Quinta-feira, 9 de Abril de 2009

A deusa do lago

 

Lentamente, passou de novo o pente de marfim pelos longos cabelos que lhe caíam dos ombros, negros como ébano. À sua frente, o espelho esguio reflectiu-lhe a imagem bela, muito serena, de um rosto feminino adornado de seda e pedras preciosas, olhos escuros penetrantes e uns lábios finos, que sem nada dizer, pareciam estar sempre a sorrir.
Sarasvati, a deusa da sabedoria, era uma mulher muito bela.
A aurora fez-se anunciar pelo grasnar do cisne, seu eterno companheiro dos dias. Um canto curto e insistente, entrecortado, de que ela conhecia tão bem o significado.
Aproximava-se a hora.
Pegou no pequeno rosário de contas azuis e no manuscrito enrolado que deixara pousado junto ao leito. Com o terceiro braço, alcançou a cítara.
Involuntariamente, dedilhou as cordas e um som cristalino molhou o silêncio da madrugada com os acordes de uma melodia improvisada. O cisne enrolou-se sobre si mesmo e abriu as asas, numa preguiça incontida. Não era normal Sarasvati começar a tocar aquela hora tão matinal, mas a música era sempre bem vinda.
Sarasvati, a deusa das artes, da sabedoria e do conhecimento, possuía aquele dom intangível da criação, contagiando de inspiração todas as coisas vivas em seu redor, e o cisne conhecia-lhe bem os efeitos desse dom único.
- Está na hora... vamos – sussurrou ela.
Afastou a longa seda branca que separava os aposentos do jardim e dirigiu-se ao lago, semeado de nenúfares e flores de lótus.
Caminhava descalça, mal tocando o manto de musgo e pequenas flores silvestres que revestiam por completo as pedras já velhas e gastas do jardim. Ao seu lado, os quatro sapos de pedra  alimentavam de água fresca o pequeno lago, jorrando cachos de espuma pela boca.
O ruído borbulhante da água era acompanhado do chilrear característico de todas as manhãs. Os quails, os patos de concha, os garganei, os jinxs e até alguns pavões, mais madrugadores, preenchiam o silêncio com o seu canto, emprestando um tom ainda mais quente aos primeiros raios de sol.
Sarasvati inclinou-se e, com a mão livre, apanhou uma pequena flor de lótus. Depois sentou-se devagar no pequeno banco de pedra, solitário no meio do lago, e o cisne imitou-lhe os movimentos. Os quatro braços agitaram-se lentamente, assumindo a eterna posição da deusa da sabedoria, segurando a cítara, o livro, o rosário de contas azuis e a flor de lótus. Os olhos fecharam-se, a longa cabeleira negra imobilizou-se sobre os ombros e até a brisa deixou de agitar os longos lenços de seda púrpura que lhe pendiam da cintura.
Quando os primeiros raios de sol a tocaram, encontraram – como sempre, durante todos os dias que constituíam aquela pequena eternidade dos homens – um mera estátua de pedra branca, de traços delicados e sorriso contagiante, irresistível de contemplar.
 
O pequeno Miki conseguia, invariavelmente, desaparecer.
Literalmente.
A mãe bem tentava segurá-lo mas a irrequietude do pequeno era sempre mais forte.
- Não te afastes muito – gritava-lhe, como de costume, sempre que o filho lhe soltava a mão e começava a correr pelos jardins, perseguindo borboletas, pássaros ... ou simplesmente a esconder-se dos pais.
O grupo de turistas lá prosseguia a sua marcha pelos jardins do templo, encabeçado pela guia que, de bandeirinha em punho, ia despejando a ladainha histórica, as lendas associadas, a função de cada uma das fontes, dos lagos, a devoção e as orações características aos pequenos altares de oferendas que se encontravam espalhados pelo templo, um pouco por toda a parte.
Miki, claro, não estava minimamente interessado em todas aquelas explicações, que ainda por cima, não compreendia. Preferia encavalitar-se em cima das estátuas dos macacos e dragões, saltar sobre os riachos e assustar os pavões, só pelo prazer de os ver abrir as penas em leque e voar, assustados.
De repente deteve-se, maravilhado.
A estátua de pedra branca, imóvel no meio do lago, parecia fitá-lo, sorridente. Segurava alguns objectos nos quatro braços, dos quais só conseguia reconhecer o que parecia ser uma flor e talvez um instrumento musical, apesar das formas um pouco estranhas.
Sentiu-se de imediato atraído pela beleza da figura de pedra.
Sem pensar duas vezes, descalçou as sandálias e avançou lago adentro, afastando os enormes nenúfares com as mãos. Queria tocar aquela estátua de pedra.
Um sapo desprevenido saltou em pânico, esquivando-se ao pequeno Miki. Mas ele nem lhe ligou.
Alcançou a base da estátua e os dedos tocaram muito ao de leve, a superfície fria da pedra macia.
E então, algo de mágico aconteceu.
A flor de lótus, pendente da mão de Sarasvati, escorregou-lhe por entre os dedos e foi depositar-se sobre a mão estendida do pequeno Miki, que ali ficou, boquiaberto, ao ver a flor de pedra a transformar-se, diante dos seus olhos, numa bela flor de lótus, de pétalas brancas. Ergueu os olhos e a deusa do lago sorria-lhe, os olhos de pedra estranhamente brilhantes, os lenços de seda púrpura pendentes da cintura a esvoaçar de encontro ao corpo.
Um turbilhão de emoções invadiu o espírito do pequeno Miki.
Em sobressalto, segurou com toda a força a flor de lótus, com as duas mãos e chapinhou até à orla do lago, espirrando água em todas as direcções. Como uma flecha, calçou desajeitado as sandálias, lançou um último olhar por cima do ombro e, antes que aquela maravilhosa visão desaparecesse, aí vai ele, correndo desalmadamente em direcção às vozes, cada vez mais distantes, do grupo que se afastava pelo jardim.
- Mãe.... Mãe.... nem vais acreditar.... Mãe...
 

 

publicado por entremares às 11:50
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2 comentários:
De ~pi a 9 de Abril de 2009 às 12:01


bem vindo a passages! :)

( identifico sim,




~
De josé kuski a 9 de Abril de 2009 às 22:19
mais uma bela história.
outro para ti (abraço claro!)

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