantora interpreta a ária principal da peça, e sem se aperceber, termina o encantamento e ela se vai transformando aos poucos, perante o olhar atónito do público, na figura deformada do músico, o verdadeiro génio. E eis que o envantamento volta a acontecer, com o medo da plateia a transformar-se sucessivamente em espanto, depois em assombro, finalmente em delírio pelos dotes vocais inigualáveis da personagem, que alheia a tudo, continua a cantar, acreditando ainda que a sua aparência é a da bela diva da ópera.
Naquele dia, no terraço do hotel Ritz... ia fazer-se história.
Iris Montenegro aceitara finalmente conceder a sua primeira entrevista à revista “Letras”, o boletim mensal da sociedade brasileira de escritores. Com o maior espanto, não exigira nenhuma excentricidade, nem locais especiais, nenhuma publicidade, nada de banquetes ou cocktails, cobertura televisiva ou tratamento especial. Pedira simplesmente se podia ser acompanhada pelo director do jornal, o seu amigo de longa data, Ruben Oliveira. E assim se faria.
 
Sentados à mesa, no terraço do hotel, o jornalista e o director do jornal bebericavam vermutes, entretidos a contemplar o vai-vem de beldades junto da piscina. Os funcionários rodopiavam, servindo bebidas aos hóspedes do hotel, ajustando os guarda-sóis, entregando toalhas.
Ruben acenou. Um homem de meia idade, apoiado numa bengala aproximava-se da mesa onde decorreria a entrevista.
- Ruben... como vais ? – cumprimentou o recém-chegado.
- Mauro... ora viva, ora viva... senta-te, faz-nos companhia...
Cumprimentaram-se. O jornalista do “Letras” pediu mais um Martini.
- Então... e quem é o senhor ? – quis saber.
- Eu... eu venho para a entrevista. O senhor não é o jornalista do “Letras” ?
O outro ficou a olhar para o recém-chegado, depois para o director do jornal.
- Pronto, está bem... eu apresento-me de novo – e esticou a mão na direcção do jornalista – Iris Montenegro, aqui me tem para a entrevista...
Ruben Oliveira, o director do jornal, ria alegremente.
- Mauro, Mauro... – e ergueu o copo para mais um gole – estás a deixar o nosso amigo aqui... um pouco nervoso. Já te tinha avisado que às vezes... a verdade tem que ser dita de uma forma... mais suave...

 

publicado por entremares às 21:32
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Sexta-feira, 24 de Abril de 2009

Maximus

 

- Fique com o troco...
E estendeu um par de notas sobre a bandeja reluzente, a acompanhar o ticket com o preço da refeição.
O funcionário, impecavelmente arrumado no seu uniforme caqui, agradeceu com o melhor dos sorrisos.
- Muito obrigado, senhor. Desejo-lhe um óptimo fim de semana...
Claro.
Só de pensar no valor que pagara pelo almoço... – chegaria para uma semana de refeições no luxuoso “ Gringo’s”, e esse já era de cinco estrelas...
Bem vistas as coisas... fora “só” uma excentricidade, levar a esposa até ao “Maximus”, o restaurante mais elitista de todo o Novo México.
Mas o Maximus... bem, nem se podia tentar enumerar as diferenças em relação aos restantes restaurantes ... à excepção de também ser um local onde se podia comer; mas as diferenças terminavam por aí. Com efeito, o Maximus tinha duas características que o tornavam único em todo o mundo.
Em primeiro lugar... só tinha uma mesa.
Sim, isso mesmo... uma única mesa; o que significava servir um único jantar por noite.
Em segundo lugar... não existia qualquer menu para o prato principal, sómente a carta de vinhos. E isto porque o cliente podia escolher, à sua vontade, aquilo que quisesse comer, confeccionado da maneira mais exótica que imaginasse.
Portanto... só o simples facto de tentar reservar uma mesa para o Maximus... já era uma aventura, algo que – diziam os entendidos – até movimentava um mercado paralelo de influências e trocas de favores, e que mesmo assim não dispensava uma fila de espera com mais de seis meses.
Valera a pena ?
Claro que sim. A decoração da sala, a grande lareira ao fundo, a crepitar alegremente, as peles a cobrir todo o pavimento de pedra, as janelas panorâmicas sobre os jardins... tudo era único no Maximus. Ele saboreara um belo pato estufado, servido dentro de um ananás, e a esposa deliciara-se com um arranjo exótico de lagostas, acompanhadas com uma colorida salada grega. Uma delicia.
É claro que todo o local fora concebido para transmitir a própria noção de excentricidade, justificada pelos preços exorbitantes praticados. Não obstante, uma legião de seguidores, constituida por politicos, artistas famosos, gente da alta finança e gestores de sucesso, aguentava estoicamente na lista de espera, por um jantar solitário no Maximus.
- Quer que chame o motorista ?
- Pode chamar.... vamos só ao bar tomar um café...
 
E pronto.
As portas abriram-se e uma lufada de ar abrasador irrompeu pelo hall de entrada. A temperatura exterior, naquela zona recôndita do Novo México, raras vezes baixava dos trinta graus. E, apesar do sol já se ter posto há muito, os termómetros ainda teimavam em não descer dos 36º. Um autêntico sufoco.
Mas a temperatura ambiente do Maximus, com uns muito confortáveis 20ª, convidava ao descanso. Excepção feita à sala de jantar, onde o sistema central de arrefecimento conseguia baixar a temperatura a uns incríveis 10º, de tal forma que o calor da lareira, sempre acesa, transmitia um conforto acrescido aos comensais.
O casal entrou apressadamente para a viatura e esta logo se pôs em movimento, perdendo-se no asfalto, rumo à cidade das luzes.
 
À beira do deserto, o Maximus permanecia serenamente luminoso e fresco. A lareira da sala de refeições, alheia a todas estas contradições, continuava a lançar pela chaminé anéis de fumo escuro, da mesma cor da noite que caía...
 
 
Nota: Existiu mesmo um restaurante de luxo, com a excentricidade descrita na história; o conseguir criar uma temperatura invernal, só para brindar os clientes com o acender da lareira, apesar da temperatura exterior ser altíssima. Não se situava no Novo México, mas sim no norte da Venezuela, junto ao lago de Maracaibo.
 

 

publicado por entremares às 21:41
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Quinta-feira, 23 de Abril de 2009

Viva a música

 

 

Qualquer dia, teria que trocar de despertador.
Começava a tornar-se irritante, aquele trim-trim metálico, estridente, que perfurava os tímpanos adormecidos e o fazia acordar em sobressalto, dia após dia, semana após semana.
Definitivamente. Precisava de algo mais … suave.
Espreguiçou-se, saboreando os primeiros raios de sol que entravam pela janela aberta. Não fosse o pequeno pormenor de ser segunda-feira ( aquele dia de que é difícil alguém gostar )e a temperatura primaveril, o céu azul forte e aquele sol risonho fariam as delícias de qualquer pessoa; pelo menos as pessoas que, como ele, se sentiam nascidas para o sol.
O cinzento deprimia-o, transformava-o num ser obtuso, amarrava-lhe os neurónios em nós cegos. Detestava o cinzento, detestava a chuva… e por consequência, detestava o Inverno. Não pelo frio… mas por tudo o resto.
Mas hoje… - e lançou de novo um olhar à janela – hoje era um daqueles dias…
Depois de um duche rápido e de um pequeno-almoço á base de café forte e torradas, dirigiu-se à sala, ainda de roupão.
Qual seria a escolha do dia ?
Distraidamente, foi passando os olhos pela enorme colecção de música, espalhada pelo móvel de parede maciço que cobria integralmente a parede grande da sala. De uma forma muito organizada – e sem etiquetas, uma vez que já lhes decorara a posição há muito tempo – lá foi analisando todas as possíveis escolhas…
No canto superior… as bandas sonoras… os clássicos de jazz, a música francesa. Mais abaixo, a música étnica – de longe, a sua favorita – os grupos Godspell, os espirituais negros, a música ambiente, os ritmos afro-americanos, um pouco de tango de Piazola. Ainda mais abaixo, o rock e pop seleccionados, algumas coisitas dos “seus” anos oitenta e finalmente, no canto direito, toda a música portuguesa, alguma brasileira e espanhola e outras indefinidas.
Entremeados pelos milhares de CD´s, meticulosamente organizados por ordem alfabética, podiam observar-se alguns ainda por abrir, encerrados nas suas capas plásticas transparentes.
Fundamental, claro.
Era fundamental que existisse sempre algo ainda por estrear, um novo grupo de que nunca ouvira falar, uma compilação de raridades que nunca ouvira, alguma oferta de uma amigo… ou até algumas re-edições de álbuns sagrados… dos tais álbuns que ele teria que carregar consigo, se algum dia partisse para uma dia deserta…
Mas pronto, não era o caso. Não iria partir – pelo menos naquele dia – para nenhuma ilha deserta.
Mas – e já lá iam um bom par de anos – ia simplesmente repetir o seu ritual de todas as manhãs… o ritual sagrado de escolher um par de músicas, um par de musicas especiais para ouvir assim, no sossego tranquilo da manhã, antes de começar mais um dia de trabalho, enquanto deambulava pela casa…
Adquirira aquele ritual por acaso.
Um belo dia, lembrara-se de ligar a aparelhagem da sala – exagerando até o volume, por sinal – e colocar “ O hino da alegria” . Vestiu-se, tomou a primeira refeição do dia, arrumou a confusão de livros espalhados pelo escritório – tudo ao som dos acordes magníficos daquela obra prima de Bethoven. Quando saiu de casa e se sentou ao volante do automóvel, pronto para mais uma viagem até ao emprego, deu consigo a tautear alegremente os principais acordes da melodia. Coincidência… ou talvez não, aquele dia correra-lhe de feição, conseguira resolver alguns pendentes complicados que arrastava de há bastante tempo… e no dia seguinte, e ainda no seguinte… a influência positiva da música matinal fez-se sentir… a tal ponto que uma mera coincidência se transformou de súbito no mais sagrado dos rituais.
Portanto… o que poderia escolher para aquele dia, aquela segunda-feira radiosa, cheia de sol ?
Queria algo alegre… mas não demasiado dançável.
Queria algo cujos acordes pudesse repetir ao longo do dia, algo que fosse fácil de apreender… de se entranhar no ouvido.
Música brasileira, talvez ?
Franziu a testa, involuntariamente – Não… não vinha a propósito.
Alguma música dos anos setenta ? Ou oitenta ?
Hum… não, também não.
Continuou a procurar.
 
Pronto, estava decidido.
Seria uma valsa.
Claro que não iria dançar – vantagens e desvantagens de morar sozinho numa vivenda, sem vizinhos próximos. Por um lado, podia aumentar o volume do som até níveis exagerados, por outro lado, não tinha companhia para dançar a valsa… ou outra coisa qualquer.
Retirou o CD brilhante da embalagem protectora, colocou-o no devido lugar e foi sentar-se no sofá da sala, estrategicamente colocado ao lado das colunas de som.
Num crescendo de violinos, os acordes iniciais do “ Danúbio Azul “ encheram o espaço da sala vazia, enquanto os raios de sol, cada vez mais altos, projectavam um feixe amarelado sobre os tapetes acastanhados, envolvendo toda a atmosfera de uma coloração de Outono.
Levantou-se, acompanhando com um assobio o compasso principal da melodia.
Estava pronto.
 
- Meu caro Strauss... – exclamou, enquanto apertava o último botão do casaco – estás pronto ? ... Vamos a isso...

 

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Quarta-feira, 22 de Abril de 2009

E você, precisa de dinheiro ?

 

- Sinto-me infeliz...
- Infeliz? Mas tu não tens motivos para isso...
- ... bem... não é bem assim. Se pensar um pouquinho, decerto arranjo algo...
- Mas não tens uma vida feliz ?
- Vida ? No geral, queres tu dizer ?
- No geral ? Essa agora... Não tens uma saúde de ferro ?
- ... hum... tenho.
- Não tens um casamento perfeito ?
- Lá isso tenho.
- Não tens os filhos que quiseste ter ?
- É evidente que sim.
- ... Então ? De que te queixas tu ?
- De que me queixo ? Olha, queixo-me de que não tenho dinheiro, por exemplo...
- Dinheiro ? Só dinheiro ? E isso é assim tão importante ?
- Então não é ? O dinheiro compra tudo...
- Ah... mas isso é que não. O dinheiro não compra a felicidade.
- A felicidade ? Pronto, está bem... mas olha, cá para mim é a melhor coisa para acalmar os nervos...
 

 

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Terça-feira, 21 de Abril de 2009

Noite de estreia

 

O velho teatro, engalanado como há muito não se via, resplandecia de luz e cor, passadeiras vermelhas e limusines brancas, neons cintilantes e vendedoras de flores.
Um verdadeiro deleite para os olhos.
A fina-flor da sociedade acotovelava-se no hall de entrada, ponto privilegiado de observação para as deslumbrantes toilletes, os smokings de cerimónia, os uniformes de gala dos militares.
O major Antonino, mais nervoso que nunca, esfregava as mãos de impaciência. Não era todos os dias que o velho teatro Tivoli estreava um bailado clássico como o Lago dos Cisnes, com a casa esgotada, perante uma assistência ilustre, que obrigara a redobradas medidas de segurança.
Mas valera a pena.
O velho teatro, ex-libris arquitectónico da cidade, estivera entregue ao abandono por décadas, só sendo utilizado para esporádicas festas de Natal ou reuniões da liga dos antigos combatentes. Fora necessária a intervenção do município, de candidaturas a fundos europeus e de uma mobilização da população em geral para levar a cabo as obras, tão urgentes como necessárias... e trazer de novo à vida todo o esplendor do velho Tivoli.
Em tempos mais longínquos, as estreias do Tivoli marcavam a actualidade, ditavam a agenda social. Por ali haviam passado todas as grandes figuras do cinema e teatro nacionais, as rábulas de Vasco Santana, a grande Beatriz Costa, os musicais de Hollywood, o jet-set do país vizinho, os fadistas mais boémios; uma estreia do Tivoli era sinónimo de glamour, sofisticação e principalmente... muita elegância.
Naquela noite, por sobre razão, era mais que justificado todo o nervosismo extra do major Antonino.
Os militares, presença habitual nestes eventos de gala, reluziam nos seus uniformes verde-dourados, pejados de cordões e galhardetes.
A um canto, o governador civil entretinha um círculo de dedicadas ouvintes – por entre risinhos e abanar de leques. O encarregado do bengaleiro, solícito, ia distribuindo os programas do evento – uma flor para as senhoras, uma cigarrilha para os cavalheiros. Um burburinho abafado de vozes misturava-se com a música ambiente, aqui e ali interrompida pelo tinir dos copos.
Os dois guardas de serviço, junto aos acessos dos camarotes Vip – impecavelmente hirtos – controlavam os convites, indicando aos convidados o corredor mais adequado para aceder ao camarote designado. O funcionário do elevador, incansável, lá ia distribuindo os convidados pelos vários pisos do teatro, num vai-vém contínuo de viagens.
A poucos metros dali, o major Antonino aguardava, impaciente.
A representação do Lago dos Cisnes obrigara a algumas alterações de última hora no elenco do bailado. Para além das primeiras figuras e corpo fixo do bailado, fora ainda necessário “pedir emprestado” à escola superior de dança um número significativo de figurantes, para encher todo o cenário do terceiro acto. E como os imprevistos acontecem quando menos se espera, o segundo violoncelista adoecera e até o maestro estivera em risco de não comparecer, por problemas familiares.
Finalmente, tudo se compusera e a peça ia mesmo estrear, conforme planeado, no dia 21 de Abril de 2009, pelas 22.00 horas.
O major Antonino fora o grande beneficiado de todos aqueles pequenos percalços. Com uma brilhante carreira no exército, conseguira finalmente conciliar – e nem sempre fora fácil – as duas grandes paixões da sua vida; a instituição militar … e a dança.
Claro que não era nenhuma primeira figura… nem tinha pretensões a sê-lo. Mas o porte fino, o sentido da disciplina, o espírito de sacrifício e aquela força de vontade férrea… ajudaram-no a concretizar o sonho de um dia – sim, um dia – poder dançar perante um grande público, dançar um clássico, um quebra-nozes, um barbeiro de Sevilha, uma Aida.
O Lago dos Cisnes ? Mal pudera acreditar, quando soube ter sido um dos escolhidos da escola de dança, para constar como figurante da peça. Claro que era uma participação diminuta… mas ao menos, pisaria o palco, sentiria a emoção de olhar para as luzes e saber que, do outro lado, uma multidão imensa de rostos poderiam estar a observá-lo.
Só isso… já lhe enchia o espírito de uma alegria infantil.
- Dois minutos… - gritou o o homem do palco, passando a correr – dois minutos…
O major Antonino esticou os braços, ajustou os finos collants, verificou os sapatos, o colete de tecido arroxeado, a peruca encaracolada da personagem que em breve iria interpretar. Estava tudo em ordem ?
 
- Está na hora… - e o homem do palco passou novamente a correr.
Estava na hora ? pois muito bem… ele estava preparado.
Antonino olhou para os colegas. Partilhavam todos a mesma ansiedade.
- Vamos a isso – murmurou para si mesmo. – hoje sai o major de cena… e entra o mendigo.
Alguém desligou a luz de presença.
Depois, muito devagar, uma luz branca, imensa, inundou todo o palco.
O pano subia.

 

publicado por entremares às 22:17
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Segunda-feira, 20 de Abril de 2009

Metamorfoses

 

O professor Juliano conseguia ser um daqueles casos enigmáticos, digno dos anais da profissão. Começara por exercer na pequena escola da aldeia, nos tempos em que ser professor, à semelhança de ser médico, era assim uma quase espécie de ser um homem dos sete ofícios, alternando entre psicólogo, professor infantil, confessor, juiz de baixa instância ou até coreógrafo de pequenas peças de teatro.
Coisas de terra pequena, coisas de outros tempos...
É claro que também em termos de matérias, o professor Juliano já tocara muitos instrumentos. Aliás, a sua primeira formação, enquanto músico da banda da sociedade artística da aldeia, permitira-lhe precisamente um lugar de professor substituto, o seu primeiro emprego remunerado, enquanto a dona Leonor – que saudades - gozava os prazeres da maternidade.
Quanto tempo se passara, entretanto ?
A sua verdadeira paixão sempre fora, no entanto, a História.
Estudara História, absorvera História, rodeara-se de História e tinha um dom particular que conseguia transformar em coisas vivas as já decrépitas ruínas dos monumentos, as velhas lendas medievais e até aquelas frases sonantes em latim, que ele conseguia pronunciar como ninguém...
Os alunos apreciavam-no, mais que os próprios colegas.
Enquanto professor – e já levava mais de trinta anos de dedicação à causa – entregava-se com particular prazer a “vestir” a pele de personagens, das suas personagens. Como ele gostava de repetir, a História aprendia-se muito melhor, se os seus alunos conseguissem ver, ali mesmo na sala, personagens como o poeta Camões, o pirata Francis Drake, Ramsés II do Egipto ou até, porque não, a rainha Vitória de Inglaterra ou a padeira de Aljubarrota...
E do pensar ao agir... fora um pequeno passo. Ao longo dos anos, já perdera a conta ao número de disfarces e fantasias que vestira, às maquilhagens mais ou menos excêntricas que experimentara... tudo para conseguir levar até à “sua” sala de aulas as personagens vivas da História... interpretadas por ele, Juliano do Nascimento.
 
Só de pensar nisso, deixou-se sorrir.
Qual das fantasias lhe dera mais prazer, qual das personagens históricas vestira de melhor vontade ? César Augusto, pois claro. A turma inteira aplaudira-o de pé, os professores das salas ao lado interromperam as respectivas aulas e avançaram sala adentro, transformando o pequeno espaço num auditório improvisado, enquanto o professor Juliano, de coroa de louros na cabeça, declamava empolgado um discurso aos seus patricios.
Boas recordações, aquelas. Sem dúvida.
 
Com um leve trejeito, ajeitou melhor a túnica que lhe cobria os ombros. Voltou a contemplar-se ao espelho. Estaria pronto ?
Pegou no adereço... não podia esquecer o adereço, a sua personagem daquele dia só tinha sentido na presença daquele adereço.
O adereço em causa era... uma caveira humana, um crânio esbranquiçado que ele teria que segurar na mão, enquanto proferiria as célebres palavras: Ser ou não Ser... Eis a questão...
Estava na hora.
Resoluto, saiu do pequeno gabinete que acumulava as funções de vestiário e atirou-se para o corredor.
Os mais afoitos espreitavam pela porta, impacientes.
- Lá vem ele... lá vem ele... – gritaram
O professor Juliano esboçou um sorriso.
Trinta anos depois, a excitação ainda era sempre a mesma.
- Então o que é isto , aqui fora ? – bradou, fingindo irritação – vamos andando.... vá, vamos andando que já estamos atrasados...
- O que vai ser hoje, professor ? Algum romano ? – queriam uns saber.
Ele acenou com a cabeça.
- Romano ? ... Essa agora... meus caros amigos, que afronta, que afronta... então não me reconheceis ? ... Eu sou Hamlet...

 

publicado por entremares às 20:51
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Domingo, 19 de Abril de 2009

Yoki, a pequena raposa

 

- Yoki...Yoki... onde te meteste ?
Nem resposta. A pequena Yoki esgueirara-se de novo para a floresta, aproveitando uma distracção da pequena Layla, a mais jovem habitante do acampamento da floresta.
Layla era a filha mais nova de Ayanna, a mestre tecelã da tribo. Vivia sózinha com a mãe num pequeno tippi, bem ao lado da tenda do curandeiro.
Não chegara a conhecer o pai – a mãe contava-lhe histórias heróicas de grandes caçadas, de proezas de força e astúcia, mas um dia, um grande urso pardo levara a melhor, e o grande caçador não voltara para casa.
A irmã mais velha também já partira, no inverno anterior – as últimas noticias faziam crer que já fora mãe, e que tudo estava correndo pelo melhor.
Ayanna, a mãe, era uma mulher muito ocupada, tendo a seu cargo o tratamento das peles, o corte do cabedal e a feitura dos panos que habitualmente revestiam os tradicionais tipis da tribo.
Os Dakota eram uma tribo pacífica, confinada ao sopé das montanhas – onde montavam o acampamento de inverno – deslocando-se pelo interior da pradaria durante a primavera e o verão, altura das grandes caçadas aos bisontes, a sua principal fonte de sustento.
Layla, como a mais jovem da tribo, gozava de um estatuto especial.
Podia montar a cavalo, ajudar o curandeiro a recolher todas as ervas mágicas que este utilzava para as suas poções e até acompanhar os jovens caçadores à floresta, sempre que o objectivo fosse verificar as armadilhas ou tentar apanhar alguns coelhos desprevenidos.
Fora precisamente numa dessas incursões pela floresta que encontrara ... Yoki.
Baptizara-a de Yoki, que significava no dialecto da tribo “ gota de chuva”, precisamente porque a encontrara encharcada, caída num riacho, extenuada demais para conseguir fugir.
Yoki era uma pequena raposa... e aquele dia marcou Layla para sempre.
A pequena raposa também se afeiçoou à sua gentil tratadora e desde logo se criou uma relação de profunda amizade entre as duas. Yoki caminhava ao seu lado, a princípio tímida e enroscando-se nos pés, fazendo-a tropeçar... depois mais confiante, correndo provocadora à sua volta, abocanhando as pontas dos panos das tendas, derrubando com o nariz os cestos de fruta e fazendo a vida desgraçada às galinhas, que pelo sim pelo não, preferiam correr e cacarejar em pânico, sempre que a viam aparecer...
 
- Yoki... Yoki... onde estás ? – repetia Layla, enquanto se embrenhava na floresta.
Mais uma vez... nem resposta.
Avançou ao longo do carreiro, afastando a densa vegetação com as mãos. O sol, apesar de ainda ir alto no céu, mal penetrava naquele manto verde opaco, rasgando ocasionalmente alguma clareira e projectando-se sobre o chão, completamente coberto de folhas verde-amarelo das acácias.
O caminho, apesar de estreito, permitia-lhe vislumbrar uma clareira maior, um pouco mais à frente – conhecia bem o local, de tantas vezes acompanhar o velho curandeiro até ao local.
- Yoki.... Yoki... onde te meteste ?
Nem sinal da pequena raposa. Layla continuou, atingindo a clareira. Nada.
Um leve estalido de ramos quebrados levantou-lhe o ânimo – Aquela malandra estava a querer jogar às escondidas ? Ora, ora... então se era assim, ela ia fazer-lhe a vontade...
Contornou um emaranhado de arbustos altos, na direcção do ruido que ouvira.
- Yoki... – sussurou – vou apanhar-te...
Imobilizou-se junto à orla de um maciço verde escuro, à espera de novo ruido que denunciasse a posição exacta da pequena raposa. Onde estaria ela ?
Novo estalido. Um pouco mais à direita...
Avançou dois passos.
O estalido seguinte não foi só um estalido. Com um rugido ensurdecedor, o corpo descomunal de um urso pardo ergueu-se por detrás dos arbustos e avançou, esmagando-os por completo à sua passagem. Rugiu novamente, apoiado só nas patas traseiras, agitando irritado a grande cabeça.
Layla pôde observar aquela enorme boca demasiado perto de si... e ficou pregada ao chão, gelada de medo.
Um urso pardo, ali, tão próximo do acampamento? Como era possível ?
O urso avançou mais um passo, brandindo a enorme pata na direcção do rosto da pequena Layla.
Na ânsia de fugir, a pequenita tropeçou numa raíz mais saliente e caiu, desamparada, no chão.
E, naquele momento, sentiu pela primeira vez o sabor amargo do medo na boca, a garganta a querer gritar por socorro e a não conseguir proferir mais que um ténue sopro, que nem ela própria conseguiria ouvir...
Novo estalido. Desta vez um pouco à esquerda do local onde aparecera o grande urso.
Pelo canto do olho, Layla mal podia acreditar no que via.
Yoki, a pequena raposa, rosnava ameaçadora, junto aos arbustos. Num ápice, lançou-se sobre uma das patas do urso, tentando mordê-lo.
O enorme animal pareceu surpreso pela ousadia e mal se moveu. Quando finalmente sentiu alguma dor na pata, rugiu alto a sua fúria e com a pata dianteira, atingiu a pequena raposa com uma violenta sapatada, projectando-a contra a árvore mais próxima.
Ouviu-se um leve som de algo a quebrar-se e depois um baque seco, quando o pequeno animal caiu imóvel no chão da lareira, para não mais se mexer.
 
Depois... o que se passou depois ? Custava a recordar...
Muitos gritos, objectos a voar de encontro ao urso, vozes familiares, figuras familiares de volta dela, interpondo-se entre ela e o urso, enquanto a arrastavam para local seguro. Ouviu os rugidos do urso ferido, novamente mais gritos... até que minutos depois, tudo sossegou... e o silêncio voltou a descer sobre a floresta, lambendo as feridas.
 
Um rosto familiar. Novamente. Era a mãe, Ayanna, debruçada sobre ela, passando-lhe a mão pelos cabelos, segurando-a nos braços.
- Layla... Layla... minha filhinha...
O pensamento da pequenita fugia-lhe noutra direcção. Num sussuro, o olhar ansioso interrogou a mãe.
- Yoki... onde está a Yoki ?
A mãe abanou a cabeça, pesarosa. A pequena raposa não voltara a mover-se, depois do sucedido.
- Yoki... Yoki partiu, minha filha... está com os espíritos dos seus antepassados, agora...
A pequena Layla ainda tentou suster aquela lágrima rebelde, que teimava em espreitar ao canto dos olhos. Mas a tristeza venceu-a...
Fechou os olhos... e chorou.

 

publicado por entremares às 22:29
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Sábado, 18 de Abril de 2009

A grande decisão

 

- Namastê... – e inclinou-se respeitosamente.
- Namastê... para ti também. Tocou-lhe com a mão na testa e continuou o seu caminho.
 
Tirupati acabara de completar dezassete anos. Rosto esguio, pele clara, olhos escuros e penetrantes, um sorriso sempre ao canto dos lábios – uma simpatia contagiante, como gostava de repetir o pai, o respeitável alfaiate do bairro.
E não exagerava, o embevecido pai. Tirupati Vasnirah, a filha mais velha de seis irmãs sempre fora o orgulho da família, a menina mais mimada, talvez até pelo seu temperamento extrovertido, sempre com uma resposta pronta na ponta da língua, sempre disposta e voluntária para todas as tarefas, sempre disponível.
Na escola, desde cedo se destacara. Aprendera num ápice a ler e a escrever, compunha pequenos poemas, batia os rapazes nas corridas à volta do pátio e até conseguira combinar com o vizinho da loja de electrodomésticos o seu primeiro negócio, para espanto de todos; Uma bicicleta amarela, reluzente e cromada, a troco de um mês de pequenas tarefas ao final do dia, depois da escola – entregar cartas no correio, recados aos clientes, transportar pequenos electrodomésticos e ajudar na arrumação das prateleiras.
Tirupati era, portanto, uma moça decidida. De tal modo que quando metia uma ideia na cabeça... bem, era muito difícil fazê-la mudar de opinião, mesmo quando a ideia não era lá muito adequada.
E, naquele momento, era essa a opinião de toda a família, a começar no velho alfaiate e a terminar na irmã mais pequena, Visnhi, de apenas seis anitos.
A escolha do futuro de Tirupati era, no pequeno bairro de Atusha, periferia de Calcutá, motivo generalizado de conversa.
- Uma cara tão linda ... – diziam uns - ... porque não vai ela para Bollywood ? Seria famosa num abrir e fechar de olhos...
- O que pensa o velho Vasnirah sobre o assunto ? Será que ele vai consentir ? – interrogavam-se outros.
Tirupati, inabalável na sua decisão, ignorava sistemáticamente todos os comentários.
- Minha filha... dissera-lhe a mãe, numa daquelas conversas em privado – tu sabes que eu gosto muito de ti... e sabes que não sou tão tradicional como o teu pai... mas acredito sinceramente que, desta vez... ele tem razão. Devias repensar a tua decisão...
- Mas, minha mãe... eu já pensei, a sério que pensei... e pensei muito sobre o assunto... e sabe que não faria nada, de propósito, para vos aborrecer... mas isto é diferente... é o meu futuro...
- Tirupati... mas tu és tão nova... tens ainda uma vida inteira pela frente... és inteligente, és bonita, tens todos os rapazes do bairro atrás de ti, és a melhor aluna da escola... já viste que vais abdicar de tudo isso ... já mediste bem as consequências ?
Tirupati estava decidida.
Mas o mais dificil, apesar da decisão que tomara... era explicar à sua pequena irmãzinha
Visnhi, porque motivo se iriam separar... e explicar-lhe que não sabia quando se voltariam a ver...
- Sabes, minha pequenina .... – e Tirupati sentou-se com a pequena Visnhi ao colo – eu tenho que partir por uns tempos... mas depois volto...
- Voltas quando ? Amanhã ?
Passou-lhe a mão pelos cabelos.
- Não... não posso voltar amanhã.... sabes, é que eu tenho que fazer uma viagem.... uma grande viagem... e como é muito longe, vou demorar muito tempo a voltar...
- Mas não está certo – protestava Visnhi – tu disseste que ficarias sempre ao pé de mim...
- Minha irmãzinha querida... eu vou escrever-te muitas cartinhas, tu vais ver...vou mandar-te muitas fotografias, e assim vais sempre saber onde eu estou...
- Prometes ?
- Claro que prometo... e tu sabes que eu cumpro sempre aquilo que te prometo, não sabes ?
A pequenita ainda esboçou um sorriso, não convencida.
 
No dia seguinte, despediu-se de todos.
Quando a campainha da porta tocou e a mãe foi atender, uma figura feminina, de hábito azul e branco, surgiu na ombreira.
- Namastê... – saudou a visitante, inclinando-se respeitosamente
- Namastê... – retribuiu a mãe – vens buscar a minha filha ?
A visitante concordou, com um leve acenar da cabeça.
Tirupati dirigiu-se para a porta.
O passo seguinte marcaria o fim da sua adolescência feliz, o conforto do lar, a tranquilidade das brincadeiras, o refúgio da escola e dos amigos, as carícias da mãe, a adoração sem limites da sua pequena Visnhi...
O passo seguinte levá-la-ia ao hábito azul e branco das Irmãs da Caridade, a uma vida despojada de riquezas, de conforto, entregue à fúria dos elementos, ao convívio dos doentes, ao calcorrear interminável das ruas de Calcutá, tentando ajudar, sem olhar a raças, castas ou credos...
Fora uma decisão ... difícil ? Naquele momento, sentiu que não. Sabia que as verdadeiras dúvidas viriam depois, quando sentisse frio, fome, quando se sentisse doente e necessitada do ombro da mãe, dos conselhos sábios do pai.
 
Um último olhar para todos.
- Vamos... estou pronta.
Puxou o xaile amarelo sobre a cabeça e transpôs a soleira do seu mundo.
Lá fora, um mundo desconhecido, violento e agreste esperava-a.
Não o queria fazer esperar.

 

publicado por entremares às 20:45
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Sexta-feira, 17 de Abril de 2009

A volta ao mundo...

 

 

Uma última curva… só mais uma última curva da estrada…
 
Finalmente, chegara. O fim da viagem era, por si só, estranho. Depois de dois anos na estrada, calcorreando os cinco continentes, a simples aproximação à sua pequena aldeia natal tinha um sabor … nem sabia bem como o definir.
Ajeitou melhor a pesada mochila sobre as costas e preparou-se para percorrer os últimos metros que o separavam da velha tabuleta de granito “ Aldeia da Bemposta”.
Dia 18 de Abril de 2007, lembrava-se bem.
Bem cedo, acabara de encher a mochila – haveria sempre aquela meia dúzia de objectos de última hora que teimam em ficar esquecidos sobre a mesa, debaixo da cama, por baixo de uma peça de roupa – e, para uma viagem de dois anos, seria boa ideia levar só o essencial…
Depois, ainda sobrara tempo para um último café na pastelaria da dona Rosa, um piscar de olho cúmplice à simpática Rute, a moça do quiosque das revistas e finalmente… fazer-se à estrada.
O tempo passou. Primeiro a fronteira, depois Espanha, França, o contornar do mediterrâneo, o médio oriente, as arábias, o continente indiano. Os dias sucederam-se às noites, o pernoitar nas estalagens, nos abrigos de montanha, por vezes debaixo das pontes… - o frio era o maior obstáculo, aquele frio que descia das montanhas e enregelava os ossos, prendendo os passos e tornando cada nova etapa um pouco mais difícil que a anterior.
Optara, depois de muito hesitar, em não carregar consigo a máquina fotográfica. Cada pormenor, cada peripécia, cada sobressalto da sua jornada ficar-lhe-ia gravado na memória, e só aí. Não haveria álbum de recordações, filmes para a família, colecção de postais ou “souvenirs“ para os amigos. De todos os recantos que percorresse, a única recordação que pretendia transportar consigo seria… uma pequena pedra, um pouco de areia, uma concha… qualquer coisa que não fosse uma mera recordação do local, mas antes um pouco do próprio local em si.
É claro que recordava com saudade os três dias que passara em casa do velho Dimitrius, o pescador grego que lhe dera a provar a mais deliciosa das saladas, a corrida de camelos, quando apostara com o mercador Alihala que conseguiria dar duas voltas à praça de Jizan, na Arábia Saudita, sem cair; É claro que perdera a aposta, o que lhe tinha servido de lição para perceber que montar um camelo, em plena corrida… não era tão fácil como ele suposera.
E os macacos do templo Rameshwaram, em Kerala ? A sua passagem pela Índia deixara-lhe gratas recordações, à excepção talvez do seu boné de estimação, roubado pelos macacos. Não o voltara a ver. Mas ainda agora, mais de um ano volvido, conseguia sentir no ar aqueles aromas fortes das especiarias, o colorido dos saris nas ruas, o som hipnótico das flautas dos encantadores de serpentes, o bulício dos mercados locais…
Viajar… mesmo a pé, como ele, pelo asfalto, pelos trilhos secundários, subindo e descendo morros e vales… tinha uma vantagem; sobrava-lhe tempo para pensar.
Um guru, algures no Bangladesh, perguntara-lhe curioso: - O que andas à procura ?
Ele respondera-lhe com um sorriso – que não sabia, mas que certamente perceberia, quando descobrisse a resposta.
O guru abençoou-lhe a viagem e ele fizera-se de novo à estrada, mochila às costas, as botas já gastas de muitas pedras e riachos.
O que procurava ?
Porquê aquela travessia insensata e solitária ?
O que poderia uma volta ao mundo provar ?
 

----- E agora ? Qual dos leitores deste blog quer pegar neste pedaço de história e terminá-la ?

 

Vá lá...

 

publicado por entremares às 16:26
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Quinta-feira, 16 de Abril de 2009

O julgamento

 

Sashatin aguardava, impávida, o fim.
Desde o inicio do julgamento que antecipara aquele desfecho. Ou melhor, nem conseguia chamar aquela farsa um julgamento. Não falara, ninguém lhe perguntara nada, ninguém permitira que ela se explicasse, toda a manhã fora gasta em intermináveis citações do Corão, invocando as tradições, as obrigações, os costumes, os sagrados deveres das esposas, da educação... – algures entre estas alegações, Sashatin deixou de os ouvir, hipnotizada pelo tom monocórdico do juiz, que declamava os inúmeros motivos que fazia dela, Sashatin Assai Mullatin, culpada de desrespeitar as sagradas obrigações do Corão.
Sashatin era culpada.
Mesmo antes do julgamento, a sentença já fora proferida, todas aquelas alegações não passavam de um pequeno pró-forma para justificar o desfecho final. O juiz determinara que ela pecara contra a Fé, e como tal, não havia lugar à presença de advogados, testemunhas ou outros elementos abonatórios; pecara contra a Fé, e portanto o juiz e Ayatolla Mujathin seria o seu único advogado, a sua única testemunha, o seu único juiz. Sem apelo de sentenças, que a Fé não se discute. A Fé interpreta-se, e quem melhor que o juiz Mujathin para interpretar os sagrados versículos ?
Sashatin pecara contra a Fé.
Sashatin recusara-se a usar a burka, passeando ostensivamente com as suas duas filhas pelo mercado da aldeia, não obstante todos os avisos de que fora alvo.
Fora presa, levada ao calabouço, julgada. As filhas entregues à irmã, o marido certamente sem saber de nada, em viagem de negócios. Quando voltasse, seria certamente demasiado tarde. Dar-lhe-iam provavelmente a noticia que era melhor assim, que ela desafiara as tradições, ou até acrescentariam alguns pontos menos abonatórios, que ela estava a ser uma má influência para as filhas, qualquer coisa do género...
Fosse como fosse, ali estava ela, encostada à parede branca do tribunal, a face oculta pela burka azul, à espera do suplicio.
O juiz Mujathin fora peremptório. Nos crimes contra a Fé, o único castigo admissível era ... a morte por apedrejamento.
 
 
Mustafah Mullatin descia do autocarro, bem junto do tribunal, quando se ouviu o primeiro grito. Olhou em redor.
A poucos metros de distância, um grupo de homens atirava desenfreadamente pedras contra um vulto azul, caído junto da parede branca – provavelmente, mais uma execução – pensou - ... ou mais um caso de adultério...
Espicaçado pela curiosidade, acercou-se do local.
- Quem é ela ? – perguntou a um velho, que segurava uma pedra em cada mão.
- Não sei... – respondeu-lhe o velho – só sei que foi vista a passear pelo mercado sem burka... e se recusou a colocá-la, mesmo quando lhe ordenaram... – e ao mesmo tempo, o velho colocou-lhe uma das pedras que segurava nas mãos. – Toma...
Mustafah imitou-lhe o gesto.
As pedras voaram contra a massa informe, caída no chão. Sob o azul dos panos, sobressaiam agora numerosas manchas de sangue.
A figura caída estremeceu uma última vez e imobilizou-se, em definitivo. Apesar disso, as pedras continuaram a acertar-lhe, no rosto, nos membros, quase a soterrando.
 
Minutos depois, tudo estava terminado.
Mustafah aproximou-se, à semelhança dos outros, da figura inerte. O juiz Mujathin debruçou-se e num gesto repentino, arrancou a cobertura da cabeça, de um azul húmido de sangue.
- Foi feita justiça – gritou ele, em apoteose – assim como será sempre feita justiça, a todos os que pecarem contra a santa Fé...
Mustafah espreitou por cima dos ombros da multidão curiosa. Já agora, queria ver se reconhecia o rosto.
 
Por um instante... o mundo deteve-se diante dos olhos.
Podia ver ... mas recusava-se a acreditar.
 
- Sashatin ? A minha Sashatin ?
As forças abandonaram-no e como um peso morto, caiu desamparado no chão.
Vivo... e culpado.

 

publicado por entremares às 21:58
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Quarta-feira, 15 de Abril de 2009

Madalena

 

 

Chegara o grande dia.
Madalena, quase sempre calma e controlada, até recuperara o velho vício de roer as unhas; Ora se apoiava num pé, ora noutro, lá ia passeando pela sala de espera, espreitando pela janela, pegando numa revista da mesa, para a largar logo de seguida.
O certo é que não conseguia permanecer quieta.
- Vá lá, vá lá... – sussurou, dirigindo-se a si própria.
Continuava sózinha na sala de espera. O marido ainda não voltara, provavelmente retido na secretaria a preencher mais uma dose de papéis, formulários, recibos, atestados, certificados, enfim... nem ela sabia bem o quê.
Chegara o grande dia.
Dali a pouco, aquela porta branca abrir-se-ia e o pequeno Ruben, de grandes olhos castanhos, ser-lhe-ia entregue para, de uma forma definitiva, passar a fazer parte da família, da sua família.  Sentiu apertar-se o coração.
O processo de adopção fora longo, mais longo do que sempre imaginara. Perdera a conta às entrevistas, às longas conversas com a psicóloga do centro, aos questionários que tivera que responder, aos atestados médicos, aos registos criminais... para finalmente poder chegar à segunda fase, aquela em que pôde conviver com o pequeno Ruben, primeiro no Centro, depois na sua própria casa, vê-lo a rir, a esticar os braços e a chamá-la, nas tais pequenas sílabas que a emocionavam; mã... mã...
Só de pensar naquelas pequenas recordações, sentia um nó na garganta.
Madalena, trinta e oito anos de idade, sem problemas de saúde, funcionária de repartição de finanças, casa própria, casa de férias no algarve, situação económica desafogada, casamento estável, marido mediador de seguros, horários descomplicados, sem filhos.
Poderia ser um pequeno retrato da sua vida... ou pelo menos, da sua vida actual; uma vida sem sobressaltos, sem problemas, bem organizada, metódica, muito urbana – como gostava de frisar o marido. Com isto ele queria referir-se ao modo como ambos gostavam de preencher os tempos de lazer, com idas regulares ao cinema, ao teatro, algumas escapadelas de fim de semana a pousadas de turismo, uma ou outra viagem ocasional, todas as exposições de fotografia que conseguissem descobrir e, claro está, aquele hábito que já nem era um hábito, mas sim um vicio, de ir almoçar ao restaurante do sr António, todos os domingos. O motivo? Um ensopado de borrego que era impossível de descrever, sem igual.
No entanto, a funcionária da repartição de finanças, sempre tão controlada – e não raras vezes, o serviço exigia mesmo doses extra de paciência e boa disposição – sentia-se naquele momento a tremer de nervosismo como se de uma criança se tratasse, apanhada a comer uma guloseima proibida.
Não tinha filhos.
Mas carregava consigo um segredo, um daqueles segredos que pesava na alma e que a acompanhava todos os dias, todas as noites, um segredo que lhe provocava pesadelos, insónias, dores de cabeça, um segredo que a fazia envelhecer... e que não desaparecia só por, regularmente, pintar a meia dúzia de cabelos brancos que lhe iam surgindo, semeados entre a longa cabeleira de madeixas castanhas.
Não, os segredos não se esfumavam assim, por muito bem guardados que fossem...
E tempos houvera em que Madalena, agora tão controlada, tão bem encaminhada na vida... tempos houvera em que Madalena fora uma pessoa diferente.
Aos dezasseis anos, farta de um ambiente familiar destroçado, farta das investidas de um padrasto pouco escrupuloso, fugira de casa, com o seu primeiro amor, um entregador de pizzas.
Ele dissera-lhe: Vem comigo, vamos os dois para fora daqui.
E ela fora, sem mais argumentos nem desculpas.
Lavou pratos, lavou escadas, varreu as ruas. Até teve um filho.
Mas não ficou com ele.
Arrependeu-se muito tempo depois, já era tarde demais.
A roda da fortuna girou de novo, e uma brisa mais suave bafejou-a de tempos mais amenos. Voltou a estudar, reconciliou-se com a mãe, entretanto já separada do padrasto, arranjou um emprego estável numa estufa de flores... e aí conheceu o Miguel, um jovem estagiário de agronomia que sonhava ser agricultor.
Casaram-se, ela tornou-se funcionária pública e ele mediador de seguros. Nunca tiveram filhos.
Nunca lhe contou o seu segredo. Sempre acreditou que aquela era uma cruz só sua, uma culpa muito íntima que, mais tarde ou mais cedo, precisaria de expiar. Mas nunca soubera como...
- Mas tens a certeza do que pretendes fazer ? – repetia-lhe o marido, perplexo – Tu já mediste bem as consequências ? Não te vais arrepender ?
Ela não tinha a certeza. Como ter certezas ? Mas sabia, sentia algures bem lá no fundo que precisava de fazer aquilo... como se aquela fosse a única forma possível de se redimir pela sua culpa, devolvendo agora, vinte anos mais tarde... amor.
A porta branca abriu-se e a assistente social entrou, segurando pela mão o pequeno Ruben.
Madalena não conseguiu conter as lágrimas. Correu para ele e abraçou-o, apertando-o apaixonadamente contra o peito.
- Meu pequenino... que saudades que eu tinha de ti...
Ele lançou-lhe um sorriso e abriu aqueles grandes olhos castanhos, que a tinham cativado desde o primeiro momento em que o vira.
- Mã... mã...
- Sou eu, Ruben.... sou eu... estou aqui...
O pequeno Ruben esticou os braços, tacteando o espaço à procura do rosto de Madalena. Finalmente encontrou-o... percorrendo-o demoradamente com as mãos, reconhecendo cada covinha, cada ruga, o nariz arrebitado, os longos cabelos.
- Mã... mã...
O Ruben era, sem dúvida, especial. Não só pelo pormenor de ser cego, cego de nascença.
Madalena sabia-o bem, pesara todas as consequências.
- Madalena... porque não... uma criança normal ? – insistira vezes sem conta o marido.
Mas ela mantivera-se firme. Vinte anos depois, sentira que acumulara amor suficiente para ultrapassar todos os obstáculos. E o Ruben, sabia-o bem, precisava dela.
- Anda, Ruben, anda... – e estendeu-lhe a mão – vamos para casa, anda...
 

 

publicado por entremares às 16:02
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Terça-feira, 14 de Abril de 2009

Sexo ao pequeno almoço

 

- O que preferes hoje? De pé... ou deitada ?
- ...
- Vá lá... tens que escolher uma...
- De pé, pronto.
- Óptimo, óptimo... vamos já tratar disso...
 
- Queres mais ?
- Não.
- Tens a certeza?
- Tenho... estou cheia.
- Vê lá... se agora quiseres deitada... já tenho aqui tudo pronto...
- Não, já te disse que estou cheia. E cansada...
 
- Soube-me mesmo bem...
- Dizes sempre o mesmo...
- Mas é verdade. Já viste a quantidade de figuras diferentes que eles conseguiram fazer nestas massas ?
- ...
- Repara bem... olha estes aqui, deitados... e estes de pé... e estes ... bem, nem eu sei que diabo de posição é esta...
- João... tu és tarado, sabias ?
- Não sou nada... só gosto é destas massinhas... olha esta aqui, mas que posição mais estranha...
- Só pensas em sexo ? Até ao pequeno almoço ?
- Vá lá Maria... agora que eu as separei todas, pelas posições... olha, pensando bem... vou repetir... passas-me aí aquele saquinho que eu separei, com as massinhas deitadas ?
- ... sim... sim... sim... toma ... mas escuta lá...
- ... Mhmamm... mhamm... sim ?
- Quando é que podemos passar a ter um pequeno almoço normal ?
- ... Como assim ?
- Tu sabes... um pequeno almoço normal... torradas, cereais, essas coisas ?
- Essa agora... e as nossas massinhas ?
- ... Queres mesmo que eu te conte uma coisa ?
- ...
- Estou a ficar pelas orelhas, com as tuas massinhas...
- Maria, meu amor...
- Maria, coisa nenhuma...
- Estás a ficar brava...
- Brava ? Claro que estou a ficar brava. Tu só pensas em sexo...
- E então ? Qual é o problema disso ? Toda a gente gosta de sexo...
- João... tu és o problema.
- ... ?
- Pois... é que aqui em casa... sexo ... pelos vistos só mesmo se for com as massinhas...

 

publicado por entremares às 09:34
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Segunda-feira, 13 de Abril de 2009

O coelhinho da Páscoa

 

 

Era uma vez… um coelho.
Sabem ? Daqueles coelhinhos da Páscoa, todos feitos de chocolate, embrulhados em prata colorida, com um grande laçarote ao pescoço.
Pousado sobre a cesta da fruta, entre algumas maças e um ananás, contemplava silencioso tudo o que o rodeava, prestando atenção aos mais pequenos pormenores.
Primeiro, foi a avó Fernanda, ainda de roupão, a caminho da cozinha. Ouviu a chaleira ao lume… e minutos depois, viu-a de chávena em punho, o chá fumegante numa mão e meia dúzia de bolachas na outra.
Depois passou a pequena Sofia. Resoluta, pegou no banco e encarrapitou-se, no alto dos seus seis anitos, até alcançar a prateleira do armário. Pegou num pacotinho de leite com chocolate e voltou ao sofá da sala, para continuar tranquilamente a sua manhã de desenhos animados, defronte da televisão.
O coelhinho da Páscoa continuou a observar, em silêncio.
O pai Vicente, despenteado como todas as manhãs, veio a seguir. Entre dois bocejos, um espreguiçar e um pontapé desajeitado no pé da mesa, ouviu-o a colocar a chávena na máquina do café, o tradicional som do moinho e pouco depois… aí vem ele de chávena na mão.
Acabara de se sentar à mesa quando chegou a Maria, a filha mais velha, toalha ainda enrolada na cabeça, acabada de sair do duche. Sempre em corrida, apanhou duas maças e desapareceu pelo corredor.
- Bom dia também para ti… -resmungou o pai Vicente
A avó Fernanda voltou, de chávena vazia. Cumprimentaram-se e ela rumou à cozinha. Abriu o frigorífico e lá foi depositando sobre a mesa as couves, as cenouras, os aipos, os nabos, o alho francês, as batatas e as cebolas.
Tudo a postos para começar… um belo cozido. Mãos à obra.
Mas não. Ainda não. Ora bem… o que estava a faltar ? Ah, pois claro… a hortelã.
E lá rumou ao quintal, à procura do tempero em falta.
O coelhinho da Páscoa agitou-se. Mas continuou em silêncio.
Na sala ao lado, a mãe Joana finalmente descera do quarto. Apanhou o café do marido e sorveu-o de um trago. Depois enterrou-se na cadeira, as mãos a segurar a cabeça, num esforço heróico para manter os olhos abertos.
- Não dormi nada, esta noite – lastimava-se – e agora estou cheia de dores de cabeça… - Sofia… baixa o som da televisão, se fazes favor…
O pai Vicente passou-lhe a mão pelos cabelos, ternurento.
- Vá lá… queres que te faça um chá… ou … porque não tomas uma aspirina e voltas para a cama ?
Ela concordou – passar um domingo cambaleando pela casa com dores de cabeça não era propriamente algo que desejasse.
- Sim, por favor… dá-me duas…
A avó Fernanda voltou nesse momento, carregada com um grande molhe de hortelã. Rumou directa à cozinha e lá começou os seus preparos.
 
- Esta agora… onde estão as cenouras ? – ouviram-na da sala – tenho a certeza que as tirei do frigorífico…
Voltou a confirmar; dentro do frigorífico, fora, em cima da mesa, no chão… nem rasto.
Depois reparou melhor.
A um canto, junto do cesto da fruta, um pedaço de rama e umas lascas de cenoura revelavam que as cenouras teriam andado algures por ali perto. Mas nem vê-las…
Virou-se, à procura de opções; talvez tivessem escorregado, caído ao chão ?
Nesse momento, um tímido arroto – mas perfeitamente audível – fez-se ouvir.
A avó Fernanda olhou em redor, atónita.
- Estou a ficar maluca, querem ver…
 
Na cesta de frutas, o coelhinho da Páscoa acabou de mastigar tranquilamente a última cenoura. Os seus olhinhos de chocolate brilhavam de contentamento.
Aquilo sim… aquilo é que era uma boa Páscoa…

 

publicado por entremares às 08:32
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Domingo, 12 de Abril de 2009

O aquário

 

 

Moli, Trunfas, Rabisco, Piranha, Fungas e Verdete tinham todos uma coisa em comum; que é como quem diz, habitavam todos no mesmo espaço, um espaço muito bonito, por sinal.
Os seis elegantes peixinhos tropicais haviam chegado no dia anterior, e desde logo monopolizaram todas as atenções; O aquário deveria levar mais água, menos água ? Estaria demasiado quente, demasiado fria? O ph seria o adequado ? A vegetação natural não seria venenosa? Aquela embalagem de comida que estava em promoção no hipermercado seria a mais indicada para eles ?
Que stress...
Despejou uma pequena dose de alimento sobre a água e reclinou-se preguiçosamente sobre o sofá. Teóricamente, diziam os entendidos que aquele gesto, de ficar ali esticada a observar os peixinhos a comer e a deambular por entre a vegetação era do melhor que havia para combater o stress..
- Se não resultar... frigideira com eles... – resmungou.
A culpa não era própriamente dos peixinhos, e a Maria sabia-o muito bem. Mas claro que a hipótese da frigideira não se podia colocar para o marido, portanto... alguém tinha que arcar com as culpas...
O Verdete – por motivos óbvios, chamara-lhe assim, por vergonha de baptizá-lo com o nome do seu clube, apesar de verde – corria, isto é, nadava nesse momento velozmente em perseguição da Moli. É claro que a Maria não fazia a mínima ideia se o peixinho em concrecto era a Moli... ou o Moli. Gostara do nome, e pronto. Mas o certo é que a Moli continuava a desviar-se heroicamente a todas as investidas, e após meia dúzia de voltas completas ao aquário, o Verdete lá se acalmou e desistiu da perseguição.
- Até aqui... a conversa é sempre a mesma... – deu consigo a pensar com os seus botões.
E, no entanto, o amuo da Maria até tinha uma explicação bem lógica; o seu João, ou seja, o seu Verdete.
Gostou da ideia – Vou passar a chamar-lhe Verdete, para ver se ele gosta... – e desde logo, começou a saborear o doce sabor da retaliação conjugal.
E o que fizera o João de errado ?
Bem... o João tivera a ousadia – sim, repare-se bem, a ousadia – de comprar e mandar instalar, sem o seu conhecimento, sem a sua aprovação... um colchão de água, na sua cama.
E eis que ela, na noite anterior, vá de deitar-se com toda a tranquilidade e... “plof”... “plof”... parecia que estava a chapinhar na piscina das crianças – o que era aquela coisa, ora vai acima, ora vai abaixo ? – e o safado do marido – sim, que não merecia outro nome – o safado a rir-se perdidamente, que aquele colchão era sexy, era afrodisiaco e mais uma data de coisas que nem ouviu, porque na verdade até já nem o estava a ver muito bem, tal a raiva...
Portanto, e para variar, foi dormir para o sofá da sala, a ver os peixinhos.
 
Bem... estava mais que visto que a parte do ser bonito... era bonito, claro que o aquário era bonito. Mas a parte do relaxante, do alivio do stress.... isso talvez nem tanto. Ou pelo menos... primeiro precisava de acertar aquele assunto do colchão de água... e depois então talvez o aquário já conseguisse fazer efeito. O seu querido João precisava de aprender que havia certas coisas em que a sua opinião... contava.
 
Plim... Plim...
Primeiro, ainda pensou que algo caira ou chão, uma moeda ou algo igualmente pequeno. Mas não. O ruido persistia.
Plim... Plim...
Bem diante dos seus olhos, o Fungas, o mais escuro de todos eles, entretinha-se em abocanhar pequenas pedras do fundo do aquário e em projectá-las contra o vidro, com aquele característico... plim.
- Será idiota, o bichinho ?
Indiferente ao comentário, o Fungas continuou tranquilamente a praticar os seus arremessos. Moli, pelos vistos a mais curiosa de todos eles, acercou-se para observar melhor. Ainda tentou abocanhar uma pedrinha, para imitar o gesto, mas à terceira tentativa sem exito, desistiu e foi nadar para outras paragens.
Era urgente, portanto, arranjar uma solução.
Havia que pensar.
 
Abriu um olho, depois muito a custo, o outro.
Esticou a mão até à almofada do lado, mas mais uma vez, não a encontrou.
Já se passara uma semana, e a sua Maria insistia em dormir com os peixinhos, que é como quem diz, no sofá da sala. Se não fosse um pedacinho menos teimoso, até nem se importaria de voltar à loja e pedir para trocar o famigerado colchão de água.
- … Mas isto é tão confortável… - deu consigo a pensar – e também não era caso para tanto, todo aquele alarido que a sua Maria andava a fazer, só porque não lhe pedira a opinião… enfim, mulheres…
Levantou-se, cambaleando, e dirigiu-se ao banheiro – nada como um bom duche, bem quente, para começar bem o dia, ainda por cima um domingo, em que poderia ficar por casa, a preguiçar, ver televisão, talvez até arrumar um pouco a confusão de livros espalhados do seu escritório.
Espreitou pela porta entreaberta da sala. A Maria dormia ainda, o sofá virado para o aquário.
Meteu-se no chuveiro, os olhos ainda mal habituados à claridade.
Aquele chuveiro fora uma ideia da sua Maria, e desde logo fora o primeiro a reconhecer que a ideia era… genial. O pedreiro removera um bom pedaço de parede e substituíra-a por um elegante vidro fosco, que de repente, inundara a casa de banho, antes sem uma única janela, de uma luz natural imensa, que fazia daquele compartimento um dos mais luminosos de toda a habitação.
Despiu-se e esperou que a água atingisse a temperatura ideal.
- Isto sim…
Deixou-se por ali ficar.
Tão descansado estava, nem reparou na porta que se abriu de mansinho.
 
Depois de uma cantilena, duas árias e um pouco de “ó-sole-mio” – sim, ele era daqueles homens que gostava de cantar no chuveiro, e tinha muito orgulho nisso – virou-se, procurando mecanicamente com a mão o suporte da toalha, algures na zona superior do vidro fosco. Não o encontrou.
Abriu os olhos e o coração deu dois saltos. Ficou para morrer.
A toalha não estava no local previsto pelo simples motivo de que o cabide deixara de existir. E não fora a única coisa a deixar de existir.
No lugar daquele enorme vidro fosco, estavam agora as caras divertidas de… - oh, meu Deus – dos vizinhos do prédio do lado ( pelo menos conseguia distinguir três rostos, bem ali ao lado ). O vidro fosco desaparecera, substituído por um vulgaríssimo vidro transparente, terrivelmente transparente.
Os vizinhos contemplavam divertidos toda a cena, espantados pelo espectáculo matinal de um homem nu tomando o seu duche, bem defronte das suas cozinhas. É o que se poderia chamar de um acompanhamento diferente para o pequeno-almoço.
O pobre João, ainda em estado de choque, não estava a conseguir perceber o sucedido. Ainda no dia anterior, tomara um normalíssimo duche e o vidro… bem, o vidro era fosco, tinha a certeza absoluta.
Estava a ter alucinações ?
Uma risada bem disposta trouxe-o de volta à realidade. Voltou-se para trás.
Maria, encostada à porta da casa-de-banho, ria perdidamente.
 
A vingança servia-se fria.
E em boa hora se lembrara de chamar o velho Martins, que lhes fizera aquela obra na casa de banho.
- Mas, menina Maria … - ainda argumentara o pobre pedreiro – tem mesmo a certeza que quer trocar o vidro ? Depois fica a ver-se tudo cá de fora…
A Maria sossegara-o.
- Eu sei, eu sei… mas é só por uns dias… não se preocupe, eu depois chamo-o e trocamos outra vez… não está a pensar que eu agora vou passar a dar espectáculo para os vizinhos, pois não ? … É só para eu….mostrar uma coisa aqui ao meu João… 

 

publicado por entremares às 09:11
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Sábado, 11 de Abril de 2009

Diário de bordo II

 

 

Dia 2: Bangkok
 
Ora bem, o que vamos nós fazer ?
Se fosse a primeira vez, diria logo: o mercado flutuante, uma corrida de tuk-tuk. Mas como essas aventuras ( apesar de deliciosas, diga-se de passagem ) já não eram novidade para nós... decidimos explorar melhor a cidade, procurar pontos de interesse diferentes daqueles que aparecem em todos os catálogos de viagens. E claro que trazer a lição planeada de casa, com umas idas ao Google e a visualização do Google Earth ajudou... muitíssimo. Assim, já sabiámos de antemão que era possível efectuar cruzeiros de barco no rio Chao Praya, com jantar incluido, visitar o edificio mais alto da Tailândia, com quase 100 andares, efectuar excursões aos arredores para visitar a zona de Atuaya – antiga capital do reino do Sião – e, claro, voltar a visitar o palácio real de Bangkok, que mesmo estando incluido no pacote oferecido pela agência de viagens, é imperdível e merece muitas visitas.
Portanto, aí vamos nós em direcção ao rio, para apanhar o restaurante flutuante.
 
   
 
Bangkok, vista do rio, é luminosa. Os telhados pontiagudos dos templos rasgam o céu escuro e projectam-se para os deuses, refletidos nas águas calmas do Chao Praya. Bordejamos o palácio real, muitos templos, a zona comercial, subimos até à zona das pontes e depois voltamos a descer o rio, enquanto atacamos a refeição buffet à disposição no barco, acompanhada de umas Singha bem fresquinhas ( bem boa, esta cerveja ). Como não podia deixar de ser, uma animadora profissional lá vai cantando as canções da moda, para gláudio de uma excursão de turistas indianos que fazem a festa.
De repente, parece que estamos em Bollywood.
E, por falar nisso... por favor, menina... “ one more Singha, ok ? “
 
Dia3: Bangkok
 
Nada como um daqueles pequenos-almoços buffet ( misturando fruta, café, carnes frias, queijos, omeletes, croissants e sei lá mais o quê ) para começar bem o dia.
O nosso hotel, bem simpático por sinal, está localizado bem no centro, a um passo de quase tudo ( trabalho de casa, claro, que isto de escolher o hotel tem que ser feito com muita atenção, não vá tocar-nos a sorte de ficar num hotel esplêndido, mas ter de apanhar um táxi para fazer o que quer que seja ). Portanto, para hoje está programado: (Re)visitar o palácio real, o templo do Buda reclinado, subir até ao alto da torre Bayoke e explorar a pé a zona central da cidade.
Vamos a isso.
 
O palácio real é uma delicia para os olhos; principalmente para os nossos olhos europeus, habituados a outras formas, a outras arquitecturas, a outros estilos. No oriente, tudo é novidade, tudo é exótico, as formas surpreendem-nos, a dimensão da religiosidade ofusca-nos, o fervor desapegado daquelas gentes contagia-nos de uma simpatia genuina. Os tailandeses são ( mesmo ) um povo simpático, prestável, sorridente. Professam um budismo sincero, e julgo que é sincero porque o traduzem na prática, em pequenos gestos que de vez em quando nos prendem a atenção e ficam gravados na memória. ( Precisam de vir cá e olhar as pessoas, para compreenderem o que estou a tentar aqui descrever )
 
Bom... e o palácio ?

 

   

 

 

Fantásticos jardins, uma arquitectura esmerada, luxo, muitos dourados, tudo impecavelmente limpo, bem tratado. Os interiores não são para visitar ( pena ) mas mesmo assim vale sempre a pena.
O templo do Buda reclinado ?
 
Poderíamos ali passar muito, mas mesmo muito tempo... a percorrer cada recanto, espreitando os altares de oferendas, contemplando os frescos e as pinturas douradas das paredes, contornando a majestosa estátua dourada do Buda reclinado, entrando em cada um dos salões de meditação, com o pavimento coberto de tapeçarias vermelhas e representações várias do Buda, em figuras douradas. As estátuas dos querubins, cobertas de espelhos e pedras coloridas, as paredes integralmente revestidas de talha dourada, os dragões, os pequenos lagos com flores de lótus... é melhor deixar-vos só com uma pequena amostra de imagens... vão ficar com uma ideia mais aproximada deste local. Só pecam por uma coisa; não conseguir transpirar a tal “paz” que este local exala... é contagiante, acreditem.

 

    

   

 

 

 

 

Segue-se... a torre Bayoke.
Só a subida, em dois elevadores diferentes, já vale a pena. O bilhete inclui uma bebida grátis no bar panorâmico e a vista... bem, não é todos os dias que se sobe ao 28º edifício mais alto do mundo. Sempre são mais de 300 metros de altura e digo-vos... até dá vertigens. Ora vejam.

 

   

 

Refrescados com uma Singha bem gelada, fazemo-nos de novo à estrada, que é como quem diz, aí vamos nós de mapa na mão, decididos a conseguir voltar ao hotel a pé,
calcorreando toda a zona central de Bangkok, atravessando o rio, ladeando o parque e atacando a grande avenida Rama, que rasga a cidade ao meio.
Estranhamente, foi mais simples do que parecia. A cidade está limpa, mesmo muito limpa. Não se encontram papéis no chão, lixo por recolher ou contentores a abarrotar. O parque automóvel... de fazer inveja. Muitos pequenos utilitários e ... também muitos Mercedes, Audis, Lexus e outros que tais ( cruzámo-nos com um Lamborguini amarelo, cheio de pressa ) . Para além disso, e não sei como, todos ( atenção, todos ) os automóveis que circulavam estavam impecavelmente lavados, brilhando ao sol, o que numa cidade como Bangkok só se deve conseguir se passarem a noite na garagem ou se forem ao duche todas as manhãs. Portanto, confesso que não percebi como eles conseguem tal “proeza”...

 

   

 

     

 

 

Claro que o percurso foi interrompido por algumas compras ( e eu ia resistir por acaso a comprar um relógio Rolex, directamente vindo da Tailândia, por uns fantásticos ... 5 euros ? E as camisas Gantt, Lacoste, Blueberry todas a 1 e 2 euros ? E depois pergunta a gente porque anda sempre com excesso de peso no aeroporto ... )
Adiante.
Com toda esta conversa... estamos quase a chegar ao hotel. E para descansar os nossos pés... que tal um mergulho na piscina ?
Então... com licença... e até já.

 

publicado por entremares às 07:59
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Sexta-feira, 10 de Abril de 2009

Diário de bordo - I

 

 

Pronto, estava decidido. Chegara a hora de voltar ao oriente.
O oriente… esse misterioso território que nos preenche as fantasias dos grandes impérios, da opulência dos marajás, das selvas exóticas e de templos perdidos, de praias paradisíacas ondulantes de coqueiros e aventuras infindáveis…
O que se pode fazer em dez dias ? Bem… um pequeno salto a Bangkok e depois, mais um pulo até Bali poderia ser uma boa opção.
Diz-me a experiência que de todos os países daquela região, a Tailândia é, de longe, o que oferece a melhor preço-qualidade. Portanto, de que estamos à espera ?
Vamos embora.
 
Dia 1: Madrid – Bangkok
 
Sempre gostei de aeroportos; Aquela correria constante de pessoas para cá e para lá, os check-in, controles disto e daquilo, as lojas luminosas repletas de tentações para os olhos, os preços imorais que nos cobram nos restaurantes, a procissão de ansiosos junto dos placares que anunciam as partidas e chegadas dos voos… os visuais mais extravagantes de alguns passageiros…
Em contrapartida…
Só de pensar em ficar encerrado dentro de um avião, sentadinho no meu lugar durante quase doze horas… dá-me uma coisa ruim. É claro que aqueles lugares simpáticos da classe executiva deixam-nos água na boca mas… é melhor nem pensar na diferença do preço, para não martirizar o coração. Mas valha-nos ao menos a ideia de que vamos viajar com a Thai ( sim, a minha favorita ) e a Thai Airways é uma companhia aérea que, passe a publicidade, mete todas as outras no chinelo ( já vos explico porquê ).
E aquela sensação de sentir o 747 erguer-se da pista ? Até o estômago se cola às costas…
Bom… o que interessa é que aquele monstro lá se ergueu nas alturas e aí as simpáticas meninas de uniforme arroxeado começaram a demonstrar na prática porque gosto eu tanto daquela companhia aérea…
Primeiro vieram os aperitivos. Salgadinhos, amendoins… com bebidas à discrição; vinho, licor, conhaque, whisky, sodas, vodka… enfim, é só pedir.
Até dava gosto observar os olhinhos dos passageiros a regalarem-se de excitação…
Depois… os ascultadores, oferecidos numa bolsinha de tecido. E logo a seguir a ementa da primeira refeição.
A ementa ? Quando é que alguma vez me tinham entregue uma ementa numa viagem de avião ?
Dei voltas à memória e foi fácil descobrir; nunca, pois claro. Mas ali estava aquela ementa, em várias línguas, com as entradas, os dois pratos, a sobremesa…
Comecei a ter dúvidas. Estava na classe económica, não estava ?
 
 
 
Pronto, adiante...
Veio a primeira refeição.
Não fui o único a pasmar com o aspecto do tabuleiro. Dentro de um envelope transparente vinham… talheres metálicos, reluzentes ( vocês nem imaginam o prazer que é poder comer com talheres de metal, quando estamos à espera de encontrar aquelas coisas transparentes de plástico que se dobram por tudo e por nada )
Portanto, vá de atacar a carne com caril, arroz bastik e … que prazer.
E depois… bom… que tal se tentarmos passar pelas brasas ?
 
O aeroporto de Bangkok é algo que merece a pena ser visto. Impressiona pela dimensão, pela mistura do tradicional e do arrojado, pela quantidade tremenda de lojas de todo o tipo, pelo movimento imparável das gentes em permanente movimento, pela aparente desorganização que transmite ao olhar menos atento mas que, na prática, se revela extremamente eficiente, organizada e coerente.
 

   

 

 

Ao sairmos para o exterior… há que parar por um momento. Mal se abrem as portas de vidro, um bafo de ar quente e húmido empurra-nos violentamente para trás, recordando-nos que o equador é ali ao lado e que aqueles trinta e muito graus, misturados com a humidade a tocar os máximos… é uma mistura explosiva. O nosso corpinho ocidental e temperado com a brisa do atlântico percebe de imediato as diferenças. Portanto, apressemo-nos a subir para o “bus” e vamos lá para o hotel…

 

 

publicado por entremares às 08:28
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