Quarta-feira, 18 de Março de 2009

Nós... e Eles

 

 

Ergueu-se, sorrateiro, apontando a arma.
A espera havia valido a pena. Instantes depois, um par de orelhas espreitou por entre as silvas, para logo de seguida surgir o resto do corpo; um enorme coelho cinzento, felpudo, que continuou a saltitar até se imobilizar diante de uma pequena moita.
O caçador apontou cuidadosamente, levando o dedo ao gatilho.
- Desculpe... não está a pensar utilizar isso, pois não ?
O caçador desviou o olhar – Quem lhe estava a dirigir a palavra, e logo naquele momento ? Não saberia que iria afugentar a presa ?
Mas não... não vislumbrou vivalma. Habitualmente, caçava sempre sózinho, mas é verdade que cada vez mais se multiplicava o número de caçadores e como tal... não se admiraria que tivesse ocupado, sem querer, o local priveligiado de algum outro caçador.
Mas não viu ninguém.
Felizmente, o coelho permanecia imóvel. Voltou a apontar cuidadosamente mas...
- Sinceramente... já imaginou como se sentiria... se lhe estivessem a apontar a si... essa coisa ?
O caçador parou, subitamente confuso. Pensando melhor, a voz não provinha de nenhum caçador ali das redondezas... mas sentiu-a dentro da sua própria cabeça, com uma nitidez estonteante.
O coelho fitava-o agora directamente, olhos nos olhos, as orelhas a estremecer ao de leve.
- Sim... sou eu, não precisa de ficar assim tão surpreendido... – continuou a voz.
O caçador abriu os olhos, desmedidamente. Depois, esfregou-os com força. Mas apesar de todas as tentativas para se convencer de que estava a sonhar, a voz insinuou-se novamente.
- ... Então ? Posso seguir tranquilamente o meu caminho ?
O pobre caçador ainda não conseguira voltar a fechar a boca, pasmo de admiração. Pousou a espingarda e permaneceu imóvel, sem reacção, como se todos os músculos do corpo tivessem recebido ordens para nem pestanejar... e assim permanecer.
- Mas... mas... o que se passa ... o que se passa aqui ? – deu consigo a balbuciar.
- Nada... – respondeu-lhe o coelho – não se passa rigorosamente nada... excepto que você queria pôr um fim à minha vidinha... e eu gostava de saber porquê...
O caçador, homem já de meia idade, julgava já ter visto muita coisa deste mundo... mas deu consigo a pensar que aquilo que lhe estava ali a acontecer não era... não podia ser, não podia estar a acontecer. Ou bebera um pouquito mais que o devido – o que não fora o caso – ou estava a sonhar – o que também não parecia – ou estava a ficar maluquinho – e esta última hipótese era, de longe, a mais preocupante.
- Acorda, homem... acorda. Estás a ter um pesadelo... vê se acordas – e beliscou-se no braço com toda a força que conseguiu.
Quando abriu de novo os olhos, esperava encontar algo de diferente – mas a única diferença que sentiu foi uma dor no braço e uma marca arroxeada no local da beliscadura. E, claro... ainda havia outro pormenor... o coelho ainda continuava especado no mesmo local, a fitá-lo atentamente.
- Posso ir-me embora, então ? – voltou de novo a coelho a questionar.
- Os coelhos ... não falam – conseguiu finalmente gaguejar o caçador – isto ... isto é tudo uma alucinação...
O coelho espetou uma das orelhas ao alto.
- Uma alucinação ? Por mim... até pode ser, olhe que não me importo nada... mas continuo a dizer-lhe que não é nada simpático andar por aí aos tiros, a assustar a minha familia... afinal de contas, fizemos-lhe algum mal ?
- Ahn... eu ...
O coelho emitiu um som prolongado, vagamente semelhante a um assobio.
De imediato surgiram, de entre as rochas, meia dúzia de orelhas e logo a seguir, outros tantos coelhinhos, de várias cores, bastante pequenos. No final, vinha um outro coelho, também cinzento, bastante corpulento.
- Vá, crianças... passem agora... com cuidado... vejam lá onde colocam as patas... a vossa mãe já irá ter convosco...
E lá foram passando, um a um, diante do caçador, rumo ao amontoado de pedras que lhes estaria a servir de toca improvisada.
Depois de todos terem desaparecido pelo apertado orificio, o coelho cinzento ergueu-se nas patas traseiras, parecendo ainda maior.
Bateu repetidamente com uma das patas no chão, para assinalar devidamente a sua presença e deu um pequeno salto em direcção à toca. Mais um salto, deteve-se e virou a cabeça felpuda para o caçador, que continuava imóvel, presenciando atordoado todo o espectáculo.
- ... E para a próxima vez... porque não vai usar essa coisa com os seus vizinhos ? É que você nem imagina o susto que isso provoca aqui aos nossos filhotes... veja lá se pensa nisso, está bem ?
Mais um salto, e desapareceu no interior da toca.
O caçador continuou estático, a arma pendurada das mãos, ora olhando para a moita das silvas, ora para o orificio por onde haviam desaperecido os coelhos.
Um leve estalido de ramos a quebrar trouxe-o de novo à realidade. Bem à sua direita, um pequeno coelho castanho espreitava por entre as silvas. Levantou rápidamente a arma e fez pontaria.
No mesmo instrante, um som familiar, levemente semelhante a um assobio, fez-se ouvir.
O pequeno coelho, parecendo responder ao som, bateu com força as patas traseiras no chão, e num salto acrobático, desviou-se da bala e mergulhou no abrigo da toca protectora.
O caçador resmungou, contrariado.
Era melhor – aliás, nem podia ser de outro jeito – esquecer o sucedido. Nada acontecera. Não acontecera absolutamente nada, e ele iria simplesmente mudar de local, procurar outras paragens... à procura de melhor sorte.
Ainda se estava a erguer, para arrumar todas as suas coisas, quando voltou a ouvir uma voz, já bem familiar, a ecoar-lhe dentro da cabeça.
- Vês ? Vês ? Agora já percebes porque quando o teu pai diz para andares ao pé de nós... é mesmo para andares ao pé de nós ? Já percebeste ?
E, lá bem ao fundo, uma outra vozinha, tímida, respondeu.
- Desculpa, pai...

 

publicado por entremares às 16:45
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2 comentários:
De Óscarito a 18 de Março de 2009 às 18:57
Ao ler este teu texto lembrei-me de La Fontaine.
Andaste na mesma escola que ele? Não digo com ele, evidentemente...
Como já afirmei, é sempre um prazer ler-te. Agora vou ao trevo de 4 folhas que ainda não li.
Abraço.
De ângela a 18 de Março de 2009 às 21:11
ainda não é um comentário, mas o agradecimento atrasado pela visita à minha babel e pelas palavras. terei que voltar com mais tempo para ler.

obrigada

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