Sábado, 28 de Fevereiro de 2009

O jogo da sedução

 

 

Algures, num campo verde, no primeiro dia da primavera, dois malmequeres conversam entre si.
Ele é um malmequer amarelo, bronzeado e bem disposto – ela, em contrapartida, uma malmequer branca, de longas pétalas brilhantes.
 
Ele – Posso sentar-me aqui neste canto ?
Ela – O campo é tão grande…
Ele – É verdade… mas não te importas, pois não ?
Ela – Estou disfrutando de uma manhã de silêncio. Se não o interromperes…
Ele – Serei uma pedra...
 
Ele – É um silêncio gostoso, não é ?
Ela - … era…
Ele – Desculpa, não resisti…
Ela – Já era previsível.
Ele – Essa agora… porque dizes isso ?
Ela – Porque eu sou uma malmequer branca…
Ele – Só por isso ?
Ela - … e por tu seres um malmequer amarelo…
Ele - …
Ela – Vocês, os malmequeres amarelos… não conseguem resistir, pois não ?
Ele – Só pretendo um pouco de companhia… estou farto de falar sozinho…
Ela – Costumas falar sozinho ?
Ele – Por vezes, falo… tu nunca experimentaste ?
Ela – Claro que sim… mas não tenho o hábito…
Ele – É fácil para ti, dizeres isso…
Ela – Não percebo porquê… sou igual a ti…
Ele – Igual ? nem por sombras… tu és uma malmequer branca… sobressais em qualquer campo…
Ela – Conheço já esse argumento de cor e salteado… que falta de criatividade…
Ele - …
Ela – Vocês… os malmequeres amarelos… responde-me lá a uma questão…
Ele – Sim ?
Ela – Porque motivo te dirigiste a mim ? O verdadeiro motivo ?
Ele – Bem…
Ela – Não quero uma resposta do tipo “ vamos cruzar as pétalas “… quero é tentar perceber o que te seduz…
Ele – É complicado de explicar…
Ela – Essa é a resposta mais fácil. Tenta outra…
Ele – Muito bem, deixa-me pensar…
 
Ela – Pensas muito… aliás, pensas demasiado…
Ele – Achas mesmo ?
Ela – Acho, não. Tenho mesmo a certeza. Suponho que fazes a vida mais complicada do que ela realmente é…
Ele – Sim, suponho que sim… mas sabes, acho que o facto de seres bela ajuda a todo esse optimismo…
Ela – Claro que não. Então só os bonitos é que podem ser optimistas, é isso ?
Ele – Pelo menos, ajuda muito…
Ela – Isso pensas tu… e aliás, eu não me considero bela…
Ele – Isso é normal, é a modéstia a falar…
Ela – Não, não era isso que eu queria dizer… eu não me acho bela… mas sinto que sou uma sedutora…
Ele – Não é a mesma coisa ?
Ela – Não.
Ele – Eu julgava ser a mesma coisa. Todas as malmequeres brancas são sedutoras, então…
Ela – Não, não são… são belas. A sedução não tem nada a ver com a beleza…
Ele - ?
Ela – Pois… estás surpreendido ?
Ele – Verdadeiramente… estou. Não faz muito sentido…
Ela – A sedução é como o vento… pode tocar-te as pétalas e tu nem o consegues ver, só sabes que ele passou por ti…
Ele – Mas tu consegues sentir o vento, é uma coisa física…
Ela – Pois é… e a sedução também. Sabes… vou contar-te um pequeno segredo.
Ele - …
Ela – Consegues imaginar porque permiti que parasses aqui, ao pé de mim, interrompendo o meu precioso silêncio ?
Ele - … Por simpatia, talvez…
Ela – Não.
Ele - … boa educação, então…
Ela – Muito menos… foi só por tu seres um sedutor…
Ele – Pois claro… e agora troças de mim, a que motivo ?
Ela – Não estou troçando de ti… tu és um sedutor…
Ele – Tu já olhaste bem para mim ?
Ela – Já, claro que já olhei…
Ele – E vais dizer-me que não encontraste nada de estranho ?
Ela – De estranho ? … Não, nada…
Ele – Nada de anormal ?
Ela – Anormal ? Claro que não…
Ele – Olha… por favor, olha bem para mim…
 
Ele - Já contaste as minhas pétalas ?
Ela – Já, porquê ?
Ele - … e não reparaste … naqueles dois espaços… sem nada ?
Ela – Reparei.
Ele – Aconteceu-me há uns tempos atrás… um garoto que ao passar, me arrancou duas pétalas… fiquei destroçado…
Ela – Compreendo…
Ele – Sinto-me um pouco... diferente... inferior até. Portanto não me sinto nada sedutor...
Ela – Acho que não estás a ver bem a situação...
Ele - ... até já me isolei, já me afastei de todos, só por ser...
Ela - ...
Ele - ... sempre me considerei diferente, e ainda por cima, depois daquilo...
Ela - ...
Ele - ... desculpa... acho que comecei um monólogo...
Ela – Começaste... e estás a ser tonto. Já olhaste para mim ?
Ele – Se reparei em ti ? Oh... como é possível não olhar ? Se tu és...
Ela – Pára. Nem me estás a ouvir... eu perguntei se já olhaste bem para mim...
Ele - ...
Ela – E então ?
Ele - ... Absolutamente ... adorável, é o mínimo que me ocorre...
Ela – Então olha com mais atenção, por favor...
Ele - ...
Ela – Já reparaste ?
Ele – Estou olhando...
Ela – E não reparaste em nada de estranho, também?
Ele - ...
Ela – Nada, mesmo ?
Ele – Não.... mesmo nada. Aos meus olhos... és perfeita...
 
Ela sorriu, daquela forma estranha que caracteriza as malmequeres brancas, quando sorriem.
 
Ela - ... Faltam-me muitas pétalas...
Ele – Faltam ? Não tinha reparado...
Ela – Faltam, sim... faltam-me quatro pétalas... também eu tive um percalço, um pássaro mais esfomeado que me deixou neste estado...
Ele - ... sim... com efeito... agora que falas disso...
Ela – Não tinhas reparado ?
Ele - ... Asseguro-te que ... não, tenho a certeza que é aprimeira vez que reparo nisso... como é que eu não vi...
Ela - ...
Ele - ... Porque sorris ?
Ela - ... Porque pela primeira vez, estás a ser ... verdadeiramente sedutor...
Ele - ... acredita... não reparara ...
Ela -  Eu sei, eu sei... mas já reparaste agora... que eu ainda sou mais imperfeita do que tu ?
Ele - ... Mas tu és bela...
Ela - Bela, eu ? Sem quatro pétalas ? Só aos teus olhos...e porque eu te seduzi...

 

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Sexta-feira, 27 de Fevereiro de 2009

O pastor e a coruja

 

Era uma vez um pastor…
Como todos os pastores, vivia sozinho, num pequeno monte perdido algures nos confins de um Alentejo profundo, afastado das aldeias, tendo por única companhia o rebanho de ovelhas, o Catita e a Migas. Já não era novo, mas ainda conseguia correr, quando necessário, para aplicar uns correctivos nas ovelhas mais ariscas, se bem que essa tarefa estivesse habitualmente a cargo dos seus ajudantes, em especial a Migas.
Era a sua vocação, a sua paixão... e a sua vida.
Sempre fora pastor. Primeiro, a ajudar o pai, caseiro numa quinta da vila, depois por conta própria, mal largara os bancos da escola, já lá iam uns – quantos ? – quase setenta anos…
Mas os grandes espaços … o silêncio das tardes de verão… as trovoadas secas do Outono… provocavam-lhe uma sensação de liberdade que mais nenhuma profissão poderia igualar.
Ele ali, perdido na imensidão do verde - amarelo da primavera, fazia parte da paisagem, sentia-se parte daquele todo, e nem conseguia imaginar a sua vida fora daquele mundo, por vezes árido e agreste, por vezes melancólico… mas nunca monótono. Ou não tivesse os seus animais de companhia por perto…
O Catita era o mais velhote, um rafeiro já em idade de reforma. Já o acompanhava há muitos anos, conhecia-lhe todas as manhas, os gostos e os pequenos vícios. Sabia que às vezes fingia coxear, quando queria receber atenção extra, sabia que era doido por açorda – ou não fosse ele um rafeiro alentejano – e que se viciara em torrões de açúcar, o que não era nada bom para os seus dentes. As ovelhas já lhe haviam perdido o respeito, e por mais que ladrasse, não lhe obedeciam.
A Migas, em contrapartida… impunha muito respeitinho.
E isto porque a Migas era a verdadeira guarda do rebanho. Uma guarda muito especial.
A Migas era uma coruja.
- Migas… ali. – e o pastor apontou um par de ovelhas, afastadas do resto do rebanho, a roer uns arbustos.
Imediatamente a ave, antes pousada sobre o seu ombro, bateu as asas e voou de encontro às duas tresmalhadas. Volteou-as num voo rasante, enquanto soltava uns guinchos agudos.
Como que por magia, as ovelhas retrocederam de imediato, correndo a juntar-se ao resto do rebanho. Já sabiam, por experiência própria, não ser boa ideia contrariar a Migas, quando ela fazia aqueles voos rasantes… a menos que quisessem receber alguma daquelas bicadas dolorosas que a coruja tão bem sabia dar.
Nem o pastor encontrava uma explicação completa para aquele enigma, que era a sua Migas, uma coruja.
Sim, porque as as corujas dormem de dia... para caçar à noite. Mas Migas dormia de noite, equilibrada numa das vigas de madeira do tecto da cozinha, perto da chaminé. De dia, fresca como uma alface, saltitava entre o conforto dos ombros do pastor e os voos rasantes que adorava fazer às ovelhas, assustando-as quando lhes guinchava junto das orelhas.
O pastor descobrira a coruja, na altura muito pequena, caída por entre os fardos de palha. Provavelmente, perdera-se dos progenitores, ou talvez já nem os tivesse, que isto hoje em dia os caçadores já disparavam contra tudo o que mexesse. De qualquer dos modos, sentira dó do animal e levara-o consigo para junto da lareira. Alimentara-a pacientemente, sempre à espera que a ave ganhasse força suficiente nas asas para voar, conquistar o seu espaço.
Mas a ave ganhou força, aprendeu a voar... e não partiu. Ao invés disso, teimava em o acompanhar para toda a parte, empoleirada no seu ombro, como se de um papagaio se tratasse. À noite, parecia surpresa por o pastor se deitar e adormecer. Nos primeiros tempos, voava por dentro do monte, correndo todas as divisões, por vezes saindo até para o exterior, em pequenas excursões nocturnas. Mas depois mudou de atitude . Aos poucos, copiou-lhe os hábitos, e os hábitos sobrepuseram-se à natureza. Passou a recolher-se quando o pastor se deitava, primeiro pousada sobre uma das cadeiras do quarto, depois na cozinha, junto da chaminé. Aprendera a apreciar a luz do sol e o fresco da manhã, e até passara a protestar ruidosamente quando o pastor se demorava em abrir a porta do monte, ao alvorecer.
- Tu és a vergonha das corujas. – repetia-lhe o pastor amiude.
Mas a coruja parecia não se importar com os comentários.
Um dia, estava ele a comer tranquilamente e eis que aparece a coruja, cozinha adentro, as asas num reboliço, guinchando frenéticamente.
- O que foi agora ? – quis saber o pastor – Não tinhas ido caçar o almoço ?
A coruja ainda bateu as asa um par de vezes, antes de se imobilizar junto dele, mesmo à beira do seu prato. Logo de seguida, e com o maior dos descaramentos, atira-se à comida, debicando furiosamente os pedaços de carne que o pastor preparara para o almoço.
- Ora esta, o que é que temos aqui ? – e o pastor ria-se a bom rir – quer dizer então que a menina veio lá de fora nesta correria porque lhe cheirou a comidinha, não foi...
A coruja ignorou-o, continuando a debicar alegremente no prato dele.
- Já agora – e o pastor falava como se ela o compreendesse por inteiro - ... a menina sabe o que está a comer, sabe ?
Claro que a coruja não sabia, o que também não era importante.
- Migas, minha linda... migas, isso é o que tu me estás a roubar, bem nas minhas barbas...
Ficou a vê-la comer. Como o bico, afastava a o pão e bicava os pedações de carne gordurosa, avermelhados de pimentão. Desde quando as corujas apreciavam aquilo ?
O pastor continuava a rir, bem disposto.
- Está bem está bem, podes comer tudo... Migas.
A coruja interrompeu a pequena refeição e virou-se para ele, como se percebesse que aquelas palavras lhe eram dirigidas.
- Migas- repetiu ele ... sim, isso mesmo... Migas.
A coruja guinchou alegremente.
Logo de seguida, voltou à refeição interrompida.

 

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Quinta-feira, 26 de Fevereiro de 2009

Marido e Mulher

 

 

Ele:    Podes passar-me o sal, por favor ?
Ela:    Porque não o apanhas tu?
Ele:    … Está do teu lado da mesa, não está ? Só por isso…
Ela:    Não, está do teu lado.
Ele:    Precisas de ser sempre assim tão teimosa ?
Ela:    Não estou a ser teimosa. Tu é que estás a ser preguiçoso…
Ele:    Eu, preguiçoso ? Se é coisa que não sou… é preguiçoso.
Ela:    És preguiçoso… e muito. Isto foi um bom exemplo.
Ele:    Essa agora… só por te ter pedido para me alcançar o saleiro ?
Ela:    Não… por teres preguiça de te levantar da cadeira para o apanhar…
Ele:    Ah….
Ela:    Ah… o quê ?
Ele:    Ah… que eu afinal tinha razão. Tu própria me estás a dar razão.
Ela:    Não estou nada.
Ele:    Se acabaste de reconhecer que eu precisava de me levantar…
Ela:    Olha só… então e eu não precisaria de me levantar, querem ver ?
Ele:    Mas está mais perto de ti…
Ela:    Lá estás tu outra vez… é a mesma coisa com a cama, não é ?
Ele:    Com a cama ? Qual é o problema com a cama ?
Ela:    É só outro exemplo da tua preguiça, é o que é…
Ele:    Como assim ?
Ela:    Quem é que apaga sempre a luz, quem é ?
Ele:    És tu, claro. Mas o que tem isso a ver com o assunto ?
Ela:    Tudo, claro que tem tudo a ver.
Ele:    Não percebi.
Ela:    Onde é que está o candeeiro ?
Ele:    Na tua mesinha de cabeceira, claro.
Ela:    E porque é que está na minha mesinha de cabeceira ?
Ele:    Porque tu o puseste lá, suponho…
Ela:    Ah…
Ele:    Ah… o quê ?
Ela:    Aí está mais um exemplo perfeito da tua preguiça…
Ele:    O que tem o candeeiro a ver com a minha preguiça ?
Ela:    Porque é que não quiseste o candeeiro na tua mesa de cabeceira ?
Ele:    Porque não o uso.
Ela:    Ora aí está… e porque é que não o usas ?
Ele:    Porque não preciso dele. Se és tu que apagas sempre a luz…
Ela:    Estás a ser irritante…
Ele:    Não estou nada… tu é que continuas teimosa… como sempre
Ela:    Pois… eu é que tenho sempre a culpa de tudo…
Ele:    Às vezes, tens…
Ela:    Devias olhar para ti próprio…
Ele:    Agora és tu que estás a ser desagradável…
Ela:    Pois estou… é para tu perceberes a sensação…
Ele:    Olha… o que eu estou a perceber é que ainda preciso do sal…
Ela:    Podes vir buscá-lo… A escrava hoje está de folga…
Ele:    Posso repetir-te … que está na tua metade da mesa ?
Ela:    Essa agora… na minha metade. Já a mediste ?
Ele:    Claro que não, nem preciso, essa agora…
Ela:    Então vamos já tirar as teimas…
Ele:    Como assim ?
Ela:    Medimos a mesa e já descobrimos em que metade está o saleiro…
Ele:    Finalmente, uma boa ideia.
Ela:    Ao menos, concordamos nalguma coisa…
Ele:    Claro que sim… afinal casámos, não foi ?
Ela:    Pois… vamos lá medir a mesa. Vai lá buscar a fita…
Ele:    Essa agora… Porque não a vais buscar tu ?
 
 
Para a paz de espírito de todos nós, informo-vos que o nosso simpático casal ainda está a debater o assunto e… a comida já arrefeceu.

 

publicado por entremares às 12:52
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Quarta-feira, 25 de Fevereiro de 2009

No reino de Neptuno

 

 

Vagarosamente, mergulhou.
O mundo, sob a superfíce das águas, continuava tranquilo ... e silencioso.
O silêncio era, aliás, uma característica única no reino de Neptuno; abaixo da superfície, as criaturas regiam-se por um código de silêncios, entrecortado de curtos chamamentos, alguns silvos mas, principalmente... muito silêncio.
Uma anémona estendeu-lhe os tentáculos, ondulantes ao sabor da corrente.
Alguns raios de luz, tremeluzentes, projectavam-se sobre o fundo arenoso, imitando uma dança fantasmagórica de luz e sombra, formando padrões caleidocópicos, irrepetíveis.
Espreguiçou-se, prazenteiro.
A vida é bela – pensou – e eu sou um felizardo...
Um grupo de pequenos peixes coloridos desviou-se, timidamente, procurando refúgio sob as folhas protectoras de uma alga.
Ignorou-os.
Adorava aquela sensação de liberdade, dos espaços vazios, da corrente mansa que ora o puxava, ora o arrastava de encontro aos corais, impávidos e serenos, a contemplar os raios de sol, filtrados pelas águas cristalinas.
Nadar sob a superfície das águas era – sembre o soubera – quase como voar; uma sensação de leveza, de desprendimento, de abandono. De êxtase, até.
Contornou um banco rochoso e ... lá estava ele.
Emergindo das profundezas, como um gigantesco esqueleto, os destroços da velha embarcação de piratas contrastavam com a areia branca, aqui e ali já envoltos por uma manto verde de pequenas trepadeiras e uma minúscula penugem, que brevemente se iria transformar em musgo.
Há quanto tempo ali estaria ?
Sempre o conhecera ali... imóvel e vigilante, a servir de refúgio aos cardumes de peixes tropicais que o haviam adoptado como lar.
Contornou-o, vagarosamente, afugentando os desconfiados ocupantes que, contra-vontade, viam a sua casa invadida pelos olhares furtivos daquele intruso.
Um pequeno peixe azul brilhante surgiu de repente, por entre as vigias da ponte, para logo voltar a desaparecer.
O mastro principal, porventura outrora majestoso, de velas brancas desfraldadas ao vento, jazia agora no convés, partido em dois; até a roda do leme, por um provável capricho do movimento das águas, rodava sózinha, guinchando lúgubre nos eixos enferrujados...
Sempre gostara de visitar aquele local. Transmitia-lhe uma paz acrescida, talvez por lhe soltar a imaginação, ou simplesmente pelos inúmeros recantos que podia explorar... quem sabe até, encontar algum tesouro ...
Ia precisamente entrar por um dos orificios do casco quando a superfície das águas estremeceu.
Olhou para cima, ao mesmo tempo receoso e impaciente.
Pequenas sombras desenhavam-se na superfície, impedindo a luz de se projectar sobre o fundo de areia.
O tempo passara assim tão depressa ?
 
Agitou as barbatana douradas e lançou-se para a superfície. Aquelas sombras só podiam significar uma coisa... comida.
Para trás ficou o pequeno barco de piratas, já revestido de um manto de musgo verde, as conchas, o tubo transparente por onde saíam intermináveis bolhas de ar, mesmo junto da roda do leme.
Voltou a contornar a anémona e o bando de peixinhos coloridos que, como ele, se projectavam sôfregos para a superfície, na busca dos pequenos pedacinhos de alimento que alguém atirava nesse momento para dentro do aquário.
- A vida é bela – voltou a repetir, enquanto abocanhava o primeiro pedacinho de alimento - ... e eu sou um felizardo...

 

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Terça-feira, 24 de Fevereiro de 2009

Memórias de uma lâmpada...

 

 

Monótono. Aborrecido. Entediante.
Tentou lembrar-se de outros adjectivos... mas até isso lhe parecia particularmente desinteressante.
Revirou-se no grande almofadão de seda azul, debruado a fios dourados, procurando algo para fazer.
Nada. Rigorosamente nada para fazer.
Voltou a encher o cachimbo de água, o mais lentamente que lhe foi possível. Mas, por mais tempo que emprestasse à tarefa, sabia que ainda lhe sobraria muito mais, muito mais tempo... sem absolutamente nada para fazer, excepto estar ali, à espera...
A vida de Al-Kazan, Al-Kazan Be-Dur de seu nome completo, dependia do tempo; apesar de ser escravo dele.
Al-Kazan era um mágico da lâmpada.
Dito desta maneira, poder-se-ia pensar que a sua vida seria excitante, plena de aventuras e peripécias a correr o mundo mas... a verdade, essa... era exactamente o oposto.
Al-Kazan era um mágico de carreira, herdara a profissão do pai, que por sua vez também já a herdara do seu avó, e assim sucessivamente. Uma nobre profissão, diga-se de passagem, e muito respeitada.
E, como em qualquer profissão que se preze, existiam regras, regras que tinham que ser cumpridas, mesmo que Al-Kazan não concordasse com elas...
Quantas missões já cumprira ?
Pois... residia aí o pequeno problema.
Al-Kazan ainda tinha pela frente mais uma obrigação... a última. O contrato que assinara era muito claro, e lá colocara a sua assinatura, sem hesitações; Cinco missões, cada uma delas com três desejos, demorasse o tempo que demorasse a cumprir...
Só depois viria a reforma, e a liberdade absoluta.
- Por este andar... ainda serei velho antes de me reformar... – queixava-se repetidamente, resmungando consigo próprio pela aparente falta de sorte da sua pessoa. Conhecia alguns colegas – bastantes, até – que em meia dúzia de anos, haviam cumprido o contrato inteiro e ele, Al-Kazan, já por ali andava há mais de quinze séculos... e ainda lhe faltava uma missão para cumprir.
Sinceramente... já era falta de sorte.
Aspirou demoradamente a névoa esbranquiçada que se desprendia da infusão de ervas que depositara no cachimbo de água. Já perdera a conta ao número de cachimbos que fumara; aliás, já gastara todos os jogos que conhecia, jogando-os sózinho ou contra si próprio, deitado sobre os tapetes persas que cobriam por completo o interior da lâmpada.
Aborrecido, mesmo muito aborrecido.
Apesar do interior da lâmpada ser confortável – bastante confortável, mesmo – não se comparava com o exterior, com aquela sensação única de estar sob o sol do deserto, sentindo a pele a aquecer, o vento a agitar as folhas das palmeiras, o travo amargo das tâmaras a escorrer pelos cantos da boca.
Engoliu em seco. Pensar em todas essas coisas ainda o deixava mais deprimido. A sua função era a de esperar ali, pacientemente, até que alguém solicitasse a sua intervenção, no mundo exterior. Nessa altura, saíria, cumpriria os três desejos estipulados, desejaria muito boa sorte a esse ultimo amo e ... partiria para bem longe dali, para o conforto do seu deserto natal, algures nas arábias...
A memória de um mágico da lâmpada era uma autêntica colecção de momentos ímpares, decorridos nos quatro cantos do mundo, realizando todo o tipo de desejos, desde os mais fúteis aos mais estranhos, inúteis ou disparatados.
Mas não era sua função julgar os desejos dos seus amos; simplesmente providenciar para que eles se cumprissem... e o melhor possível. É claro que por vezes precisava de intervir um pouquinho, quando alguns desejos eram mesmo impossíveis de realizar. Nesse caso, a sua função era ajudar o autor do desejo a compreender a impossibilidade do pedido e a reformulá-lo em algo mais... realizável.
Sorriu, ao recordar o seu primeiro trabalho, para o Emir de Sevilha, um velhote simpático que acreditava piamente que, apesar dos seus quase oitenta anos, ainda possuia o fulgor da juventude de outros tempos. Pedira-lhe – imagine-se só – que rejuvenescesse todas as esposas do seu harém, que claro, também tinham uma idade compatível com a sua.
Al-Kazan obedeceu e, com a inexperiência própria da sua juventude na profissão, obedeceu sem medir as consequências do desejo que estava a cumprir.
Claro está que o pobre Emir faleceu pouco depois, esgotado, nos braços das dezenas de jovens mulheres que ele, o mágico inexperiente, lhe colocara no harém.
Prometera para si próprio ter mais atenção, antes de realizar desejos daquela natureza.
É claro que muitas vezes – e isto era o seu segredo – nem o próprio amo sabia muito bem o que estava a pedir.
Veio-lhe à memória aquele físico inglês – não recordava o nome – que, desesperado na procura de uma fórmula qualquer, se deitou à sombra de uma macieira e desejou que ele, o grande Al-Kazan, lhe encontrasse a resposta para o seu problema.
E ele obedecera, claro... deixando-lhe cair propositadamente uma maçã em cima da cabeça. Afinal de contas, resultara, e isso era o mais importante. O físico encontrara a solução do problema que o perseguia e ele cumprira a sua missão, satisfazendo mais um desejo...
Mais uma aspiração no cachimbo de água.
Mil e quinhentos anos... caramba, custavam a passar...
O seu terceiro amo, qual fora ? O velhote despenteado de cabelos brancos ? Não... esse fora depois... ah, claro, como se podia esquecer ? O explorador...
O explorador fora dos poucos que conseguira concretizar os três desejos a que tinha direito – aliás, ainda conservava de recordação o chapéu redondo, colonial, que ele lhe oferecera, à despedida.
Guardava do explorador uma memória simpática. Não pedira riquezas, nem nada de extravagante... isto é, acabou por pedir uma coisa, mas foi em desespero de causa.
Sempre que recordava o episódio, não resistia a uma boa gargalhada.
Livingstone... era esse o nome do dito explorador. Uma vez... – parecia que fora ontem - ... começara a entrar água, muita água, para dentro da lâmpada. Nunca lhe ocorrera tal. Enquanto corria de um lado para o outro, a tentar desviar os tapetes e as almofadas de seda... ouviu o tal explorador, a implorar pela vida, desejando que o salvasse daquela aflição.
Claro que o mágico obedeceu. Quando se reformasse, já tinha uma história inédita para contar aos netos... ou mais algum mágico se poderia vangloriar de ter salvo o seu amo de ser cozinhado numa grande panela, já cheia de água quente e têmperos... e quase comido por canibais ? Duvidava...
As aventuras que já vivera...
O seu último amo fora, em vários aspectos... especial.
Também não ligava nada a riquezas, e os dois primeiros desejos que lhe concedera nem mereciam quase o nome de desejos – um automóvel novo e um bilhete para a estréia de um ballet, só porque o dito cujo, também cientista por coincidência, se apaixonara perdidamente pela dançarina principal...
Mas lá que o homem era inteligente, lá isso era...
Quanto a esta última aventura, Al-Kazan sentia-se particularmente orgulhoso.
O cientista de cabelos brancos – porque teimava ele em andar sempre despenteado ? – pedira-lhe, como terceiro desejo, que o ajudasse a completar uma fórmula matemática que – dizia ele – revolucionaria tudo aquilo que era conhecido.
Mas matemática não era própriamente o ponto forte de Al-Kazan. Ainda tentara dissuadir o cientista do pedido. Poderia trocá-lo por outra coisa ? Um outro automovel novo, talvez ?
Não... o que ele queria era mesmo a fórmula.
Mas o problema era que ... enfim ... E = MC ... que diabo de fórmula era aquela ?
Sem saber o que fazer, entreteve-se a desenhar um quadrado à volta da fórmula, com a caneta preta. Não fazia a mínima ideia de como poderia ajudar o seu amo naquela tarefa...
Mas então, milagre... o velho cientista olhara para aquilo e e começara a rir, a rir como um garoto com um saco de rebuçados, a dar saltos à volta da mesa, como nunca vira.
- Um quadrado, claro... claro que faltava um quadrado... ó génio, ó génio... como é que tu percebeste que só faltava o quadrado ?
E rabiscou um algarismo na fórmula, radiante.
Al-Kazan ainda hoje não percebia qual fora a sua contribuição para o desejo do amo. Mas que resultara... lá isso resultara, e isso é que fora o mais importante...
Dispunha-se a encher novamente o cachimbo de água quando um leve estremecer da lâmpada o trouxe de novo à realidade.
Poderia ser possível ?
Seria, agora... finalmente... não, era bom demais para ser verdade... e contudo, a lâmpada continuava a estremecer...
Levantou-se de um salto e esperou, impaciente.
O tremor desapareceu, e durante longos segundos, nada aconteceu.
Depois, de repente... a névoa tão característica... o abrir da rolha que vedava a lâmpada e...
Chegara a hora.
Finalmente.
Ajeitou o casaco vermelho e compôs o turbante. Precisava de estar impecável – afinal, a primeira impressão é sempre a mais importante.
Saiu para o exterior, ainda envolto na névoa.
- Quem chamou o génio da lâmpada ? Eu estou aqui para o servir, meu amo... e para lhe proporcionar três desejos...

 

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Segunda-feira, 23 de Fevereiro de 2009

Ensaio sobre a beleza

 

 

- É hoje ?
- É hoje Marilia, é sim... mas tem a certeza do que pretende fazer ?
- Certeza ? ... Acha mesmo que estou em posição de poder ter certezas ?
E enquanto dizia isto, sorria.
Tinha um sorriso bonito, era o que todos diziam. Um sorriso bonito, lábios cor de morango, um nariz esguio e olhos de um violeta raro. A cabeleira, longa e cinzenta, emoldurava um rosto sereno, simétrico, pacífico até.
Era dificil definir aquele rosto, para além da sua mais que evidente beleza. Transparecia uma energia cativante, uma aura de simpatia que nem mesmo a terrível cicatriz que o rasgava de lado a lado conseguia ocultar.
No auge da juventude, um improvável acidente de viação deitara tudo a perder; o resultado mais evidente fora precisamente aquela cicatriz, que lhe rasgava a face quase de lado a lado.
As feridas do corpo saram sempre mais depressa que as da alma – dizia ela. E com razão.
Os medos, os pesadelos, a insegurança... esses iriam permanecer durante muito tempo, mesmo que a cirurgia plástica conseguisse devolver a beleza original ao seu rosto.
Para a alma... só o bálsamo do tempo.
Tempo... muito mais tempo do que aquele que já passara, quase um ano em hospitais, a sarar o corpo das mazelas daquela noite fatídica, onde uma alegre festa de aniversário se transformara num calvário doloroso.
Mas a vida era isso mesmo... um sopro de instantes imprevisíveis.
A enfermeira apertou-lhe a mão, carinhosamente.
- Marilia... sabe que não precisa de fazer isto...
- Sei sim,Joana... mas mesmo assim... vou fazê-lo... eu preciso.
Retribuiu-lhe o gesto de afecto, enquanto se deitava na maca.
Chegara finalmente o dia.
Dali a pouco, um cirurgião pegaria nela e devolver-lhe-ia o seu rosto.
E, com o rosto, um pedaço da alma voltaria também.
- Eu fico aqui à espera – ainda repetiu baixinho a enfermeira, enquanto ia empurrando a maca ao longo do corredor, em direcção ao bloco operatório.
A porta envidraçada abriu-se e um outro enfermeiro veio apanhá-la.
Acenou-lhe uma última vez.
- Eu fico aqui... prometo.
 
Segunda-feira. Um dia auspicioso.
Uma nova semana, quem sabia senão uma nova vida também... um novo ciclo.
No quarto número 12 do hospital, reinava o silêncio.
A enfermeira Joana lançou um olhar esperançoso ao médico, um cirurgião ainda muito jovem. Ele sorriu-lhe, animado.
- Então, Marilia... vamos a isso ? – e o médico aproximou-se dela.
Marilia continuava sentada na berma da cama, as mãos a apertar com força o cobertor branco. A face, completamente oculta por ligaduras, não permitia vislumbrar a ansiedade que lhe assaltava a alma. Só um leve tremor dos dedos denunciava a angústia que lhe queimava as entranhas. Baixou a cabeça, numa concordância muda.
Joana, a enfermeira, aproximou-se também e, com todo o cuidado possível, começou a desenrolar a comprida ligadura que cobria por compelto o rosto.
Aqueles segundos – como era possível ? – eram a parte mais dolorosa...
Finalmente... a última volta...
A expressão de vitória do médico espelhava o sucesso da operação.
O rosto de Marilia, límpido e tranquilo, não exibia nenhuma recordação da cicatriz que, até há poucos dias atrás, o desfeara de forma tão atroz.
A enfermeira levou a mão aos lábios, contendo um esgar de admiração – que rosto lindo.
- E então... – murmurou Marilia, a voz a tremer-lhe de emoção - ... como estou ?
A enfermeira tomou-lhe as mãos e fê-las tocar o rosto, agora já livre das ligaduras.
- Marília... o seu rosto... está lindo... tem o seu rosto de volta.... eu sabia que tudo iria correr bem...
Ela percorreu o rosto com as mãos; a boca, o nariz, os olhos, a testa... todos os pequenos recantos antes interrompidos pelas marcas do acidente... haviam desaparecido.
- A cicatriz... – gaguejou ela, a voz trémula - ... desapareceu ? A sério ?
- Completamente, Marilia... – e o médico regojizava - ... é como se nunca tivesse tido aquele acidente...
Marilia sorriu, feliz.
O médico, esfusiante de alegria, correu até à mesa de cabeceira, pegando no espelho que ali se encontrava.
- Marilia... – continuou ele – despareceu por completo, acredite... – e colocou-lhe o espelho defronte do rosto – veja por si mesma, veja ... nem um arranhão.
A enfermeira levou as mãos à cabeça, aflita.
- Doutor... – ainda tentou, mas a voz morreu-lhe na garganta.
Marilia segurou o espelho que o médico lhe colocara nas mãos.
Queria acreditar. Fez um esforço enorme, como se todo o seu ser pudesse vergar o tempo à sua vontade... e fazê-lo recuar até àquela noite fatídica... mas infelizmente, tal não seria possível. Assim, limitou-se a presentear o médico com o melhor dos sorrisos.
- Eu bem que gostava, doutor... eu bem que gostava...
Por mais que tentasse ... nunca o conseguiria. No principio, ainda acalentara esperanças, os médicos repetiam vezes sem conta que a cegueira seria temporária, talvez um nervo magoado, nada de muito grave.
No seu íntimo, sempre soube que seria definitivo.
O rosto podia recuperar a beleza de tempos idos, o corpo recuperaria certamente de todas as mazelas, mas o resto...
Continuou a segurar o espelho, a imagem refletida.
- Ao menos – murmurou – que esteja bela para os outros...

 

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Domingo, 22 de Fevereiro de 2009

Benjamin

 

- Inspirado na película " The curious case of Benjamin Button" -

 

 

Pegou novamente no diário.
“ ... mas, naqueles dias cinzentos, era inverno; e o salão do hotel continuava vazio... “
Benjamin Button surgiu então no grande écran. Por dois segundos.
Se existe algo de desagradável numa boa ida ao cinema... é a escolha dos piores momentos para colocar um intervalo. Apesar de o intervalo ser uma benesse, quando nos toca a ousadia de desafiar um filme com três horas de duração...
Piscou os olhos, ferida pela luz súbita que inundara a sala.
A noite fria e chuvosa afastara o público e assim, a plateia resumia-se a não mais que uma meia dúzia de espectadores que – como ela – estavam a dar por muito bem empregue aquele pequeno lapso de tempo.
Ajeitou-se melhor na cadeira – aquela perna... sempre aquela perna presa. Enquanto efectuava movimentos, ainda se tolerava... mas estar ali imóvel, durante tanto tempo... o seu reumatismo não apreciava mesmo nada. Mas enfim...
O cinema era isso mesmo – pensou. Quando as luzes se apagam e somos projectados para um outra realidade... o mundo lá fora fica em suspenso, como se o tempo abrisse uma leve brecha e durante toda aquela escuridão, a vida acontecesse simplesmente diante dos olhos, projectada num écran branco...
Sempre gostara de histórias... e de bons contadores de histórias. Nunca lera aquela novela de Fitzgerald, mas deu consigo a pensar que, por vezes, a realidade conseguia superar a ficção. Claro que também apreciava, por motivos estéticos, o actor...
Veio-lhe à memória – vá lá saber-se porquê – outro filme que também lhe deixara um sabor doce na boca, de um eternamente jovem Mel Gibson.
O tempo ... ou a passagem do tempo, tinha destas coisas; deixavam-lhe o pensamento completamente virado do avesso e às vezes descobria-se a si própria, perdida em sonhos, a divagar sobre a insustentável memória do presente, esse tão fugidio presente que teimosamente, logo se transformava em passado...
Mas o que se poderia fazer quanto a isso ?
Nada, rigorosamente nada. O tempo era a derradeira fronteira, aquela névoa que dava e pedia de volta a vida, num leve interregno durante o qual iam acontecendo coisas...
Quando deu por si, estava sózinha na sala.
A meia dúzia de espectadores optara por ir esticar as pernas e, quem sabe, beber um café. Decidiu fazer o mesmo.
Levantou-se e um pouco a custo, lá se dirigiu à saída.
- A bengala... – ainda murmurou, ao reparar que se esquecera de a apanhar.
Hesitou um segundo e depois seguiu em frente – façamos um esforço... e deixemos a muleta em paz. – rumo ao pequeno bar.
Os espectadores circulavam pelo átrio, observando os cartazes pendurados na parede, conversando baixinho. O eterno empregado do bar – lembrava-se daquela cara desde sempre – serviu-lhe um café e ela pegou na chávena e foi deambular pelo átrio alcatifado de vermelho.
Reviu o cartaz da estreia de “ E tudo o vento levou”, ainda pendurado na mesma parede, ao longo dos ultimos cinquenta anos, as fotografias já um pouco descoloridas da deusa Marylin Monroe, de Humphrey Bogart, de James Dean e mais dois ou três grandes monstros da época dourada de Hollywood.
Apesar dos seus quase setenta e nove anos – até lhe custava a acreditar, tantos ? – continuava fiel à magia do cinema. Nos seus tempos de juventude, corria para as estréias, conhecia de cor os trejeitos e excentricidades das estrelas, até conseguira um dia obter um autógrafo do seu melhor Tarzan de sempre, aquele nadador americano que fizera suspirar todas as da sua geração, o Weissmuller.
Chegou-se ao enorme espelho, junto do bengaleiro, para recompôr a aparência – não que fosse vaidosa, mas a idade ensinara-lhe que a verdadeira beleza residia nos pormenores. E como tal, havia sempre um ou outro pormenor necessitado de atenção.
O espelho devolveu-lhe uma imagem serena, de quem à muito descobrira a postura certa perante as vicissitudes da vida – e tinha tido algumas – mas que nunca se deixara abater por elas... e sobrevivido. Aliás, até estava a gostar particularmente do seu reflexo... provavelmente pela iluminação difusa do átrio, ou pelos reflexos quentes da alcatifa vermelha... até parecia mais jovem, com menos rugas.
Sorriu, e o espelho devolveu-lhe o sorriso.
- Estranha capacidade esta a nossa – pensou para si mesma – de nos continuarmos a ver jovens, mesmo depois de ser velhas...
Prendeu melhor a madeixa branca que lhe pendia para a testa e voltou tranquilamente para a sala. Pelo que ouvira ao empregado do bar, haviam decidido intercalar dois intervalos na projecção do filme, dada a sua enorme duração.
- Ora aí está uma medida muito acertada... – concordou ela – ao menos não ficamos com aquela sensação de pressa... e sempre podemos esticar as pernas...
Sentou-se confortávelmente, preparada para a segunda parte.
Sem se aperceber, a bengala escorregou para o chão... e por ali ficou.
 
Na escuridão envolvente, a história decorria. Envolvente, entremeada pelos acordes de uma banda sonora que apesar de ninguém ouvir... estava lá.
Benjamin continuava a envelhecer... e a rejuvenescer... enquanto o mundo, esse sim, continuava a correr sempre no mesmo sentido, atravessando guerras, pequenas alegrias e tristezas, ou não fosse ele feito disso.
A meia dúzia de espectadores permanecia imóvel, agarrada ao écran.
 
Quando as luzes se acenderam novamente, Bejamin acabara de atravessar o écran a conduzir uma moto, como um James Dean dos tempos de antigamente.
Lembrou-se que também, - há quanto tempo, sessenta anos ?- um dia ficara com uma imagem como aquela, guardada na memória para sempre. Não fora James Dean, nem nenhum outro astro de Hollywood... mas aquela outra metade da sua vida com quem vivera mais de meio século. Uma imagem de cabelos ao vento, o olhar rebelde de quem sabia poder tocar o céu... e que a arrastava com ele, para esse mesmo céu.
A sala esvaziou-se novamente, enquanto uma banda sonora desconhecida ia enchendo o ar de acordes tranquilos.
Ergueu-se da cadeira – bem confortável, por sinal – e apontou para as toilettes.
As duas outras espectadoras já se lhe haviam adiantado e monopolizavam os espelhos, retocando a maquilhagem. Não tinha pressa.
- Já não se fazem toilettes como antigamente – deixou escapar, enquanto se deliciava com os pormenores da decoração do século passado, os gessos do tecto, o candelabro de pendentes, os mármores rosa das paredes... – isto sim, é que eram toilettes...
Quando finalmente conquistou o seu espaço junto ao lavatório de mármore, abriu a bolsa de lantejoulas e de lá retirou meia dúzia de objectos, que colocou junto ao espelho.
Ergueu o olhar, mas o espelho não lho devolveu.
Algures, outro rosto que não o seu... fitava-a, com uma expressão em tudo idêntica à sua... mas não a sua.
Fechou os olhos, subitamente tonta.
Muitos segundos depois, atreveu-se e abriu os olhos, devagar, muito devagar.
O reflexo no espelho abriu também os olhos, imitando-lhe os movimentos.
Um rosto jovem, muito jovem, observava-a com atenção.
Sabia que estava a sonhar.
Um sonho delicioso, é certo, mas um sonho.
Aos poucos reconheceu-se naquele olhar, na cor dos cabelos, nas pequenas rugas de expressão que sempre tivera ao canto dos olhos, que aumentavam sempre que sorria.
Lembrava-se de quando aparentava aquele aspecto, ser aquela pessoa.
Por breves instantes, teve saudades de si própria, de voltar a ser aquela imagem do espelho, meio século mais jovem...
- Que olhar tão cheio de ilusões – ouviu-se a si mesma a dizer – que olhar ingénuo...
 
Quanto tempo passou ? Não o sabia dizer. Quando conseguiu desprender-se das recordações, correu o mais depressa que pode de volta à sala.
As luzes já se haviam apagado e ela foi tacteando as cadeiras vazias, habituando o olhar à escuridão e o corpo aquela sensação de juventude que já esquecera há muitos, mesmo muitos anos...
 
A banda sonora permanecia baixinho, agora que o filme terminara. Um após outro, os espectadores levantaram-se e relutantes, encaminharam-se para a saída.
O pano desceu e a funcionária da limpeza preparou-se para a tarefa habitual de retocar a sala para a próxima sessão. Desta feita, o trabalho seria pouco, meia dúzia de espectadores ... e uma meia hora seria suficiente.
Ligou o aspirador e começou pela última fila de cadeiras, como sempre fazia.
Iniciava a ronda pela fila seguinte, quando lhe pareceu ouvir um ruido, a sobrepôr-se ao roncar do aspirador. Intrigada, desligou-o.
Seria possível ?
 
Mas era. Onde ?
Conseguia ouvi-lo... nítidamente.
Alarmada, correu para a porta e ligou todos os interruptores. Agora, com toda a luz a inundar a sala, não podia já duvidar do que estava a ver, bem no meio da terceira fila, ao pé de um punhado de roupas e de uma bengala caída.
 
- Manuel... – gritou desesperada, para o empregado do bar – acode-me aqui, por favor... acode-me, que alguém deixou aqui uma bébé... acode-me Manuel...

 

publicado por entremares às 17:50
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Sábado, 21 de Fevereiro de 2009

O suicidário

 

Vagarosamente, como se o gesto lhe pesasse o mundo inteiro, encostou o metal frio à testa e fechou os olhos. O contacto fê-lo estremecer.
Não era natural.
Voltou a baixar a arma e ficou a olhar para ela, sem a ver. Os olhos continuavam perdidos noutros mundos que não aquele, em tempos já passados, desfilando momentos em conta-gotas, como se a vida inteira pudesse ser desmontada numa sequência de imagens e repassadas diante dos olhos, uma a uma…
Porque seria que a eminência do fim tornava tão clara a percepção do passado ?
De repente, recordava pormenores que julgara perdidos há muito; o sabor dos bolos caseiros da avó Joana, o perfume dos cabelos do seu primeiro amor, o ruído manso do rebentar das ondas na praia das Maçãs, a sensação que lhe fizera estremecer os dedos, quando comprou o seu primeiro automóvel e o conduziu pela primeira vez… ou o rosto da mãe, falecida na véspera do seu sexto aniversário.
Como era possível aquela recordação tão nítida ?
Continuou sentado no banco de jardim, debruçado para a frente, as duas mãos a segurar aquele objecto escuro, frio e mortal.
- Hoje é um dia tão bom como outro qualquer … - ouviu-se a ele próprio dizer, em voz baixa.
Qual era o seu papel, no meio de tudo aquilo ? Afinal de contas, todos temos que ter um papel, não é ? Seja ele o de protagonista, o de actor secundário ou simplesmente figurante.
Mas, naquela precisa situação… não estava a conseguir descobrir qual era o seu papel.
- Detesto o papel de figurante…
Por um momento, sentiu que a sua importância se resumia a zero – inexistente. Quem sentiria a sua falta ?
- Um par de amigos, talvez…
Os amigos ? Sim… os amigos ainda eram uma das coisas boas desta vida, isso era verdade… os amigos não eram como a família, que acontece, sem escolha ou decisão própria… os amigos ao menos escolhem-se… e só se escolhem aqueles e não outros quaisquer.
Mas não era suficiente. Ou pelo menos, naquele momento… sentia que nada era suficiente.
Ergueu de novo o braço e voltou a encostar o cano frio da arma à testa.
Um segundo. Só precisava de um único segundo e depois… depois já nada teria importância, tudo se esfumaria numa névoa e algo aconteceria. O quê, não sabia. Mas estava preparado para tudo… e o que viesse a seguir … que viesse.
A mão tremeu-lhe, quando encostou o dedo ao gatilho.
Inspirou fundo e, sem pensar mais, carregou com força.
Um estalido … e pronto.
 
A escuridão veio depois.
Um escuridão bem densa, quase palpável, que se colava ao corpo como um nevoeiro de Inverno, fria e desconfortável.
Os segundos passaram… e a escuridão permaneceu. Tal como o silêncio, um silêncio pesado, sem o toque de trombetas, o cantar dos anjos ou as labaredas do inferno. Nada. Só mesmo o silêncio.
 
Finalmente… a luz.
Um luz imensa, projectada directamente sobre ele, ofuscante.
Levantou-se comovido, ainda a piscar os olhos e sem conseguir ver nada.
O público batia palmas entusiasticamente.
O som era ensurdecedor, mas maravilhoso.
Curvou-se, agradeceu os aplausos, uma e outra vez.
O pano teimava em não cair e ele ali permaneceu, despido de vaidades, sozinho no palco, a agradecer os aplausos do seu monólogo com a morte.
- Obrigado… obrigado …
E uma e outra vez, curvou-se para agradecer os aplausos…
publicado por entremares às 12:19
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Sexta-feira, 20 de Fevereiro de 2009

O baile de finalistas

 

 
- Duzentos e noventa e nove euros ?
Encostou o nariz ao vidro da montra e por ali ficou, a sonhar acordada. Aquele era um dos mais lindos – não, correcção... aquele era o mais lindo - vestido de festas que os seus olhos alguma vez haviam contemplado.
Preto, como não podia deixar de ser; esguio, elegante, atrevido... um autêntico conto de fadas. Mas... ai aquele preço...
Encolheu os ombros e continuou o seu trajecto, de volta a casa. Uma sexta feira à tarde, sem aulas... sabia sempre bem. Claro que ainda saberia melhor se pudesse fazer o que todos os seus colegas, por essa altura, iriam estar a fazer, ou seja... preparar-se para o grande baile.
Como habitualmente, na última sexta-feira do segundo período lectivo, a escola engalanava-se de cerimónia, desdobrava-se o tapete vermelho, a orquestra tomava de assalto o refeitório e, por uma noite de magia, a velha escola – já tão precisada de reparos – transformava-se num castelo de ilusões, com príncipes e princesas, corcéis e carruagens e até, irreconhecível no seu papel, um mestre de cerimónias.
A noite ... do baile de finalistas.
Nos dias anteriores, um rodopio de estudantes excitados e pais contrariados esvaziara as lojas de vestidos de noite, echarpes, smokings, casacos de cerimónia, gravatas e – como não podia deixar de ser também – perfumes, brincos, pulseiras, gargantilhas e todos os objectos que numa noite de gala, ajudam as estrelas a brilhar ainda mais...
Lila não fazia parte, contudo, desse grupo.
Apesar de ser finalista – e muito boa aluna, diga-se de passagem – a presença no baile exigia um certo número de coisas que, pura e simplesmente, não estava ao alcance da sua bolsa.
Vivia com a mãe, varredoura de rua, numa pequena casa alugada, bem no centro da cidade. O dinheiro era contado e recontado, e nunca lhe faltara nada. Mas também nunca lhe sobrara nada. E como a mãe lhe dissera – Ou deixas de comer durante um mês, ou compras o tal vestido... mas se fosse a ti, preferia comer... haverá sempre tempo para outros bailes.
Concordara. Aliás, que podia mais fazer, senão concordar ? A mãe tinha razão, não por teimosia ou por estar a querer privá-la de algo mas, simplesmente... porque tinha razão, e nada mais.
Claro que tentara pensar em alternativas, evidentemente. Mas por mais voltas que desse ao guarda-fato, não havia maneira de transformar calças de ganga, blusas de algodão e t-shirts desportivas num vestido de noite. E também já passara longas horas a magicar possíveis maneiras de arranjar o dinheiro necessário... e acabara sempre por adormecer, sem encontrar a solução.
Na rua, toda a gente conhecia Lila. Desde pequenina.
Já ajudara a D. Maria – a florista – a vender as flores na praça, aos sábados de manhã, já substituira o sr. António na mercearia, naquelas alturas em que o pobre nem conseguia sair de casa, com as alergias da primavera e todos os anos, mal chegavam as férias de verão, lá ia ela trabalhar para a horta da D. Ermelinda, ajudar a tratar dos animais e da apanha da fruta. Portanto, o trabalhar nunca lhe metera medo.
Mas, desta feita, não teria tempo suficiente para o procurar.
Portanto, o baile de finalistas era um ponto arrumado, e era melhor não voltar a pensar no assunto.
 
Ia meter a chave à porta, quando a chamaram.
- Lila.... Lila.
Voltou-se curiosa.
- Ahh... D. Amélia... como vai ? Era a senhora que me estava a chamar ?
- Chega aqui, Lila... chega aqui...
A D. Amélia era uma quase vizinha, separada que vivia da sua casa por três portas de intervalo. Era mãe solteira de um casal de gémeos, crianças terríveis e bem barulhentas, que volta e meia colocavam a rua inteira em sobressalto, com gritos de fazer toda a gente sair de casa e vir espreitar à rua... e não ser nada, para além das vulgares brigas de irmãos.
Lila chegou-se até à porta da vizinha.
- Então, D. Amélia... como vai ? Estava a chamar-me...
- Preciso de ti. Lila... preciso muito de ti – começou ela, enquanto a puxava para si – e tu és a pessoa certa para me ajudar neste apuro...
- Essa agora, D. Amélia... parece coisa séria...
- Preciso que me fiques com os meus meninos amanhã, durante todo o dia... trocaram-me o serviço de turnos, lá no hospital... e não posso faltar mais nenhum dia, este mês... eu não estava à espera... mas também não posso faltar ... eu compenso-te...
Lila continuava a olhar a vizinha.
- Olha Lila... e se eu te pagar como baby-sitetr... achas que podes ficar a tomar conta dos meus meninos ? Podes ? É só amanhã... eu até acho que consigo voltar cedo...
Uma luz pequenina brilhou de repente e Lila sorriu.
Oh, D. Amélia ... não se preocupe, claro que posso. Amanhã é sábado, não tenho aulas, não tem problema nenhum...
- Eu sei que não tens aulas, Lila, eu sei... mas hesitei muito em pedir-te isto... porque sei que hoje à noite tens o teu baile de finalistas... e sei que vais chegar tardíssimo a casa e depois... nem vais quase ter tempo para dormir porque eu começo o meu turno às oito da manhã... mas não tenho mais ninguém a quem recorrer...
Lila voltou a sorrir-lhe, bem disposta.
- A sério, D. Amélia... não precisa de ficar preocupada... eu nem vou ao baile de finalistas, portanto... tenho muito tempo para dormir...
- Não vais ao baile de finalistas? – e a D. Amélia surpreendeu-se – Tu, a cara mais linda destas redondezas... não vais ao baile de finalistas ? Como assim ?
Lila lá lhe explicou devagarinho os motivos enormes que impediam a sua ida ao baile - ... e como vê, D. Amélia... a sério, não faz mal... haverá sempre outros bailes, e no futuro, quando tiver um daqueles grandes empregos... aí terei tempo para ir a todos os bailes...
A D. Amélia emudeceu. Combinaram as horas e cada uma voltou para a respectiva casa.
 
Nove da noite.
Lila acabara de lavar o último prato da loiça do jantar. Na sala, a mãe ia alternando uma piscadela de olhos à novela da televisão e ao ferro de engomar – não fosse ele aquecer demasiado – enquanto tentava despachar a pilha de roupa acumulada de uma semana inteira.
- Lila …. – gritou a mãe – estão a bater à porta…
A filha pousou o prato, passou as mãos pelo avental húmido e dirigiu-se à porta – áquela hora, o mais certo era ser a vizinha Joana ou mesmo a D. Amélia, para um pouco de conversa com a mãe.
Abriu a porta.
 
O mundo inteiro, tal como Lila o conhecia, desabou-lhe aos pés. À sua frente, a D. Amélia, um sorriso radiante, segurava nas mãos um caixote enorme, envolto num papel prateado e com uma grande fita vermelha, formando um laço. Ao seu lado … - o que fazia ali toda aquela gente ? – o sr. António, o velho Ramirez, a D. Joana, até o taxista Daniel e… o que era aquilo ali ao fundo ?
Os olhos cobriram-se-lhe de lágrimas.
Bem no meio da rua, a D. Ermelinda, ao comando da sua charrete da quinta, puxada pela égua Matilde, a sua boa amiga Matilde… e como estava linda… toda coberta de fitas e de um pano colorido, tal como a carroça, transformada por mãos artistas numa verdadeira carruagem de contos de fadas…
- Mas… - e Lila não conseguia soltar as palavras - … o que é isto ?
A D. Amélia colocou-lhe o embrulho prateado nas mãos.
- Isto, minha pequenina Lila … é o teu bilhete para o baile de finalistas… ou tu julgavas que os teus amigos te iam deixar aqui ficar, como a gata borralheira ?
- Mas… mas… não percebo … como é que… como é que fizeram tudo isto ?
A D. Ermelinda, sentada no alto da sua charrete, protestou, naquela voz característica de quem está habituada a ser sempre obedecida. – Miúda reguila… vê se te despachas, que aqui a minha Matilde já está a ficar impaciente… e eu estou aqui com esta carroça no meio da rua, achas que quero ser multada ? Onde é que já se viu ?
A D. Amélia piscou-lhe o olho. Empurrou Lila para dentro de casa e fechou a porta, não sem antes gritar para a pequena multidão que entretanto se formara junto à porta.
- Se me dão licença… a nossa princesa precisa de se arranjar. – e pegando-lhe no braço - … estás pronta ?
Lila beliscou-se com força, esperando não acordar. Finalmente, lá conseguiu arranjar forças para lhe responder.
- Se estou pronta ? … Há tanto tempo que estou pronta …
E agarrou-se-lhe ao braço, com toda a força.
- Estou pronta, sim… vamos.
publicado por entremares às 16:57
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Quinta-feira, 19 de Fevereiro de 2009

Um passeio matinal

 

 
Com um salto, esquivou-se mesmo a tempo.
- Idiota - pensou - condutor de domingo, nem vê as passadeiras...
E era bem verdade; atravessar a rua numa passadeira já não era tão seguro como antes... nem aos dias de semana, nem aos fins de semana. Também era verdade que muitas das passadeiras só o eram de nome, porque as listinhas brancas já tinham mudado de cor há muito tempo - branco sujo, branco muito sujo, cinzento e depois... preto. Ou seja, zero, nada de passadeira.
Continuou tranquilamente ao longo do passeio, quase vazio de transeuntes. Aos sábados de manhã, o panorama era sempre o mesmo. Antes das nove, as ruas permaneciam desertas, o comércio fechado, o estacionamento dos taxis reduzido a um único exemplar sem clientes. O unico movimento girava em torno da padaria.
O cheiro a pão quente transbordava porta fora e obrigava a um desvio estratégico; ou entrar... ou fugir rápidamente.
Ao fundo da rua, nova esquina, nova passadeira, desta vez vazia.
A pequena loja da sra Marquita abria as portas nesse mesmo momento. A proprietária, teimosamente a lutar contra a idade da reforma, lá ia colocando os caixotes com a fruta e os legumes, no exterior, para atrair a clientela. A seguir foram as batatas e as cebolas e numa pequena mesa, ainda se conseguiu arranjar espaço para uns frascos com calda de pimentão - uma delicia caseira de produção própria que conquistara clientes fiéis ao longo dos anos. Mesmo na porta ao lado, o sr Manuel subia os estores metálicos da porta do Café Central.
Desviou-se a tempo de levar um valente encontrão. O sr Manuel, mesmo com os óculos, era um míope incorrigivel e não valia a pena medir forças no embate - o sr Manuel, com aquele peso, levava sempre a vitória assegurada.
O sol radioso convidava ao passeio matinal.
Em passo de corrida miudinho, duas raparigas ultrapassaram-no, vestidas a rigor para o jogging diário. Dirigiam-se, tal como ele, para o jardim - era habitual vê-las por lá, correndo por entre os obstáculos da pista de manutenção.
Não tinha pressa. Se havia coisas que lhe davam especial prazer, percorrer a distância da praça principal até ao jardim - ainda por cima, sempre a descer - era uma delas, principalmente aquela hora da manhã, com céu azul e um sol que, apesar de Fevereiro, já aquecia.
- O caminho da volta é sempre pior - lembrou-se.
Cruzou-se com o homem do quiosque das revistas, que àquela hora, levava sempre o seu cão a passear - mas nunca ao jardim. O cão, um belo pastor alemão com um pelo negro brilhante, ainda lhe lançou um ar desconfiado, mas seguiu tranquilamente o seu caminho.
Melhor assim. Nunca simpatizara em particular com os pastores alemães.
Uns minutos, três esquinas e muitas passadeiras depois, chegou aos portões do jardim.
Dois velhotes, as duas raparigas do jogging e um gato vadio pareciam ser as unicas almas vivas por ali. - Os pássaros da gaiola e os patos brancos do lago não se incluiam nesta contagem.
Deteve-se, observando com atenção tudo o que o rodeava.
Uma vontade súbita fê-lo recordar que existiam certas necessidades fisiológicas básicas que necessitavam de ser satisfeitas.
Olhou novamente.
Vagarosamente, aproximou-se de uma árvore já bastante velha, mesmo junto do lago dos patos.
Com um equilibrio resultante de muitos anos de prática, levantou a pata e regou a árvore.
Espreitou para confirmar se o guarda do parque não estaria por ali perto, a vigiar.
Não. A costa estava livre.
Era mais forte que ele.
A tentação do perigo.
Sorrateiramente, dirigiu-se até ao poste de madeira que, bem junto da entrada do parque, sustentava o aviso de que " Não são permitidos animais sem coleira "
Ninguém à vista.
Desta vez, primeiro a pata esquerda. Mais um esguincho . Depois, a pata direita. Novo esguincho.
- Missão cumprida... podemos voltar ao aconchego do lar... o dono já deve estar a estranhar a ausência... 
publicado por entremares às 00:09
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Quarta-feira, 18 de Fevereiro de 2009

A canção do engate

 

- Não és capaz – desafiava um dos amigos.
- Não sou capaz ?, Essa agora, ...claro que sou capaz... – defendia-se o acusado – vocês julgam que é assim tão dificil ?
Os três amigos entreolharam-se.
O Miguel, o mais extrovertido, sempre com um sorriso ao canto dos lábios, achava-se capaz de tudo e mais alguma coisa, de mover o mundo, se necessário fosse; tudo se limitava a colocarem-no defronte do desafio certo... provocarem-no até ao ponto crítico e ... voilá, o Miguel aceitaria qualquer tarefa, por mais disparatada que fosse, só para conseguir provar aos amigos do que era capaz. Os seus dois amigos, inseparáveis desde que conseguira aquele novo emprego na farmácia, eram precisamente os seus colegas de trabalho, o Mário e o André. Bastante mais calmos, seguiam quase obrigados as loucuras do amigo e, não raras vezes, eram eles que conseguiam resolver alguns dos embróglios em que o Miguel os colocava... a todos.
Naquela noite, no bar do costume, a situação prometia transformar-se em mais um desses casos.
- Mas tu já reparaste no aspecto da mulher ? – dizia o Mário... Dá perfeitamente para ver que está à espera de alguém...
- ... E esse alguém não és tu, de certeza absoluta – completava o André, com um sorriso irónico.
E iam lançando olhares esfomeados na direcção do balcão corrido do bar, onde meia dúzia de clientes eram atendidos pelo barman. Em particular... para uma cliente.
O objecto das atenções respondia pelo sexo feminino, e o seu aspecto não poderia deixar ningém indiferente; fosse pelo penteado exótico a imitar – era a opinião do André – uma juba de leão , pelo latex negro muito justo que lhe revestia as formas ... ou pelo tamanho e forma da mini-saia vermelho vivo, que se recusava terminantemente a tapar o que quer que fosse. Seja como for, os olhares masculinos convergiam – uns disfarçadamente, outros nem por isso – para aquela figura, muito apetecível da ponta das botas – vermelhas também, claro está – até à ponta dos cabelos.
O MIguel, moço bem parecido, faíscava. Nos últimos três meses – precisamente desde que conseguira o emprego na farmácia onde já trabalhavam o Mário e o André, saía regularmente com os amigos e, por vezes, lá faziam as suas apostas... quem bebia mais disto ou mais daquilo, quem chegava primeiro ao trabalho, quem aguentava mais a fazer uma determinada tarefa... – até já tinham um dia apostado quem conseguia comer mais pastéis de bacalhau, competição que o André ganhou com um à-vontade impressionante – e naquela noite... estavam precisamente a começar uma nova aposta.
- Portanto... o que é que vocês apostam, digam-me lá ?
- Miguel, Miguel... desta vez estás muito enganado – dizia o André – apostes lá o que apostares, dali não levas nada... – e apontava o dedo na direcção da mulher de mini-saia.
- Eu aposto – lançou o Mário – que não consegues ir até ali ao balcão, meter conversa... e sair por aquela porta fora... – e apontava para a porta do bar – nem isso, nem mais nada depois disso, está-se mesmo a ver...
O André concordava entusiaticamente, abanando a cabeça.
- E o que é que vocês apostam ? Alguma coisa que valha a pena ?
- Um Jantar, com ementa à tua escolha – alvitrou o Mário.
- Um fin-de-semana no Algarve, com tudo pago... empolou o André, sempre mais dado a exageros.
O Miguel ficou a olhar para eles, desdenhoso.
- Só isso ? Vocês estão muito forretas... quer dizer, eu posso ir ali, apanhar assim um valente par de tabefes ou coisa pior... para ganhar um jantar ? Nem pensem...
- Então... sem ser um jantar... escolhe tu qualquer coisa... mas qualquer coisa que nos interesse, porque como vais perder... não queremos ganhar assim umas bugigangas...
O Miguel passou a mão pelo queixo, pensativo. Algo importante ? Algo valioso ?
Uns segundos depois, descobriu a aposta perfeita.
- Já sei... uma coisa que é óptima para todos ... eu aposto um ano de serviços nocturnos na farmácia...
Os outros trocaram olhares entre si, perplexos.
- Como assim ? Um ano ? – gaguejava o Mário.
- ... E todos os serviços... mesmo todos ? – o André esbugalhou os olhos.
Foi a vez do Miguel se rir.
- Então... agora já perderam a coragem, é ? Foram vocês que quiseram fazer a aposta e agora já estão a perceber que vão perder, não é ? ... – e soprava com desdem sobre os ombros - ... eu compreendo, rapazes, deixem lá... eu compreendo...
Os dois amigos empertigaram-se, reagindo à provocação.
- Tudo bem... por nós, tudo bem... mas olha lá bem onde te estás a meter, porque depois não venhas dizer que queres voltar atrás... é mesmo um ano, inteirinho... de serviços nocturnos lá na farmácia, é isso ?
- É isso mesmo – concordou o Miguel.
O Mário e o André ainda trocaram um último olhar, antes de acenar uma aprovação.
- Está apostado – resmungou o Mário. Agora, vou sentar-me aqui ... e ficar a ver.
 
O Miguel acabou de beber tranquilamente o resto da cerveja. Compôs a roupa, levantou-se, respirou fundo – adorava toda aquela encenação – e lá se dirigiu até ao balcão.
 
Sentados à mesa, os dois amigos riam bem dispostos. Conseguiam ver o Miguel, a dirigir-se hesitante para o bar. Empurrou um, depois outro... e lá conseguiu aproximar-se da mulher em causa, que nesse mesmo momento “despachava” em alta velocidade um pretendente mais afoito. O comentário, apesar de eles, sentados à mesa, estarem demasiado longe para o ouvir, deveria ter sido digno de registo, porque provocou uma gargalhada geral entre todos os clientes que se encontravam junto ao balcão.
Adivinhava-se portanto igual sorte para o MIguel.
Mas era bem feito – o Miguel às vezes tinha destas coisas, inchava de manias e de ares de conquistador – e um ano de serviços nocturnos, bem vistas as coisas... eram muitos serviços. E , quer para o Mário, quer para o André, o sabor da vitória sempre seria mais saboroso...
Viram o Miguel acercar-se da mulher de mini-saia vermelha. Entabulou conversa, conseguiu um sorriso como resposta, depois disse-lhe qualquer coisa e por ali ficaram, entretidos num diálogo que nem o Mário, nem o André, àquela distância, conseguiam perceber.
Dois minutos depois, ela levantou-se e ele lançou-lhes um olhar – bem... o tal olhar – enquanto abanava a cabeça.
Mário abriu a boca e gaguejou qualquer coisa, que nem André conseguiu perceber.
Entretanto, Miguel e a desconnhecida saiam calmamente pela porta do bar, perante o olhar atónito dos dois amigos.
 
- Achas que ficou tudo bem ? – perguntou ela, mal se apanhou no exterior do bar.
- Oh... tenho a certeza que sim... – e Miguel colocou o mais inocente dos sorrisos – neste momento, ainda estão os dois de boca aberta... e sem dizer palavra.
Dirigiram-se os dois até à viatura de Miguel, parada no estacionamento privativo do bar.
- E então ? Qual vai ser o resultado ? – quis saber ela, curiosa.
- O resultado ? Oh, meu amor... o resultado é que o teu maridinho acabou de ganhar um ano de folga nos serviços nocturnos lá da farmácia...
E ria-se perdidamente.
- Achas que eles não suspeitaram de nada ? – insistiu ela receosa.
- Suspeitaram ? – ele agarrou-a carinhosamente – Se eles nem sonham que eu sou casado... quanto mais suspeitar de ti, que nem te conhecem... Não... Para eles, eu só fui o D. Juan e tu... bem ... tu foste a mais bonita mulher de vermelho que eles já viram na vida....
Ligou a ignição e arrancou.
Segundos depois, desapareciam na escuridão.
publicado por entremares às 08:11
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Terça-feira, 17 de Fevereiro de 2009

O canal 101

 

 
Olhou novamente para o relógio sa sala.
23:30h
Já percorrera do principio ao fim todos os canais televisivos disponíveis mas... nada de interessante. Ou publicidade – e ia carregando no botão do telecomando - ... ou publicidade... novamente publicidade... um daqueles programas de mesa –redonda... e mais publicidade... e um documentário sobre – que bicho era aquele ? – bem, sobre um animal parecido com um macaco, mas que não era um macaco... um noticiário... uma transmissão de basquetebol...
O dedo já pressionava maquinalmente o botão, a uma cadência sincopada.
- Bolas, ao menos um filme, se faz favor... – resmugou, sem vontade.
Mas não, a programação naquela noite não estava a ir de encontro aos seus desejos. E, ainda por cima, depois de um fatigante dia de trabalho, que vontade tinha ele de ficar a ver um documentário sobre bichos ou tertúlias de intelectuais, à volta de uma mesa ? Não, nem pensar... um filmezinho, por favor ... e se possível, uma comédia, ou qualquer coisa que o deixasse bem disposto.
Canal um, canal dois... – vamos lá outra vez dar a volta completa – canal três...
Encheu novamente o copo de licor.
Dois golos e muitos canais depois, parou. No pequeno écran, a já conhecida apresentadora do euromilhões fazia a sua tradicional demonstração da arte de bem apresentar, repetindo a mesma ave-maria de todas as semanas – as bolas numeradas de 1 a 50 já se encontram...
Espreguiçou-se. Faria bem melhor em desligar a televisão e ir dormir... afinal de contas, o despertador iria tocar, como de costume, às seis da manhã. E, agora que estava a pensar nisso, porque motivo estaria a passar o programa do euromilhões na televisão, a uma segunda-feira à noite ? Não deveria ser às sextas à noite ?
- Isto já está tudo maluco... – pensou para consigo – será que não têm mais nada para passar e pôem-se a repetir até os sorteios do euromilhões ? Essa agora, oh meus senhores... e o meu filme, hem ? E o meu filme ?
As bolas lá iam caindo, como todas as semanas. 10 - ... 30 ...
Avançou mais um canal. Publicidade .
- Olha, olha... há quanto tempo não passava este anúncio...
Deixou-se ficar por ali, enquanto revia um filme publicitário a uma bebida, daqueles já bastante antigos, mas que por um motivo qualquer, agora deveria estar outra vez na moda...
Depois do anúncio, voltou a recuar novamente um canal. Mesmo a tempo. A menina do euromilhões acabara de reler a chave da fortuna e despedia-se, com o melhor dos sorrisos.
- E esta foi a chave vencedora do sorteio número oito, de 20 de Fevereiro de 2009. Se foi um dos felizes...
Sim, claro, claro... porque utilizaria a moça sempre as mesmas frases ensaiadas, e mais, como conseguiria ela manter sempre aquele sorriso bem composto, durante todo o programa ? Só podia ser muito treino, muito treino...
Sentia os olhos cada vez mais pesados. A combinação de um dia de trabalho, um par de goles de um licor delicioso e a monotonia de um zapping ... que melhor remédio para a insónia podia desejar ?
Sem perceber ao certo como, adormeceu.
 
01:20h
Primeiro um olho, depois o outro... depois os dois. Muito a custo.
Contra vontade, ergueu-se do sofá – os sofás à noite são sempre mais confortáveis do que de dia, porque será ? – e arrastou-se até ao quarto, atirando-se para cima da cama.
Pouco depois, e já debaixo dos lençois, sentiu qualquer coisa a roer-lhe – literalmente – o espírito. Havia qualquer coisa que não o estava a deixar adormecer, mas ainda não descortinara o quê. Só sentia que deixara algo por fazer... e algo que devia ser importante.
Deu voltas e mais voltas na cama. Acendeu a luz, apagou a luz e voltou a acendê-la. O que seria ?
Ficou a contemplar o ponteiros do despertador, na sua caminhada ritmada à volta do mostrador, martelando aquele tic-tac baixinho. No principio, parecia-lhe ensurdecedor, agora já nem o ouvia. O que faz o hábito...
A vista desfocou-se do relógio e avançou um pouco mais. Na parede logo atrás da mesa de cabeceira, o espelho, a fotografia dos amigos da tropa e o calendário que o vizinho Batista do café lhe oferecera pareciam querer dizer-lhe algo.
- O espelho ? Não... estava inteiro... nem lhe tinha tocado naquele dia... a fotografia ? ... também não... não podia pensar em nenhum assunto que se relacionasse com a fotografia dos seus tempos da tropa... o calendário também não... aliás, os calendários são todos iguais...
Ia virar-se de novo na cama, mas mudou de ideias.
- Os calendários são todos... – começou a pensar, e deteve-se – mas que dia é hoje ?
Súbitamente mais desperto, voltou a reparar no calendário, desta vez com mais atenção.
- Fevereiro... hoje é segunda... já foi o dia dos namorados, portanto... ora cá está, 16, pois claro. Só pode ser, hoje é dia 16.
Os pensamentos recuaram um par de horas.
- Mas ... então e o programa... como é que pode ser ?
Levantou-se de um salto e dirigiu-se até à sala. Qual era o canal onde tinha visto a menina do euromilhões ? No 101 não era ? Sim, tinha a certeza... era de certeza o 101... lembrava-se nitidamente de ver os digitos vermelhos no mostrador da televisão...
Ligou de novo a televisão e foi passando os canais até atingir o número desejado.
Não existia canal 101.
Aliás, a sua televisão não tinha canal 101. Nem tão pouco o 100. Conseguia avançar até ao 99 e depois... bem, depois voltava ao 1, e por aí adiante.
- Esta agora...
Ficou boquiaberto, a olhar alternadamente para o canal 99, com a tradicional estática e som de ovos estrelados e para o telecomando.
Uns bons minutos depois, levantou-se e apanhou um bloco de apontamentos e uma caneta, abandonada sobre a mesa depois de um jog de palavras cruzadas quase completo.
- Quais eram os números? Quais eram ? Ai, que só me lembro do 10 e do... qual era o outro ?  
publicado por entremares às 00:14
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Segunda-feira, 16 de Fevereiro de 2009

1000 visitas depois...

 

Era uma vez… um blog com o nome de entremares …
 
E neste blog, hoje não teremos uma história, mas antes… muitas histórias.
Em primeiro lugar, porque isto de escrever histórias – por gosto, sempre – e partilhar fantasias com anónimos, é algo de ( não encontro o termo ) bastante aventureiro. Não é como escrever ou publicar um livro, onde os leitores estão em casa, sossegados, bebendo as histórias bem longe do autor. Aqui, pelo contrário, a presença é contínua, os contadores de visitas estão lá para isso, e a existência de comentários, que todos nós podemos utilizar, dá um sabor de partilha a qualquer coisa que se faça.
Escrevo e leio. Pela ordem contrária, é certo, porque leio muito mais do que escrevo.
E se este blog existe, existe por ler noutros blogs ironias, desabafos, confidências, reticências, protestos, declarações, poemas… que me deixaram assim a modos que “roído” de inveja.
E então… bem… então surgiu o consultório da Maria.
Para quem não conheça a Maria – como eu, que também não conheço – o consultório da Maria é um blog que eu chamaria de cativante; é honesto, porque às vezes respira alegria e outras vezes transpira desilusão, é motivado, porque tenta estar presente e ser assíduo … e é motivante, porque conseguiu arrancar-me da preguiça e forçar-me a partilhar com todos vocês algumas histórias, plausíveis ou nem por isso, com mais ou menos humor, mas onde o objectivo – falo por mim – tentará sempre ser trazer ao de cima qualquer outro dos nossos rostos, e não aquele que sempre colocamos, quando saímos de casa e encaramos o mundo…
 
Portanto… Obrigado Maria. A sério.
 
A lista abaixo é a minha leitura de cabeceira, como se costuma dizer. Quando os conhecerem, acredito que passarão a fazer parte da vossa leitura de cabeceira, também.
 
http://oconsultoriodamaria.blogspot.com/
O consultório de que vos falava, claro...
 
http://universosquestionaveis.blogspot.com/
Um blog muito azul, criativo, optimista
 
http://nooutroladodaalma.blogspot.com/
Uma mãe que para descrever o filho, diz: O meu filho devora livros. Literalmente
 
http://emmimumsonhoazul.blogspot.com/
Poesia no feminino, musical.
 
http://juro-que-tenho-mais-que-fazer.blogspot.com/
Irreverência, bom humor e muito jeito para a escrita.
 
http://guiadasmulheresparatotos.blogspot.com/
A minha versão do Sexo e a Cidade, mas muito melhor.
 
http://fasciniodaspalavras.blogspot.com/
Um blog onde a educação é escrita e descrita de uma forma diferente.
 
http://mjfigueira.blogspot.com/
Imagens e frases que surpreendem. Mesmo.
 
http://laurindaalves.blogs.sapo.pt/
Muito atenta, a Laurinda. E os temas são interessantes.
 
http://a-nossa-vidinha.blogspot.com/
Uma bela manta de retalhos do quotidiano. Com humor qb.
 
http://aprofessorinha.blogspot.com/
Sem dúvida, super. E está tudo dito.
 
Então... até amanhã.
publicado por entremares às 00:29
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Domingo, 15 de Fevereiro de 2009

Inquérito de satisafação ao cliente

 

 

“O evento teve inicio à data e hora programada? “
Que diabo de pergunta era aquela?
Olhou novamente para a folha de papel que tinha entre as mãos. No cimo, em letras bem destacadas, o título “ Inquérito de Satisfação “. Depois sucediam-se as questões, umas delas ladeadas de quadradinhos em branco para preencher, outras de resposta directa. Uma delas até tinha uns desenhos… enfim, parecia-lhe demasiado.
Lá colocou a cruzinha no local e avançou para a seguinte.
“ Considera as condições ambientais, como a iluminação e temperatura, adequadas à natureza do evento ? “
Pois… bem visto, sim senhor. Nunca lhe haviam perguntado semelhante coisa, que se recordasse. O que deveria responder ? Que em Fevereiro é natural que ainda faça frio ?
Resignado, lá colocou a cruzinha e avançou para a pergunta seguinte.
“ Considera a duração do evento adequada ? “
Aquela deixou-o a pensar.
Enquanto colocava a cruzinha no local respectivo, avançou mais uns passos. A fila ainda era longa, e se bem conseguia ver, ainda tinha à sua frente pelo menos umas dez pessoas.
- Ainda tenho tempo para colocar todas as cruzinhas… - murmurou para si próprio. Uma senhora ao lado, enervada pela péssima ocasião que a sua caneta escolhera para ficar sem tinta, ainda lhe lançou um olhar suplicante, mas ele respondeu-lhe com um encolher de ombros. Só tinha aquela.
“ Como classifica a prestação do responsável do evento ? “
Olá… aquela era diferente… podia escolher uma de quatro hipóteses, que se encontravam listadas logo abaixo. – Muito Boa, Boa, Razoável, Insuficiente – Pronto, está bem… vamos lá a colocar mais uma cruz… e sigamos em frente. O que diz a próxima ?
“ Como classifica o interesse dos assuntos tratados no evento ? “
Ora bem, cá temos outra daquelas perguntinhas com várias respostas possíveis.. ora vejamos – Muito interessantes, Interessantes, Pouco interessantes, Nada interessantes “ – bem, aqui a resposta era fácil.
Colocou a cruz e avançou mais uns passos. Pelo canto do olho, reparou já só existirem três pessoas à sua frente. Logo depois, os papéis eram recolhidos, e a fila esvaziava-se como que por magia para o exterior.
Quantas questões ainda ? Duas… Três ? Bom, estava quase… Adiante, adiante…
“ Recomendaria este evento a uma pessoa amiga ?”
Deixou-se rir para dentro. Bem… a pergunta era complicada. Talvez um pouco de batota não fizesse mal… e colocou a cruz propositadamente a abarcar dois dos quadradinhos possíveis
- Se fosse um boletim de voto, deveria contar como nulo… - pensou.
Finalmente…. A última pergunta.
“ Qual o grau de certeza da sua participação no próximo evento? “
Colocou maquinalmente a cruzinha no meio. Ao seu lado, a esposa acabava no mesmo momento de preencher o respectivo questionário. Trocaram um olhar cúmplice, que sincronismo…
Bem a tempo.
Logo a seguir, avançaram eles.
- Meus amigos, que bom vê-los de novo…
E depositaram as duas folhas de papel na mão estendida.
- Padre José… como vai ? É sempre um prazer ouvi-lo…
- Obrigado, meus amigos, obrigado… - e ia recolhendo as folhas de outro casal, já junto da porta do templo. Já preencheram as vossas folhinhas, não é ?
- Aqui as tem...
- Muito, obrigado, muito obrigado... Conto convosco para a semana ?
Eles trocaram de novo um olhar sorridente. Na próxima semana ?
- Claro sim, padre José… claro que sim…
 
publicado por entremares às 12:17
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Sábado, 14 de Fevereiro de 2009

Uma reclamação higiénica

 

 
A porta envidraçada abriu-se suavemente, à sua aproximação.
- Olha que luxo… - pensou ela, enquanto percorria o local com um olhar atento – isto sim, isto é que é conforto no trabalho…
O gabinete de atendimento não era grande, mas transpirava conforto. Luxo, até…
Meia dúzia de cadeiras estofadas, um televisor extra-plano pendurado na parede, um aquário iluminado encastrado num móvel de madeira – bonito, muito bonito – e um tapete a cobrir a quase totalidade do piso de pedra escura.
- Bem que podia ser a minha sala de estar…
A música de fundo, relaxante, disfarçava o sibilar do ar condicionado – não o via, mas aquele calorzinho em Fevereiro não vinha do sol, com certeza – e até a iluminação, difusa e de um branco pálido, lhe parecia bastante apropriada.
Abriu a mala e de lá retirou um envelope selado. Afinal, deslocara-se ali por algum motivo.
Aproximou-se do guichet de vidro e espreitou, à procura de alguém que a atendesse.
- Faz favor… - chamou ela, enquanto tentava descobrir algum rosto, do outro lado do separador de vidro baço.
Não encontrou um, mas três. Três funcionárias, calmamente sentadas – fechou os olhos com força, para se convencer que não estava a sofrer de alguma alucinação – defronte de uma lareira.
- Uma lareira ? – e ficou boquiaberta, a contemplar o cenário .
Uma das funcionárias reparou nela e levantou-se, dirigindo-se-lhe em seguida.
- Bons dias … em que posso ser-lhe útil ?
A recém-chegada ainda andava à procura das palavras.
- Ahn…. Bons dias… eu … eu venho pagar…
- Ah, certamente. – sentou-se e escreveu qualquer coisa no teclado – e tem aí consigo a referência do pagamento ?
A visitante puxou do envelope, que continha duas folhas de papel no seu interior, e passou-o à funcionária da repartição.
- Ah… a senhora vem pagar uma multa, é isso ? E qual é o seu sector de actividade ?
- Sector ? … Uma pastelaria …
- Certo, certo … - e a funcionária carregou em mais algumas teclas - … temos portanto aqui um código 514, não é ? … Exactamente, um código 514… - e ergueu os olhos para a visitante – isto é uma multa por insuficiência das instalações sanitárias, não é ?
A visitante, dona da pastelaria Maribel, D. Maria Isabel dos Santos Couto de seu nome ficou a olhar aparvalhada para a funcionária.
- Olhe, minha senhora… não percebo o que significa aí o seu código não sei das quantas… a única coisa que sei é que tive o azar de uns senhores da fiscalização me terem entrado lá na pastelaria e um deles pediu para ir à casa de banho. Só sei é que veio lá de dentro furioso, que se lhe tinha acabado o rolo de papel…
Uma segunda funcionária abandonou a lareira e veio juntar-se à colega, curiosa.
- Olha lá, Sónia… - lá foi dizendo – tens a certeza que é um 514 ? Pela descrição da senhora não deveria antes ser um 524 ?
- Um 524 ? – e carregou em mais algumas teclas – achas mesmo ? Olha … aqui diz que o 524 é “ stock insuficiente de produtos de higiene considerados necessários ao normal funcionamento de uma instalação sanitária de classe dois, com área não superior a 9 m2em zonas comerciais desprovidas de instalações sanitárias públicas.”
As duas funcionárias olharam em simultâneo para a pobre D. Maria Isabel.
- Qual é a área das suas instalações sanitárias ? – perguntou uma
- As suas instalações sanitárias são da classe um, dois ou quatro ? – quis saber a outra.
A dona da pastelaria abriu e fechou a boca várias vezes, como um peixinho vermelho fora de água. Se tivesse na mão dois pastéis de nata, perderia o amor ao dinheiro e esfregá-los-ia naquelas carinhas rechonchudas e com excesso de pó-de-arroz. Como tal não era possível, limitou-se a berrar.
- Isto é uma casa de malucos, ou quê ? Então eu venho pagar uma multa de 120€, porque um idiota aqui dos vossos colegas se lembrou de ir à minha casa de banho e, como deve estar mal habituado, gastou-me meio rolo de papel higiénico e ainda teve a lata de me passar uma multa… e vocês agora estão para aqui a gastar-me a paciência com os códigos das casa de banho ? Julgam que eu não tenho mais nada que fazer ?
A terceira funcionária levantou-se do seu banquinho junto à lareira e veio juntar-se às duas colegas.
- A senhora não precisa de ser rude… - exclamou ela, ao chegar-se ao balcão – As minhas colegas só estão a desempenhar as suas tarefas…
A D. Maria Isabel começou a ficar mais vermelha.
- Vocês são é umas marquesas… - e ia levantando mais a voz – estão aqui no bem bom, não fazem nada o dia inteiro e ainda por cima nos fazem perder tempo…
- Acalme-se, senhora… como é o seu nome ? … Ah sim… D. Maria Isabel… acalme-se… as minhas colegas passam-lhe já o recibo do pagamento… quanto é ?
- 120€ - rugiu a D. Maria Isabel, ainda mais alto – um autêntico roubo, por um idiota ter ido à minha casa de banho e não se ter contentado com meio rolo de papel … um roubo…
A primeira funcionária recebeu apressadamente as notas que a D. Maria Isabel pousara no balcão e emitiu de imediato o recibo do pagamento.
A dona da pastelaria entretanto, passara da cor vermelha para um arroxeado pálido, que não lhe ficava nada bem. Transpirava abundantemente e os olhos avermelhados não paravam quietos.
- Uma casa de banho – pediu ela, com a voz rouca – preciso de ir pôr água na cara, estou a arder…
As três funcionárias trocaram um olhar atrapalhado.
- Ahn… tem uma aqui duas portas ao lado…. Na casa dos hamburgers…
A dona da pastelaria olhou para trás. Junto à porta envidraçada por onde entrara, conseguia ver o dístico de uma casa de banho.
- Mas não é aquela porta ali ao fundo ?
Novo olhar atrapalhado entre as funcionárias. Finalmente, a última a juntar-se ao grupo lá avançou.
- Bem… não, não é… se reparar bem… tem lá escrito que aquela é só reservada aos funcionários…
 
Silêncio.
A D. Maria Isabel permaneceu imóvel, ora fitanfo a lareira, ora a porta da casa de banho, ora os rostos das três funcionárias. A sua pele foi retomando a cor normal, compôs a postura e um leve sorriso começou a desenhar-se-lhe nos lábios.
… Portanto – disse ela, muito fininho – esta repartição não tem … instalações sanitárias que eu possa utilizar ?
A funcionária que falara por último confirmou, com um aceno de cabeça.
- Deixe-me colocar a questão de outro modo – continuou a D. Maria Isabel – Esta repartição, que tem aquela morada que aparece nos meu livro de reclamações lá da pastelaria … não tem uma casa de banho para o público que aqui vem… é isso ?
A funcionária concordou de novo.
A D. Maria Isabel sorria de novo.
Ergueu os olhos aos céus e os seus lábios pareceram agradecer qualquer coisa, em voz baixa.
- Minhas marquesas… - e esticou o dedo para as três – façam o favor… e tragam-me o livro de reclamações. Já.
publicado por entremares às 15:17
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Sexta-feira, 13 de Fevereiro de 2009

Professora sofre...

 

 
- É agora, ou nunca…
Decidida, abriu a porta da sala e entrou.
Para sua surpresa, uma turma silenciosa esperava-a, já sentada, os livros e cadernos estranhamente arrumados nas secretárias; até o quadro verde estava limpo, sem os grafiti do costume .
- Estão todos doentes, só pode ser…
Pousou a mala do portátil na sua secretária e voltou-se para o grupo de rostos bem dispostos que a observavam, com uma curiosidade que ela achou fora do normal. Pareceu-lhe mesmo que o Tiago, o “l’enfant terrible” da turma… até lhe estava a sorrir.
- Abusei dos analgésicos, ontem à noite? – deu consigo a pensar com os seus botões. Não lhe parecia… apesar de isto das otites ser uma coisa verdadeiramente chata… e dolorosa, também.
Encheu-se de coragem. Afinal de contas, aquela aula seria só de quarenta e cinco minutos; as possibilidades de alguma coisa correr mal eram portanto … reduzidas.
- Ora bem, vamos a isto ? Hoje o assunto será… o Dia dos Namorados, claro. ! Que me dizem ?
O Pedro, na primeira fila, disse qualquer coisa. Ou pelo menos, assim parecia.
- Diz Pedro, não percebi…
O Pedro voltou a dizer qualquer coisa. Mas ela não lhe ouviu uma única palavra. Mas era capaz de jurar que o vira nitidamente a movimentar os lábios.
- Desculpa lá, Pedro – e a sua própria voz fez-lhe um eco estranho no cérebro – mas os meus ouvidos hoje não estão grande coisa… o que é que disseste ?
O aluno Pedro voltou a repetir a mesma lenga-lenga, apesar de ela não ter conseguido ouvir absolutamente nada. Mas o que quer que fosse deveria ser tido a sua piada, porque alguns alunos esboçaram uns risinhos, apesar de não os conseguir ouvir.
Pior… o médico do centro de saúde que lhe diagnosticara a otite não falara nada em surdez… simplesmente em dores de cabeça e dores de ouvido, claro. Agora o facto de estar ali numa sala de aulas, a falar para o boneco, que é como quem diz, a falar sozinha… era um pouco complicado.
Lembrou-se que já tivera algumas aulas onde nem se importaria de ter estado surda, para não os ouvir… mas hoje nem era um desses dias, e falar do dia dos namorados assim…
Esforçou-se por parecer natural.
- Luisinha… - começou ela – vamos a ver… quem é o santo padroeiro dos namorados ?
A interpelada, uma gordinha ruiva da segunda fila, remexeu nervosamente nos cadernos.
- …
- Não percebi, Luísa… importas-te de repetir ?
- …
Bonito serviço. Agora é que estava a começar a ficar preocupada. Recuou no tempo. Lembrava-se de ouvir a campainha a tocar ? Sim… portanto a surdez surgira há bem pouco tempo…
- Agora sim, estás bem arranjada – resmungou para dentro – lá vais ter que arranjar um atestado médico…
Decidiu tentar uma última vez, antes de se dar por vencida.
- Manel – e esticou o dedo para a fila do meio – podes ser tu… quem é o padroeiro dos namorados ?
Estranhamente, o Manel sabia a resposta.
- …
Conseguiu ler-lhe nos lábios a palavra “Nicolau”. Mas som, nem um pio…
Baixou os braços, vergada pela evidência dos factos. A otite virara surdez, estava mais que visto… agora o mais importante seria saber quanto tempo é que teria que ficar assim… isolada do mundo, sem conseguir ouvir nada. Um dia ? Uma semana ? … Mais do que isso ?
Engoliu em seco.
A melhor coisa a fazer era deixá-los sair e ir imediatamente tratar do atestado. Com um bocadinho de sorte, talvez ainda apanhasse o centro de saúde aberto…
- Bom… - começou ela – como já perceberam, os meus ouvidos hoje estão a pregar-me a partida. E portanto, hoje vou dar-vos folga… Podem arrumar as vossas coisas e sair…
Não foi preciso repetir. Um após outro, fecharam as mochilas e foram abandonando a sala, num ritmo ordeiro e num silêncio que ela nunca julgara ser possível.
Virou-lhse as costas e começou ela própria a arrumar a sua mala.
 
- Atchiiiimmmm.
 
Como ?
Virou-se para trás. A sala estava quase vazia. Duas alunas arrumavam ainda algumas coisas e bem na sua frente estava o Tiago, o l’enfant terrible, vermelho como um tomate, estático, paralisado, olhando fixamente para ela.
- Eu ouvi-te. – balbuciou ela. – eu ouvi-te.
As duas raparigas trocaram um olhar cúmplice entre si e desataram a correr porta fora, às gargalhadas.
- As melhoras p’a sua otite, s’tora – disse então o Tiago de fininho, com um sorriso matreiro de orelha a orelha. Depois, escapuliu-se também para o exterior da sala.
 
Caíra que nem uma patinha.
Com que então estava surda, hem ?...
 
- Patifes. Odeio-vos. Patifes. Arranco-vos as orelhas…
Eles já não a ouviram, correndo alegremente para o pátio.
publicado por entremares às 12:19
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Quinta-feira, 12 de Fevereiro de 2009

João e Maria

 

 

- Meu bem… a nossa relação está entrando numa fria… - lá ia dizendo a esposa, ironizando com o sotaque tão típico das novelas brasileiras.
Ele não apreciava. Nem as novelas nem quando a esposa utilizava aquele sotaque. Habitualmente, significava que se avizinhava uma discussão, um sermão ou, no mínimo, uma admoestação.
Pesou mentalmente o seu dia no lar. Ter-se-ia esquecido de fazer algo importante? Não, pela expressão da esposa não parecia ser nada relacionado com a arrumação da casa, a roupa fora do lugar, a porta da garagem que prometera arranjar já ia para umas duas semanas…
O que seria então?
Não se esquecera de algum aniversário? Vejamos… o aniversário dela, do casamento, da mãe dela, do dia em que se haviam conhecido… não, também não lhe parecia que fosse algo relacionado com datas de aniversário…
- João… tu ainda gostas de mim?
O marido viu os seus pensamentos interrompidos.
- Como assim? Se ainda gosto de ti? Olha que pergunta …
A voz da esposa não transparecia irritação, aborrecimento ou até recriminação. No entanto, ao invés dessa observação o aliviar, deixou-o preocupado. Não era normal a esposa dirigir-se-lhe num tom tão calmo, tão… dialogante.
- Claro que gosto de ti, sabes isso muito bem… - apressou-se a continuar, enquanto pousava a revista e lhe dirigia toda a atenção - … a que propósito veio agora essa pergunta ?
A esposa acabara de dobrar a tábua de passar a ferro. Encostou-a à parede e foi sentar-se junto dele, no sofá. Um clique no telecomando e a televisão emudeceu de som e imagem.
De repente, fez-se silêncio.
 - Acho que tu já não gostas de mim… ou pelo menos, já não gostas tanto como antes gostavas…
- Porque dizes isso?
- Por nada, não sei… nem sei bem explicar…
O marido chegou-se mais a ela.
- Oh, Maria… que tolice. Claro que gosto de ti… e gosto de ti muito mais agora do que gostava antes…
A esposa ficou a olhar para ele. Parecia estar a escolher as palavras com muito cuidado, com receio de poder vir a ser mal interpretada. Finalmente…
- E o que é que gostas mais em mim?
Foi a vez dele de ficar pensativo, quase atordoado. Aliás, para um domingo de manhã, aquele dia fugia – e muito – à rotina de todos os domingos de manhã.
- O que gosto mais? Deixa-me ver… assim uma virtude, é isso que pretendes saber?
- Isso mesmo… não tinha pensado nesses termos, mas pode ser… uma virtude. Tenho alguma virtude para ti?
- Virtude… vejamos… és paciente, o que é uma virtude, és… inteligente, aliás, és muito inteligente, senão não terias reparado em mim – sorriu para ela - … e que mais ? Também és… teimosa, o que em ti eu não chamaria de virtude, mas também não é nenhum defeito…
Ela retribuiu-lhe o sorriso, um sorriso muito calmo, levemente enigmático, como ele não se lembrava de lhe ver; e, tendo em conta que já viviam juntos ia para cinco anos, pensava que já houvera tempo suficiente para lhe conhecer todas as expressões, todas as curvas do corpo, todos os estados de espírito… mas afinal, aparentemente não lhe conhecia todos os sorrisos…
- Sim, eu sei… - respondeu-lhe ela – já imaginava que seria difícil responderes a uma pergunta destas… mas é importante para mim, acredita… saber algumas respostas… e ainda preciso de saber mais, muito mais…
Ele assentiu com um leve abanar de cabeça.
- Muito bem… e como queres fazer isso? É só perguntares… que mais coisas intrigantes pretendes saber, neste já de si tão estranho domingo de manhã? – ironizou.
Ela deu-lhe um beijo ao de leve na testa.
- Vamos fazer um jogo – murmurou – pode ser?
E, sem esperar pela resposta, Maria pegou em duas folhas brancas que se encontravam pousadas na mesa.
- Tu ficas com uma, eu fico com outra… - e entregou-lhe um lápis.
O marido ficou a observá-la, perplexo.
- E… o que queres tu que eu faça com esta folha de papel, pode saber-se?
- Vamos jogar… aos desejos. Quero que tu escrevas aí uma lista de desejos.
João pestanejou, ainda sem perceber muito bem a situação.
- Uma lista de desejos? Dos meus desejos, é isso? Coisas que eu gostaria de te oferecer, ou algo assim?
- Não, não… o contrário. Coisas que tu penses que eu gostaria de receber… coisas que eu desejasse…
Ele riu-se com vontade. Desejos? O que ele gostaria de lhe oferecer, seria … tanta coisa. Mas aparentemente, não era isso que a sua Maria gostaria de saber. Maria pretendia que ele adivinhasse quais seriam os seus – dela – desejos… ou seja, tinha que pensar um pouco.
- E suponho que tu irás fazer o mesmo, não é assim? – e João ia apontando para a folha de papel branco nas mãos de Maria.
- Isso mesmo…
Muito bem. Se era isso que Maria desejava, então mãos à obra.
Fez-se novamente silêncio.
Maria escreveu qualquer coisa curta e depois ficou a olhar para a folha de papel, pensativa. João escrevia furiosamente várias linhas, inspirado. De vez em quando, lançava-lhe um olhar de soslaio, para lhe interrogar o olhar, mas ela continuava absorta, olhando para a folha de papel quase vazia.
Uns bons minutos depois, o marido deu por terminada a sua lista.
- Acabei – exclamou, triunfante. – E tu, já tens a tua lista ?
- Também já terminei…
- E agora, o que fazemos ? Trocamos os papelinhos, é isso ?
- Pode ser…
- Não… vamos fazer um de cada vez…. E como as senhoras são sempre primeiro… toma, lê o meu… - e esticou-lhe a sua folha de papel.
Ela colocou a sua folha de papel sobre a mesa e pegou na dele.
- Queres que leia em voz alta ?
- Sim, por favor… pode ser que me tenha esquecido de algo…
Ela desdobrou a folha de papel, como se de uma carta de amor se tratasse e começou a ler.
- … Uma casa nova… aquele vestido azul comprido que vimos na montra daquela loja… o perfume – não se lembrava do nome – que é vendido naquele frasco com a forma de um cisne…
A lista prolongava-se por quase vinte items…
Quando a terminou, ela lançou-lhe um olhar carinhoso.
- Gostei muito…
João sentiu-se de repente bastante melhor consigo mesmo.
- Agora posso ler a tua… vamos a isto… mas eu reparei que escreveste muito pouco… ou seja, deves pensar que eu não tenho desejos, não é? Bonito, bonito …
E desdobrou a folha de papel que Maria escrevera.
 
O ar tornou-se espesso, ou pelo menos pareceu-lhe que sim, porque de repente deixou de conseguir engolir. A garganta atrofiou-se num nó, que não atava nem desatava. Os olhos, habitualmente sorridentes, começaram a arder-lhe e sentiu que a folha de papel lhe estava a tremer nas mãos.
Aproximou mais o papel.
Leu novamente as poucas palavras que Maria escrevera.
E depois, ainda mais uma vez.
 
A folha de papel só continha quatro pequenas palavras.
“ Vais ser Pai. Aceitas? “
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Quarta-feira, 11 de Fevereiro de 2009

A casa dos dois espelhos

 

 
Pesadamente, como se um enorme fardo lhe pesasse aos ombros, deixou-se cair sobre o sofá, abatido.
Sentia-se demasiado aborrecido para ler o jornal, ligar a televisão ou suportar os amigos de fim-de-semana; já lhe bastavam os conhecidos de todos os dias, sempre a maça-lo, de roda dele, com minúsculos “Olás” e intermináveis perguntas de curiosidade.
Por tudo isso, morava sózinho.
Sempre achara não precisar de companhia. Aprendera isso de pequeno, desde as brincadeiras de escola onde não entrava, das festas de liceu onde não era convidado, dos bailes onde nunca dançava.
E assim, aos fins-de-semana, terminado o trabalho, ficava invariávelmente só, entregue aos afazeres domésticos ou ao seu hobbie preferido, o xadrez. Conseguia jogar com ele próprio, e até desenvolvera uma simpatia especial pelas peças brancas. Enfim, uma mania como outra qualquer.
Para além do xadrez cuidava do jardim e do aquário. Ambos requeriam bastante atenção; no jardim, as tulipas e as orquideas exigiam-lhe diáriamente a sua presença, pedindo água, abrigo do sol ou vento ... ou simplesmente atenção. Ao aquário, reservava os seus momentos nocturnos, tirando especial prazer na limpeza das pequenas pedras coloridas e da gruta que construira para os seus habitantes – três peixes tropicais, um vermelho, um azul e um peixe-palhaço, o mais colorido de todos.
Uma vez vira um filme de que gostara especialmente, - não se lembrava agora do nome - por sentir o personagem principal bastante semelhante a si próprio. Até as situações vividas na película bem que poderiam ter sido retiradas da sua própria vida...
Mas também raras vezes se deslocava aos cinemas; não gostava de estar na companhia de tantas pessoas e sentia – tinha a certeza – que esse sentimento também era recíproco.
Na sua última ida a uma sala de cinema – precisamente para assistir ao dito filme que tanto o tocara – fizera convergir para a sua pessoa grande parte das atenções.
- Não é mesmo parecido ? – murmuravam uns – Talvez seja até o próprio – sugeriam outros. – Seja como fôr, é preciso muita coragem para se atrever a vir aqui – alvitravam ainda outros.
Fosse como fosse, servira-lhe de lição. O melhor seria, sem dúvida, ficar em casa, sozinho, longe da vista dos curiosos.
Na sua sala, pejada de armários e de estantes vergadas ao peso dos livros, passava grande parte do seu tempo livre; num canto o aquário, noutro a televisão. Ao centro da parede principal, bem por cima da lareira de pedra, um enorme espelho.
Aproximou-se.
Comprara aquele espelho numa feira; era um daqueles espelhos curvos, que distorciam as imagens, transformando os gordos em magros e vice-versa. Aquele, em particular, distorcia dos dois modos, consoante as áreas da imagem; A cabeça poderia resultar muito estreita, o tronco muito largo, as mãos diminutas, as pernas muito largas...
A imagem que o espelho lhe devolveu era dificil de reconhecer.
Na parede oposta da sala, um outro espelho, mais pequeno, emoldurado por uma modesta armação de ferro forjado, ocupava solitário toda a parede.
Desviou-se do primeiro espelho e colocou-se defronte do espelho mais pequeno.
Este devolveu-lhe um corpo mirrado, um crânio enorme e de formas protuberantes, um rosto desfigurado, um olhar inumano e triste, mais triste que qualquer outro olhar...
Num desespero repentino, apanhou uma pequena estatueta da mesa e atirou-a com toda a força contra o espelho, desfazendo-o em minusculos pedaços.
Lembrara-se subitamente do nome do filme que procurara recordar.
O homem elefante.
Sentou-se novamente no sofá da sala, a cabeça disforme enterrada entre as mãos.
Não queria mais espelhos. Espelhos verdadeiros.
Por cima da lareira, o espelho da feira continuava, impávido e sereno, a reflectir todas as imagens.
Distorcidas, revolvidas, imperceptíveis.
O homem elefante ergueu um braço, observando o seu reflexo no espelho.
A imagem distorcida assemelhava-se muito a um vulto indistinto, a erguer uma extremidade.
Sorriu, um sorriso triste.
A partir daquele momento, aquele passaria a ser o seu espelho verdadeiro.
publicado por entremares às 21:44
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Terça-feira, 10 de Fevereiro de 2009

Liria

 

 

Era uma vez … uma rapariguinha chamada Liria.
Liria vivia numa pequena aldeia, uma das pequenas e insignificantes aldeias do interior, cercada de montes e afastada das principais cidades.
Em Musia – assim se chamava a pequena aldeia – todos os habitantes conheciam a pequena Liria; tratavam-na pelo nome, conheciam a sua familia, o seu passado, conheciam-lhe os amigos e os gostos… enfim, era a “sua” Liria.
E estimavam-na.
A pequena aldeia ficava fora das rotas dos turistas. Para a alcançar, tornava-se necessário percorrer a vintena de quilómetros que a separava da cidade mais próxima, ao longo de uma estrada sinuosa e a precisar de reparações urgentes. Duas vezes por semana, o velho Marques – toda a gente lhe chamava assim, apesar do seu nome ser Manuel José Matias – carregava a sua velha carrinha de mercadorias e fazia-se à estrada, rumo à pequena aldeia de Musia, para vender na praça a sua fruta, as galinhas, alguma batata e  até alguns bolos.
Naquele dia, levava também mais uma encomenda, uma encomenda muito especial.
Como sempre fazia, parou a carrinha junto das traseiras do mercado e lá foi carregando toda a mercadoria para a sua banca de pedra, bem ao lado da zona reservada aos vendedores de fruta.
- Sr. Marques, sr. Marques...
O comerciante não precisou de olhar para trás para identificar quem o chamava assim.
- Liria... onde anda a minha pequenina Liria ?
Liria aproximava-se em passo rápido, a bengala fina a tactear o terreno à sua frente, apesar de conhecer de cor e salteado todas as ruas e recantos da aldeia.
Abraçaram-se efusivamente e ele afagou-lhe os cabelos, encantado.
- Como adivinhaste que eu já tinha chegado ?
Ela riu-se alegremente.
- Julga que que se consegue esconder de mim ? ... Conheço o som de todas as buzinas e de todos os automóveis que aqui passam... não acha que conseguiria reconhecer o seu ?
Ele assentiu com a cabeça, apesar de ela não o ver.
Liria nunca vira a luz do sol. Cega de nascença, abandonada por uma mãe que não chegara a conhecer, fora recolhida pelos avós paternos e trazida para a aldeia. Ali passara toda a sua infância, rodeada de uma enorme família de vizinhos e amigos para quem Liria se transformara na menina, na filha da aldeia. Agora, com quase onze anos, em breve passaria a deslocar-se todos os dias até à cidade, frequentar a escola dos grandes – como ela gostava de dizer – acompanhada do Roberto e da Maria, as outras duas crianças da aldeia.
Mas Liria possuia ainda uma outra característica, que a tornava ainda mais única na aldeia.
Liria tocava harpa.
Aprendera sózinha, a partir dos rudimentos que a professora Rosário – que saudades – lhe conseguira transmitir.
A professora Rosário, já falecida, dera-lhe a sua harpa, teria Liria aí uns três anitos. Usara-a para acalmar as crianças, nos tempos idos em, sendo a professora primária de Musia, não existia ainda a televisão, os computadores ou as novidades tecnológicas que nos dias de hoje, as crianças já possuem.
- Lembrou-se do meu pedido ? – quis ela saber, curiosa.
- Ora, ora... e alguma vez eu me poderia esquecer dos pedidos da minha princesa ?
E pegando numa pequena caixa de cartão, aninhada entre as embalagens dos ovos, colocou-lha nas mãos ansiosas.
 - Aqui a tens...
Ele deu-lhe um beijo apressado, guardou o seu pequeno tesouro no bolso da saia e rumou a casa.
- Não se vai embora sem se despedir de mim, pois não ? – gritou.
Ele continuou a arrumar a mercadoria, enquanto a via afastar-se.
- Claro que não... eu toco a buzina, antes de partir...
Ela já desaparecera, algures por detras do mercado.
 
Com impaciência, rasgou o embrulho que o velho Marques lhe entregara. No seu interior, um outra caixa, mais pequena. Abriu-a e retirou um longo fio escuro, enrolado em torno de um pequeno cilindro de madeira. Pegou na sua harpa e meticulosamente, retirou a corda partida e substituiu-a pela nova, aquela que o velho comerciante lhe acabara de entregar.
 
Sentou-se, ajeitou a pesada harpa contra o corpo e passou os dedos por entre as cordas. Um som cristalino fez-se ouvir, sobrepondo-se a todos os outros.
Liria improvisou. As suas mãos percorriam as cordas, os dedos num compasso ritmado, subindo e descendo, tacteando os longos fios como se de uma dança se tratasse, enquanto uma música eterea se assenhorava do espaço e coloria o silêncio da velha casa.
Quando tocava... Liria via.
Sem nunca ver, via os sons que se desprendiam da harpa, formando imagens, palavras e estrofes que sossegavam o espírito e embalavam o corpo...
A música surgiu, espontânea, imprevisivel como a aurora, muito azul.
Liria tocava... e Liria via.
Enquanto a musica ia preenchendo os recantos da escuridão, o velho Marques deteve-se.
Pousou a última cesta de fruta e deixou-se ficar ali, imóvel.
Era impossível, dada a distância, ouvir o que quer que fosse, mas sentiu de repente uma música inundar-lhe o espírito, os sons da harpa... e, sem ver, conseguiu ver a pequenina Liria a tocar, na escuridão de uma sala vazia...
Um som cristalino percorreu a aldeia, baixinho.
Liria tocava...
Sorriu.
Por vezes, a felicidade surgia em coisas tão pequenas... 
publicado por entremares às 21:41
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Segunda-feira, 9 de Fevereiro de 2009

As horas certas

 

 
- Desculpe... seria que me podia dizer as horas, por favor ?
- As horas ? ... ora deixe-me ver... sim... são duas horas.
- Duas da tarde ? Quer dizer, catorze horas ?
- Sim... isso mesmo... catorze horas.
- ... mas... catorze horas... certas, não é assim ?
- Desculpe... certas, como ?
- Catorze horas certas... exactas, quero eu dizer! São mesmo catorze horas ?
- Bem... acho que sim... devem faltar um ou dois minutos, não mais do que isso...
- Ah... sabe ? É que eu preciso de saber as horas ... mas mesmo certas!
- Certamente, certamente... então olhe... são exactamente treze horas e cinquenta e oito minutos. Quer saber também os segundos ?
- Não, muito agradecido.... o médico disse-me que eu podia ignorar os segundos...
- O médico ?
- Sim, ouviu bem... O médico quer que eu controle exactamente o tempo...
- Ah, compreendo... ou melhor, não, não compreendo nada. O que é que lhe importam dois minutos a mais ou a menos ?
- Essa agora... por causa do medicamento, está claro.
- O medicamento ? Ah, claro, claro... portanto o meu amigo está adoentado e então tem que tomar um medicamento às duas da tarde, é isso ?
- É exactamente isso. Mas o sr. doutor foi muito rigoroso acerca das horas, ele insistiu que o tinha que tomar sempre às horas certas...
- Às horas certas ? Essa agora... e porquê ?
- Para eu saber a que horas é que o medicamento vai fazer efeito, é claro...
- Pois... mas o meu amigo nem tem aspecto de doente... quantos anos tem ?
- Ora eu... vou fazer sessenta e oito para o mês que vem...
- Sessenta e oito ? É uma bela idade, sim senhor... e quer dizer então que tem andado adoentado, é isso ?
- ...
- Oh homem, não se aflija... eu por acaso também sou médico... isto é... trabalho ali na clinica veterinária, é quase a mesma coisa ... e olhe que você não tem nada cara de doente...
- Pois... aí é que o senhor tem razão...
- Ora está a ver ? Eu bastou-me olhar para a sua cara para ver logo que você não tinha cara de doente... então para que é que é que anda a tomar medicamentos ? Não sabe que isso também lhe pode fazer mal à saúde ?
- Não... não é isso... é que eu preciso de saber exactamente a que horas  é que o medicamento vai fazer efeito, sabe ?
- Ai sim ? ... E porquê ?
- Porque... porque, bem... eu preciso que ele faça efeito aí pelas cinco da tarde...
- Agora é que o meu amigo me está a deixar confuso...
- ...
- Então isso quer dizer que o meu amigo... não está doente ?
- Pois...
- Então ... tem que tomar o medicamento às duas da tarde... porque precisa que ele comece a fazer efeito às cinco da tarde ?
- Pois...
- Ah... muito bem, muito bem... e que medicamento tão esquisito é esse que o seu médico lhe receitou , pode saber-se ?
- ...
- Então homem... olhe que já passa um minuto das duas da tarde... diga-me lá, que medicamento é esse ?
- Não lhe posso dizer...
- Ah...
- É segredo...
- Ah...
- ... e é preciso receita médica....
- Ah... mas mesmo assim, pode dizer-me. Já que estive aqui a ouvi-lo tanto tempo... já agora também quero perceber o final da história...
- ...
- Então ?
- ... v-i-a-g-r-a ...
publicado por entremares às 15:13
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