Sábado, 24 de Janeiro de 2009

Um quase paraíso

 

 

Trim, trim.
Após o que pareceu demorar uma eternidade, a porta entreabriu-se e uma respeitável figura, cabelos brancos e um majestoso cajado espreitou. Apesar de uns milénios de árduo trabalho, Pedro continuava com a figura de sempre, nem mais novo nem mais velho. A santidade não lhe pesava nos ombros, ou então mantinha aquela capacidade nata de parecer ser sempre o mesmo, ao longo dos anos.
No paraíso, o fotógrafo oficial já desistira de o fotografar, uma vez que não valia a pena. A imagem de Pedro, o Santo, era aquela que aparecia nos calendários e nas pajelas da primeira comunhão e agora, nem o próprio Pedro já se atrevia a tentar mudar de visual.
- Sim ?
A visitante tentou disfarçar a timidez – afinal não era todos os dias que se tenta entrar no paraíso – e esboçou o melhor dos sorrisos.
- Eu pretendia entrar... no paraíso... disseram-me que tinha que vir bater aqui a esta porta ... e pronto.... cá estou eu.
Um pequeno silêncio. Pedro, o Santo, observou detalhamente a figura franzina que tinha pela frente; Cabelos amarelados, olhos claros, pele muito clara, ombros magros, braços magros, tronco magro, pernas magras ... haveria algo que não fosse magro ?
- Pois ... compreendo. E quando é que a menina, se é que a posso chamar assim, pretendia entrar ?
A visitante soltou uma risadinha fininha e soprou uma madeixa de cabelo que teimava em cair-lhe sobre os olhos.
- Entrar ? Bem, eu gostaria mesmo muito de entrar... agora, claro.
Pedro, o Santo, pareceu surpreso.
- Agora ? Mas...
Ela abriu muito os olhos.
- ... Mas a menina está nua – lá conseguiu finalmente dizer.
Fez-se novamente um pequeno silêncio.
- Nua ? Pois claro que estou nua, como é que haveria de estar ? Acha que me deixaram trazer a roupa para aqui, acha ?
Pedro, o Santo, passou a mão pela longa barba.
- Pois... mas pelo menos um soutien – e baixou a voz - ... umas calcinhas... bem vê, isto aqui é o paraíso, há normas, temos costumes...
A visitante ficou boquiaberta. Que lindo sarilho se começava a compôr.
- Então, por favor ... – tentou ela, com a serenidade possível – não me quer dizer onde posso eu arranjar algumas peçinhas de roupa, uma vez que assim nua não me deixa entrar ?
Pedro, o Santo, não tinha a certeza.
- Suponho que lá ao fundo – e apontava com a mão para uma vereda – lá no purgatório, é capaz de conseguir arranjar alguma coisa... mas atenção ! Só roupa branca, compreende ? Sem tirinhas, debruados, lantejoulas nem artificios... só branca, toda branca.
- Nem amarelo, ou qualquer cor assim mais clara ? – ela ainda tentou a sua sorte.
Pedro, o Santo, elevou os olhos às alturas, murmurou qualquer coisa inaudível e retorquiu peremptóriamente:
- Amarelo então... Nunca. – e apontou o dedo para o céu – Só ELE é que pode usar amarelo...
Pronto, estava decidido. Tinha que ir arranjar umas roupitas, fosse lá como fosse. Ou então, adeus paraíso, adeus nuvens fofinhas, adeus concertos de harpa, cocktails com os anjos... enfim, por toda a eternidade. E a eternidade, segundo lhe tinham dito, demorava muito tempo a passar.
Fez-se à estrada.
A vereda contornava os muros altos do paraíso, todos eles construidos de pedra branca, profusamente pejados de trepadeiras e flores coloridas. Conseguia ouvir ao longe o canto dos pássaros e imaginou como seria o outro lado daqueles muros. Existiriam jardins ? Bancos de jardim ? Piscinas, ou lagos ? Os anjos também correriam pelos campos, fariam piqueniques, andariam de biclicleta ?
Estava a sonhar demasiado. E também estava com a sensação de estar a ser observada.
Ainda voltou repentinamente a cabeça para trás e teve a nítida impressão de ver uma cabeça a esconder-se no alto dos muros; e depois uma outra, e ainda uma outra.
Devia ser imaginação.
Seguiu o seu percurso e conseguiu encontrar o purgatório. Achou-o muito cinzento e movimentado. Imensa gente aos encontrões, um trânsito caótico nas ruas, buzinas ensurdecedoras e – coisa curiosa – todas as pessoas com que se cruzava traziam um mapa na mão.
Lá conseguiu encontrar uma lojita pequena onde conseguiu negociar as duas peças mínimas da indumentária a troco de duas madeixas de cabelo e da promessa de voltar à quela loja com novos clientes, que teria que recrutar entre os seus conhecidos. – sentiu que tinha feito um bom negócio.
À saída, ainda se lembrou de perguntar :
- Olhe lá, já agora... pode dizer-me porque andam todos na rua com um mapa na mão ?
A dona da loja mirou-a com um olhar desconfiado, mas logo se acalmou. Via-se que a visitante não era dali, portanto tamanha ignorância podia ser quase desculpada.
- O mapa, ora essa... o que havia de ser ? É o mapa das estradas do paraíso, claro... o problema é que as estradas não aparecem no mapa e portanto ninguém sabe como sair daqui e chegar ao paraíso...
Claro. Para uma pergunta tonta, que resposta podia esperar ?
Acenou um adeus e fez-se de novo à estrada. Todos os outros continuavam em circulos, de mapa na mão, observando o horizonte, tentando descobrir a estrada para o paraíso.
- Quando tiver tempo, ainda tenho que pensar nisto... – murmurou ela, enquanto se afastava tranquilamente do purgatório.
De volta ao paraíso, continuou com a sensação de estar a ser observada.
- Estou a ficar com a mania da perseguição, querem ver ?
Era capaz de jurar continuar a ver algumas cabeças a aparecer e a desaparecer, no alto dos muros brancos.
Enquanto continuava perdida nas suas cogitações, encontrou-se de novo à porta do paraíso.
Trrrrrriiiiiiiiim.
Desta vez deixou o dedo bastante tempo sobre o botão. Apesar disso, a pareceu-lhe que demorou exactamente o mesmo tempo até a figura já sua conhecida de cabelos brancos, longa barba, ar patriarcal e imponente cajado aparecer na ombreira da porta.
- Sim ?
- Voltei... – e ia apontando para as duas peças de roupa - ... e que acha ? Não pareço já uma verdadeira anjinho ?
Pedro, o Santo, observou-a de relance, com a prática que dois mil anos confere. Resmungou qualquer coisa em voz baixa e abrindo um pouco mais a porta, chegou-se para o lado para a deixar passar.
- Enquanto entramos, vou já adiantando as explicações.... – e puxou de um papel que retirou da tunica, já bastante amarrotado pelo uso contínuo. -  eu depois dou-lhe uma cópia, se quiser... mas é importante, é muito importante... que preste atenção a estas regras...
Sentou-se no primeiro banco que encontrou e convidou-a fazer o mesmo.
Ela estava mais entretida a observar ávidamente tudo quanto a rodeava. Apesar de ainda se encontrarem junto do portão principal, conseguia vislumbrar uma área bastante grande de um jardim que parecia não terminar, até onde a vista apodia alcançar.
Um grande número de anjos ( a julgar pelas asas nas costas, deviam ser ), todos loiros, de olhos azuis e carregando uma harpa a tiracolo, passeavam por diversas zonas do jardim. A baixa altitude, algumas nuvens esbranquiçadas deslizavam pelos céus, aparentemente guiadas por outros anjos ( conseguia ver sempre dois ou três em cada nuvem ) numa imagem que lhe fazia lembrar vagamente o trânsito da sua cidade natal, em hora de ponta. Sem as buzinadelas.
Debaixo do banco onde se sentara, saiu deslizando uma serpente. Olhou-a com ar desconfiado, e a serpente respondeu-lhe na mesma moeda. Depois afastou-se por entre a relva alta, ondulando o corpo em suaves meneios.
Entretanto Pedro, o Santo, continuava declamando um sem fim de regras, num tom convicto mas levemente coçado por dois mil anos de continuas repetições. De quando em quando ainda tentava alterar uma ou duas, mas invariávelmente recebia uma advertência e claro... quem manda, manda.
- ... a hora do recolher é ao anoitecer, e sempre antes da meia – noite... o silêncio é de ouro, e como tal não devem ... há certas zonas proibidas ... e o jardim do bem e do mal .... não se podem comer maçãs, nem marisco, nem qualquer comida afrodisíaca...
A sua atenção desviou-se então para uma outra zona do jardim, não muito distante daquela em que se encontravam. Ficava junto a uma outra porta e para lá caminhavam, em ordenada fila indiana, uma interminável procissão de anjos.
- E aqueles ali – quiz ela saber – o que estão eles a fazer ?
Pedro, o Santo, detestava ser interrompido quando estava a ler as regras. Contrariado, seguiu com o olhar a direcção apontada.
- Ah, aqueles...
- E o que é aquela porta ? – insistiu ela – onde vai dar ?
- Aquela porta... bem... digamos que aqueles... aqueles estão de saída...
- De saída ? Do paraíso ?
- Claro... não cumpriram alguma regra e portanto... você sabe... são expulsos...
- Que tipo de regra ?
- Que tipo ? Você não acha que eu os conheço todos, um por um, ou acha ? Não sei o que é que eles fizeram, mas devem ter feito alguma coisa porque ELE – e olhou novamente para cima – decidiu rescindir-lhes o contrato...
Uma curiosidade impossível assaltou-a. Tinha que ver aquilo mais de perto. Se ainda estivesse viva, aquilo seria quase como que um despedimento colectivo, enviar assim tantos anjos porta fora, do paraíso sabia-se lá para onde...
Ergue-se num ápice. Oficialmente, ainda não se sentia nenhum anjo, alías ainda nem tinha as asas, a tunica branca ou a harpa, portanto sentiu que ainda se podia dar ao luxo de cometer algumas leviandades, como correr por aquele jardim fora, para descobrir se afinal o paraíso também tinha alguma porta de saída...
Só não reparou na longa túnica de Pedro, o Santo, que se lhe enrolou entre os pés.
E eis que, meio segundo depois, jazia inaminada no empedrado do jardim, após uma acrobática e mais que previsível queda.
 
- Ai, a minha cabeça...
Tentou abrir os olhos. A dor aumentou e uma massa indistinta de cores rodopiou-lhe à frente, formando imagens desconexas, vagamente parecidas com rostos humanos. Tentou focar melhor os objectos. Eram mesmo rostos, rostos humanos. Mas não tinham olhos azuis, nem eram louros, nem se pareciam nada com os anjos ou mesmo com o Pedro ancião com quem estivera sentada à pouco. Pelo contrário, o rosto que se debruçava sobre ela assemelhava-se bastante ao do falecido esposo ( não era lá muito correcto dizer isto, uma vez que a falecida era ela, mas enfim... )
- Maria, Maria... estás bem ?
E não é que até a voz era mesmo parecida com a do falecido ?
Finalmente, conseguiu abrir os olhos.
Desilusão.
Então afinal não morrera, nem estivera às portas ( e dentro ) do paraíso ?
Então aquela fugura de Pedro, o Santo, não fora mais que uma distorção da sua imaginação, de uma personagem qualquer da televisão ?
Ainda lhe custava acreditar.
Levou as mãos ao peito. E depois à cintura. As duas peças de roupa que trazia vestidas não eram brancas, mas pretas.
- Mas parecia tão real... – ainda murmurou entre dentes.
Levantou-se, ainda um pouco tonta. Para variar, já estava bastante atrasada para o emprego. O marido lançou-lhe um adeus fugidio e bateu com a porta, ainda mais atrasado que ela.
Um pouco trôpega, arrastou-se até ao espelho do quarto, para constatar que precisava mesmo de disfarçar aquelas olheiras. Pegou na escova e ainda tentou pôr em ordem o cabelo, mas a tarefa, já de si dificil todos os dias, naquele dia era impossível.
Com o pente, esticou o cabelo sobre o rosto, e logo percebeu porque não se conseguia pentear. A sua longa franja ( o seu orgulho ) acusava duas boas tesouradas, que lhe tinham roubado duas grandes ( enormes ) madeixas de cabelo.
Fechou os olhos, e recuou no tempo.
E só então percebeu...
publicado por entremares às 15:25
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