Terça-feira, 17 de Março de 2009

Um trevo de quatro folhas

 

 

Seria verdade?
Debruçou-se para a frente. Era... era mesmo... não havia dúvidas. Encontrara-o.
Finalmente.
Com as mãos trémulas de excitação, apanhou o pequeno trevo, o seu pequeno trevo de... quatro folhas.
Há quanto tempo o procurava? Dois anos? Três anos? Já nem se lembrava ao certo, mas sabia que não havia dia que passasse que ele não fosse para o jardim, para o quintal, até para o fundo da rua à procura... em todos os recantos húmidos, junto dos canteiros de flores, atrás das árvores... e sempre sem sucesso.
Os trevos, essas fugidias plantinhas da sorte... cresciam profusamente por todos os lados, mas só com... três folhas. Normais, sem absolutamente nada fora do vulgar, de um verde pouco apelativo, tristonho até, mas... eram as plantas da sorte, e portanto, que importância tinha a cor, a forma ou até o tamanho?
Nenhuma, absolutamente nenhuma.
A mãe sempre lhe dissera – Pedrito... quando encontrares um trevo de quatro folhas... poderás desejar o que quiseres... e o teu desejo realizar-se-á. Mas tens que ser tu mesmo a encontrá-lo, e mais ninguém... compreendes?
O Pedrito, com os seus doze anitos, compreendera perfeitamente. Com o entusiasmo próprio da idade, procurara incansável o seu trevo, com sol ou chuva, calor ou frio, sem desânimo, com a firme convicção de que o encontraria, nem que demorasse anos...
E então, poderia pedir o seu desejo... e ele realizar-se-ia...
Deu meia volta e voltou a casa, o mais depressa que pode.
- Mãe... mãe... encontrei... olha, encontrei... – ia gritando, enquanto se aproximava das traseiras da casa, onde a mãe continuava a pendurar as peças de roupa no estendal.
Alertada pela gritaria, a vizinha Rosa debruçou-se da janela da cozinha, como fazia sempre que alguém passava na rua, ou falava mais alto.
- Pedrito... cuidado, que ainda cais... – e a mãe pousou o cesto da roupa no chão e correu para ele.
- Mãe, mãe... encontrei, olha, a sério que encontrei... – e a voz tropeçava-lhe nas palavras, tal a excitação – olha, vê bem... quatro folhas, quatro folhas...
E estendeu as duas mãos para a mãe, segurando nelas o seu mais precioso tesouro.
A mãe abraçou-o, sorridente.
- Eu nunca duvidei que o encontrarias, meu filho... – e a mãe devolveu-lhe delicadamente o pequeno trevo, fechando-lhe as mãos em concha sobre ele - ... tu quando queres uma coisa, nunca desistes, eu sei como tu és...
Passou-lhe a mão pelos cabelos em desalinho, a cara corada de energia quase a explodir.
- E agora, mãe ... já posso pedir o meu desejo ? Já posso ?
A mãe continuou a sorrir.
- Claro que podes... já sabes que o trevo de quatro folhas é como a tua fada dos dentes... os teus desejos sempre se realizaram, não é verdade? ... e então, o que vais desejar ? Mais um brinquedo ?
- Oh, mãe... então... desta vez é que vai ser... eu vou voltar a andar...
A mãe ficou imóvel, olhando para o pequeno Pedrito. A cor fugiu-lhe do rosto e, por momentos, sentiu o chão abrir-se, bem por debaixo dos pés, num abismo enorme, num poço sem fundo.
- Pedrito... – balbuciou... não compreendo...
- Oh, mãe... – e o Pedrito apoiou-se sobre os cotovelos e ergueu-se o mais possível, sobre a cadeira de rodas – então não percebes ? Desta vez é que vai ser... eu vou conseguir andar ... novamente... vai ser esse o meu desejo...
- Mas, Pedrito... tu sabes... bem, o médico disse-te que.. – e a mãe não conseguiu terminar a frase. Um nó na garganta silenciou-lhe a voz, e os olhos húmidos não conseguiram conter as lágrimas, para espanto do filho que, ainda trémulo de excitação, continuava repetindo - ... mãe, a sério... vais ver que se vai realizar... os outros desejos ... todos se realizaram... este também se irá realizar...
A mãe agarrou-se a ele, escondendo a cara por entre os braços.
Três anos atrás – fatídico dia, aquele – o Pedrito saira a pedalar, como de costume, cheio de energia, porta fora, na sua biciclete vermelha, reluzente. Era domingo.
Mal transpusera os portões do jardim, distraído, nem reparara no automóvel que circulava pela rua, no seu passeio matinal.
O resto... o resto fazia parte do passado, das intermináveis visitas ao hospital, da convalescença numa cadeira de rodas e do diagnóstico atroz do médico, quando lhe dissera, emocionado... que o Pedrito, o seu Pedrito, passaria o resto da vida agarrado aquela cadeira de rodas.
- Mãe ? – e o pequeno Pedrito sentiu a face molhada com lágrimas que nem eram suas.
- Sim, Pedrito...
- Porques choras ?
- Pedrito...
Ainda tentou abrir a boca, numa tentativa vâ de explicar que nem todos os desejos poderiam ser realizados por um pequeno trevo de quatro folhas... mas não foi capaz.
Desconsolada, tentou sorrir.
Mas os olhos traíram-na e só as lágrimas continuaram a correr...

 

publicado por entremares às 16:05
link do post | comentar | favorito
|
6 comentários:
De Carla a 17 de Março de 2009 às 17:05
dorido este texto onde a esperança acaba moribunda numa cadeira de rodas!
Excepcionalmente bem escrito
beijos
De Maria de Fátima a 17 de Março de 2009 às 20:28
retribuindo gostares
De Isabel Branco a 17 de Março de 2009 às 22:06
Entremares

Anda a sorte entre as quatro folhas
verdejantes dum tímido trevo...
Andam lágrimas entre as bolhas
de orvalho que lhe salpicam o nervo...

Um beijinho.

De Carla a 17 de Março de 2009 às 22:26
quando desejamos corremos pelo nosso desejo... esforçamo-nos por encontra-lo... uma bela história bem real, que desejava enquanto a lia que esse trevo realiza-se um milagre... Muito intenso, bela forma de caracterizar um desejo Abraço
De Jorge Soares a 17 de Março de 2009 às 23:25
Sou daqueles que acha que as histórias deviam ter sempre um final feliz...... quem sabe e esta teve?

Mais um excelente texto
Jorge
De Óscarito a 18 de Março de 2009 às 19:21
Fazem parte de vida estes "trevos" de 4 folhas.
Mas também fazem parte desta vida a vontade de ultrapassar dificuldades. Só que a força para isso não é fácil de encontrar.
Abraço

Comentar post

.mais sobre mim

.BlogGincana


.Fevereiro 2010

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28

.posts recentes

. O unicórnio branco

. Nascer de novo

. Noites de lua nova

. Perguntas e Respostas

. Roby, o rei leão

. Onde mora o paraíso?

. Sinais

. Um novo destino

. O profeta

. Ele e Ela

. As doze badaladas

. O salto da alma nua

. O rei morreu... Viva o re...

. Blog Gincana - Novembro

. A dúvida humana

.

. João e o Mestre

. Aniversário

. E depois do adeus

. A pimenta do amor

. O que fazer?

. Sem título

. A mulher invisível

. A escolha dos anjos

. Os amantes

. A Dama do Outono

. Um pedido

. Simplesmente Eugénio

. Carmen Miranda

. A decisão

.arquivos

. Fevereiro 2010

. Janeiro 2010

. Dezembro 2009

. Novembro 2009

. Outubro 2009

. Setembro 2009

. Agosto 2009

. Julho 2009

. Junho 2009

. Maio 2009

. Abril 2009

. Março 2009

. Fevereiro 2009

. Janeiro 2009

.Os ouvintes das histórias

online

.links

.as minhas fotos

.Nº de Navegadores

Get a free html hit counter here.

.Google

.Quem navega...

Locations of visitors to this page

.Gazeta dos Blogueiros

Gazeta dos Blogueiros
blogs SAPO

.subscrever feeds