Quarta-feira, 25 de Março de 2009

A teoria do Tudo

 

 

A teoria do Tudo devia ser uma coisa complicada...para todos os efeitos, Einstein e muitas outras estrelas do mundo da ciência haviam empenhado grande parte das suas vidas na procura dessa resposta... dessa tal resposta que, aparentemente, interessava a toda a gente.
Bem vistas as coisas... nem era só uma pergunta.
Claro! É sempre assim.
Então e como surgimos ? E como surgimos ? E o que estamos aqui a fazer ? E tudo isto que nos rodeia foi criado... ou criou-se a si próprio ? Etc, etc, etc...
Pegou no copo e bebericou mais um gole de Martini. Ajudava-o a pensar, vá lá saber-se porquê...
Bom... e então, o que fazer ?
A conferência seria no dia seguinte, logo pela manhã, no grande auditório da escola. E escusado será dizer que agora era demasiado tarde para voltar atrás... aliás, sabia perfeitamente que nunca estivera nas suas mãos o poder decidir... a esposa, a sua querida Marta, era uma personagem adorável, meiga e delicada... mas quando metia uma coisa na cabeça, nem Deus a conseguia fazer mudar de ideias.
Portanto, o simples facto da esposa ser uma ex-aluna daquela escola, amiga pessoal do director e – mais grave ainda – ter dito em público que “ Importar ? , Claro que o meu João não se importa...” já era mais que suficiente para o assunto estar arrumado.
Portanto, manhã seguinte, auditorio da escola, casa cheia aí com uns trezentos alunos de todas as idades... e o bom do João, Professor Doutor João Perestelo, com um diploma por Harvard e uma pós-graduação no M.I.T... lá teria que tentar encontrar as palavras mais simples para falar do universo... das estrelas, do Big Bang... e preparar-se para as perguntas terríveis que aquelas cabecinhas pensadoras se lembrariam de inventar... só para o atormentar.
Recapitulando... estava metido numa bela encrenca e tinha exactamente um par de horas para pensar num esquema de apresentação que fosse ao mesmo tempo interessante... e acessível, muito acessível.
Mas sinceramente... não lhe ocorria nenhuma brilhante ideia em como fazê-lo.
 
Palmas, muitas palmas.... – Obrigado, obrigado – e avançou resoluto até ao suporte de microfone, bem diante da mesa, engalanada com grandes ramos de flores.
Aproximava-se o momento decisivo e... iria improvisar.
- Deixa-te levar – sussurrara-lhe a esposa ao ouvido, antes de tomarem lugar, junto aos outros convidados, na mesa de honra. - ... e vais ver que corre tudo bem...
- Para ti é fácil ... se houver ovos e tomates a voar pelos ares... eu é que estou na primeira linha...
Ela riu-se e deu-lhe um piparote no nariz – Vá, vai lá...
Soprou para o microfone. Já uma vez lhe acontecera ter de repetir os primeiros minutos de um discurso muito bem preparado, mas que ninguém estava a ouvir, porque ele se esquecera de ligar o microfone. Mais valia não arriscar.
 
- Meus amigos...- e tentou abarcar com a vista toda a plateia – obrigado pelo convite... e obrigado pela coragem de ficarem aí sentados, a ouvir falar do universo, de galáxias e de equações matemáticas complicadíssimas. Não sei quanto vos estão a pagar para assistir... mas cuidado, que depois têm que declarar este dinheirinho nos impostos...
Risinhos, boas disposição... nada como quebrar o gelo.
O dr. João era um comunicador nato, apesar de não estar habituado a dialogar com plateias de idade tão ... juvenil.
- Agora a sério... – continuou ele – a intenção desta pequenina conversa... é muito simples... e espero muito que venham a colocar muitas questões, daquelas questões complicadas, porque isso só significaria que o nosso assunto de hoje... vos teria deixado a pensar... e alguém sabe qual é o nosso assunto de hoje ?
Ninguém quis arriscar.
- ... O universo... o universo é o nosso assunto de hoje, imaginem só. E eu, quando tinha a vossa idade, perguntava-me se...
 
Tranquilamente, foi falando do Big Bang, das estrelas, dos telescópios, de naves espaciais e da Guerra das estrelas, de Aliens e de Transformers... observando com atenção sempre que alguma comparação fazia sorrir os mais novos. E surpreendeu-se até quando alguém da plateia conseguiu citar dois ou três cientistas famosos, e quando um dos miudos da frente afirmou que o telescópio Hubble se chamava assim em honra de um astrónomo com esse nome...
- ... E portanto, como vêm... podíamos estar aqui a manhã inteira, e nunca chegaria o tempo para falar de todos os assuntos relativos a este nosso universo... mas agora, tenho que me calar, senão vocês não podem colocar as vossas perguntas...
 
Burburinho.
Um rapaz já com aspecto de finalista, da segunda fila, arriscou:
- E acredita mesmo que poderá existir vida lá fora ... mesmo depois de tanto tempo à procura... e de ainda não termos encontrado nada ?
- É uma pergunta complicada... e para te responder sem te maçar com números e mais numeros, só se fizer algumas comparações... não te importas ?
Claro que o rapaz não se importava.
- Então olha... quantas pessoas estarão aqui nesta sala ? Umas 300... 350, talvez ? Vá, fiquemo-nos pelas 300, só por ser um número redondo... agora tenta imaginar que cada uma destas pessoas tem um punhado de moedas, digamos umas 10 moedas, dentro dos bolsos... consegues imaginar ?
O rapaz acenou a cabeça, concordando.
- Então... – e o dr. João ia caminhando para fora do palco – agora vou fazer uma experiência contigo... vais fechar os olhos e eu vou dar uma moeda das minhas a uma das pessoas desta sala, percebes ? Mas tu não sabes qual... – e, enquanto isto, entregou uma moeda a uma rapariga de tranças, sentada mesmo ao centro da primeira fila – e agora... abre os olhos.
O rapaz obedeceu. A plateia aguardava, curiosa.
- Pronto... – continuou o cientista – agora vamos supôr que tens uns binóculos fantásticos, potentíssimos... escolhe uma pessoa qualquer desta sala, fazendo de conta que cada pessoa é um sol, ou um sistema solar como o nosso, aponta para ela os teus binóculos e vamos descobrir se a minha moeda, o meu pequeno planeta habitado... está nos bolsos dessa pessoa... e se tu a descobres...
- Mas são tantas pessoas – queixou-se o desgraçado, já arrependido da pergunta.
 
A experiência resultara. No meio de palmas, risadas e boa disposição, ainda conseguiu responder a mais três questões.
- Dr. João... Pestelo ... Prestelo...
Risada geral.
- Não se preocupe.... – tranquilizou o cientista – no princípio a minha mulher também se enganava...
Nova risada de boa disposição.
- Dr. João... diga-me só uma coisa... foi Deus que criou o Big Bang ?
 
Pronto. Agora é que já tinha o caldo entornado.
E ele, que com tanto jeitinho, evitara a palavra Deus durante toda a manhã... falando só de ciência, de tecnologia, de progressos científicos, de explicações lógicas... porque razão queria aquela moça agora meter Deus na conversa ?
- Deus ? ... O que quer a menina saber acerca de Deus, diga lá ?
Ela repetiu, um pouco constrangida.
- ... Foi... Foi Deus que criou esse Big Bang que explicou há pouco ? As galáxias ?
 
Súbitamente, fez-se silêncio.
- Bem... não sei muito bem como te responder... nós, os cientistas, trabalhamos com factos... fazemos previsões, baseados em teorias... e depois tentamos provar essas teorias... compreendes o que eu quero dizer ?
- Não pode dar um exemplo ?
- Um exemplo ? Bem... Imagina que eu quero provar que 2x5 = 10, mas não sei multiplicar... o que poderia eu fazer ? Pegava no número 5, somava-o com ele próprio, obtendo o resultado de 10. Tinha conseguido provar algo...
- E não pode fazer o mesmo com Deus ?
Nova risada geral.
- Pois... essa é a parte complicada, não é ? Seria o mesmo que eu dizer-te agora... olha, agora vai apagar-se a luz, só para te provar que Deus desligou o interruptor, ou então que amanhã...
 
A frase morreu-lhe nos lábios.
Com um leve estalido, a iluminação geral do anfiteatro apagou-se, surgindo de imediato a piscar as pequenas luzes de emergência branca, sobre as ombreiras das portas.
O burburinho fez-se de novo ouvir, enquanto os segundos começaram a passar.
Bastaram dez. Dez segundos e logo as luzes se acenderam de novo, ao mesmo tempo que um funcionário da manutenção assomava à porta do auditório, tremendamente embaraçado.
- Desculpem... ninguém nos tinha avisado que...
Nova risada geral.
O dr. João aproveitou a oportunidade para se chegar à frente e tentar pôr fim à sua palestra.
- ... pronto, meus amigos... e para ti em especial – e ia apontando para a moça que lançara a pergunta - ... já perceberam porque motivo é sempre tão complicado falar do universo? É que por vezes... quando pensamos já ter a fórmula completa para explicar tudo... aparece sempre mais uma variável com que não contamos...
- dr João... – interrompeu a moça, com um risinho na ponta dos lábios – e pensa que essa ... variável... também consegue apagar as luzes ?
Nova risada geral. Mas todos queriam ouvir a resposta.
 
- Pois... isso eu não te sei responder... mas sei que se apagaram...
 

 

publicado por entremares às 13:23
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2 comentários:
De Sofia a 25 de Março de 2009 às 14:42
O teu texto fez-me lembrar um livro que li...

A formula de Deus
de José Rodrigues dos Santos.

Continuação de uma boa tarde de trabalho, descanso, escrita, whatever..
De Óscarito a 25 de Março de 2009 às 21:04
Passei para continuar a ler-te e também para te deixar mais um ABRAÇO!

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