Quinta-feira, 22 de Janeiro de 2009

BELAMOX F

 

 
BELAMOX F
O nome era um bocadinho ridículo, verdade seja dita. A embalagem, essa era igual a todas as outras, branca e com umas riscas azuis, com os dizeres do costume.
Abriu-a com curiosidade, mas o seu interior era tão banal como o exterior; um suporte plástico contendo dois grandes comprimidos brancos e o tradicional papelinho com as instruções, a famosa bula.
Até aí, nada de novo.
Ou melhor, nada daquilo parecia diferente... mas era diferente.
Guardou cuidadosamente a embalagem no bolso da gabardine, enterrou o gorro até às orelhas e apressou o passo em direcção a casa, que o frio apertava.
Aquela caixinha ia ser a sua salvação.
Mal chegou a casa, pôs-se à vontade, calçou as pantufas e atirou-se para o sofá, já com a caixinha branca e azul nas mãos. Apressadamente, retirou a bula e pôs-se a ler com sofreguidão as propriedades miraculosas de BELAMOX F
“ o Belamox é um desinibidor quimico ... ao agir sobre os estímulos do córtex cerebral ... liberta endomorfinas ... ( havia ali muitos termos que não percebia, mas também não pareciam alterar o sentido geral da coisa, portanto não fazia mal ) ... nas suas duas versões ... tornar a pessoa irresistível ... efeito temporário ... pessoas saudáveis ... problemas cardíacos ... ( ele tinha um coração de aço, não havia problema quanto a isso ) posologia adequada ... blá-blá-blá... o resto já não parecia ter interesse.
Portanto, era simples. Resumindo, só tinha que tomar um comprimido à noite, dormir uma bela soneca e de manhã – sorriu só de pensar nisso – todas as mulheres deste mundo iriam reparar nele, porque aquela droga milagrosa fazia que o seu corpo libertasse umas coisas quaisquer terminadas em “inas” que diziam os cientistas ser a causa da atracção dos homens pelas mulheres e vice-versa.
Portanto... adeus tristezas, solidão, serões a ver televisão e idas ao bar do Sr. Silva. A partir do dia seguinte, ahhh.... outro galo iria cantar.
Custou-lhe muito a adormecer. Só conseguia imaginar-se rodeado de belas mulheres, que o perseguiam pelas ruas, que o esperavam à porta do emprego, faziam fila de espera junto à porta do seu apartamento e até pagavam ao sr. Silva para que este as avisasse da hora a que ele gostava de ir ao bar beber o seu café.
 
O dia acordou radioso, cheio de sol, uma autêntica primavera.
Vestiu-se em tempo record e correu para a rua, galgando os degraus a quatro e quatro.
Sentia-se um novo homem. Um homem com H grande, um H mesmo muito grande.
Respirou fundo e olhou em redor, à procura das suas admiradoras.
Vinham duas estudantes na sua direcção e ele deixou-se ficar, encostado ao parquímetro, fingindo olhar distraído para o movimento da rua.
Elas aproximaram-se, conversando animadamente qualquer coisa sobre estudos, ou escola, ou coisa parecida, passaram por ele e continuaram tranquilamente o seu percurso, rua abaixo.
Nada acontecera.
- Isto houve qualquer coisa que não funcionou – ainda pensou – mas teremos que experimentar de maneira diferente, talvez...
Lembrou-se da moça do quiosque dos jornais, do outro lado da rua. E aí vai ele, assobiando baixinho, para comprar uma revista.
O quiosque está sem clientes. Olha directamente para a moça, à espera que aconteça alguma coisa... talvez um brilho nos olhos, ou um sorriso, não fazia a mínima ideia, mas algum sinal deveria acontecer...
Escolheu a revista, pagou e ainda esperou uns segundos.
- Ora esta ... o que é que não está a dar certo ?
Rumou novamente a casa, enquanto cogitava uma solução para o enigma.
- Terá sido a dose ? Se calhar, para o meu peso, deveria ter tomado os dois ... lembro-me que lá dizia qualquer coisa sobre posologia... deve ser isso, devo ter tomado metade da dose, não vejo outra explicação.
Se bem o pensou, melhor o fez. Mal chegou a casa, engoliu o segundo comprimido branco, guardou a bula num bolso e a caixa vazia no outro.
- E com isto tudo, estou a ficar atrasado ...
Olhou-se ao espelho, ajeitou o cabelo e saiu para a rua. Precisava de apanhar o autocarro das 8 e 45, senão ia chegar tarde ao emprego; o que não seria nada agradável.
Na paragem, encontrou, como de costume, o vizinho do 3º esquerdo, o sr Manuel, já fardado de policia e a caminho da esquadra.
- Sr Manuel... Bom dia.
- Olha o meu vizinho... você hoje está ... sei lá, diferente. Está bem disposto...
- Bem... estou, acho que estou. Está um belo dia, ontem é que estava um frio de rachar...
- Oh meu vizinho... deixe-me que lhe diga, mas você está , olhe, não lhe sei explicar... mudou o penteado, ou o que foi ? – e o sr. Manuel aproximou-se, observando interessado o seu cabelo.
- O penteado ? ( Não percebia patavina ) Bem ... não, na verdade, não – nem sabia o que lhe havia de dizer – se calhar é o shampoo da caspa...
- Meu vizinho... – e o sr. Manuel aproximou-se um pouquinho mais – olhe... já viu ? A gente a viver quase lado a lado... e nunca nos encontramos, nem para tomar um cafézinho, ou coisa assim... é uma pena, não é ?
- Pois... na verdade... claro que é uma pena... ( O sr. Manuel não era aquilo que ele estava a pensar, pois não ? )
- Meu vizinho... meu vizinho maroto. Olhe, eu hoje quando sair do serviço, vou bater-lhe lá à porta... e aí a gente vai ber um copito, pode ser ? É claro que pode ser, estou vendo nesses belos olhos que pode ser... você é mesmo um espectáculo, como é que eu nunca reparei nisso ? ... Devia estar ceeeeego.
- Claro, claro... ( Não gostou em particular daquele entoar da palavra ceeeego, mas ainda bem que o autocarro estava a chegar e a abrir as portas ).
- Então até logo, sr. Manuel.... até logo...
E saltou para dentro, enquanto o sr. Manuel lhe enviava um sorriso doce que nunca se lembrava de lhe ter visto.
Como era hábito, o autocarro estava cheio. Ou melhor, a abarrotar. O que também já era normal. Fazia parte do suplicio matinal, só por vezes mais agradável de suportar quando ficava comprimido com uma passajeira do sexo oposto, e os seus corpinhos tinham que conviver intimamente durante os dez ou quinze minutos da viagem. Não fosse isso e aquelas manhãs seriam sempre um autêntico purgatório.
Esticou a mão e segurou-se no varão, já preparado para as curvas apertadas e as travagens mais ou menos bruscas. Hoje ficara com uma senhora já de idade à sua frente, uma moça com um aspecto asiático à esquerda e um militar á direita.
Duas curvas e três travagens depois, a senhora de idade já conseguira bater com a cabeça no vidro e o militar já lhe caira em cima. A moça asiática, com um equilibrio espantoso, permanecia imóvel.
Agarrou-se com mais força ao varão metálico.
Mas era inútil.
Mais um semáforo e descobriu que a senhora de idade parecia estar a dormitar, o que lhe parecia um feito extraordinário, no meio de tantos solavancos, acelarações e travagens. Para além disso, sentia uma pressão ao nível da cintura e deviam estar a empurrá-lo pelas costas, porque se sentia projectado para a frente.
Voltou a cabeça para trás e o militar esboçou um sorriso.
Não gostou particularmente da distância excessivamente curta donde partira o sorriso. Ainda gostou menos de sentir a mão do militar a acariciar-lhe o pescoço enquanto murmurava qualquer coisa que, com o ruido ambiente, felizmente não chegou a perceber.
- Esta agora ( de repente sentiu os pensamentos a fazerem um nó ) o que é isto ?
Carregou no botão e saiu na paragem seguinte, ofegante.
- O que é isto, o que é isto, o que é isto ? – não se cansava de repetir.
Sentou-se no banco da paragem, agora deserta e esticou-se para trás. Precisava de colocar um pouco de ordem nos seus pensamentos.
Primeiro, aquele comportamento mais que estranho do polica Manuel, agora aquela idiotice dentro do autocarro, o que é que se estava a passar ?
- O que se passa hoje ?
Deu consigo a pensar que só podia ser algo relacionado com os seus comprimidos milagrosos.
- Devia ter lido aquele papel até ao fim... devo ter exagerado na dose, e se era só meio comprimido por dia ? Afinal de contas, a embalagem só tinha dois comprimidos e tomei os dois... e o que estava escrito sobre os efeitos secundários ? Provávelmente, aquela manhã de loucos era um efeito secundário... ou tudo aquilo era um sonho, um pesadelo, se calhar a droga provocava esses pesadelos, sim, claro que devia ser isso...
Puxou do papel e recomeçou a leitura, tentando ler o mais vagarosamente possível.
“ O Belamox é um desinibidor .... em duas versões ... a masculina, Belamox M e a feminina, Belamox F ... provocam .... “
Como assim ?
Teve que ler de novo. Sentiu que as pernas lhe começavam a tremer.
“ Belamox F torna todas as mulheres irrestíveis. todos os homens sentir-se-ão ... “
Retirou do outro bolso a caixa vazia e olhou estarrecido. As letras na caixinha branca e azul insistiam teimosamente em não desaparecer.
BELAMOX F
Levantou os olhos da sua importante leitura. Tocavam-lhe no ombro.
Ergueu a cabeça.
Um fulano enorme, de macacão azul, capacete das obras na cabeça e chave de fendas pendurada no bolso, debruçava-se sobre ele. E ainda por cima, sorria.
- Será que o meu amigo tem horas que me diga ?
publicado por entremares às 13:22
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1 comentário:
De S. a 23 de Janeiro de 2009 às 11:07
Estou fascinada com os seus textos. Quem me dera tal imaginação e facilidade com as palvras.

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