Domingo, 15 de Março de 2009

Um peixe chamado Lancelot

 

 

A mãe oferecera-lhe o primeiro peixe dourado pelo seu décimo aniversário; o peixe, o aquário, um bau do tesouro e uma roda de leme, que girava lentamente ao sabor das bolhas de ar, sempre que ele ligava o interruptor da minúscula bomba. O ar descia pelo tubo, movia a roda do leme, subia pelas paredes da gruta artificial, agitava as folhas das algas e emergia à superfície, com o característico som borbulhante das águas agitadas.
Depois... bem... depois tomou-lhe o gosto; mais um peixinho vermelho, dois azuis com riscas amarelas, um todo negro e de longas barbatanas... até que percebeu que o pequeno aquário já não era suficiente para tantos ocupantes.
Teve de esperar portanto por mais um aniversário, para realizar o seu sonho; um aquário enorme – ele próprio caberia lá dentro, com jeitinho – repleto de adereços, iluminado, com um sistema automático de limpeza e mais um sem número de inovações tecnológicas que faziam com que as tarefas de limpeza manuais se resumissem a ... zero.
Sobrava assim todo o tempo do mundo para disfrutar daquele recanto azul e do calmo deambular dos peixinhos coloridos.
O pequeno Raul passava horas... junto do seu aquário. Colocara-o no quarto, bem ao lado da sua escrivaninha e assim, enquanto rabiscava os trabalhos da escola, ia espreitando os seus amiguinhos, em miradas fugidias. Em especial, a um deles.
O “Lancelot”, - assim o baptizara – chegara ao aquário por último, oferecido pela tia Mimi no Natal anterior. Pertencia à espécie dos Pomacentridae, sub espécies dos Ocellaris... mas claro que ninguém o tratava por nome tão pomposo. Não.
Lancelot era simplesmente um ... peixe palhaço; Laranja vivo, com o corpo percorrido por duas grandes faixas azul vivo, transversais, limitadas por franjas branco brilhante. Sempre que se movia, a luz reflectia-se no corpo, espalhando reflexos coloridos por todo o aquário.
Raul gostava de todos os seus peixinhos mas... Lancelot era especial, tão especial que por vezes até duvidava que ele fosse simplesmente um peixe.
E porquê ?
Porque Raul contava histórias aos peixes... falava com eles... e desde logo percebeu que o Lancelot lhe respondia com mais atenção que qualquer outro. Estivesse onde estivesse, procurava o canto mais próximo das paredes do aquário, encostava a cabeça ao vidro e por ali ficava, quase imóvel, abrindo e fechando a boca, devorando as palavras que o Raul ia contando. No final de cada história, atirava-lhe um pedacinho de pão e Lancelot não desperdiçava a oportunidade, abocanhando-o de imediato e fugindo para dentro da gruta com ele, antes que os restantes peixes do aquário dessem conta do sucedido.
Casualmente, um dia colocou uma pedra maior sobre a gruta, uma pedra lisa e que mergulhando suavemente na água, reconstituía na perfeição uma pequena piscina natural, com um declive suave onde os banhistas imaginários poderiam deleitar-se, deitados ao sol, os pés dentro de água. Para o cenário ser mais real, colocou sobre a pedra um dos seus velhos bonecos Action-Man, já com algumas mazelas – mas não importava, o cenário continuava composto, e isso era o mais importante.
 
Numa bela manhã, logo a seguir à taça de cereais e às torradinhas, ia pegar na mochila da escola quando reparou em algo de diferente, no seu aquário.
Mal se aproximou o suficiente, percebeu que o seu Lancelot estava com um comportamento diferente... no mínimo estranho, até; o pequeno peixe palhaço contorcia-se vigorosamente sobre a pedra, metade do corpo imerso e a cabeça de fora de água. Mal deu conta da chegada de Raul, imobilizou-se naquela estranha posição.
- Esta agora.... estará doente ?
E, com todo o cuidado, pegou no pequeno peixe e devolveu-o às águas profundas do aquário.
 
Mal desviou o olhar, um “ plof” característico soou nas suas costas, como se algo estivesse a chapinhar sobre a água.
Lancelot acabara de, num salto desajeitado, aterrar literalmente sobre a pedra lisa, e parecia fitá-lo com atenção, imóvel.
Sem saber muito bem o que pensar de toda a situação, Raul continuou a arrumar a sua mochila, dirigindo-se ao pequeno peixe em voz baixa, como se este o pudesse ouvir ... e compreender.
- ... Olha... não sei o que estás a fazer ... mas agora tenho mesmo que ir.... prometo que se te portares bem... depois conto-te duas histórias... estás a ouvir ? ... Duas... em vez de uma...
Preferindo não pensar mais sobre o assunto, colocou a mochila às costas e saiu porta fora.
 
Nos dias seguintes, poucos conseguiram ver Raul fora do quarto. Saía a correr para as aulas, quase atrasado, voltava a correr, comia e fechava-se no seu pequeno recanto, ignorando o computador, a consola, a televisão... enfim, uma coisa nunca vista.
 
Naquele domingo, Raul estava mais apressado que nunca, por regressar a casa. Haviam partido na sexta-feira, pela tardinha, rumo ao norte, para visitar os avós. A viagem era longa, aborrecida e cheia de curvas, mas um fim-de-semana com eles, na quinta, justificava todo o cansaço. E o avô Manuel, sempre que o apanhava lá, levava-o sempre consigo, para tratar as vacas, as ovelhas, dar de comer às rolas e aos pombos... até o deixava subir para cima do tractor, quando precisava de ir até ao poço encher os garrafões de água.
O Raul adorava a quinta.
Mas agora, enquanto a mãe metia a chave à porta de casa, o coração quase que lhe saltava do peito, de preocupação.
O seu Lancelot... como estaria o seu Lancelot ?
Mal entrou, correu desvairado até ao quarto.
Abriu a porta e os seus olhos procuraram instintivamente o pequeno peixe palhaço, desejando não ver... aquilo que estava a ver.
Sobre a pedra lisa, parcialmente submersa, Lancelot permanecia imóvel, os olhos já sem brilho, ainda à espera da história diária... que nunca chegara.
Raul tocou-lhe ao de leve, na vâ esperança de o trazer de volta à vida... mas sem êxito, e mesmo antes de lhe tocar já compreendera a inutilidade do gesto.
- Lancelot... desculpa ter demorado tanto...
O pequeno peixe palhaço já não o ouvia.
Por uns instantes, os outros ocupantes do aquário vieram espreitar, mas depressa se desinteressaram e continuaram o seu eterno deambular, contornando as bolhas de ar que se desprendiam do fundo.
O pequeno Raul deixou-se cair, desanimado, sobre a cadeira.
Quem ouviria agora as suas histórias ?
 
- Lancelot.... tenho saudades tuas...

 

publicado por entremares às 16:48
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4 comentários:
De Jorge Soares a 15 de Março de 2009 às 23:23
Ora lá está...esse é o motivo pelo qual cá em casa não há peixinhos...há muitas viagens ao norte...

Abraço e boa semana.
Jorge
De Sofia a 15 de Março de 2009 às 23:28
Será que o destino dos Lancelot's serão sempre tristes, sempre tão cheios de pouca sorte?
De Zélia a 15 de Março de 2009 às 23:41
_______________________________________

Muito boa a sua história! Com um final bem triste...Mas, as histórias reais, geralmente também são tristes, não é?

Beijos de luz e uma semana feliz!!!

_________________________________________
De meldevespas a 16 de Março de 2009 às 15:04
Belissimos textos ha por aqui sim senhor!
Gostei muito
Cumprimentos Reguenguenses

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