Domingo, 12 de Abril de 2009

O aquário

 

 

Moli, Trunfas, Rabisco, Piranha, Fungas e Verdete tinham todos uma coisa em comum; que é como quem diz, habitavam todos no mesmo espaço, um espaço muito bonito, por sinal.
Os seis elegantes peixinhos tropicais haviam chegado no dia anterior, e desde logo monopolizaram todas as atenções; O aquário deveria levar mais água, menos água ? Estaria demasiado quente, demasiado fria? O ph seria o adequado ? A vegetação natural não seria venenosa? Aquela embalagem de comida que estava em promoção no hipermercado seria a mais indicada para eles ?
Que stress...
Despejou uma pequena dose de alimento sobre a água e reclinou-se preguiçosamente sobre o sofá. Teóricamente, diziam os entendidos que aquele gesto, de ficar ali esticada a observar os peixinhos a comer e a deambular por entre a vegetação era do melhor que havia para combater o stress..
- Se não resultar... frigideira com eles... – resmungou.
A culpa não era própriamente dos peixinhos, e a Maria sabia-o muito bem. Mas claro que a hipótese da frigideira não se podia colocar para o marido, portanto... alguém tinha que arcar com as culpas...
O Verdete – por motivos óbvios, chamara-lhe assim, por vergonha de baptizá-lo com o nome do seu clube, apesar de verde – corria, isto é, nadava nesse momento velozmente em perseguição da Moli. É claro que a Maria não fazia a mínima ideia se o peixinho em concrecto era a Moli... ou o Moli. Gostara do nome, e pronto. Mas o certo é que a Moli continuava a desviar-se heroicamente a todas as investidas, e após meia dúzia de voltas completas ao aquário, o Verdete lá se acalmou e desistiu da perseguição.
- Até aqui... a conversa é sempre a mesma... – deu consigo a pensar com os seus botões.
E, no entanto, o amuo da Maria até tinha uma explicação bem lógica; o seu João, ou seja, o seu Verdete.
Gostou da ideia – Vou passar a chamar-lhe Verdete, para ver se ele gosta... – e desde logo, começou a saborear o doce sabor da retaliação conjugal.
E o que fizera o João de errado ?
Bem... o João tivera a ousadia – sim, repare-se bem, a ousadia – de comprar e mandar instalar, sem o seu conhecimento, sem a sua aprovação... um colchão de água, na sua cama.
E eis que ela, na noite anterior, vá de deitar-se com toda a tranquilidade e... “plof”... “plof”... parecia que estava a chapinhar na piscina das crianças – o que era aquela coisa, ora vai acima, ora vai abaixo ? – e o safado do marido – sim, que não merecia outro nome – o safado a rir-se perdidamente, que aquele colchão era sexy, era afrodisiaco e mais uma data de coisas que nem ouviu, porque na verdade até já nem o estava a ver muito bem, tal a raiva...
Portanto, e para variar, foi dormir para o sofá da sala, a ver os peixinhos.
 
Bem... estava mais que visto que a parte do ser bonito... era bonito, claro que o aquário era bonito. Mas a parte do relaxante, do alivio do stress.... isso talvez nem tanto. Ou pelo menos... primeiro precisava de acertar aquele assunto do colchão de água... e depois então talvez o aquário já conseguisse fazer efeito. O seu querido João precisava de aprender que havia certas coisas em que a sua opinião... contava.
 
Plim... Plim...
Primeiro, ainda pensou que algo caira ou chão, uma moeda ou algo igualmente pequeno. Mas não. O ruido persistia.
Plim... Plim...
Bem diante dos seus olhos, o Fungas, o mais escuro de todos eles, entretinha-se em abocanhar pequenas pedras do fundo do aquário e em projectá-las contra o vidro, com aquele característico... plim.
- Será idiota, o bichinho ?
Indiferente ao comentário, o Fungas continuou tranquilamente a praticar os seus arremessos. Moli, pelos vistos a mais curiosa de todos eles, acercou-se para observar melhor. Ainda tentou abocanhar uma pedrinha, para imitar o gesto, mas à terceira tentativa sem exito, desistiu e foi nadar para outras paragens.
Era urgente, portanto, arranjar uma solução.
Havia que pensar.
 
Abriu um olho, depois muito a custo, o outro.
Esticou a mão até à almofada do lado, mas mais uma vez, não a encontrou.
Já se passara uma semana, e a sua Maria insistia em dormir com os peixinhos, que é como quem diz, no sofá da sala. Se não fosse um pedacinho menos teimoso, até nem se importaria de voltar à loja e pedir para trocar o famigerado colchão de água.
- … Mas isto é tão confortável… - deu consigo a pensar – e também não era caso para tanto, todo aquele alarido que a sua Maria andava a fazer, só porque não lhe pedira a opinião… enfim, mulheres…
Levantou-se, cambaleando, e dirigiu-se ao banheiro – nada como um bom duche, bem quente, para começar bem o dia, ainda por cima um domingo, em que poderia ficar por casa, a preguiçar, ver televisão, talvez até arrumar um pouco a confusão de livros espalhados do seu escritório.
Espreitou pela porta entreaberta da sala. A Maria dormia ainda, o sofá virado para o aquário.
Meteu-se no chuveiro, os olhos ainda mal habituados à claridade.
Aquele chuveiro fora uma ideia da sua Maria, e desde logo fora o primeiro a reconhecer que a ideia era… genial. O pedreiro removera um bom pedaço de parede e substituíra-a por um elegante vidro fosco, que de repente, inundara a casa de banho, antes sem uma única janela, de uma luz natural imensa, que fazia daquele compartimento um dos mais luminosos de toda a habitação.
Despiu-se e esperou que a água atingisse a temperatura ideal.
- Isto sim…
Deixou-se por ali ficar.
Tão descansado estava, nem reparou na porta que se abriu de mansinho.
 
Depois de uma cantilena, duas árias e um pouco de “ó-sole-mio” – sim, ele era daqueles homens que gostava de cantar no chuveiro, e tinha muito orgulho nisso – virou-se, procurando mecanicamente com a mão o suporte da toalha, algures na zona superior do vidro fosco. Não o encontrou.
Abriu os olhos e o coração deu dois saltos. Ficou para morrer.
A toalha não estava no local previsto pelo simples motivo de que o cabide deixara de existir. E não fora a única coisa a deixar de existir.
No lugar daquele enorme vidro fosco, estavam agora as caras divertidas de… - oh, meu Deus – dos vizinhos do prédio do lado ( pelo menos conseguia distinguir três rostos, bem ali ao lado ). O vidro fosco desaparecera, substituído por um vulgaríssimo vidro transparente, terrivelmente transparente.
Os vizinhos contemplavam divertidos toda a cena, espantados pelo espectáculo matinal de um homem nu tomando o seu duche, bem defronte das suas cozinhas. É o que se poderia chamar de um acompanhamento diferente para o pequeno-almoço.
O pobre João, ainda em estado de choque, não estava a conseguir perceber o sucedido. Ainda no dia anterior, tomara um normalíssimo duche e o vidro… bem, o vidro era fosco, tinha a certeza absoluta.
Estava a ter alucinações ?
Uma risada bem disposta trouxe-o de volta à realidade. Voltou-se para trás.
Maria, encostada à porta da casa-de-banho, ria perdidamente.
 
A vingança servia-se fria.
E em boa hora se lembrara de chamar o velho Martins, que lhes fizera aquela obra na casa de banho.
- Mas, menina Maria … - ainda argumentara o pobre pedreiro – tem mesmo a certeza que quer trocar o vidro ? Depois fica a ver-se tudo cá de fora…
A Maria sossegara-o.
- Eu sei, eu sei… mas é só por uns dias… não se preocupe, eu depois chamo-o e trocamos outra vez… não está a pensar que eu agora vou passar a dar espectáculo para os vizinhos, pois não ? … É só para eu….mostrar uma coisa aqui ao meu João… 

 

publicado por entremares às 09:11
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1 comentário:
De Gi, Dentrodabota a 12 de Abril de 2009 às 18:33
Ola, obrigada pela visita...
E com certeza L'Aquila precisa de muita solidariedade...
Buona Pasqua!!!

Gi, Roma

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