Terça-feira, 10 de Março de 2009

O Sentido da Vida

 

 

Uma... duas ... três pancadas.
O batente ressou, naquele eco tão característica das casas de antigamente, de tectos altos e chão de mármore.
Olhou em redor. Lembrava-se perfeitamente do jardim, das escadas de granito, da porta de carvalho, dos batentes de ferro forjado com a forma de leões... da chaminé da sala... ainda com o eterno ninho de cegonhas brancas – talvez um pouco destruido – e até do cipreste junto à fonte...
É claro que nem tudo estava rigorosamente igual... as janela tinham um aspecto diferente, os canteiros um desenho diferente, a fonte não jorrava água e no local onde antes existia um caramanchão de buganvilias, existia agora uma garagem... fora esses pormenores, o velho casarão mantinha o mesmo aspecto altivo de sempre, insensível à passagem dos anos.
E quantos anos... quantos anos haviam decorrrido desde que transpusera aqueles portões pela última vez ?
Sorriu, a barba grisalha a acompanhar os trejeitos da face tisnada de sol e de muitas noites ao relento - ... talvez uns vinte anos, talvez um pouco mais, fora o tempo que decorrera, desde que se despedira da casa paterna...
Bateu novamente, os leões de ferro a repercurtir-se no silêncio.
Uma... duas... três pancadas.
Lembrou-se do rosto da mãe, enevoado de tristeza, quando se despediram.
- Tens a certeza que é isto que queres fazer ? – perguntara-lhe ela na altura. E ele respondera-lhe que sim, que pensara bastante no assunto... e que sentia aquele apelo irresistível de partir à conquista, à descoberta de todas as respostas... com a energia e o entusiasmo próprios dos seus vinte anos... onde a palavra impossível não tem qualquer significado.
Passara assim tanto tempo ?
De mãos nos bolsos e mochila às costas, partira à descoberta de um sentido para a vida, de um sentido para todas as coisas. Rumara ao oriente, experimentara vivências e rituais de que nunca ouvira sequer falar, estudara escrituras e mandalas, convertera-se sucessivamente em fiel de várias religiões que – descobrira entretanto – lá bem no fundo, eram sempre mais semelhantes do que aquilo que imaginara – e até jejuara no alto das montanhas, na busca de uma inspiração, de uma fugaz centelha de conhecimento que lhe revelasse o sentido de toda aquela busca ... do seu graal... do sentido da vida.
O que conseguira ?
Bem... podia dizer que conhecia grande parte do mundo... não só do mundo civilizado como também alguns locais que nem constavam dos mapas, podia dizer que conhecera pessoas fantásticas, pessoas sublimes de inteligência, de perseverança, de virtude até... podia dizer que vira a natureza em todo o seu esplendor, em paisagens e momentos que a melhor das fotografias nunca conseguiria capturar...
Mas podia também dizer que encontrara muitos outros que, como ele, persistiam na mesma demanda, à procura de respostas... e que nenhum deles, do mais frágil ao mais ilustre caminhante... encontrara ainda uma resposta mais satisfatória do que aquela que carregavam consigo, no dia em partiram de suas casa...
A vida... e o sentido da vida. Algo de tão simples como isso.
Por uma resposta, deixara tudo para trás, fora peregrino, caminhante, eremita, sem-abrigo, gastara os passos, enrugara o rosto, cansara o corpo e alma... para vinte anos depois... voltar à velha porta de carvalho, com os seus leõers de ferro forjado, a mesma porta que marcara a fronteira entre a sua infância e adolescência e a sua vida adulta, toda ela vivida como um nómada, à procura...
E afinal... para quê ?
Conforme lhe dissera um dia um monje, algures nas montanhas da India, é tão impossível descobrir o sentido da vida, estando vivo, como fechar à chave uma gaveta, deixando a chave lá dentro... é só uma questão de perspectiva... e provavelmente, existirão sempre respostas inatingíveis...
- Filho, meu filho... dissera-lhe a mãe, ao partir – vais mesmo desperdiçar a tua vida, à procura desse sentido, dessa resposta que até agora, ninguém encontrou ?
Vinte anos mais tarde, alcançara parte da resposta... e permanecia infeliz e incompleto com o resultado.
Descobrira simplesmente que a busca podia ser feita ali, não forçosamente num mosteiro do Tibete, da India ou de qualquer outro paraíso à face da Terra.
Descobrira que a resposta tinha que estar forçosamente na viagem... e não no destino. E para aquela viagem, nem precisava de sair do mesmo luigar...
Passos. Pequenos e miudinhos.
Um arrastar de madeira inchada a raspar o chão, e a pesada porta entreabriu-se. Uma velha senhora, de cabelos brancos e xaile cinzento sobre os ombros, espreitou curiosa.
Os olhos vivos inquiriram o visitante.
Fez-se um silêncio prolongado, preenchido por uma longa troca de olhares. Até que finalmente o visitante tomou a iniciativa.
- Olá mãe... é muito bom, poder vê-la de novo...

 

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publicado por entremares às 15:26
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3 comentários:
De alice campos a 10 de Março de 2009 às 22:12
muito bonita esta descrição do regresso, a lembrar a parábola do bom filho que à casa torna, gostei das buganvílias e lamentei a garagem no seu lugar :) a gaveta pode sempre fechar-se com a chave lá dentro, se tivermos outra chave :) beijinhos e muito obrigada pela sua visita ao meu blog. gostei de o ler.
De vida de vidro a 10 de Março de 2009 às 22:20
O regresso ao útero. Às origens. Ainda assim não me parece que se desperdice a vida procurando o seu sentido. Sabemos que não encontramos mas aprendemos muito na viagem. **
De Rebeca a 11 de Março de 2009 às 01:50
Adorei!

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