Sexta-feira, 20 de Março de 2009

A praia das sereias

 

 

O sol entardecia na praia deserta. Uma a uma, foram descendo em círculos largos, grasnando ruidosamente, formando grandes grupos de penas cinzentas e brancas, recortadas contra a espuma branca.
A maré continuava a descer, deixando na areia sulcos de ondas e espuma, arrastando as conchas mais leves e atirando para a praia pedaços de madeira, garrafas vazias e um sem número de pequenos plásticos coloridos, restos da omnipresente civilização…
As gaivotas em terra agitavam-se de um lado para o outro, formando pequenos bandos familiares que disputavam os melhores recantos da falésia, protegidas do vento norte e debicando furiosamente as invasoras, sempre que alguma mais afoita tentava ocupar território que não o seu.
O espectáculo repetia-se, todas as tardes, ao cair do sol.
A praia deserta, afastada das estradas mais movimentadas, era escassamente procurada – de tal modo que decorriam dias inteiros sem que as gaivotas tivessem por companhia qualquer ser humano; quando muito, algum cão vadio surgia uma vez por outra no alto da falésia, em busca de alimento ou por mera curiosidade.
Fora essa companhia ocasional, as gaivotas podiam considerar-se as únicas e legítimas proprietárias da praia das sereias.
 
Quando os primeiros raios de sol tocaram a areia da praia, já o dia começara há muito para os bandos de gaivotas. Os ninhos, protegidos nas reentrâncias das escarpas, fervilhavam de pequenos movimentos e grasnidos agudos, com as crias a reclamarem o seu quinhão de alimento. Os progenitores, numa escala que o instinto já aperfeiçoara ao longo de gerações, revezavam-se nas corridas até ao mar, onde pescavam pequenos peixes que depois vinham regurgitar para as crias esfomeadas.
 
Sobre a areia branca, o corpo ondulante espreguiçou-se, esticando os braços num esgar de preguiça mal contida. As gaivotas ignoraram a sua presença, já habituadas aquela visita matinal, que se repetia desde há muito tempo. Sabiam até que o ritual da visitante incluía um longo banho de sol – sempre ao amanhecer – o recolher de algumas conchas ou búzios para, logo depois, mergulhar nas águas frias do oceano e desaparecer… para só voltar a ser vista na manhã seguinte, aos primeiros raios de sol…
Aquele dia não foi, portanto, diferente de todos os outros.
A visitante espreguiçou-se novamente, o corpo já morno de sol. Com a mão, afastou a longa cabeleira dourada, enrolando-a sobre o pescoço. Os olhos, muito azuis, observaram cuidadosamente todo o areal, a falésia, a superfície das águas. Nenhum vestígio da presença humana.
Sacudiu a areia que se lhe colara ao corpo nu. Ao sol, os pequenos grãos refulgiam como estrelas, escorrendo pela pele molhada.
Apesar de lhe dar enorme prazer ficar ali, a aquecer-se ao sol da manhã... o tempo urgia, e não podia furtar-se aos seus afazeres.
Com um movimento delicado, arrastou a longa cauda azulada para junto da água. A barbatana chapinhou alegremente e um jacto de espuma ajudou a retirar os ultimos grãos de areia do corpo.
Mergulhou a cabeça e ajeitou a longa cabeleira com um travessão de osso.
A longa barbatana azulada, prolongando-se a partir da cintura esguia numa cauda elegante, surgiu à tona de água.
Olhou uma última vez para o areal dourado e para a falésia, repleta de gaivotas.
Não valia a pena dizer adeus.
No dia seguinte... voltaria de novo.

 

publicado por entremares às 17:27
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