Sexta-feira, 6 de Março de 2009

Tudo incluido

 

 

 

Espreguiçou-se.
Uma onda mais atrevida levou-lhe a espuma aos pés, uma espuma morna e salgada, recordando-lhe que a maré continuava a subir.
Continuou deitado, as mãos enterradas na areia branca e macia.
Aquele seria, sem dúvida, o paraíso na Terra; um oceano cor de esmeralda, uma água cristalina e tépida, quase morna, um areal imaculadamente branco a perder de vista, uma sucessão de praias virgens bordeadas de palmeiras e coqueiros, o som das pequenas ondas a desfazerem-se em espuma junto aos pés… que mais se poderia desejar ?
O sol, bastante forte naquela altura do ano, exigia protecção.
Contrariado, pegou no boné que lhe servira de almofada, enterrou-o até aos olhos e levantou-se; precisava mesmo de esticar as pernas.
À sua esquerda, a praia formava uma reentrância, dando origem a uma pequena bacia, protegida dos ventos por um maciço rochoso quase a pique. Apesar do declive, uma variedade impressionante de plantas trepadeiras tomara-o de assalto, revestindo-o por completo de um manto verde, só aqui e ali salpicado de rochas. Num dos extremos, uma cascata ruidosa projectava rios de espuma, enquanto as águas se precipitavam do alto do penhasco para a tranquila lagoa, junto ao mar.
E o mar, tanto mar...
O cenário idilico recordava-lhe sempre os catálogos de viagens, principalmente aqueles que ofereciam viagens de sonho aos mares do sul, à polinésia, às ilhas do pacífico, à mítica Bora-Bora ou às ilhas Cook. Mas, como sempre, à realidade consegue superar a ficção e aquele recanto – disso tinha a certeza absoluta – envergonhava qualquer catálogo de viagens de sonho que já tivesse folheado alguma vez…
Como ainda fosse demasiado cedo para pensar em almoço… decidiu continuar o passeio.
Contornou toda a lagoa e embrenhou-se na vegetação densa. O caminho, dando mostras de pouco uso, serpenteava através dos arbustos, subindo progressivamente mais e mais, até atingir o alto do penhasco. Um cacho de bananas, pendendo atrevido sobre a ladeira, acabou por servir de aperitivo.
O alto do penhasco, quase rectangular, era somente um dos pontos mais baixos de uma cadeia montanhosa que ocupava todo o horizonte, a partir daquele ponto. Toda a zona central, escavada pela paciência das águas, era agora uma imensa piscina natural, onde as aguas da montanha se detinham, preguiçosas, antes de se despenharem pela vertente do penhasco, em direcção à lagoa.
- Impossível resistir… - pensou.
E atirou-se com prazer para as águas quentes.
 
Bastante tempo depois, voltou a descer pelo mesmo caminho. Uma certa impressão no estômago avisava-o que seria porventura a hora indicada para o almoço; mas há muito que se libertara de relógios e como tal, não podia ter a certeza. Mas, de qualquer dos modos, era boa ideia voltar à base, para não se atrasar.
Contornou de novo a lagoa e voltou à praia. As marcas que deixara na areia já haviam desaparecido, engolidas pela maré que, aos poucos, iam conquistando o areal. Continuou a caminhar, em sentido contrário, rumo a um promontório que se avistava ao longe, dois grandes rochedos projectados sobre o mar.
Se mantivesse aquele passo, meia hora seria suficiente para o alcançar.
 
O sol tocava já a superfície das águas quando contornou o último amontoado de rochas. Já um pouco atrasado, é certo, optara por um almoço exclusivamente de fruta, e a variedade à sua disposição era … tremenda; mangas, papaias, kiwis, abacates, cocos, tâmaras, bananas… enfim, um nunca mais acabar de iguarias tropicais, suculentas, que lhe deixavam sempre um escorrer doce aos cantos da boca.
Depois do almoço, continuara o seu passeio.
Subira ao monte dos gémeos, assim chamado pelas duas grandes árvores que lhe ocupavam o pico, visitara o vale das bananeiras, onde nasciam – de forma espontânea ? – centenas e centenas de bananeiras, mergulhara junto dos recifes – nunca se cansava de espreitar o colorido daquele mundo , sob a superfície das águas.
Saltou da última rocha para a areia macia e de imediato se enterrou até aos tornozelos. Já vislumbrava a entrada da lagoa, e a maré descia novamente, no seu eterno ciclo.
- Terei apressado o passo, hoje ? – perguntou a si próprio, admirado. Habitualmente, voltava já bem depois, o sol já bem abaixo das águas, as primeiras estrelas já a iluminar o crepúsculo...
Junto da entrada da lagoa, dirigiu-se até uma das árvores majestosas, de larga sombra e ramos grossos. O tronco apresentava uma série de cortes, ordenados e simétricos.
Sem pressa, agachou-se e pegou numa pedra afiada. De seguida, raspou cuidadosamente a casca da árvore, acrescentando mais uma marca às já existentes.
- Quantas... ? – e começou a contar...
 
Trezentas e sessenta e duas marcas... quase um ano...
O olhar perdeu-se no oceano, já da cor do céu que anoitecia. Nos trópicos, a noite surge de pronto e sem aviso, o crepúsculo é curto e a aurora mal se sente...
 
Nunca batizara a ilha, é curioso... arranjara nomes para cada uma das praias, para os montes, para a lagoa... mas a ilha continuava sem nome, apesar de já ser o seu lar há quase um ano, depois do naufrágio...

 

publicado por entremares às 16:39
link do post | comentar | favorito
|
2 comentários:
De Fadinha da Sombra a 6 de Março de 2009 às 17:32
Mais um texto belíssimo :)

Beijitos :)
De Óscarito a 6 de Março de 2009 às 22:15
Depois de ler este texto só me apetece fazer as malas e zarpar! Ou até mesmo sem malas!
Caro amigo, é um gosto lê-lo. Obrigado!
Abraço.

ps. a referência ao Zeca A. é propositada.

Comentar post

.mais sobre mim

.BlogGincana


.Fevereiro 2010

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28

.posts recentes

. O unicórnio branco

. Nascer de novo

. Noites de lua nova

. Perguntas e Respostas

. Roby, o rei leão

. Onde mora o paraíso?

. Sinais

. Um novo destino

. O profeta

. Ele e Ela

. As doze badaladas

. O salto da alma nua

. O rei morreu... Viva o re...

. Blog Gincana - Novembro

. A dúvida humana

.

. João e o Mestre

. Aniversário

. E depois do adeus

. A pimenta do amor

. O que fazer?

. Sem título

. A mulher invisível

. A escolha dos anjos

. Os amantes

. A Dama do Outono

. Um pedido

. Simplesmente Eugénio

. Carmen Miranda

. A decisão

.arquivos

. Fevereiro 2010

. Janeiro 2010

. Dezembro 2009

. Novembro 2009

. Outubro 2009

. Setembro 2009

. Agosto 2009

. Julho 2009

. Junho 2009

. Maio 2009

. Abril 2009

. Março 2009

. Fevereiro 2009

. Janeiro 2009

.Os ouvintes das histórias

online

.links

.as minhas fotos

.Nº de Navegadores

Get a free html hit counter here.

.Google

.Quem navega...

Locations of visitors to this page

.Gazeta dos Blogueiros

Gazeta dos Blogueiros
blogs SAPO

.subscrever feeds