Quarta-feira, 11 de Março de 2009

Um aniversário especial

 

 

- Vá, vocês todos... vamos lá a levantar esses copos... vamos fazer um brinde à nossa Josefa...
E, dando o exemplo, levantou-se e ergueu o copo bem alto. Logo de seguida, todos lhe seguiram o exemplo, com entusiamo.
- Um brinde... vamos a isso... um brinde para a nossa Josefa... quem faz as honras ?
O Manuel, o primeiro que se erguera, parecia impulsionado por uma mola – Eu faço o brinde... ou pelo menos... eu faço o primeiro brinde... depois vocês logo poderão fazer aqueles que entenderem... vá, copos erguidos...
A homenageada permaneceu sentada, à cabeceira da mesa. O olhar maroto transbordava de felicidade, mas remeteu-se ao silêncio. Havia um tempo adequado para tudo, e aquele tempo, ali e naquele momento, não lhe pertencia a ela.
- Josefa... minha querida Josefa... – começou o Manuel – sabe perfeitamente que todos a adoramos, e isso não é novidade nenhuma. Eu, o Joaquim, o Fábio, a Mariana, o Luis, a Fabíola... e as nossas caras-metades... todos achamos que é ... bem... que é única. E estamos muito felizes por ter sido possível reunir-mo-nos todos, consigo... e neste dia tão especial... e só lhe podemos dizer... muitos, muitos parabéns... e que venham muitos mais...
Palmas, uma grande salva de palmas. Os copos tilintaram. Beijos e abraços, muitos e em todas as direcções.
A boa da Josefa não sabia para que lado se havia de virar, atacada de todas as direcções por beijos sôfregos e abraços ternurentos. Quando finalmente se conseguiu libertar do último par de braços, um principio de lágrima escorria-lhe dos olhos.
Conteve-se e um pouco a custo, levantou-se da cadeira, apoiada pelos braços.
- Vocês são uns amores... – lá foi ela resmungando - ... e uns chatos, isso é que vocês são...
Todos se riram.
- O corpito já está um pouco enferrujado, lá isso é verdade... mas a cabeça ainda está muito boa – e ia olhando para todos eles - ... portanto não precisam de se preocupar muito comigo... porque ainda vou andar por aqui... mais uns valentes anitos...
O Joaquim ia chegar-se a ela, para a amparar, mas ela recusou-lhe carinhosamente o braço.
- Pois é... – continuou - ... não é todos os dias que se comemoram 100 primaveras... isso é verdade... e fico muito contente, a sério que fico... mesmo muito contente... por vos ver aqui todos... ainda vivos e de excelente saúde... os meus seis filhos, as minhas queridas noras... e aquele batalhão de netos e bisnetos que devem estar lá fora, no jardim, a pisar-me todas as flores...
- A culpa é toda sua, que os estragou a todos como mimos... – protestou logo a Mariana, a mais nova do grupo.
- Nisso tens razão... mas sabes, Mariana, os avós são todos assim... e quando tu eras pequenina... também protestei com a minha mãe, de cada vez que te dava doces às escondidas... não é por mal...
Fez uma pequena pausa, para recuperar o fôlego.
- Mas obrigado, do fundo do coração... vocês são todos excelentes filhos...ou não saissem ao vosso pai...
O Manuel passou a mão pelos cabelos brancos.
- ... Pois sabe... ainda bem que tocou no assunto, mãe... porque sabe... nós todos temos aqui uma pequena coisa para falar consigo... se fosse possível...
A velha Josefa estranhou o tom quase suplicante do filho.
- Essa agora, Manuel... que ar de mistério é esse ? Agora depois de velho é que vais passar a ter segredos para a tua mãe ?
Todos se riram. Bem, o Manuel nem por isso.
- A sério, mãe... é a sério... nós todos temos uma pequena surpresa para si... se prometer ficar calma...
- Ficar calma... onde é que já se viu ? O que estiveram vocês a aprontar ? Não é outra vez um daqueles voos na avionete do não-sei-das-quantas... que eu juro que nunca mais ponho os pés numa coisa daquelas, cruzes canhoto...
- Não, não... esteja descansada... olhe, só precisa de se sentar aí, está bem ? Nós trazemos a surpresa até aqui... pode ser ?
Josefa sentou-se, contrariada. Algo lhe dizia que não ia gostar especialmente do que viria a seguir... mas pronto, que alternativas ?
- Já estou sentada – resmungou ela – e agora ?
O Manuel bateu as palmas com força.
 
A porta da sala abriu-se e uma figura esguia, um pouco encurvada e ostentando uma vistosa boina basca entrou, apoiado numa bengala.
- Olá, Zefa...
A velha senhora levantou-se de um salto, como se ainda tivesse vinte anos.
- Afonso Martinho dos Santos, o que estás tu aqui a fazer na minha casa ?
O recém-chegado fingiu surpresa. Da mão oculta surgiram como que por magia uma garrafa e dois pequenos copos, que colocou, com toda a pompa e circunstância, sobre a mesa.
- Maria Josefa dos Santos, eu vim dar-te os parabéns... – disse ele, solene.
- Maria Josefa Alfaiate, caso não te recordes do meu nome de solteira. Para que conste, estamos muito bem separadinhos, já lá vão quase sessenta anos... e é por isso que eu ainda aqui continuo viva e rija que nem uma alface...
- Para mim... continuas a ser a minha Zefa, a minha mulherzinha... e cada vez mais bonita...
O Manuel interpôs-se entre os dois.
- Pronto, pronto... acabem lá com os mimos... o pai só aqui veio para lhe dar os parabéns... fomos nós que o convidámos... e insistimos... e queremos todos fazer um brinde juntos... à sua saúde.
 
Os copos ergueram-se novamente.
- À familia... – berrou o Manuel.
- À familia... – repetiram todos
Por baixo da mesa, a velha Josefa ainda tentou lançar o pé, tentando acertar na bengala do ex-marido... mas só conseguiu acertar na filha Fabíola, que protestou de dor.
- Mãe... comporte-se...

 

publicado por entremares às 14:46
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3 comentários:
De Rebeca a 11 de Março de 2009 às 15:13
A forma que você escreve é muito gostosa de ser lida. Ah se todo mundo chegasse aos 100 anos como a destemida Josefa. Amei seu comentário. Fizemos um selo de qualidade para aqueles blogs que achamos interessantes. Queremos te presentear com ele. Não queremos perder contato, amei aqui.

Maravilhosa quarta.

=]

Rebeca

-
De Óscarito a 11 de Março de 2009 às 18:29
Os velhos (eu gosto de os chamar assim, não num sentido depreciativo, antes pelo contrário: homenageando a sua idade, o seu saber, a sua vida), são uma inesgotável fonte de conhecimentos e de relatos curiosos.
Só precisamos de os ouvir!
E eles só querem que alguém os oiça!
Pena que poucos tenham tempo para eles...
Abraço!

Sabe uma coisa? Acho que este é um tema que o amigo tem possibilidades e conhecimentos para "postar"!
De Jorge Soares a 11 de Março de 2009 às 23:27
Danada a Josefa...

Mais um excelente texto.

Abraço
Jorge

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