Sábado, 14 de Março de 2009

Auto retrato

 

 

Uma última pincelada... não... talvez um pouco mais de sombras ali ao canto... sim, sem dúvida... muito mais real... um último risco nos cabelos... e ... pronto.
Afastou-se um pouco e, de spray em punho, borrifou toda a superfície do quadro com o fixador.
De imediato, as cores ganharam um colorido brilhante, enquanto a vaporização do produto revestia toda a superfície da tela de uma finíssima camada protectora, impermeável ao pó e à humidade, saturando toda a pigmentação das tintas com tonalidades mais vivas, como se de uma superfície molhada se tratasse.
Pronto... estava terminado.
 
Retrocedeu dois passos, para contemplar a obra.
Uma figura feminina, de longos cabelos brancos, pele morena e enrugada pelas marcas evidentes do tempo, lenço colorido pendido dos ombros e um olhar – e que olhar – penetrante, muito violeta... sobressaía do fundo acinzentado de um areal – talvez uma praia – ocupando toda a parte central da tela.
O retrato devolveu-lhe o olhar, um olhar carregado com a tranquilidade da idade, de sorriso cativante. Aqueles olhos transbordavam de cor, de um violeta tão vivo como o alecrim dos campos, com uma expressão de quem está a contemplar o mundo, como se o mundo real estivesse dentro da moldura e aquele ali fosse sómente... uma fantasia.
 
Com muito cuidado, assinou o seu nome, no canto inferior. Depois, com a ponta afiada do estilete, riscou a moldura, escrevendo:
 
“ Auto retrato – Sofia “
 
A porta do pequeno estúdio abriu-se e, por uns segundos, os ruídos e som ambiente do mundo exterior misturaram-se com o cheiro forte das tintas.
- Já terminaste?
Ela lançou-lhe um aceno de confirmação, enquanto soprava uma madeixa de cabelos que teimava em cair-lhe sobre os olhos.
- Já... já terminei. Queres vê-lo ?
- Claro que quero. Posso ?
Ela afastou-se para o lado. O marido aproximou-se e, por longos instantes, quedou-se imóvel a fixar o quadro, bebendo-lhe os pormenores.
- Gosto muito do olhar... tem um brilho... que me agrada muito... tem energia.
- Ainda bem que gostaste...
- Que idade lhe darias ? – e o marido apontava para o quadro – talvez uns setenta ?
- Sim... concordou ela – ou até um pouco mais...
O marido aproximou-se mais. Os óculos escorregaram-lhe pelo nariz, enquanto observava com interesse os rabiscos na moldura.
- E isto ... o que é ?
- É o nome do quadro... todos os quadros devem ter um nome, não achas ?
- Pois... isso eu percebo... mas tu escreveste aqui “ Auto retrato “... ou sou eu que estou a perceber mal ?
Ela lançou-lhe um sorriso ternurento.
- Não, não estás a perceber mal... isso é mesmo assim, é um auto retrato da Sofia, da tua mulherzinha pintora de trazer por casa...
Ele hesitou, pesando bem as palavras.
- ... Oh, Sofia... o olhar da senhora do quadro... até que me parece bem o teu... mas quantos anos disseste que tinha aquela personagem que pintaste ?
- ... algures entre os setenta e os oitenta...
 
Ele abraçou-a, passando-lhe a mão pela cabeleira negra.
- Sofia... mas tu tens a mesma idade que eu, não tens ? ... Ainda vamos fazer quarenta, se não me falham as contas...
- ... lá isso é verdade... – e ela ria bem disposta - ... e então, há alguma coisa que me impeça de desenhar um auto retrato de quando eu for velha ?
- ... pois... fiquei sem palavras... então, aquela ali... és tu ?
- Por enquanto... ainda não... mas se tudo correr bem... olha que não me importava nada de chegar aquela idade com aquele visual... e tu, achas que eu vou ter aquele aspecto ?
O marido não sabia muito bem o que lhe haveria de responder.
- Bem... a resposta é fácil... seja lá o que for que eu responda ... vamos ainda ter muitos anos até descobrirmos se acertei ou não... não é ?

 

publicado por entremares às 13:01
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2 comentários:
De José Kuski a 14 de Março de 2009 às 19:07
Continuo a pensar como é interessante a diversidade de temas que abordas, e bem, e a forma como os misturas com uma especie de surrealismo cinematográfico.
Esta nem o Dali ...
De a-la-minute@sapo.pt a 15 de Março de 2009 às 09:06
Dois pseudo-intelectuais que acham que sbem o que é a reflexão interior e o mundo do surrealismo de Dali. Apesar da vossa vaidade, pouco sábia, gosto do José Kusky, como sabem, mas não aprecio o Rolando.

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