Segunda-feira, 16 de Março de 2009

O guardião

 

 

- Não, não e ainda mais uma vez... não.
- Tens a certeza ?
- Claro que tenho a certeza.
- Mas, repara bem... não demorava tempo nenhum...
- Não insistas... não vale a pena. E, por falar nisso, também não deverias ir...
- ...
- Quando foi a última vez que lá estiveste ?
- Ontem... mas garanto-te... foi só um pedacinho... entrei e saí, nem cheguei bem a estar lá...
- Tu és incorrigível, Gabriel. Quando largas esse vício do jogo ?
- ... Estou a tratar disso, tu bem sabes... mas vê bem, precisas de me dar um certo tempo... estas coisas não se conseguem assim do dia para a noite...
- Estás a dar cabo da tua vida... e a impedir-te de cumprir com as tuas tarefas... e depois, quem sofre com isso, quem é, quem é ?... sou eu.
- Eugénio... eu sei, eu sei que tens toda a razão... eu sei que tu és um bom amigo... mas repara... desde que me conheces... já reparaste que eu estou diferente, não estou ?
- Estás ?
- ... Claro que estou, Eugénio... então eu já nem bebo... nem um cheirinho, e tu sabes que é verdade...
- Pois... então e as noitadas ?
- As noitadas ? ... Então... fiz alguma coisa de errado ?
- ...e ainda perguntas ? Oh, Gabriel... então não era suposto tu seres uma fonte de bons exemplos e essas coisas todas ? Não devias dar-me bons conselhos, zelar pela nossa amizade... e pela minha felicidade? Não devia ser assim ?
- Oh Eugénio... mas é claro que sim, é claro que sim... tu sabes que eu gosto imenso de ti... aliás, sabes muito bem que a minha missão é proteger-te, zelar por ti... mas tu nem sempre precisas de mim, às vezes até estás a dormir e ...  olha que também foram só um par de ocasiões...
- ... Saiste-me cá um mulherengo... nunca pensei... sinceramente, nunca pensei...
- Eugénio... é só uma fraqueza da minha parte... e que bem mal me faz, como sabes... o meu coração já não é o que era... e cada vez me sinto mais pesado...
- O que estavas à espera ? ... Bebias como um cacho... passavas as noites nos casinos... ou nos bares, e que me lembre, nunca saías de lá sózinho... eu nem sei como é que conseguiste aguentar tanto tempo... mas o problema maior é que tu és um inconsciente...
- Eu, Eugénio ? Um inconsciente ?
- Exactamente... Quantas vezes dou comigo a chamar-te... a pedir-te ajuda... e tu nem me respondes ? Não devia ser essa a tua função ? Ouvires ? Zelar por mim ?
- ...
- ... Esse silêncio significa o quê ? Não tenho razão ?
- Claro que tens ... sabes que estou envergonhado...
- Por acaso estou vendo... aliás, é das poucas coisas que consigo perceber em ti, é quando estás envergonhado... ficas com as penas um bocado cor-de-rosa, nunca percebi porquê ...
- Desculpa, Eugénio... vou tentar emendar-me... a sério...
- Oh, Gabriel... como eu gostava de acreditar em ti... é que, sinceramente... acho que temos os papéis errados nesta vida...
- Como assim, Eugénio ?
- Ainda perguntas ? Então não és tu, Gabriel, o meu anjo da guarda ? Não devias olhar por mim, guiar-me, zelar por mim, ajudar-me ...
- Tens razão, Eugénio, tens razão...
- Eu sei que tenho razão, Gabriel... como sempre. Vá, vamos lá, dobra lá as asas... vai mas é deitar-te... já são mais que horas... que belo anjo da guarda me saiste...

 

publicado por entremares às 15:10
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4 comentários:
De Najla a 16 de Março de 2009 às 17:12
Lindo o texto!
Por algumas ocasiões na vida, fazemos todos nós de anjo...
Mas ao ponto de falar com ele....julgo que é grave!!! eheheheh
De Óscarito a 16 de Março de 2009 às 23:05
Boa.
Bem se pode dizer que já não há anjos como antigamente.
Ou então que já não são tão anjinhos....!
Abraço.
De Rebecaa a 17 de Março de 2009 às 01:50
"Vá, vamos lá, dobra lá as asas... vai mas é deitar-te... já são mais que horas... que belo anjo da guarda me saiste..."

Até arrepiei de tão lindo!

Maravihosa segunda.

=]

Rebeca

-
De Rebeca a 17 de Março de 2009 às 12:28
Pessoas felizes se reconhecem e se admiram com aquele sorriso de ponta a ponta na alma. Sabe, acordar cedo e se deparar com um comentário tão rico, tão cheio de palavras sinceras, dá até taquicardia num coração. Só quem entende de sentimentos nobres, escreve e sente como você, querido ''Entremares". Suas ondas quando se formam, sempre vão além... sua forma de escrever é um espetáculo de ser lido e nada do que sai de ti é enfadonho.

Amei suas palavras, amei!

Maravilhosa terça.

Rebeca

-

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