Sexta-feira, 13 de Março de 2009

Millenium Falcon

 

 

- João...
- Vou já...
Com um movimento seguro, a roda do leme girou suavemente e o pequeno veleiro descreveu um arco, a favor do vento, apontando a terra.
A vela mestra, enfunada pela brisa da manhã, emitiu uma série de estalidos de lona retesada e a quilha lá foi rasgando as águas, silenciosamente.
O “Falcon”, nome carinhosamente atribuido ao pequeno veleiro em homenagem à “ Millenium Falcon”, a nave do capitão Hans Solo e da sua Guerra das Estrelas, luzia de um branco brilhante, acabadinho de pintar. O convés, encerado até ao mais pequeno pormenor... as escotilhas imaculadas, até a âncora... pintada artisticamente de azul.
Como não sentir orgulho de tamanha beleza ?
O João era – sempre fora, aliás – um apaixonado pelo mar.
O mar tinha... como explicar ? – uma atracção, um magnetismo especial que, depois de provado, depois de sentido... era impossível largar.
O mar significava liberdade, a liberdade dos grandes espaços vazios, o silêncio das ondas fustigando incessantemente o casco, as gotas de espuma projectadas no ar, a brisa molhada a salpicar o rosto... o mar significava a solidão voluntária, a calma dos dias sem horários a cumprir, longos crepúsculos e noites tranquilas, sob um tecto de estrelas...
A paixão incutira-lha o pai, piloto de rebocadores.
Pelo seu sexto aniversário, levara-o consigo num par de viagens, puxando os grandes cargueiros do porto até ao exterior da barra, e os olhos do João, a partir desse dia, nunca mais haviam sido os mesmos.
- João... Então ?
- Vou já, é só um segundo... é só ajustar a vela...
Nunca era só um segundo. Depois de ajustar a vela, ainda precisava de verificar o leme – aquele guinchar só podia significar falta de óleo – dar uma vista de olhos no comando da direcção e verificar o estabilizador de bombordo; ou seja, haveria sempre coisas a fazer, quando se tratasse de assegurar a manutenção de um barco, fosse ele pequeno ou grande, veleiro ou motorizado. O Falcon não poderia ser portanto a excepção.
Adquirira-o no verão anterior, numa daquelas feiras temáticas, dedicadas ao lazer e às actividades ao ar livre. Com muito sacrifício, é certo.
Mas aquele barco era a sua companhia, sempre que podia libertar-se das tarefas quotidianas. Ali passara muitas horas, a retocar os cromados, a substituir as cordas já ressequidas, a cozer as costuras das velas e... – o que lhe dera uma enorme prazer – a pintar o nome ... “Falcon”, em grandes letras azuis, no casco do veleiro.
 
- João... não te volto a avisar...
- Vou já, mãe... agora é a sério, vou mesmo já...
Pousou o comando remoto e ajeitou melhor a corrente da âncora. O pequeno veleiro telecomandado, suavemente encostado ao cais improvisado, junto aos seus pés, imobilizou-se.
O João ergueu-se e, do alto dos seus quase doze anos, observou o grande lago do jardim, onde nesse momento um casal de patos cinzentos grasnava ruidosamente.
Contrariado, apressou o passo em direcção a casa. Não era boa ideia testar a paciência da mãe, principalmente quando o almoço já estava servido e a arrefecer sobre a mesa da cozinha.
- Quando for grande...
Mas ainda não o era.
 
Um cheiro inconfundível guiou-lhe os passos até à porta da cozinha. A mãe – como todas as mães – era só a melhor cozinheira do mundo e ele, João, estava esfomeado.
A brincadeira, o lago e o pequeno veleiro teriam que ficar para mais logo...

 

publicado por entremares às 13:46
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3 comentários:
De Sofia a 13 de Março de 2009 às 14:11
É "Sofia"

Nota-se que gosto muitooooo do meu nome, não se nota?
De Carla a 13 de Março de 2009 às 15:22
adorei navegar por estes mares de sonhos
beijos
De alice campos a 13 de Março de 2009 às 20:27
há brinquedos lúdicos que ajudam a povoar o imaginário das crianças, mas um barco no mar é inimitável :) um beijo e bom fim de semana.

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