Domingo, 22 de Março de 2009

Tens a certeza ?

 

 

- Tens a certeza ? ... Olha que duvido que seja uma boa ideia...
- ... Claro que é uma boa ideia. Vá, anda, não fiques para trás...
E avançaram mais um passo.
A um ritmo lento, mas constante, a pequena fila de peregrinos, entremeada de turistas, lá foi subindo as escadarias do templo, e lá dentro, contornada a primeira série de colunatas, mergulhou na penumbra.
Um aroma adocicado – mistura de essências – libertava-se de dezenas de pequenos palitos de incenso, espetados em suportes de barro, contornando as estátuas de Buda, rodeando os altares de oferendas.
As estátuas, de todas os tamanhos, representavam aquele que fora o príncipe Sidartha Gautama, depois Buda, nas mais variadas posições, dando origem às figuras do Buda deitado, do Buda meditativo, do Buda da compaixão e ainda de muitas outras figuras de que ele não conhecia o significado exacto. Um em especial lhe chamou a atenção, uma estátua quase em tamanho real, de jade, resplandescendo reflexos esverdeados com as luzes dos lampiões. Por muito tempo, aquela imagem acompanhá-lo-ia, tal a perfeição da expressão, a sensação de paz que transmitia.
Uns passos adiante, deram entrada na grande câmara do templo, onde a figura majestosa do Buda sentado, uma enorme estátua dourada de mais de três metros de altura, ocupava toda a zona central do recinto, delimitada por cordões de flores espalhados no chão.
Os peregrinos inclinavam-se respeitosamente para a frente e tocavam com as mãos a estátua, depositando sobre ela minúsculas folhas de ouro, camada após camada, invocando preces em múrmurios que enchiam a sala, tornando o ar, carregado de incenso, ainda mais denso.
- João... olha, ainda estamos a tempo... não queres mesmo mudar de ideia ?
- Não... não, já te disse que não. E olha quem nem pareces o meu irmão... estás a ser terrívelmente aborrecido...
- Não estou... só continuo a pensar que não deverias fazer... enfim, tu lá sabes...
Levou o dedo à boca, a pedir-lhe silêncio.
Avançaram mais uns passos.
No compartimento ao lado, um monge já idoso, sentado sobre um banco, abençoava oferendas dos peregrinos; estes inclinavam-se sobre as esteiras, entregando ao ancião pequenas estátuas, potes de oferendas e colares de flores. O velho monge mergulhava um ramo de folhas num recipiente e em seguida aspergia as oferendas. Os peregrinos voltavam a recolhê-las, indo depositá-las num dos extremos do altar.
Dois passos à frente, desembocaram numa pequena sala, toda colorida de vermelho escuro, com numerosos lampiões pendurados do tecto de madeira.
Um outro monge, com a tradicional túnica laranja, repetia a aspersão, desta vez sobre a cabeça de cada um dos peregrinos e turistas, que de forma silenciosa e ordeira, se prostravam diante dele. Ao mesmo tempo, repetia interminavelmente uma mantra de indecifrável leitura, tão velha como ele próprio.
Os dois irmãos aproximaram-se.
- Tu não vens ? – perguntou o mais velho
O outro abanou a cabeça. - ... e nem tu devias ir, é a minha opinião...
Avançou, observando e repetindo o ritual de todos os outros peregrinos. Ajoelhou, baixou a cabeça e sentiu as gotas de água fria sobre os cabelos, a escorrer pelo pescoço. Ia levantar-se quando sentiu que lhe agarravam o pulso.
Ergueu a cabeça e reparou que o velho monge o fitava, com um misto de curiosidade e simpatia. Quando deu por si, tinha no pulso uma pequena pulseira de trança rudimentar, segurando meia dúzia de contas de madeira.
O monge sorriu-lhe novamente e largando-lhe o pulso, deixou-o ir.
 
- O que foi, João ? O que se passou ? – quis saber o irmão, ansioso
João ainda não tinha bem a certeza.
Por um momento, sentiu que algo de muito bom – não encontrava outro termo – lhe tinha acontecido. Não sabia o quê, o porquê, nem o como... só sabia que uma sensação de bem estar lhe galopava alegremente pelo corpo, algo que se fosse necessário descrever... provavelmente diria tratar-se de ... felicidade.
- Olha... não sei... – respondeu ele – não sei bem o que aconteceu...
- E o que é essa pulseira que tens no pulso ? Foi o monge que a colocou aí ?
João concordou com um gesto de cabeça.
- João...
- ...
- João... nem me estás a ouvir, pois não ?
- Ahn... oh, desculpa, estava longe... o que dizias ?
- Ia perguntar-te uma coisa... se não te aborreceres, claro...
- ... Essa agora... és meu irmão, podes perguntar-me o que quiseres...
- Pronto... achas que ele percebeu ?
- ... Percebeu o quê ?
- O monge... aquele monge que te atirou a água... achas que ele percebeu que és ... padre ?
- ...
- Estou dizendo, porque... bem... tu é padre, não és ? Ainda por cima, de uma religião diferente... tu és cristão, ele é budista... enfim...
- Ora, ora... meu irmãozinho... e achas que somos assim tão diferentes ... é isso ?
 
 

 

publicado por entremares às 21:30
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2 comentários:
De José Kuski a 22 de Março de 2009 às 22:38
Boa! Não há mesmo coincidências...
De Flavio Ferrari a 22 de Março de 2009 às 22:51
Não sei os padres aceitam os budistas mas a recíproca certamente é verdadeira ...

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